Meu amigo Mauricio David me manda um discurso do pré-candidato do PSDB à presidência da República feito no final do ano 2000, portanto mais de nove anos atrás, com o seguinte comentário inicial:
"José Serra deu a palestra "O Pensamento Progressista: dos anos 60 aos anos 90", em 28/11/2000, na I Semana Sérgio Motta, S.Paulo, concluindo que: "... para o novo pensamento progressista brasileiro, o Estado nacional persiste e, portanto, tem de elaborar e aplicar políticas próprias, deve sustentar um projeto nacional de desenvolvimento, que, embora sob formas renovadas, continue buscando o desenvolvimento da economia, a defesa da soberania nacional, a diminuição das desigualdades sociais, a consolidação e o fortalecimento da democracia."
Nesta palestra aparece esboçada o que poderia ser a linha geral do pensamento do Serra sobre um projeto de desenvolvimento para o Brasil (note-se, no entanto, que esta conferencia foi preferida ainda na primeira metade do segundo governo Fernando Henrique; nove anos depois, ainda pensará o mesmo ?)." Mauricio David
Transcrevo aqui esse discurso, que veio em arquivo pdf:
O PENSAMENTO PROGRESSISTA: DOS ANOS 60 AOS ANOS 90
José Serra (28/11/2000)
Tenho sido convidado, com freqüência, a prestar meu depoimento sobre a política
brasileira nos anos 60. Um dos motivos para os convites é que, apesar de muito jovem
tinha 18 anos em 1960 --, fui um participante ativo daquele período tão especial de nossa história, na condição de líder estudantil e de militante destacado da organização política Ação Popular, hoje extinta. A UNE, da qual fui presidente de julho de 1963 a março de 1964, era uma entidade forte e os estudantes universitários, muitíssimo mais politizados do que hoje.
O outro motivo é que nunca se debateu tanto o Brasil, sua trajetória e seu futuro, quanto naqueles anos efervescentes. Quando o país enfrenta novos e cruciais desafios, ressurge o interesse em conhecer melhor o chamado pensamento progressista daquela época e sua evolução até os dias atuais.
Como contribuição, reproduzo parcialmente a palestra que fiz na abertura do Instituto Sérgio Motta, no final do ano passado. O texto curto obriga, evidentemente, a apresentar os fatos de modo estilizado.
As características principais do pensamento progressista nos anos 60 poderiam ser sintetizadas, no que diz respeito à estrutura econômico-social, em três teses básicas.
A primeira propunha uma limitação radical da participação do capital estrangeiro na economia do país, com vistas a reduzir o “excedente” econômico transferido ao exterior.
Nas versões mais extremas, chegava-se a advogar a nacionalização de todos os investimentos estrangeiros diretos, restringindo-se as relações econômicas com os demais países ao comércio exterior e à obtenção de empréstimos.
A segunda insistia na urgência de uma reforma agrária, ainda marcada pela visão cepalina de que a eliminação do latifúndio e a difusão da pequena e média propriedades eram imprescindíveis para tornar mais elástica a oferta de alimentos, reduzir as pressões inflacionárias e ampliar o mercado interno para a indústria.
A terceira reclamava uma presença mais forte do Estado na economia, embora essa presença no Brasil já fosse maior do que nos demais países do Terceiro Mundo. À exceção dos países socialistas, não havia nação que tivesse levado a presença do Estado na economia tão longe quanto o Brasil.
Dessas teses decorria a conclusão de que, sem as reformas apontadas (ou uma revolução), a economia e o volume de emprego tenderiam à estagnação. A lógica do raciocínio era mais ou menos a seguinte: as remessas de lucros diminuíam a poupança disponível e o investimento produtivo; a dualidade latifúndio-minifúndio limitava o mercado e a demanda interna; sem um Estado mais forte, seriam dificultados o planejamento e o desenvolvimento equilibrado da economia e do país.
A idéia da estagnação econômica fomentava, por sua vez, a expectativa de que se chegaria inevitavelmente a uma situação revolucionária, devido à insatisfação das classes populares, castigadas pela falta de empregos e pela queda de seu consumo.
Eram estas, sem dúvida, as características mais relevantes do pensamento progressista ou de esquerda no início dos anos 60, e não apenas no Brasil, mas na América Latina. Esse ideário fora reforçado pela vitória da Revolução Cubana, que exercia uma influência imensa em minha geração. A revolução liderada por Fidel Castro e Ernesto Che Guevara havia sido uma revolução antiimperialista e antilatifundiária radical, que aumentara consideravelmente a presença do Estado na economia e na sociedade cubanas, mesmo antes de optar pelo modelo soviético de socialismo de Estado. Democraticamente, o país que levaria esse programa mais adiante viria a ser o Chile de Allende, entre 1970 e 1973, experiência que conheci e sofri integralmente.
Passado esse período de ofensiva e arrebatamento, que aconteceu?
Em primeiro lugar, todas as experiências guerrilheiras que tentaram reproduzir a revolução cubana fracassaram, principalmente no Peru, na Colômbia e na Venezuela, mas também em alguns países da América Central, até mesmo na Nicarágua, onde as forças sandinistas chegaram a arrebatar o poder, mas falharam na implementação de suas propostas. Outras experiências guerrilheiras assemelhadas, como as da Argentina, do Uruguai e do Brasil, também malograram.
Em segundo lugar, a partir de meados dos anos 80, o naufrágio progressivo das experiências de socialismo de Estado no Leste europeu e na União Soviética colocou em cheque muitos dos parâmetros estabelecidos para o pensamento progressista na América Latina.
Em terceiro lugar, a experiência econômica do Brasil, como de outros países da
América Latina e da Ásia, evidenciou que a forte presença, quando não o predomínio, do capital estrangeiro nos setores mais dinâmicos da indústria, com o conseqüente acréscimo das “remessas de lucros”, foi compatível com taxas aceleradas de crescimento da produção e do emprego. Complementou a poupança interna e contribuiu para a absorção de tecnologia.
Em quarto lugar, a experiência também mostrou que a agricultura brasileira, mesmo
com suas distorções estruturais e surtos apenas parciais de modernização, foi capaz de responder de forma elástica à demanda de alimentos, doméstica e externa, sempre que houve uma política macroeconômica adequada. Mostrou também que o mercado interno
cresceu sem a reforma agrária e até com a reconcentração da renda. Nesse sentido, a
reforma agrária passava a ser mais uma exigência de justiça social do que um requisito de estabilidade de preços e crescimento econômico. Aliás, a professora Maria da Conceição Tavares e eu, num artigo que escrevemos em 1970 sobre a América Latina e o Brasil, mostramos com clareza a falácia da teoria da estagnação econômica, em suas versões mais sofisticadas.
Em quinto lugar, ocorreu no Brasil, a partir dos anos 80, uma crise muito forte do Estado e de sua capacidade de intervenção na economia, provocada por fatores conjunturais que potencializaram um abalo tremendo no setor público. As empresas estatais estavam bastante endividadas em dólar e houve uma forte subida dos juros externos e duas maxidesvalorizações cambiais, o que elevou exponencialmente as despesas das estatais com os serviços de suas dívidas. Ao mesmo tempo, os financiamentos externos foram cortados, dificultando a rolagem dessas dívidas. O torniquete se fechou quando a inflação alta se converteu numa superinflação e, para contê-la, as tarifas públicas foram reprimidas, derrubando as receitas reais das empresas estatais.
Hoje, grande parte dos lucros que essas empresas ostentam, depois de privatizadas, não acontecem apenas por uma questão de aumento de eficiência – o que ocorreu --, mas
também porque as tarifas públicas reais se recuperaram enormemente com a estabilidade.
Além disso, antes de serem privatizadas, houve uma razoável limpeza do passivo dessas
empresas, diminuindo-se consideravelmente suas despesas correntes não-operacionais.
Por último, e o mais importante: a economia brasileira já havia chegado, na altura
dos anos 80, a um nível de substituição de importações muito adiantado e tinha de evoluir para um grau maior de abertura ao comércio mundial. É preciso salientar que o Brasil havia se desenvolvido fechando sua economia. Não se trata de nenhum juízo de valor negativo, pois o processo foi muito eficiente. Tirando os países cujas economias foram total ou parcialmente destruídas na Segunda Guerra Mundial e que recomeçaram de um nível muito baixo de produção, o Brasil foi a nação cuja economia mais cresceu no mundo todo no pósguerra, até o final dos anos 70.
Ainda assim, em meio às dificuldades dos anos 80 e aos desafios de uma nova revolução tecnológica, o país, para recuperar o potencial expansivo, precisava alterar duas premissas históricas de seu desenvolvimento: o Estado altamente intervencionista e a economia muito fechada e muito protegida, que se debatia numa crise. A superinflação, a mais prolongada de todos os países no século 20, funcionou como um elemento de desmoralização da política macroeconômica tradicional, de perda de auto-estima pela sociedade e de procura angustiada de saídas, mesmo quando insensatas.
Em suma, a experiência e as vicissitudes do desenvolvimento e a nova conjuntura
constituíram a base objetiva para as mudanças gradativas que começaram a ocorrer no
pensamento progressista. A resistência às alterações, porém, não foi pequena. Na
Assembléia Constituinte, por exemplo, foram imensas e em grande medida bem- sucedidas
as pressões corporativistas de determinados segmentos profissionais, ou as propostas de restrições excessivas ao capital estrangeiro. Combati tais pressões, para surpresa de muitos setores da esquerda ou mesmo da centro-esquerda que permaneciam prisioneiros de uma visão ultrapassada. De qualquer modo, mudanças posteriores acabaram conduzindo a um quadro novo, em que a presença sufocante do Estado e o fechamento exagerado da economia deixaram de ser premissas para a atuação progressista.
Quais eram, então, os novos problemas que desafiavam o pensamento progressista e
requeriam sua atualização?
Em primeiro lugar, a falta de perspectiva de poder tinha levado setores da esquerda
a deixar de lado questões que precisam fazer parte das preocupações administrativas de qualquer governo, como a organização do setor público ou o equilíbrio financeiro.
Responsabilidade fiscal não é privilégio da direita. Pode haver divergências entre direita e esquerda na composição dos gastos, ou na forma de obtenção das receitas, mas o combate ao déficit não é uma bandeira neoliberal ou da direita. Este é um patrimônio que a esquerda entregou à direita gratuitamente. Fixou-se a imagem injusta de que política populista solta é coisa da esquerda. Não é assim, até porque a direita no Brasil também é populista. A direita brasileira não é liderada por uma madame Thatcher, nem por nenhum Ronald Reagan. A direita aqui também é gastadora e faz déficit. A diferença é o que ela faz com o déficit.
Uma segunda questão é o corporativismo, são os interesses de setores superorganizados de assalariados, especialmente na área pública, que passaram a ser
confundidos com os interesses do conjunto dos trabalhadores e até mesmo do país.
Observe-se a discussão passional sobre a tributação dos inativos da área governamental que recebem aposentadorias e pensões elevadas.
Um terceiro problema é o economicismo no debate público, deixando-se de lado questões cruciais para a reorganização política do país. Esta é uma crítica em que tenho insistido. Sistema de governo, sistema eleitoral, fidelidade partidária, financiamento de campanhas, tudo isso passa a ser secundário. O que importa é a economia, são as relações sociais. Um equívoco enorme, que na Constituinte se traduziu em bloquear praticamente as mudanças de natureza política e em cristalizar o que havia de pior no sistema político nacional, como o presidencialismo ou o voto proporcional, em vez do distrital misto.
Um quarto aspecto é a heterogeneidade regional excepcionalmente acentuada, que
dificulta ao extremo formar partidos nacionais homogêneos.
Um quinto problema é a inclinação exclusivista que tem marcado a principal força
da esquerda, o PT, bloqueando reiteradamente a possibilidade de alianças mais amplas e não raramente transformando sociais-democratas de outros partidos em inimigos principais.
Lembro, por exemplo, a eleição paulista de 1990, quando Mário Covas, que perdeu, foi o alvo predileto da campanha do PT.
Por último, e enfeixando todos os problemas, sobressai o desafio de como o pensamento progressista pode compatibilizar mais abertura externa e menos intervenção
estatal com seu ideário histórico de soberania nacional e justiça social, livrando-se da pecha e do equívoco de que mais abertura e menos Estado significam necessariamente neoliberalismo.
A atualização necessária do pensamento progressista tem enfrentado, porém, dois
obstáculos importantes. O primeiro, já mencionado, é que muitos setores da esquerda
continuam apegados ao ideário dos anos 60. Entendem socialismo, por exemplo, como a
socialização da propriedade de todos os meios produtivos e o planejamento centralizado de toda a atividade econômica, quando hoje nenhuma força representativa se propõe mais a isto. O segundo obstáculo é que, não atualizando sua visão, esses setores insistem numa concepção genérica e caricatural de neoliberalismo. Qualquer medida destinada a atrair investimentos externos, a diminuir o intervencionismo direto do Estado ou a reduzir privilégios corporativos é tachada sumariamente de “neoliberal”.
Mas neoliberalismo é outra coisa: é torcer o nariz para o crescimento da economia
nacional, ou até mesmo elogiar o pretenso fato de que o Brasil perdeu a mania do
crescimento, confundindo-o com um país altamente desenvolvido, onde o crescimento
rápido do produto nacional não representa mais uma condição necessária para melhorar o padrão de vida da população. Em países como o nosso, não há distributivismo possível a médio e longo prazos sem taxas elevadas de crescimento.
Neoliberalismo é confiar que o automatismo do mercado se encarregará de garantir
a retomada e a aceleração do crescimento e de resolver os crônicos problemas da pobreza absoluta e da desigualdade acentuada na partilha da renda e da riqueza, dispensando qualquer intervenção dinamizadora e corretiva do Estado.
Neoliberalismo é preconizar que os serviços públicos essenciais de saúde, educação
ou previdência devem atender apenas às faixas de extrema pobreza e que, por isso, não
precisam de mais recursos, bastando redirecionar os gastos que já são feitos em benefício dos “mais ricos”. Tenho mantido discussões públicas, a esse respeito, com técnicos ligados ao espírito e à prática do chamado “Consenso de Washington”.
Neoliberalismo é ser leniente com déficits externos elevados, como se um maior
equilíbrio das contas cambiais não fosse tão relevante quanto o equilíbrio fiscal, ou fosse incompatível com o combate ao déficit público. Tanto a austeridade fiscal, quanto a responsabilidade nas contas externas devem fazer parte dos projetos e das práticas de governo: nem populismo fiscal, nem populismo cambial.
Neoliberalismo, enfim, é imaginar que a globalização fundiu a economia mundial e
as economias nacionais numa única realidade, deixando de haver interesses nacionais a
serem defendidos. T. S. Marshall, num estudo famoso, descreveu a evolução do conceito de cidadania em três estágios: primeiro, no século 18, a conquista dos direitos individuais, basicamente o direito de ir e vir; segundo, entre meados do século 19 e início do século 20, a conquista dos direitos políticos, basicamente o de votar e de ser votado; e terceiro, no século 20, a conquista dos direitos sociais, basicamente a proteção do trabalho.
Ora, neste mundo globalizado, direito de ir e vir não existe. Ninguém pode decidir, a
seu arbítrio, morar nos Estados Unidos ou na Europa; a imigração está fechada, ou é muito difícil. Segundo, ninguém vota nas lideranças mundiais, nem pode ser votado para ocupar cargos mundiais. Terceiro, os direitos sociais estão sendo reduzidos e não internacionalizados. Não existe, portanto, cidadania mundial.
Temos um mundo globalizado de forma irreversível. Nele, as internacionalizações
realmente novas são as que acontecem nas comunicações, altamente positiva, e nos fluxos financeiros, cuja eficiência tem sido até agora discutível. Nenhum país deve ou pode colocar-se à margem da globalização, mas as sociedades nacionais persistem e têm de adotar políticas próprias, adequadas a suas distintas situações.
Não percamos de vista que, no mundo globalizado de hoje, os países que apresentam
um desempenho melhor são justamente os que têm seguido políticas adequadas a suas
peculiaridades. Quem se sai mal, é quem pratica políticas domésticas erradas. Assim como os interesses de determinadas categorias profissionais não podem ser confundidos com os interesses de todos os trabalhadores, da mesma forma não podemos cair na armadilha montada pela direita e confundir necessariamente interesse nacional com interesse cartorial.
Um novo pensamento progressista não deve compartilhar essas teses neoliberais.
Distinguindo o Estado ativo do Estado produtor, deve defender, ao lado da economia de
mercado, o ativismo governamental. No Brasil, fala-se muito nas privatizações, mas se
esquecem algumas políticas ativas implementadas nos últimos anos, como o regime
automotriz ou a introdução dos medicamentos genéricos. Negligencia-se também o debate
sobre as políticas ativas que precisam ser implantadas no futuro próximo.
O novo pensamento progressista não confunde também Estado interventor com Estado regulador. Abandonando formas excessivas de intervenção estatal na economia, defende, no entanto, que existem setores da economia e da sociedade que, se não forem
regulados pelo Estado, não funcionarão em benefício da coletividade e do
desenvolvimento.
Para o novo pensamento progressista, o crescimento da produção e o do emprego
também não podem ser vistos como resíduos de um processo espontâneo, como frutos
inevitáveis de uma economia de mercado entregue a si mesma. Têm de ser objeto de
políticas deliberadas, inclusive de uma política industrial ativa, que virou
injustificadamente um anátema no Brasil. Política industrial não é necessariamente
sinônimo de cartórios, restrições quantitativas às importações e juros reais negativos.
Para o novo pensamento progressista brasileiro, as políticas sociais têm de ser
universais e, por isso, não podem ser subordinadas a interesses de natureza corporativista.
Mas têm de ser efetivas e audaciosas, e contar sempre com recursos satisfatórios.
Enfim, para o novo pensamento progressista brasileiro, o Estado nacional persiste e,
portanto, tem de elaborar e aplicar políticas próprias, deve sustentar um projeto nacional de desenvolvimento, que, embora sob formas renovadas, continue buscando o
desenvolvimento da economia, a defesa da soberania nacional, a diminuição das
desigualdades sociais, a consolidação e o fortalecimento da democracia.
Transcrição revisada de uma parte de palestra feita na I Semana Sérgio Motta,
em São Paulo, 28 de novembro de 2000.
terça-feira, 5 de janeiro de 2010
208) Eleicoes 2010: Proposta economica de Serra (1)
Serra quer mudar sem mexer no tripé
Raymundo Costa
Valor Econômico, terça-feira, 5 de janeiro de 2010
Num país onde a popularidade do presidente é essencialmente atribuída ao êxito da política econômica, o governador José Serra, virtual candidato do PSDB à sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, é uma voz dissonante. Não raro é possível ouvir Serra dizer que a situação macroeconômica "está péssima". Ele nunca escondeu sua implicância com juros altos e câmbio sobrevalorizado. Mas nunca deixou claro a saída que pretende adotar sem fazer desmoronar o tripé câmbio flutuante, responsabilidade fiscal e meta de inflação.
Trata-se de resposta obrigatória de quem lidera as pesquisas de intenção de votos para a Presidência da República. Serra tem sido coerente nas críticas à política econômica, neste e no governo de seu amigo Fernando Henrique Cardoso. Agora dá pistas sobre como pretende encaminhar a solução em entrevista publicada no livro "Retrato de Grupo - 40 anos de Cebrap", publicado pela editora Cosac Naif, como parte das comemorações dos 40 anos do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento.
Serra derruba alguns mitos, como o de que fora contrário ao Plano Real, conforme foi difundido pelo próprio FHC na eleição de 2002. O governador paulista e virtual candidato do PSDB a presidente, nas eleições de outubro, conta que não tinha dúvidas em relação ao plano, do "ponto de vista teórico". Sua apreensão, em 1994, era política. Duvidava que o governo, em meio ao processo eleitoral, desse sustentação ao plano. Dúvida procedente, como mostraram os acontecimentos: por mais de uma vez FHC, já fora do Ministério da Fazenda e candidato a presidente, teve de conter o então presidente Itamar Franco na intenção de fazer um congelamento de preços, decisão que contribuíra efetivamente para o fracasso dos nove planos anteriores de estabilização.
Uma outra lenda ronda atualmente a candidatura de José Serra a presidente. Diz que o mercado financeiro é contrário a sua candidatura. É certo que os bancos, talvez nem mesmo no governo de FHC, tenham lucrado tanto quanto nos oito anos de Lula e do PT. Mas é um exagero afirmar que os banqueiros armaram uma barricada para se defender de Serra, quando entre os principais interlocutores do governador de São Paulo, entre outros, estão Luiz Carlos Mendonça de Barros e o ex-presidente do ex-PFL (atual Democratas) Jorge Bornhausen, que o PT, então na oposição, não cansava de classificar de legítimo representantes dos interesses do setor financeiro no Congresso.
O livro dos 40 anos do Cebrap também é esclarecedor sobre essa questão: Serra não só reza a cartilha do tripé, como acredita ter sido ele o primeiro a formular esse conceito durante o governo de Fernando Henrique. "Não há uma única maneira de se implantar e fazer funcionar esse tripé", afirma José Serra, para deixar claro que não discorda do remédio, mas entende que o receituário poderia ser outro. O atual, segundo acredita o presidenciável, pode lançar o país na desindustrialização e torná-lo refém de um modelo primário exportador. Por causa dos juros altos e da sobrevalorização do câmbio, que condena agora como condenou à época do governo FHC.
"No caso do Brasil, a preocupação com a desindustrialização não é com uma desindustrialização no sentido de que não haverá mais indústrias", disse José Serra aos entrevistadores Álvaro Comin, Cláudio Amitrano, Flávio Moura e Henri Gervaiseau, acadêmicos e integrantes do Cebrap. Ele citou um exemplo: "A Embraer foi bem privatizada, mas até poucos anos atrás ela tinha 60% de componente doméstico no valor gerado", afirmou. "Hoje tem 30%. Ela está ai produzindo avião, mas está perdendo as cadeias produtivas, só por causa dos juros siderais e da sua consequência pior: a taxa de câmbio megavalorizada".
Esse é o problema, diz Serra, e ele nada teria a ver com a suposta divisão entre desenvolvimentistas (entre os quais é classificado) e monetaristas. "Essa análise não tem muito sentido, é até cretina", diz. "O problema é outro. O termo tem sido espertamente utilizado para insinuar que os que se preocupam com o desenvolvimento o querem a qualquer preço, mesmo à custa de mais inflação - não há necessariamente esse dilema, estabilidade x desenvolvimento".
A diferença - opina - "existe em relação a políticas macroeconômicas, e não à estabilidade. Eu só posso dizer o seguinte: em nenhum dos preceitos do Consenso de Washington figura a ideia de que para desenvolver o país você precisa megavalorizar a moeda. Isso é simplesmente um erro, não é ortodoxo nem heterodoxo".
O Brasil tem uma geração qualificada na questão da economia formada sob a superinflação, mas não criou ainda uma outra azeitada em políticas de desenvolvimento. Serra é um candidato. Resta a ele explicitar mais como baixar a taxa de juros e financiar a dívida pública e ajustar a taxa de câmbio de uma maneira que não veja voluntarista.
"O Brasil deve ter hoje 190 milhões de habitantes, perto disso; daqui a dez anos, teremos dezenas de milhões de pessoas a mais no mercado de trabalho", argumenta. "O modelo primário exportador, para onde o país está caminhando, não é capaz de gerar empregos com o dinamismo que a oferta de trabalho exige. Ele não vai gerar desenvolvimento sustentado (e sustentável) e o país está caminhando para isso". Essa é o desafio a que Serra se propõe: reinventar o desenvolvimento.
Bolas nas costas
A candidatura da ministra Dilma Rousseff (PT) mudou de ano com dificuldades em mais de uma frente estratégica. Uma delas diz respeito à criação do conselho de comunicação e ao incentivo dado a outras formas de quebrar monopólios na área de comunicação. A ministra da Casa Civil inclusive já sinalizou aos interessados que não teria posição tão radical sobre o assunto quanto alguns de seus conselheiros de campanha. Outra refere-se ao relacionamento de Dilma com o jornalista e marqueteiro João Santana, que já foi bem melhor. O publicitário Duda Mendonça ronda o território do antigo afilhado. O PT treme só de ouvir falar.
Raymundo Costa é repórter especial de Política, em Brasília.
Raymundo Costa
Valor Econômico, terça-feira, 5 de janeiro de 2010
Num país onde a popularidade do presidente é essencialmente atribuída ao êxito da política econômica, o governador José Serra, virtual candidato do PSDB à sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, é uma voz dissonante. Não raro é possível ouvir Serra dizer que a situação macroeconômica "está péssima". Ele nunca escondeu sua implicância com juros altos e câmbio sobrevalorizado. Mas nunca deixou claro a saída que pretende adotar sem fazer desmoronar o tripé câmbio flutuante, responsabilidade fiscal e meta de inflação.
Trata-se de resposta obrigatória de quem lidera as pesquisas de intenção de votos para a Presidência da República. Serra tem sido coerente nas críticas à política econômica, neste e no governo de seu amigo Fernando Henrique Cardoso. Agora dá pistas sobre como pretende encaminhar a solução em entrevista publicada no livro "Retrato de Grupo - 40 anos de Cebrap", publicado pela editora Cosac Naif, como parte das comemorações dos 40 anos do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento.
Serra derruba alguns mitos, como o de que fora contrário ao Plano Real, conforme foi difundido pelo próprio FHC na eleição de 2002. O governador paulista e virtual candidato do PSDB a presidente, nas eleições de outubro, conta que não tinha dúvidas em relação ao plano, do "ponto de vista teórico". Sua apreensão, em 1994, era política. Duvidava que o governo, em meio ao processo eleitoral, desse sustentação ao plano. Dúvida procedente, como mostraram os acontecimentos: por mais de uma vez FHC, já fora do Ministério da Fazenda e candidato a presidente, teve de conter o então presidente Itamar Franco na intenção de fazer um congelamento de preços, decisão que contribuíra efetivamente para o fracasso dos nove planos anteriores de estabilização.
Uma outra lenda ronda atualmente a candidatura de José Serra a presidente. Diz que o mercado financeiro é contrário a sua candidatura. É certo que os bancos, talvez nem mesmo no governo de FHC, tenham lucrado tanto quanto nos oito anos de Lula e do PT. Mas é um exagero afirmar que os banqueiros armaram uma barricada para se defender de Serra, quando entre os principais interlocutores do governador de São Paulo, entre outros, estão Luiz Carlos Mendonça de Barros e o ex-presidente do ex-PFL (atual Democratas) Jorge Bornhausen, que o PT, então na oposição, não cansava de classificar de legítimo representantes dos interesses do setor financeiro no Congresso.
O livro dos 40 anos do Cebrap também é esclarecedor sobre essa questão: Serra não só reza a cartilha do tripé, como acredita ter sido ele o primeiro a formular esse conceito durante o governo de Fernando Henrique. "Não há uma única maneira de se implantar e fazer funcionar esse tripé", afirma José Serra, para deixar claro que não discorda do remédio, mas entende que o receituário poderia ser outro. O atual, segundo acredita o presidenciável, pode lançar o país na desindustrialização e torná-lo refém de um modelo primário exportador. Por causa dos juros altos e da sobrevalorização do câmbio, que condena agora como condenou à época do governo FHC.
"No caso do Brasil, a preocupação com a desindustrialização não é com uma desindustrialização no sentido de que não haverá mais indústrias", disse José Serra aos entrevistadores Álvaro Comin, Cláudio Amitrano, Flávio Moura e Henri Gervaiseau, acadêmicos e integrantes do Cebrap. Ele citou um exemplo: "A Embraer foi bem privatizada, mas até poucos anos atrás ela tinha 60% de componente doméstico no valor gerado", afirmou. "Hoje tem 30%. Ela está ai produzindo avião, mas está perdendo as cadeias produtivas, só por causa dos juros siderais e da sua consequência pior: a taxa de câmbio megavalorizada".
Esse é o problema, diz Serra, e ele nada teria a ver com a suposta divisão entre desenvolvimentistas (entre os quais é classificado) e monetaristas. "Essa análise não tem muito sentido, é até cretina", diz. "O problema é outro. O termo tem sido espertamente utilizado para insinuar que os que se preocupam com o desenvolvimento o querem a qualquer preço, mesmo à custa de mais inflação - não há necessariamente esse dilema, estabilidade x desenvolvimento".
A diferença - opina - "existe em relação a políticas macroeconômicas, e não à estabilidade. Eu só posso dizer o seguinte: em nenhum dos preceitos do Consenso de Washington figura a ideia de que para desenvolver o país você precisa megavalorizar a moeda. Isso é simplesmente um erro, não é ortodoxo nem heterodoxo".
O Brasil tem uma geração qualificada na questão da economia formada sob a superinflação, mas não criou ainda uma outra azeitada em políticas de desenvolvimento. Serra é um candidato. Resta a ele explicitar mais como baixar a taxa de juros e financiar a dívida pública e ajustar a taxa de câmbio de uma maneira que não veja voluntarista.
"O Brasil deve ter hoje 190 milhões de habitantes, perto disso; daqui a dez anos, teremos dezenas de milhões de pessoas a mais no mercado de trabalho", argumenta. "O modelo primário exportador, para onde o país está caminhando, não é capaz de gerar empregos com o dinamismo que a oferta de trabalho exige. Ele não vai gerar desenvolvimento sustentado (e sustentável) e o país está caminhando para isso". Essa é o desafio a que Serra se propõe: reinventar o desenvolvimento.
Bolas nas costas
A candidatura da ministra Dilma Rousseff (PT) mudou de ano com dificuldades em mais de uma frente estratégica. Uma delas diz respeito à criação do conselho de comunicação e ao incentivo dado a outras formas de quebrar monopólios na área de comunicação. A ministra da Casa Civil inclusive já sinalizou aos interessados que não teria posição tão radical sobre o assunto quanto alguns de seus conselheiros de campanha. Outra refere-se ao relacionamento de Dilma com o jornalista e marqueteiro João Santana, que já foi bem melhor. O publicitário Duda Mendonça ronda o território do antigo afilhado. O PT treme só de ouvir falar.
Raymundo Costa é repórter especial de Política, em Brasília.
domingo, 3 de janeiro de 2010
207) Programa do PT na TV - Reinaldo Azevedo (2)
POR QUE GOSTEI DO PROGRAMA DO PT, AQUELE VERDADEIRO SHOWROOM DE MENTIRAS
Reinaldo Azevedo, sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
Escrevi na madrugada de ontem o texto QUEREM COMPARAR GOVERNOS? ENTÃO VAMOS CIVILIZAR OS BOTOCUDOS!, recebido por vocês com a generosidade de sempre. Até quando redijo este post, recebeu 327 comentários — ou melhor, liberamos esse tanto. Vocês devem imaginar o ódio de que ele não foi objeto. E o trecho que mais enfureceu os neofascistas, claro, é este:
“Estou certo de que os tucanos, estivessem no governo, não teriam feito, NA ECONOMIA, nada muito diferente do que fizeram os petistas. Mas estou igualmente certo de que, estivessem os petistas no lugar dos tucanos em 1995, e hoje nós seríamos o mais ocidental dos países africanos.”
Por que a braveza? Terão as coisas que escrevo qualquer utilidade ou funcionalidade eleitoral? Servirão à propaganda? É claro que não! Meu texto é, digamos assim, muito complicado para se prestar a este tipo de exploração. Eles sabem que não sou o correspondente oposto a seus canalhas de serviço, que se dedicam apenas ao achincalhe e à divulgação de slogans. Não ofereço facilidades aos leitores — muito pelo contrário. O que os enfurece é saber que há quem repudie, em essência, a empulhação, a mentira, a falsificação da história. E notem: parece que eu estava adivinhando, não? Quem leu aquele meu texto e assistiu ao horário político do PT na televisão constatou que eu havia retratado em meu texto a alma do partido.
Já falarei do conteúdo do programa — inclusive de seu aspecto CRIMINOSO. Antes, quero reportar um dado que é de natureza puramente estratégica. O PT decidiu antecipar o embate eleitoral e fez um programa tão dedicado a falar mal dos outros quanto a falar bem de si mesmo. O horário político existe para que os partidos falem de suas propostas, exponham, vamos dizer, o seu horizonte utópico. Nominar o adversário, como fez o PT — citando FHC e o PSDB — corresponde a fazer campanha eleitoral. Com um TSE minimamente rigoroso, o partido seria punido. Mas isso não vai acontecer.
O tom foi agressivo, reativo, como se o partido que falasse ali, afinal, não fosse aquele que dizia ter praticamente inventado o Brasil. Ora, se são tão competentes, se são tão fantásticos, a que se deve todo aquele rancor? A RESPOSTA É óbvia: as pesquisas, por enquanto, são muito desfavoráveis a Dilma, e isso começa a assustar (NÃO DEIXEM DE LER O POST ABAIXO SOBRE PESQUISAS DO VOX POPULI). Vamos ao conteúdo do programa propriamente.
O crime
O PT citou uma certa pesquisa segundo a qual a população brasileira considera que o governo anterior não gostava de nordestinos e de pobres. A Constituição proíbe qualquer forma de discriminação. Acusar alguém de preconceito dessa natureza — o que é obviamente falso — constitui campanha criminosa, ainda que se atribua, como covardia adicional, a suposta informação a uma pesquisa de opinião.
Isso dá um pouco a medida, E ESTAMOS APENAS NO PRIMEIRO PROGRAMA ELEITORAL (e ser ele eleitoral já é, em si, uma ilegalidade), de quais são os limites do PT. E, está claro, não há limite nenhum. O que os petistas fizeram ontem foi dar a senha de que pretendem jogar sujo. Vá lá que partidos e candidatos magnifiquem a própria obra; vá lá que exagerem nas próprias qualidades; vá lá que exerçam aquele discurso de obras inaugurais… Pode não ser um jogo muito elegante, mas ainda se está dentro das regras. Acusar o adversário de preconceito contra milhões de brasileiros é atuar fora das regras.
As mentiras
Conforme os áulicos do lulismo disfarçados de jornalistas já haviam antecipado, o programa se dedicou a comparar o governo FHC com o governo Lula, que teria sido em tudo “melhor”. Já desmoralizei essa bobagem no texto de ontem. Num raciocínio puramente lógico, FHC só poderia ter-se comparado, à época, com os governos que o antecederam, não é? Mas não o fez porque esse tipo de procedimento é coisa de vigaristas intelectuais.
A primeira fala do programa já anunciava a cadeia de mentiras que se seguiria: o Brasil, em 2002, segundo os petistas, era um “país que tinha tudo, mas que não tinha nada”. Nada? Santo Deus! O país havia debelado uma inflação superior a 2.500% ao ano, havia recebido investimentos bilionários em infra-estrutura e havia estabelecido os marcos essenciais para participar da economia global. MENTIRA DO PT.
E à mentira conceitual seguiram-se mentiras factuais:
- o governo anterior entregara o patrimônio nacional (estatais) por uma ninharia. Mentira do PT;
- o governo anterior era servil aos estrangeiros e gostava “de se humilhar em inglês”. Mentira do PT;
- Dilma comanda o PAC com 14 mil obras em curso. Mentira do PT;
- Está em curso a construção de 1 milhão de casas. Mentira do PT;
- Com o ProUni, a universidade deixou de ser coisa de ricos. De fato, o ProUni financia a universidade ruim do pobre. A boa continua com os ricos. Mais uma mentira do PT;
- Chegou-se ao petróleo do pré-sal em razão do trabalho deste governo e de Dilma em particular.Mentira do PT.
“Ah, mas a população não acha; a popularidade do presidente…” Dispensem-se os petralhas de seguir até o fim com a frase. Vejam ali abaixo um dos adesivos que serão dados como brinde no lançamento de Máximas de Um País Mínimo no próximo sábado: “A convicção da maioria não torna verdadeira uma mentira”. E a canalha me odeia porque chamo a mentira de… MENTIRA! E NÃO ME IMPORTA SE A MAIORIA ACREDITA NELA. Os totalitários não entendem isso. Haver um só que divirja da verdade oficial os deixa furiosos. E somos bem mais do que um, eles sabem disso.
Lula e Dilma
O programa teve apenas dois personagens: Lula e Dilma. Ele, claro, exaltado como um Deus, a ponto de, com generosidade tipicamente lulista, ter dito a frase-símbolo do programa: “Tem gente que pensa que eu faço tudo sozinho”. Por que será? Não, ele disse, há uma equipe. E a comandante é Dilma Rousseff. Pronto! Apareceu a candidata.
Não sou o telespectador médio; vi o programa com interesse profissional, jornalístico. Não me tomo como padrão. A mim me pareceu que ela não leva jeito nem com um banho publicitário: dura demais, artificial demais, travada demais. E, acima de tudo, subserviente demais!
Como não tem vida própria, como se mostra ali com a destreza de uma boneca a pilha, a única coisa que lhe resta, insistem os marqueteiros, é colar a sua imagem à do presidente Lula. Num dado momento, close na atriz involuntariamente brechtiana — que deixa claro que está representando — e a fala inevitável: “Presidente, eu penso igual ao senhor (…). O Brasil melhorou, mas, como o senhor diz, é preciso avançar mais”. É ISTO: O BRASIL TEM UM SENHOR. E DILMA, ONTEM, PARECIA A SECRETÁRIA DO SENHOR, UMA DAS IRMÃS CAJAZEIRAS DE ODORICO PARAGUAÇU.
Estilo João Santana
João Santana já tinha dado mostras em 2006 de que não era Duda Mendonça, que apostava tudo no Lula de romance — ele, sim, fez um “Filho do Brasil” competente para seus propósitos; o dos Barretões é amador —, sem agressividade, sem ataques a ninguém, só exaltando as próprias qualidades. A campanha de 2006 já foi suja — com a divulgação da mentira vigarista de que Alckmin, se eleito, privatizaria a Petrobras e o Banco do Brasil. Agora, mentiras em penca sobre os outros, mentiras em penca sobre si mesmo e, reitero, o flerte com o crime.
Santana soube mistificar direitinho, sem dúvida, mas entendo que ainda não conseguiu mostrar a “face humana” de Dilma. Ela permanece com aquele ar da bedel arquetípica de escola. Olho para a cara dela e sempre penso que ela vai me cobrar a “carteirinha” — de porte obrigatório no colégio em que eu estudava.
Duda sabia mitigar a agressividade petista e vender apenas seu lado amoroso. Mas Lula e o PT, claro, eram outros. Agora, o demiurgo, como diria Marx sobre Luis Bonaparte, “assume a sério o seu papel imperial, e sob a máscara napoleônica imagina ser o verdadeiro Napoleão (…), o bufão sério que não mais toma a história universal por uma comédia e sim a sua própria comédia pela história universal.”
Concluo
As oposições podem se preparar. Vem guerra suja por aí. Quem se dá o direito de mentir de maneira tão soberba e desavergonhada e de acusar o adversário de um grave crime que sabe que ele não cometeu será capaz de tudo numa campanha.
Os petralhas certamente estão exultantes com o que viram. Gostam da idéia de seguir um líder que saiba insultar o adversário com a mesma desfaçatez com que eles insultam os seus próprios. Já disse aqui: bronco como é, Lula lhes dá a impressão de que entendem o mundo em que vivem. A parte rendida do jornalismo dirá que o programa foi bom, que teve “pegada”, que as mentiras elencadas são todas verdades irrefutáveis e que frio mesmo foi o programa do PSDB, que optou, afinal, por não atacar ninguém. Conhecemos essa gente.
Querem saber? Se o PSDB fizer a coisa certa, o próprio PT lhe deu o caminho das pedras com o programa de ontem — de que gostei bastante, por razões certamente diferentes daquelas dos petralhas. Acho que Dilma exibiu com clareza os seus limites — ela fingindo mansidão soa subserviente; se não finge, só sabe ser autoritária —, e o PT disse o que pretende: dividir o Brasil e vencer a disputa incentivando o ódio, jogando brasileiros contra brasileiros, investindo no confronto.
E o Brasil precisa de quem saiba e possa uni-lo. Não de mercadores do ódio. Querem saber? Eles têm método, sim, e são organizados. Mas também são mais primitivos do que imaginam.
Reinaldo Azevedo, sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
Escrevi na madrugada de ontem o texto QUEREM COMPARAR GOVERNOS? ENTÃO VAMOS CIVILIZAR OS BOTOCUDOS!, recebido por vocês com a generosidade de sempre. Até quando redijo este post, recebeu 327 comentários — ou melhor, liberamos esse tanto. Vocês devem imaginar o ódio de que ele não foi objeto. E o trecho que mais enfureceu os neofascistas, claro, é este:
“Estou certo de que os tucanos, estivessem no governo, não teriam feito, NA ECONOMIA, nada muito diferente do que fizeram os petistas. Mas estou igualmente certo de que, estivessem os petistas no lugar dos tucanos em 1995, e hoje nós seríamos o mais ocidental dos países africanos.”
Por que a braveza? Terão as coisas que escrevo qualquer utilidade ou funcionalidade eleitoral? Servirão à propaganda? É claro que não! Meu texto é, digamos assim, muito complicado para se prestar a este tipo de exploração. Eles sabem que não sou o correspondente oposto a seus canalhas de serviço, que se dedicam apenas ao achincalhe e à divulgação de slogans. Não ofereço facilidades aos leitores — muito pelo contrário. O que os enfurece é saber que há quem repudie, em essência, a empulhação, a mentira, a falsificação da história. E notem: parece que eu estava adivinhando, não? Quem leu aquele meu texto e assistiu ao horário político do PT na televisão constatou que eu havia retratado em meu texto a alma do partido.
Já falarei do conteúdo do programa — inclusive de seu aspecto CRIMINOSO. Antes, quero reportar um dado que é de natureza puramente estratégica. O PT decidiu antecipar o embate eleitoral e fez um programa tão dedicado a falar mal dos outros quanto a falar bem de si mesmo. O horário político existe para que os partidos falem de suas propostas, exponham, vamos dizer, o seu horizonte utópico. Nominar o adversário, como fez o PT — citando FHC e o PSDB — corresponde a fazer campanha eleitoral. Com um TSE minimamente rigoroso, o partido seria punido. Mas isso não vai acontecer.
O tom foi agressivo, reativo, como se o partido que falasse ali, afinal, não fosse aquele que dizia ter praticamente inventado o Brasil. Ora, se são tão competentes, se são tão fantásticos, a que se deve todo aquele rancor? A RESPOSTA É óbvia: as pesquisas, por enquanto, são muito desfavoráveis a Dilma, e isso começa a assustar (NÃO DEIXEM DE LER O POST ABAIXO SOBRE PESQUISAS DO VOX POPULI). Vamos ao conteúdo do programa propriamente.
O crime
O PT citou uma certa pesquisa segundo a qual a população brasileira considera que o governo anterior não gostava de nordestinos e de pobres. A Constituição proíbe qualquer forma de discriminação. Acusar alguém de preconceito dessa natureza — o que é obviamente falso — constitui campanha criminosa, ainda que se atribua, como covardia adicional, a suposta informação a uma pesquisa de opinião.
Isso dá um pouco a medida, E ESTAMOS APENAS NO PRIMEIRO PROGRAMA ELEITORAL (e ser ele eleitoral já é, em si, uma ilegalidade), de quais são os limites do PT. E, está claro, não há limite nenhum. O que os petistas fizeram ontem foi dar a senha de que pretendem jogar sujo. Vá lá que partidos e candidatos magnifiquem a própria obra; vá lá que exagerem nas próprias qualidades; vá lá que exerçam aquele discurso de obras inaugurais… Pode não ser um jogo muito elegante, mas ainda se está dentro das regras. Acusar o adversário de preconceito contra milhões de brasileiros é atuar fora das regras.
As mentiras
Conforme os áulicos do lulismo disfarçados de jornalistas já haviam antecipado, o programa se dedicou a comparar o governo FHC com o governo Lula, que teria sido em tudo “melhor”. Já desmoralizei essa bobagem no texto de ontem. Num raciocínio puramente lógico, FHC só poderia ter-se comparado, à época, com os governos que o antecederam, não é? Mas não o fez porque esse tipo de procedimento é coisa de vigaristas intelectuais.
A primeira fala do programa já anunciava a cadeia de mentiras que se seguiria: o Brasil, em 2002, segundo os petistas, era um “país que tinha tudo, mas que não tinha nada”. Nada? Santo Deus! O país havia debelado uma inflação superior a 2.500% ao ano, havia recebido investimentos bilionários em infra-estrutura e havia estabelecido os marcos essenciais para participar da economia global. MENTIRA DO PT.
E à mentira conceitual seguiram-se mentiras factuais:
- o governo anterior entregara o patrimônio nacional (estatais) por uma ninharia. Mentira do PT;
- o governo anterior era servil aos estrangeiros e gostava “de se humilhar em inglês”. Mentira do PT;
- Dilma comanda o PAC com 14 mil obras em curso. Mentira do PT;
- Está em curso a construção de 1 milhão de casas. Mentira do PT;
- Com o ProUni, a universidade deixou de ser coisa de ricos. De fato, o ProUni financia a universidade ruim do pobre. A boa continua com os ricos. Mais uma mentira do PT;
- Chegou-se ao petróleo do pré-sal em razão do trabalho deste governo e de Dilma em particular.Mentira do PT.
“Ah, mas a população não acha; a popularidade do presidente…” Dispensem-se os petralhas de seguir até o fim com a frase. Vejam ali abaixo um dos adesivos que serão dados como brinde no lançamento de Máximas de Um País Mínimo no próximo sábado: “A convicção da maioria não torna verdadeira uma mentira”. E a canalha me odeia porque chamo a mentira de… MENTIRA! E NÃO ME IMPORTA SE A MAIORIA ACREDITA NELA. Os totalitários não entendem isso. Haver um só que divirja da verdade oficial os deixa furiosos. E somos bem mais do que um, eles sabem disso.
Lula e Dilma
O programa teve apenas dois personagens: Lula e Dilma. Ele, claro, exaltado como um Deus, a ponto de, com generosidade tipicamente lulista, ter dito a frase-símbolo do programa: “Tem gente que pensa que eu faço tudo sozinho”. Por que será? Não, ele disse, há uma equipe. E a comandante é Dilma Rousseff. Pronto! Apareceu a candidata.
Não sou o telespectador médio; vi o programa com interesse profissional, jornalístico. Não me tomo como padrão. A mim me pareceu que ela não leva jeito nem com um banho publicitário: dura demais, artificial demais, travada demais. E, acima de tudo, subserviente demais!
Como não tem vida própria, como se mostra ali com a destreza de uma boneca a pilha, a única coisa que lhe resta, insistem os marqueteiros, é colar a sua imagem à do presidente Lula. Num dado momento, close na atriz involuntariamente brechtiana — que deixa claro que está representando — e a fala inevitável: “Presidente, eu penso igual ao senhor (…). O Brasil melhorou, mas, como o senhor diz, é preciso avançar mais”. É ISTO: O BRASIL TEM UM SENHOR. E DILMA, ONTEM, PARECIA A SECRETÁRIA DO SENHOR, UMA DAS IRMÃS CAJAZEIRAS DE ODORICO PARAGUAÇU.
Estilo João Santana
João Santana já tinha dado mostras em 2006 de que não era Duda Mendonça, que apostava tudo no Lula de romance — ele, sim, fez um “Filho do Brasil” competente para seus propósitos; o dos Barretões é amador —, sem agressividade, sem ataques a ninguém, só exaltando as próprias qualidades. A campanha de 2006 já foi suja — com a divulgação da mentira vigarista de que Alckmin, se eleito, privatizaria a Petrobras e o Banco do Brasil. Agora, mentiras em penca sobre os outros, mentiras em penca sobre si mesmo e, reitero, o flerte com o crime.
Santana soube mistificar direitinho, sem dúvida, mas entendo que ainda não conseguiu mostrar a “face humana” de Dilma. Ela permanece com aquele ar da bedel arquetípica de escola. Olho para a cara dela e sempre penso que ela vai me cobrar a “carteirinha” — de porte obrigatório no colégio em que eu estudava.
Duda sabia mitigar a agressividade petista e vender apenas seu lado amoroso. Mas Lula e o PT, claro, eram outros. Agora, o demiurgo, como diria Marx sobre Luis Bonaparte, “assume a sério o seu papel imperial, e sob a máscara napoleônica imagina ser o verdadeiro Napoleão (…), o bufão sério que não mais toma a história universal por uma comédia e sim a sua própria comédia pela história universal.”
Concluo
As oposições podem se preparar. Vem guerra suja por aí. Quem se dá o direito de mentir de maneira tão soberba e desavergonhada e de acusar o adversário de um grave crime que sabe que ele não cometeu será capaz de tudo numa campanha.
Os petralhas certamente estão exultantes com o que viram. Gostam da idéia de seguir um líder que saiba insultar o adversário com a mesma desfaçatez com que eles insultam os seus próprios. Já disse aqui: bronco como é, Lula lhes dá a impressão de que entendem o mundo em que vivem. A parte rendida do jornalismo dirá que o programa foi bom, que teve “pegada”, que as mentiras elencadas são todas verdades irrefutáveis e que frio mesmo foi o programa do PSDB, que optou, afinal, por não atacar ninguém. Conhecemos essa gente.
Querem saber? Se o PSDB fizer a coisa certa, o próprio PT lhe deu o caminho das pedras com o programa de ontem — de que gostei bastante, por razões certamente diferentes daquelas dos petralhas. Acho que Dilma exibiu com clareza os seus limites — ela fingindo mansidão soa subserviente; se não finge, só sabe ser autoritária —, e o PT disse o que pretende: dividir o Brasil e vencer a disputa incentivando o ódio, jogando brasileiros contra brasileiros, investindo no confronto.
E o Brasil precisa de quem saiba e possa uni-lo. Não de mercadores do ódio. Querem saber? Eles têm método, sim, e são organizados. Mas também são mais primitivos do que imaginam.
206) Programa do PT na TV - Reinaldo Azevedo (1)
QUEREM COMPARAR GOVERNOS? ENTÃO VAMOS CIVILIZAR OS BOTOCUDOS!
Reinaldo Azevedo, quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
É para ler até o fim, hein!? Tenho uma chavinha de ouro para vocês. Psiu!!! Sem tentação. É para pegar do começo.
De vez em quando, um petista moderado, tentando se distinguir dos petralhas, resolve pegar no meu braço, ousando ser o meu Virgílio e me convidando a visitar um dos círculos do inferno onde o partido aprisiona há 29 anos a reputação de suas vítimas. Sim, o PT tem este formidável poder de reescrever a biografia de seus adversários. Trata-se do Círculo das Reputações Enlameadas. Alguns poucos conseguem, pelo próprio esforço, como fez Eduardo Jorge Caldas Pereira, repor a sua história no devido lugar. E há aqueles que são resgatados pelo próprio PT desde que façam um ato de contrição ou sejam cínicos o bastante para se divertir na tragédia ou na comédia. No segundo caso, está, por exemplo, Delfim Netto, antes tido como uma besta-fera da “direita” e hoje conselheiro informal de Lula. Delfim diz que não mudou. Exemplo maior do primeiro caso é José Sarney. O PT, sempre tão dedicado a enlamear a honra alheia, funcionou, no seu caso, como lavanderia.
Mas volto ao petista que tentou se mostrar civilizado, me chamando até de “Rei” (!!!), muito íntimo, convidando-me a ceder: “Rei, admita que o governo Lula é inquestionavelmente melhor do que o governo FHC e que procede a votação plebiscitária que o PT propõe. Acho que você é um bom analista, mas sua paixão o cega às vezes…”
Ô bilu, bilu!!! Não há a menor chance de o “Rei” se apaixonar, viu? Não estou entre aqueles que sentem o frêmito da atração pelo inimigo. Zero! Você aí, eu aqui. Sem essa de me pegar no braço! “Rei” é uma pinóia! E não, não admito que “o governo Lula é melhor do que o de FHC”, não dito desta maneira, porque esse juízo é coisa ou de energúmenos ou de gente a soldo — e, às vezes, das duas coisas.
O “melhor” expressa um juízo comparativo. Não terá sido o governo FHC — que começou a governar, de fato, já como ministro da Fazenda de Itamar Franco — muito “melhor” do que o governo Collor? Muito melhor, na verdade, do que o governo Sarney ou do que o governo Figueiredo, quando a inflação começou a destrambelhar? O que quer dizer o seu “melhor”? É melhor um governo que assume, sem solavancos, com os fundamentos da economia sólidos — apesar de desajustes de superfície, alguns provocados pelo próprio “risco PT” — do que um outro que pegara o país com uma inflação superior a 2.500% ao ano, conduzindo-a para 5% ou 6%? Não terá sido “melhor” o governo que pegou o país com o custo de vida na casa dos 20% ao mês, derrubando-o para menos de 0,5%? Não terá sido “melhor” o governo que recolocou o país na rota dos investimentos?
Essa afirmação, meu caro falso civilizado, é só mais uma manifestação da delinqüência intelectual a que se dedica permanentemente o petismo. Para que se pudesse sustentar essa superioridade, seria necessário que, em iguais condições, o PT tivesse demonstrado competência ou apuro intelectual potencial ao menos para fazer melhor do que fez FHC. E sabemos bem qual foi a expertise demonstrada pelo partido: opôs-se ao Real, pregava o calote da dívida, o rompimento com o FMI, a rejeição à reestruturação dos bancos, às privatizações e seus investimentos — a tudo, enfim, que colabora para fazer hoje a fortuna crítica do lulismo. Tivesse vencido em 1994, o PT teria destruído o Plano Real. Porque era esta a proposta de Lula: destruir o Real. Era o que pautava a sua campanha.
“Ah, vá falar isso a eleitor, rá, rá, rá”, ri o delinqüente, satisfeito com o seu partido por ter ajudado a deformar a história e feliz porque seu líder sapateia sobre conquistas inegáveis do Brasil.
EU QUERO QUE SE DANE SE A VERDADE QUE DIGO É POPULAR OU NÃO. A mim, basta saber que é verdade; basta saber, e poder escrevê-lo, ao menos por enquanto, que a comparação é obra da mais estúpida vigarice intelectual, coisa de militância política da mais reles, da ignorância mais desprezível.
Num artigo anteontem, afirmei que minha rejeição ao lulo-petismo nada tem a ver com essa conversa mole de “governo deu certo ou deu errado”, governo “melhor ou pior”. Nunca antevi desastres para o governo Lula. Ao contrário: escrevi na revista Primeira Leitura que o PT seria mais conservador se vencesse em 2002 do que seria Serra, então candidato tucano. Está registrado. É documento.
- O que me incomoda no PT é seu ódio mal disfarçado à democracia, daí que viva tentando solapá-la — agora, o partido quer uma Constituinte para fazer a reforma política.
- O que me incomoda no PT é a moral que cria para si mesmo e a moral que defende para os outros — a exemplo de Dilma, anteontem, na festa dos mensaleiros do PT a atacar o mensalão de Arruda.
- O que me incomoda no PT é esse esforço para fazer tabula rasa do passado, destruindo a reputação de qualquer pessoa que não seja útil a seu projeto — a exemplo do que faz com a monumental conquista que foi o Plano Real.
- O que me incomoda no PT é o seu apoio dedicado a todos os vigaristas do planeta,— a exemplo de Mahmoud Ahmadinejad.
- O que me incomoda no PT é a sua admissão prática de que o crime compensa ou é aceitável desde que esteja ancorado numa causa de suposto alcance social — a exemplo de seu asqueroso conluio com o MST.
- O que me incomoda no PT é seu esforço permanente para substituir a sociedade pelo partido, imiscuindo-se em eleições sindicais de trabalhadores e patrões, nos fundos de pensão, na direção das estatais, nas ONGs e, se você deixar, no batizado de seus filhos.
- O que me incomoda no PT, a despeito de seus “universitários”, é a apologia permanente da ignorância, do obscurantismo militante, da barbárie das ruas.
“Governo competente?” Governos têm de ser competentes mesmo. Não serei grato a Lula, escrevo em Máximas de Um País Mínimo, por ele cobrar tão caro por aquilo a que temos direito de graça. Ou nem tanto: pagamos caro para que nos governem. Não tenho de lhe dar nada de adicional.
Um mínimo de honestidade intelectual — e não espero que os petralhas a tenham — indica que as ações do governo FHC e do governo Lula não são comparáveis porque simplesmente são diferentes as circunstâncias em que cada um existiu e os problemas a que cada um respondeu. E tenho uma chave de ouro para o tonto que achou que poderia pegar no meu braço:
Estou certo de que os tucanos, estivessem no governo, não teriam feito, NA ECONOMIA, nada muito diferente do que fizeram os petistas. Mas estou igualmente certo de que, estivessem os petistas no lugar dos tucanos em 1995, e hoje nós seríamos o mais ocidental dos países africanos.
QUAL GOVERNO É MELHOR?
Reinaldo Azevedo, quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
É para ler até o fim, hein!? Tenho uma chavinha de ouro para vocês. Psiu!!! Sem tentação. É para pegar do começo.
De vez em quando, um petista moderado, tentando se distinguir dos petralhas, resolve pegar no meu braço, ousando ser o meu Virgílio e me convidando a visitar um dos círculos do inferno onde o partido aprisiona há 29 anos a reputação de suas vítimas. Sim, o PT tem este formidável poder de reescrever a biografia de seus adversários. Trata-se do Círculo das Reputações Enlameadas. Alguns poucos conseguem, pelo próprio esforço, como fez Eduardo Jorge Caldas Pereira, repor a sua história no devido lugar. E há aqueles que são resgatados pelo próprio PT desde que façam um ato de contrição ou sejam cínicos o bastante para se divertir na tragédia ou na comédia. No segundo caso, está, por exemplo, Delfim Netto, antes tido como uma besta-fera da “direita” e hoje conselheiro informal de Lula. Delfim diz que não mudou. Exemplo maior do primeiro caso é José Sarney. O PT, sempre tão dedicado a enlamear a honra alheia, funcionou, no seu caso, como lavanderia.
Mas volto ao petista que tentou se mostrar civilizado, me chamando até de “Rei” (!!!), muito íntimo, convidando-me a ceder: “Rei, admita que o governo Lula é inquestionavelmente melhor do que o governo FHC e que procede a votação plebiscitária que o PT propõe. Acho que você é um bom analista, mas sua paixão o cega às vezes…”
Ô bilu, bilu!!! Não há a menor chance de o “Rei” se apaixonar, viu? Não estou entre aqueles que sentem o frêmito da atração pelo inimigo. Zero! Você aí, eu aqui. Sem essa de me pegar no braço! “Rei” é uma pinóia! E não, não admito que “o governo Lula é melhor do que o de FHC”, não dito desta maneira, porque esse juízo é coisa ou de energúmenos ou de gente a soldo — e, às vezes, das duas coisas.
O “melhor” expressa um juízo comparativo. Não terá sido o governo FHC — que começou a governar, de fato, já como ministro da Fazenda de Itamar Franco — muito “melhor” do que o governo Collor? Muito melhor, na verdade, do que o governo Sarney ou do que o governo Figueiredo, quando a inflação começou a destrambelhar? O que quer dizer o seu “melhor”? É melhor um governo que assume, sem solavancos, com os fundamentos da economia sólidos — apesar de desajustes de superfície, alguns provocados pelo próprio “risco PT” — do que um outro que pegara o país com uma inflação superior a 2.500% ao ano, conduzindo-a para 5% ou 6%? Não terá sido “melhor” o governo que pegou o país com o custo de vida na casa dos 20% ao mês, derrubando-o para menos de 0,5%? Não terá sido “melhor” o governo que recolocou o país na rota dos investimentos?
Essa afirmação, meu caro falso civilizado, é só mais uma manifestação da delinqüência intelectual a que se dedica permanentemente o petismo. Para que se pudesse sustentar essa superioridade, seria necessário que, em iguais condições, o PT tivesse demonstrado competência ou apuro intelectual potencial ao menos para fazer melhor do que fez FHC. E sabemos bem qual foi a expertise demonstrada pelo partido: opôs-se ao Real, pregava o calote da dívida, o rompimento com o FMI, a rejeição à reestruturação dos bancos, às privatizações e seus investimentos — a tudo, enfim, que colabora para fazer hoje a fortuna crítica do lulismo. Tivesse vencido em 1994, o PT teria destruído o Plano Real. Porque era esta a proposta de Lula: destruir o Real. Era o que pautava a sua campanha.
“Ah, vá falar isso a eleitor, rá, rá, rá”, ri o delinqüente, satisfeito com o seu partido por ter ajudado a deformar a história e feliz porque seu líder sapateia sobre conquistas inegáveis do Brasil.
EU QUERO QUE SE DANE SE A VERDADE QUE DIGO É POPULAR OU NÃO. A mim, basta saber que é verdade; basta saber, e poder escrevê-lo, ao menos por enquanto, que a comparação é obra da mais estúpida vigarice intelectual, coisa de militância política da mais reles, da ignorância mais desprezível.
Num artigo anteontem, afirmei que minha rejeição ao lulo-petismo nada tem a ver com essa conversa mole de “governo deu certo ou deu errado”, governo “melhor ou pior”. Nunca antevi desastres para o governo Lula. Ao contrário: escrevi na revista Primeira Leitura que o PT seria mais conservador se vencesse em 2002 do que seria Serra, então candidato tucano. Está registrado. É documento.
- O que me incomoda no PT é seu ódio mal disfarçado à democracia, daí que viva tentando solapá-la — agora, o partido quer uma Constituinte para fazer a reforma política.
- O que me incomoda no PT é a moral que cria para si mesmo e a moral que defende para os outros — a exemplo de Dilma, anteontem, na festa dos mensaleiros do PT a atacar o mensalão de Arruda.
- O que me incomoda no PT é esse esforço para fazer tabula rasa do passado, destruindo a reputação de qualquer pessoa que não seja útil a seu projeto — a exemplo do que faz com a monumental conquista que foi o Plano Real.
- O que me incomoda no PT é o seu apoio dedicado a todos os vigaristas do planeta,— a exemplo de Mahmoud Ahmadinejad.
- O que me incomoda no PT é a sua admissão prática de que o crime compensa ou é aceitável desde que esteja ancorado numa causa de suposto alcance social — a exemplo de seu asqueroso conluio com o MST.
- O que me incomoda no PT é seu esforço permanente para substituir a sociedade pelo partido, imiscuindo-se em eleições sindicais de trabalhadores e patrões, nos fundos de pensão, na direção das estatais, nas ONGs e, se você deixar, no batizado de seus filhos.
- O que me incomoda no PT, a despeito de seus “universitários”, é a apologia permanente da ignorância, do obscurantismo militante, da barbárie das ruas.
“Governo competente?” Governos têm de ser competentes mesmo. Não serei grato a Lula, escrevo em Máximas de Um País Mínimo, por ele cobrar tão caro por aquilo a que temos direito de graça. Ou nem tanto: pagamos caro para que nos governem. Não tenho de lhe dar nada de adicional.
Um mínimo de honestidade intelectual — e não espero que os petralhas a tenham — indica que as ações do governo FHC e do governo Lula não são comparáveis porque simplesmente são diferentes as circunstâncias em que cada um existiu e os problemas a que cada um respondeu. E tenho uma chave de ouro para o tonto que achou que poderia pegar no meu braço:
Estou certo de que os tucanos, estivessem no governo, não teriam feito, NA ECONOMIA, nada muito diferente do que fizeram os petistas. Mas estou igualmente certo de que, estivessem os petistas no lugar dos tucanos em 1995, e hoje nós seríamos o mais ocidental dos países africanos.
QUAL GOVERNO É MELHOR?
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205) Comparacoes entre o tucanato e o petenato...
Comparar realizações sempre é bom, posto que elas nos dão uma medida do que efetivamente foi feito em termos de governança.
Mas, me refiro a comparações honestas, não o travestimento da realidade que nos é servido intensa e cotidianamente como nunca antes neste pais.
Abaixo, transcrição da transcrição, de Reinaldo Azevedo que por sua vez copiou um pedaço do Elio Gaspari. Em post seguinte a este, transcreverei dois outros posts antigos do Reinaldo Azevedo, que têm a ver com este debate.
Paulo Roberto de Almeida
ATÉ ELIO GASPARI RECONHECE, MAS…
Reinaldo Azevedo, 3/01/10
Leiam trecho da coluna de hoje de Elio Gaspari:
Não foi o PT nem o PSDB, foram os dois
O PROFESSOR Claudio Salm investigou os números da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios de 1996 e 2002 (anos tucanos) e daí a de 2008 (anos petistas). Ele verificou que a ideia segundo a qual Nosso Guia mudou radicalmente a vida do andar de baixo nacional é propaganda desonesta. Estimando-se que no andar de baixo estejam cerca de 50 milhões de pessoas (25% da população), o que se vê nas três Pnads estudadas por Salm é uma linha de progresso contínuo, sem inflexão petista.
Em 1996, quando Fernando Henrique Cardoso tinha um ano de governo, 48,5% dos domicílios pobres tinham água encanada. Em 2002, ao fim do mandato tucano, a percentagem subiu para 59,6%. Uma diferença de 11,1 pontos percentuais. Em 2008, no mandato petista, chegou-se a 68,3% dos domicílios, com uma alta de 8,7 pontos.
Coisa parecida sucedeu com o avanço no saneamento. Durante o tucanato, os domicílios pobres com acesso à rede de esgoto chegaram a 41,4%, com uma expansão de 9,1 pontos percentuais. Nosso Guia melhorou a marca, levando-a para 52,4%, avançando 11,3 pontos.
O acesso à luz elétrica passou de 79,9% em 1996 para 90,8% em 2002. Em 2008, havia luz em 96,2% dos domicílios pobres.
Esses três indicadores refletem políticas públicas. Indo-se para itens que resultam do aumento da renda e do acesso ao crédito, o resultado é o mesmo.
Durante o tucanato, os telefones em domicílios do andar de baixo pularam de 5,1% para 28,6%. Na gestão petista, chegaram a 64,8% das casas. Geladeira? 46,9% em 1996, 66,1% em 2002 e 80,1% em 2008.
O indicador da coleta de lixo desestimula exaltações partidárias. A percentagem de domicílios pobres servidos pela coleta pulou de 36,9% em 1996 para 64,4% em 2008. Glória tucana ou petista? Nem uma nem outra. O lixo é um serviço municipal.
Nunca antes na história deste país um governante se apropriou das boas realizações alheias e nunca antes na história deste país um partido político envergonhou-se de seus êxitos junto ao andar de baixo com a soberba do tucanato.
Comento [Reinaldo Azevedo]
Como se vê, são os números que provam a vigarice política do discurso do PT. Se até Elio Gaspari reconhece, não é? Se bem que ele o faz amparado num estudo insofismável, com dados do IBGE.
O que acho curioso é que Gaspari não consegue deixar de dar uma porrada no PSDB. Reparem que ele acredita que o partido não divulga adequadamente suas conquistas por “soberba”. Ora, por que um partido se orgulharia de não exaçtar as suas realizações?
A pergunta: não terá tido o partido um pouco mais de decoro em anunciar os seus feitos do que tem Lula em cacarejar até aqueles que não são seus?
Gaspari poderia ter lembrado, por exemplo, das primeiras palavras de Dilma Rousseff no programa eleitoral do PT: “Até 2002, o Brasil era um país que tinha tudo, mas não tinha nada…” EU APONTEI A MENTIRA DO PROGRAMA AQUI. E FUI PRATICAMENTE O ÚNICO NA IMPRENSA A FAZÊ-LO. O texto é este: POR QUE GOSTEI DO PROGRAMA DO PT, AQUELE VERDADEIRO SHOWROOM DE MENTIRAS. E a imprensa? Será que não erra nem um pouquinho com o governo FHC? E o colunismo?
Aliás, quantas foram as vezes em que o próprio Gaspari relevou alguns de seus feitos e quantas foram as vezes que preferiu falar naquela tal privataria? Com um particular senso de justiça, Gaspari está dizendo que a culpa da difamação é do próprio difamado.
Mas, me refiro a comparações honestas, não o travestimento da realidade que nos é servido intensa e cotidianamente como nunca antes neste pais.
Abaixo, transcrição da transcrição, de Reinaldo Azevedo que por sua vez copiou um pedaço do Elio Gaspari. Em post seguinte a este, transcreverei dois outros posts antigos do Reinaldo Azevedo, que têm a ver com este debate.
Paulo Roberto de Almeida
ATÉ ELIO GASPARI RECONHECE, MAS…
Reinaldo Azevedo, 3/01/10
Leiam trecho da coluna de hoje de Elio Gaspari:
Não foi o PT nem o PSDB, foram os dois
O PROFESSOR Claudio Salm investigou os números da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios de 1996 e 2002 (anos tucanos) e daí a de 2008 (anos petistas). Ele verificou que a ideia segundo a qual Nosso Guia mudou radicalmente a vida do andar de baixo nacional é propaganda desonesta. Estimando-se que no andar de baixo estejam cerca de 50 milhões de pessoas (25% da população), o que se vê nas três Pnads estudadas por Salm é uma linha de progresso contínuo, sem inflexão petista.
Em 1996, quando Fernando Henrique Cardoso tinha um ano de governo, 48,5% dos domicílios pobres tinham água encanada. Em 2002, ao fim do mandato tucano, a percentagem subiu para 59,6%. Uma diferença de 11,1 pontos percentuais. Em 2008, no mandato petista, chegou-se a 68,3% dos domicílios, com uma alta de 8,7 pontos.
Coisa parecida sucedeu com o avanço no saneamento. Durante o tucanato, os domicílios pobres com acesso à rede de esgoto chegaram a 41,4%, com uma expansão de 9,1 pontos percentuais. Nosso Guia melhorou a marca, levando-a para 52,4%, avançando 11,3 pontos.
O acesso à luz elétrica passou de 79,9% em 1996 para 90,8% em 2002. Em 2008, havia luz em 96,2% dos domicílios pobres.
Esses três indicadores refletem políticas públicas. Indo-se para itens que resultam do aumento da renda e do acesso ao crédito, o resultado é o mesmo.
Durante o tucanato, os telefones em domicílios do andar de baixo pularam de 5,1% para 28,6%. Na gestão petista, chegaram a 64,8% das casas. Geladeira? 46,9% em 1996, 66,1% em 2002 e 80,1% em 2008.
O indicador da coleta de lixo desestimula exaltações partidárias. A percentagem de domicílios pobres servidos pela coleta pulou de 36,9% em 1996 para 64,4% em 2008. Glória tucana ou petista? Nem uma nem outra. O lixo é um serviço municipal.
Nunca antes na história deste país um governante se apropriou das boas realizações alheias e nunca antes na história deste país um partido político envergonhou-se de seus êxitos junto ao andar de baixo com a soberba do tucanato.
Comento [Reinaldo Azevedo]
Como se vê, são os números que provam a vigarice política do discurso do PT. Se até Elio Gaspari reconhece, não é? Se bem que ele o faz amparado num estudo insofismável, com dados do IBGE.
O que acho curioso é que Gaspari não consegue deixar de dar uma porrada no PSDB. Reparem que ele acredita que o partido não divulga adequadamente suas conquistas por “soberba”. Ora, por que um partido se orgulharia de não exaçtar as suas realizações?
A pergunta: não terá tido o partido um pouco mais de decoro em anunciar os seus feitos do que tem Lula em cacarejar até aqueles que não são seus?
Gaspari poderia ter lembrado, por exemplo, das primeiras palavras de Dilma Rousseff no programa eleitoral do PT: “Até 2002, o Brasil era um país que tinha tudo, mas não tinha nada…” EU APONTEI A MENTIRA DO PROGRAMA AQUI. E FUI PRATICAMENTE O ÚNICO NA IMPRENSA A FAZÊ-LO. O texto é este: POR QUE GOSTEI DO PROGRAMA DO PT, AQUELE VERDADEIRO SHOWROOM DE MENTIRAS. E a imprensa? Será que não erra nem um pouquinho com o governo FHC? E o colunismo?
Aliás, quantas foram as vezes em que o próprio Gaspari relevou alguns de seus feitos e quantas foram as vezes que preferiu falar naquela tal privataria? Com um particular senso de justiça, Gaspari está dizendo que a culpa da difamação é do próprio difamado.
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governo Lula
204) Proliferacao partidaria
Mais 31 legendas nos ameaçam
Editorial O Estado de S.Paulo, Sábado, 02 de Janeiro de 2010
Com a chegada de mais um ano eleitoral, cientistas políticos e juristas especializados em legislação eleitoral constataram que, além das 27 agremiações já existentes no espectro partidário, outras 31 legendas estão funcionando em caráter provisório. E, como seus dirigentes não têm medido esforços para tentar obter o registro definitivo, isso pode levar o Brasil a contar com 58 partidos políticos, o que é um absurdo.
Os nomes desses partidos provisórios já dizem tudo. À esquerda, destacam-se a Liga Bolchevique Internacionalista e o Partido Comunista Revolucionário. À direita, destaca-se o Movimento Integralista Brasileiro. E, no meio dessa gelatina ideológica, há uma agremiação que apresenta um ideário alternativo sob o sugestivo nome de Partido Pirata. Evidentemente, todas essas legendas carecem de representatividade e, muito mais, de legitimidade. Apesar de a Constituição de 88 consagrar o sistema pluripartidário, é evidente que a maioria ? se não a totalidade ? dessas legendas não foi criada com propósitos sérios.
Algumas legendas pretendem atuar como simples "línguas de aluguel" ? aquelas que, em troca de cargos ou de dinheiro, fazem o serviço sujo, atacando a honra de candidatos competitivos dos grandes partidos a cargos majoritários. Infelizmente, essa prática não é nova. Há vinte anos, por exemplo, na primeira eleição direta para a Presidência da República, esse papel foi exercido por "Marronzinho", um desconhecido que se candidatou por um partido nanico e passou a campanha difamando os candidatos que se destacaram nas primeiras pesquisas de opinião pública, como Mário Covas e Leonel Brizola. Outras agremiações foram criadas para vender vagas a candidatos que não conseguiram legenda nos principais partidos.
Mas os dirigentes das 31 legendas que funcionam em caráter provisório, aguardando a aprovação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), têm ainda outros objetivos. O primeiro deles é abocanhar uma fatia dos R$ 149 milhões do Fundo Partidário, que são repassados anualmente às agremiações com registro definitivo. O segundo objetivo é dispor de cerca de cinco minutos de TV e de rádio por semestre para apresentar suas propostas, que variam de delirantes exercícios retóricos a promessas de obras absurdas, como a criação de linhas de "aerotrem" e a criação de novas unidades federativas a partir da divisão dos Estados já existentes.
Além de reforçar o fisiologismo, dando margem a todo tipo de negociações espúrias, a proliferação de legendas sem qualquer representatividade confunde o eleitorado, distorce o debate ideológico e desmoraliza o jogo político, comprometendo a própria vitalidade do regime democrático. Nos países com consolidada democracia representativa, há três ou quatro partidos no máximo. No Brasil, para se criar um partido basta, inicialmente, reunir 101 pessoas, que integrarão os diretórios distritais, municipais e estaduais. Mas em seguida, para demonstrar seu "caráter nacional", as legendas precisam obter cerca de 468 mil assinaturas de "apoiadores" espalhados por nove Estados, no mínimo. Até recentemente, como isso é caro, por envolver gastos com viagem e pagamento de coletores de assinaturas, várias legendas vinham optando por se juntar para conseguir o número mínimo de "apoiadores".
Nos últimos anos, porém, com a expansão de "igrejas" evangélicas e o propósito de algumas centrais sindicais de se converterem em partidos políticos, a falta de dinheiro deixou de ser problema. Trata-se de um "investimento" que pode ser facilmente amortizado desde que a agremiação emergente se coligue a alguma "base governista" ou, em troca de apoio ao Executivo, possa indicar diretores de bancos oficiais, chefes de departamentos financeiros de empresas estatais e conselheiros de fundos de pensão e de organismos financeiros constituídos nos moldes do Fundo de Amparo ao Trabalhador. Em pouco tempo o capital investido retorna.
A proliferação de agremiações nanicas e de legendas de aluguel só não tem causado mais danos à democracia brasileira porque o TSE tem sido rigoroso na concessão de registro definitivo. O mais sensato, contudo, seria aprovar leis mais drásticas, que limitassem a criação de partidos e assegurassem uma efetiva representatividade ao jogo político.
Editorial O Estado de S.Paulo, Sábado, 02 de Janeiro de 2010
Com a chegada de mais um ano eleitoral, cientistas políticos e juristas especializados em legislação eleitoral constataram que, além das 27 agremiações já existentes no espectro partidário, outras 31 legendas estão funcionando em caráter provisório. E, como seus dirigentes não têm medido esforços para tentar obter o registro definitivo, isso pode levar o Brasil a contar com 58 partidos políticos, o que é um absurdo.
Os nomes desses partidos provisórios já dizem tudo. À esquerda, destacam-se a Liga Bolchevique Internacionalista e o Partido Comunista Revolucionário. À direita, destaca-se o Movimento Integralista Brasileiro. E, no meio dessa gelatina ideológica, há uma agremiação que apresenta um ideário alternativo sob o sugestivo nome de Partido Pirata. Evidentemente, todas essas legendas carecem de representatividade e, muito mais, de legitimidade. Apesar de a Constituição de 88 consagrar o sistema pluripartidário, é evidente que a maioria ? se não a totalidade ? dessas legendas não foi criada com propósitos sérios.
Algumas legendas pretendem atuar como simples "línguas de aluguel" ? aquelas que, em troca de cargos ou de dinheiro, fazem o serviço sujo, atacando a honra de candidatos competitivos dos grandes partidos a cargos majoritários. Infelizmente, essa prática não é nova. Há vinte anos, por exemplo, na primeira eleição direta para a Presidência da República, esse papel foi exercido por "Marronzinho", um desconhecido que se candidatou por um partido nanico e passou a campanha difamando os candidatos que se destacaram nas primeiras pesquisas de opinião pública, como Mário Covas e Leonel Brizola. Outras agremiações foram criadas para vender vagas a candidatos que não conseguiram legenda nos principais partidos.
Mas os dirigentes das 31 legendas que funcionam em caráter provisório, aguardando a aprovação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), têm ainda outros objetivos. O primeiro deles é abocanhar uma fatia dos R$ 149 milhões do Fundo Partidário, que são repassados anualmente às agremiações com registro definitivo. O segundo objetivo é dispor de cerca de cinco minutos de TV e de rádio por semestre para apresentar suas propostas, que variam de delirantes exercícios retóricos a promessas de obras absurdas, como a criação de linhas de "aerotrem" e a criação de novas unidades federativas a partir da divisão dos Estados já existentes.
Além de reforçar o fisiologismo, dando margem a todo tipo de negociações espúrias, a proliferação de legendas sem qualquer representatividade confunde o eleitorado, distorce o debate ideológico e desmoraliza o jogo político, comprometendo a própria vitalidade do regime democrático. Nos países com consolidada democracia representativa, há três ou quatro partidos no máximo. No Brasil, para se criar um partido basta, inicialmente, reunir 101 pessoas, que integrarão os diretórios distritais, municipais e estaduais. Mas em seguida, para demonstrar seu "caráter nacional", as legendas precisam obter cerca de 468 mil assinaturas de "apoiadores" espalhados por nove Estados, no mínimo. Até recentemente, como isso é caro, por envolver gastos com viagem e pagamento de coletores de assinaturas, várias legendas vinham optando por se juntar para conseguir o número mínimo de "apoiadores".
Nos últimos anos, porém, com a expansão de "igrejas" evangélicas e o propósito de algumas centrais sindicais de se converterem em partidos políticos, a falta de dinheiro deixou de ser problema. Trata-se de um "investimento" que pode ser facilmente amortizado desde que a agremiação emergente se coligue a alguma "base governista" ou, em troca de apoio ao Executivo, possa indicar diretores de bancos oficiais, chefes de departamentos financeiros de empresas estatais e conselheiros de fundos de pensão e de organismos financeiros constituídos nos moldes do Fundo de Amparo ao Trabalhador. Em pouco tempo o capital investido retorna.
A proliferação de agremiações nanicas e de legendas de aluguel só não tem causado mais danos à democracia brasileira porque o TSE tem sido rigoroso na concessão de registro definitivo. O mais sensato, contudo, seria aprovar leis mais drásticas, que limitassem a criação de partidos e assegurassem uma efetiva representatividade ao jogo político.
sexta-feira, 1 de janeiro de 2010
203) Estrategias eleitorais: o PT e o "retrocesso"
Contra oposição, PT adota o discurso do risco de retrocesso
Estratégia é alertar para possível ruptura de políticas sociais de Lula em caso de derrota
ANA FLOR
CATIA SEABRA
DA REPORTAGEM LOCAL
Folha de S.Paulo, 1.01.2010
Em 2002, campanha tucana usou discurso do "medo" de que possível vitória de Lula trouxesse de volta inflação e instabilidade econômica
Menos de oito anos depois de ser vítima do discurso do "risco PT", em que a oposição tentava associar uma vitória de Lula à volta da inflação e à instabilidade econômica, o governo pôs em marcha uma estratégia semelhante para 2010.
Ministros, autoridades do governo e o próprio Lula passaram a embutir em suas falas pelo país alertas para a possibilidade de ruptura nas políticas econômicas e sociais caso a candidata do Planalto, a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil), não vença as eleições.
Em 2002, quando tucanos e aliados adotaram o discurso do "risco PT", a atriz Regina Duarte foi à TV declarar o voto a Serra, que concorria à Presidência, afirmando ter "medo" de Lula.
Hoje, a estratégia é vincular Dilma à continuidade das políticas do governo Lula, e colar, na possibilidade de vitória da oposição, o risco de retrocesso.
Em entrevista, o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, afirmou ter convicção de que Dilma manteria a atual política econômica -mas sobre o principal nome da oposição para enfrentá-la, o governador José Serra (PSDB), disse não ter a mesma certeza.
Diante dos bons resultados da Petrobras, o presidente da estatal, José Sergio Gabrielli, atribuiu o sucesso ao governo Lula e afirmou, também em entrevista, que se tivesse vencido em 2002 e 2006, "o PSDB já teria vendido parte" da empresa.
Ainda mais enfático foi o presidente Lula que, ao encontrar catadores e moradores de rua, alertou para o perigo da não continuidade de seu governo: "Não sabemos o que pode acontecer no país".
Aprovação
O expediente de associar Dilma ao sucesso do governo Lula é uma das principais estratégias de campanha. Sem nunca ter enfrentado as urnas, Dilma tem apenas o trabalho como ministra para mostrar.
O comando do PT e ministros próximos ao presidente rechaçam as expressões "terrorismo" ou "medo". Avisam, entretanto, que intensificarão a estratégia de associar Serra à administração Fernando Henrique Cardoso.
O ministro Alexandre Padilha (Relações Institucionais) afirma que é "inevitável" a comparação de projetos. "É uma linha de defesa do governo. E não é apenas continuidade, o projeto é continuar avançando", diz.
Segundo o líder do PT na Câmara, Cândido Vaccarezza (SP), o partido quer promover um debate sobre "os destinos do Brasil" -em que sobram ataques para o governo tucano. "[Vamos discutir se o Brasil] vai ser potência mundial ou não", diz ele. "O PT defende o Estado forte, um Estado que enfrenta a crise como nós enfrentamos. Eles acham que isso é gastança", afirmou o deputado.
O presidente do PT, Ricardo Berzoini, diz que a estratégia de comparação entre os governos terá o seu ápice durante o horário eleitoral. "Não queremos que o eleitor tenha medo. Mas que possa optar entre dois projetos antagônicos."
Berzoini afirma que o tucanato praticou terrorismo também em 1998 ao dizer que a eleição de Lula ameaçaria a estabilidade econômica.
Enquanto o PT investe na comparação dos governos Lula e FHC, o PSDB vai insistir no confronto dos currículos de Dilma Rousseff e José Serra. Os tucanos realçarão as realizações do tucano no governo de São Paulo e no Ministério da Saúde. Lembrarão, por exemplo, a criação dos medicamentos genéricos:
"A história de Serra é anteparo para esse debate medíocre. A estratégia [do medo] não cola em quem fez o genérico e quebrou patente", disse o deputado federal Jutahy Magalhães (PSDB-BA).
Estratégia é alertar para possível ruptura de políticas sociais de Lula em caso de derrota
ANA FLOR
CATIA SEABRA
DA REPORTAGEM LOCAL
Folha de S.Paulo, 1.01.2010
Em 2002, campanha tucana usou discurso do "medo" de que possível vitória de Lula trouxesse de volta inflação e instabilidade econômica
Menos de oito anos depois de ser vítima do discurso do "risco PT", em que a oposição tentava associar uma vitória de Lula à volta da inflação e à instabilidade econômica, o governo pôs em marcha uma estratégia semelhante para 2010.
Ministros, autoridades do governo e o próprio Lula passaram a embutir em suas falas pelo país alertas para a possibilidade de ruptura nas políticas econômicas e sociais caso a candidata do Planalto, a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil), não vença as eleições.
Em 2002, quando tucanos e aliados adotaram o discurso do "risco PT", a atriz Regina Duarte foi à TV declarar o voto a Serra, que concorria à Presidência, afirmando ter "medo" de Lula.
Hoje, a estratégia é vincular Dilma à continuidade das políticas do governo Lula, e colar, na possibilidade de vitória da oposição, o risco de retrocesso.
Em entrevista, o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, afirmou ter convicção de que Dilma manteria a atual política econômica -mas sobre o principal nome da oposição para enfrentá-la, o governador José Serra (PSDB), disse não ter a mesma certeza.
Diante dos bons resultados da Petrobras, o presidente da estatal, José Sergio Gabrielli, atribuiu o sucesso ao governo Lula e afirmou, também em entrevista, que se tivesse vencido em 2002 e 2006, "o PSDB já teria vendido parte" da empresa.
Ainda mais enfático foi o presidente Lula que, ao encontrar catadores e moradores de rua, alertou para o perigo da não continuidade de seu governo: "Não sabemos o que pode acontecer no país".
Aprovação
O expediente de associar Dilma ao sucesso do governo Lula é uma das principais estratégias de campanha. Sem nunca ter enfrentado as urnas, Dilma tem apenas o trabalho como ministra para mostrar.
O comando do PT e ministros próximos ao presidente rechaçam as expressões "terrorismo" ou "medo". Avisam, entretanto, que intensificarão a estratégia de associar Serra à administração Fernando Henrique Cardoso.
O ministro Alexandre Padilha (Relações Institucionais) afirma que é "inevitável" a comparação de projetos. "É uma linha de defesa do governo. E não é apenas continuidade, o projeto é continuar avançando", diz.
Segundo o líder do PT na Câmara, Cândido Vaccarezza (SP), o partido quer promover um debate sobre "os destinos do Brasil" -em que sobram ataques para o governo tucano. "[Vamos discutir se o Brasil] vai ser potência mundial ou não", diz ele. "O PT defende o Estado forte, um Estado que enfrenta a crise como nós enfrentamos. Eles acham que isso é gastança", afirmou o deputado.
O presidente do PT, Ricardo Berzoini, diz que a estratégia de comparação entre os governos terá o seu ápice durante o horário eleitoral. "Não queremos que o eleitor tenha medo. Mas que possa optar entre dois projetos antagônicos."
Berzoini afirma que o tucanato praticou terrorismo também em 1998 ao dizer que a eleição de Lula ameaçaria a estabilidade econômica.
Enquanto o PT investe na comparação dos governos Lula e FHC, o PSDB vai insistir no confronto dos currículos de Dilma Rousseff e José Serra. Os tucanos realçarão as realizações do tucano no governo de São Paulo e no Ministério da Saúde. Lembrarão, por exemplo, a criação dos medicamentos genéricos:
"A história de Serra é anteparo para esse debate medíocre. A estratégia [do medo] não cola em quem fez o genérico e quebrou patente", disse o deputado federal Jutahy Magalhães (PSDB-BA).
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