Um país cindido ao meio
Ricardo Vélez Rodríguez
O Estado de S.Paulo, 1 de novembro de 2010
Uma boa maneira de resumir o que se vem passando no Brasil nestes últimos meses é recorrer à metáfora utilizada por Royer-Collard, no início do século 19, para simbolizar as desgraças e a dinâmica ensejadas pela Revolução Francesa: "A democracia", dizia o grande precursor dos doutrinários, "é um rio que corre com as margens cheias."
Essa é a nossa "democracia de massas", acelerada, ao longo dos últimos oito anos, pelo fenômeno do lulopetismo. Torrente verbal de linguajar chulo e de eterno palanque; de iniciativas mal costuradas (o tal de Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC, que influencia o desempenho do País na esfera econômica, com gastança descontrolada jamais vista); de propostas sensatas no terreno macroeconômico (que vieram do passado recente, ao ensejo das reformas social-democratas promovidas notadamente pelos anteriores governos de Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso, destacando-se nesse contexto o Plano Real); de pregação messiânica que pretendeu fazer do retirante nordestino ocupante do Palácio do Planalto o novo salvador da Pátria; de favores oficiais distribuídos a esmo com a única finalidade de consolidar um eleitorado subserviente; de jacobinismo em alta por parte da coorte safada de "mata-mosquitos" do presidente populista; de corrupção generalizada, justificada pela revanche ideológica que tem embalado o discurso dos novos "donos do poder" contra as odiadas "elites"; de surgimento e consolidação de uma nova-velha elite de peleguismo sindical, inspirada no pior dos populismos; de clérigos e bispos da "Teologia da Libertação" que seguem as pegadas espertas de Leonardo Boff e de Frei Betto para canonizar as falcatruas petistas em nome da justiça social; de orgástica farra do setor do empresariado que se alinhou desavergonhadamente ao lado do poder para garantir as benesses do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e os lucros subsidiados com o dinheiro do contribuinte; de louvação oportunista dos intelectuais amamentados com as benesses oficiais; enfim, de reificação ectoplasmática dessa entidade mítica genialmente descrita por Mario de Andrade como o "herói sem nenhum caráter" que, proveniente das obscuras florestas, percorre o País com a sua oralidade falaciosa, enganando todo mundo para voltar, após a farra escatológica, a sumir nas sombras de onde veio, deixando para trás um nunca visto cenário de terra arrasada em matéria de princípios e instituições.
Essa seria a imagem que melhor representaria, a meu ver, estes paradoxais momentos que estamos vivendo, de um País literalmente dividido ao meio pelos que se entregaram ao embalo dos sonhos da democracia fácil e do tudo pode porque "os que estão mandando são os representantes da alma popular", materializando, assim, a pior das éticas, a totalitária, que sagrou o princípio de que "os fins justificam os meios".
Sairemos ilesos desse tsunami de "retórica utópico-democrática" (como diria Jefferson)? Ou sucumbiremos a um chavismo à brasileira, aos cantos de sereia do núcleo marxista-leninista do petismo, que considera termos chegado à etapa definitiva de deflagração da "revolução do proletariado"?
O tempo dirá.
Talvez, para fazer ainda eco à imagem macunaímica, haja uma acomodação geológica de interesses, movida unicamente pela lei da gravidade do menor esforço, essa lei de cuja aplicação está cheia de exemplos a história política das nações. Um dos maiores partidos do nosso universo político, tido como fiel da balança, é justamente aquela agremiação que, desde a fundação da Nova República, canalizou os interesses miúdos das oligarquias regionais e do caciquismo de sempre, solidamente ancorada no espírito patrimonialista de privatização do poder e do espaço público para benefício de amigos e apaniguados.
Se vivo fosse, o iconoclasta Heráclito de Éfeso exclamaria: "Tanto barulho para nada." Parecia, há oito anos, que o velho patrimonialismo havia começado a recuar, ao ensejo da Lei de Responsabilidade Fiscal, do enxugamento da máquina pública e das privatizações, e agora voltamos a um tempo anterior a esse, temerosos e triunfantes, chorosos e risonhos, ébrios e sóbrios, que essa é a imagem cindida da sociedade brasileira nestes momentos de ressaca eleitoral.
Do que estou seguro é que o Brasil continuará com o seu "voo de galinha", com decolagens mirabolantes e quedas desajeitadas, porque não fizemos o dever de casa. Não cuidamos a contento da educação para a cidadania, que deve ocorrer nas quatro primeiras séries do primeiro grau. Os esforços da última década foram envidados para que dinheiro não faltasse às escolas públicas, para compra da merenda escolar e para distribuição do material didático - em boa medida preparado para destruir qualquer sentimento de brasilidade, pois foi viciado pelos ativistas gramscianos com o vírus que destrói os valores tradicionais para "tomar a sopa pelas beiradas", fazendo ruir de podre a odiada "sociedade burguesa".
Essa é a nossa realidade. Um país que, na era lulista, mostrou os músculos ao mundo, numa política externa desastrada que conspirou contra os interesses dos nossos amigos lá de fora e dos nossos empresários e contribuintes, dando força aos que nos desacreditam no cenário internacional, pois aparecemos agora nas fotos ao lado de ditadores e facínoras, como os irmãos Fidel e Raúl Castro, Mahmoud Ahmadinejad, Hugo Chávez e quejandos. O Brasil não conseguiu emplacar, com a diplomacia lulista, nem a direção da Unesco, nem a coordenação da Organização Mundial do Comércio (OMC), nem a vaga permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas.
COORDENADOR DO CENTRO DE PESQUISAS ESTRATÉGICAS"PAULINO SOARES DE SOUSA" DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE JUIZ DE FORA
E-MAIL: RIVE2001@GMAIL.COM
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
Radiografia das eleicoes - Congresso em Foco (1.11.2010)
O site do Congresso em Foco, um serviço informativo independente, fornece os dados completos e algumas análises das eleições presidenciais encerrradas em 31.10.2010.
Desde já cabe fazer uma pequena-grande correção, quando o editorialista afirma que: "Dilma Rousseff, a primeira mulher a exercer o cargo mais importante do país, é dona de quase 56 milhões de votos."
Não, não é, e isso é tão evidente, aos olhos de qualquer observador isento que nem seria preciso corrigir o jornalista que escreveu essa bobagem.
Quem seria Dilma, o que seria de Dilma, a criatura eleitoral de Lula, se ela tivesse de disputar sozinha, apenas com base em seus méritos (ou deméritos) próprios uma eleição?
Respondo simplesmente: NADA, NINGUÉM.
Sem Lula, a criatura eleitoral, o boneco de Lula não teria absolutamente nenhuma expressão eleitoral.
Ela simplesmente não é dona desses 56 milhões de votos. Talvez venha a ser, algum dia, alguma vez, em alguma eleição, mas não nesta.
Ela simplesmente não existiria sem a vontade do seu chefe, dono e patrão.
Ela é o resultado de uma escolha de bolso de colete, como se diz, de um "dedazo", como diriam os mexicanos (em relação às antigas escolhas do PRI). No caso do Brasil, muito pior, pois o partido dela, supostamente dela, não teve nenhum papel, repito NENHUM, na escolha da criatura eleitoral.
A escolha foi feita solitariamente pelo "dono" do partido, depois que todos os demais líderes foram sendo derrubados por episódios de corrupção e malfeitorias diversas, um retrato perfeito de onde chegou o PT como "partido" político.
Se formos ver, não apenas o círculo de "alianças" eleitorais do PT e de Lula, a quadrilha de onorevole que apoia o governo, e também os mapas eleitorais comparados, das bases políticas do PT entre 1994 e 2010, veremos que o PT foi sendo "empurrado" para os chamados "grotões", como eles designavam, depreciativamente, as bases de apoio do coronelato mais atrasado e mais reacionário da política brasileira.
O PT ficou com o seu exército de assistidos -- que votam nele apenas por dependência alimentar -- concentrados no curral eleitoral do Bolsa-Família, ficou com as militâncias políticas e sindicais que mamam nas tetas do Estado, das agências públicas e das estatais (e que não querem largar a mamata) e ficou justamente com essa fração atrasada da política brasileira, os bandidos e oportunistas de sempre, aqueles que estão sempre com o governo, qualquer governo, sempre que for para mamar também.
Para um petista sincero -- se é que existe ainda essa figura idealista -- deve ser duro ter de aguentar a "grande transformação", a descida para os grotões; é preciso ter muito estômago para aguentar os novos companheiros de viagem, e sobretudo é preciso ter muita cara de pau para assistir às denúncias de imprensa contra seus corruptos e vigaristas e ainda assim não só ter de ficar quieto mas sobretudo ter de defender essa gente de rouba e não faz. É preciso muito estômago para aguentar o asco...
Enfim, termino por aqui e reporto-me agora aos números, sabendo já a quem atribuir os votos de um e de outro candidato.
Paulo Roberto de Almeida
Congresso em Foco, Segunda-Feira, 1 de Novembro de 2010
Sylvio Costa, Rudolfo Lago e Edson Sardinha
Para quem nunca disputou na vida uma eleição, trata-se de uma estreia política impressionante. A nova presidenta do Brasil, Dilma Rousseff, a primeira mulher a exercer o cargo mais importante do país, é dona de quase 56 milhões de votos. Às 2h desta segunda-feira, com 99,99% dos votos apurados, sua votação era de 55,7 milhões de votos. Dilma venceu as eleições em 16 estados e no Distrito Federal. E teve do seu lado a totalidade dos estados do Nordeste.
Apesar da vitória imensa, as eleições de 2010 foram as mais apertadas dos últimos anos. Esse equilíbrio ficou bastante claro, por exemplo, no desempenho que os dois candidatos tiveram nas capitais.
Dilma perde na comparação com o desempenho de Lula em 2002 e 2006. E Serra cresce nas comparações com ele mesmo em 2002 e com Geraldo Alckmin em 2006. Mesmo com a expressiva vitória obtida por Dilma, a oposição demonstrou considerável poder de fogo na votação de ontem.
Além de vencer a eleição em dez estados, José Serra (PSDB) teve o melhor desempenho do seu partido desde 1998, quando Fernando Henrique derrotou Lula no primeiro turno. O tucano manteve a vantagem que já havia conseguido em oito unidades federativas e virou o jogo em outras três, Rio Grande do Sul, Goiás e Espírito Santo.
Dilma, que superou Serra em mais de 12 milhões de votos (ou 12 pontos percentuais), ganhou a disputa no Distrito Federal e mais 16 estados. Em alguns deles, sua vitória foi estrondosa. Destacaram-se Amazonas (onde ela conquistou 80,57% dos votos válidos), Ceará (77,35%), Maranhão (79,09%) e Pernambuco (75,65%).
Serra obteve sua maior votação proporcional em dois pequenos estados, Acre (onde o governador eleito, já no primeiro turno, é o senador petista Tião Viana) e Roraima. No Acre, com 99% dos votos apurados, o ex-governador paulista contabilizava 69,68% dos votos válidos. Em Roraima, ele teve 66,56%.
Histórico
Dilma obteve no segundo turno pouco mais de 56% dos votos válidos, enquanto Serra obteve quase 44%. O candidato do PSDB sai das eleições com 43,7 milhões de votos. São mais de 10 milhões de votos além do que ele obteve nas eleições de 2002, quando saiu do Ministério da Saúde como o candidato do governo para enfrentar Lula.
Naquela ocasião, Serra somou 33,4 milhões de votos. Se a vantagem de Dilma sobre Serra em 2010 foi de 12 milhões de votos, a vantagem de Lula sobre Serra em 2002 foi de 19,4 milhões de votos.
Em 2002, Serra venceu o segundo turno em um único estado: Alagoas. E teve 38,7% dos votos, contra 61,3% obtidos por Lula.
Em termos percentuais, a vitória de Lula sobre Serra em 2002 foi mais folgada que a vitória sobre Geraldo Alckmin em 2006. Lula obteve 60,83% dos votos, contra 39,17% de Alckmin. O candidato tucano venceu em cinco estados e no Distrito Federal: Roraima, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, além do DF. Lula fez 58,3 milhões de votos, e Alckmin 37,5 milhões. Em termos numéricos, porém, Lula despachou Alckmin com uma diferença maior de votos com relação à disputa com Serra em 2002: a vantagem de Lula sobre Alckmin foi de 20,8 milhões de votos.
Onde cada um foi melhor
Mesmo longe de ter sido capaz de reverter o resultado da eleição, Serra melhorou seu desempenho neste segundo turno sobre Dilma, em comparação com o primeiro turno.
No último dia 3 de outubro, Dilma venceu as eleições em 18 estados (Amazonas, Pará, Amapá, Maranhão, Ceará, Piauí, Paraíba, Pernambuco, Sergipe, Alagoas, Bahia, Tocantins, Goiás, Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte e Rio Grande do Sul).
Serra ganhou em oito (Acre, Roraima, Rondônia, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, São Paulo, Paraná e Santa Catarina), e Marina Silva, do PV, no Distrito Federal.
O Congresso em Foco preparou para você um mapa completo das eleições deste ano. Aqui, você verá todos os números das eleições no primeiro e no segundo turno. Os dados estão atualizados até as 2h de hoje (segunda, 1 de novembro), quando estavam apurados 99,99% dos votos destas eleições.
Clique aqui para ver o mapa completo das eleições de 2010
LEIA TAMBÉM:
O primeiro discurso de Dilma como presidenta eleita
Oposição governará maioria dos brasileiros
PT e PMDB elegem quase metade dos senadores
O novo Senado em 2011
A nova composição da Câmara
Base aliada cresce na CâmaraTudo que você precisa saber sobre as eleições de 2010
Desde já cabe fazer uma pequena-grande correção, quando o editorialista afirma que: "Dilma Rousseff, a primeira mulher a exercer o cargo mais importante do país, é dona de quase 56 milhões de votos."
Não, não é, e isso é tão evidente, aos olhos de qualquer observador isento que nem seria preciso corrigir o jornalista que escreveu essa bobagem.
Quem seria Dilma, o que seria de Dilma, a criatura eleitoral de Lula, se ela tivesse de disputar sozinha, apenas com base em seus méritos (ou deméritos) próprios uma eleição?
Respondo simplesmente: NADA, NINGUÉM.
Sem Lula, a criatura eleitoral, o boneco de Lula não teria absolutamente nenhuma expressão eleitoral.
Ela simplesmente não é dona desses 56 milhões de votos. Talvez venha a ser, algum dia, alguma vez, em alguma eleição, mas não nesta.
Ela simplesmente não existiria sem a vontade do seu chefe, dono e patrão.
Ela é o resultado de uma escolha de bolso de colete, como se diz, de um "dedazo", como diriam os mexicanos (em relação às antigas escolhas do PRI). No caso do Brasil, muito pior, pois o partido dela, supostamente dela, não teve nenhum papel, repito NENHUM, na escolha da criatura eleitoral.
A escolha foi feita solitariamente pelo "dono" do partido, depois que todos os demais líderes foram sendo derrubados por episódios de corrupção e malfeitorias diversas, um retrato perfeito de onde chegou o PT como "partido" político.
Se formos ver, não apenas o círculo de "alianças" eleitorais do PT e de Lula, a quadrilha de onorevole que apoia o governo, e também os mapas eleitorais comparados, das bases políticas do PT entre 1994 e 2010, veremos que o PT foi sendo "empurrado" para os chamados "grotões", como eles designavam, depreciativamente, as bases de apoio do coronelato mais atrasado e mais reacionário da política brasileira.
O PT ficou com o seu exército de assistidos -- que votam nele apenas por dependência alimentar -- concentrados no curral eleitoral do Bolsa-Família, ficou com as militâncias políticas e sindicais que mamam nas tetas do Estado, das agências públicas e das estatais (e que não querem largar a mamata) e ficou justamente com essa fração atrasada da política brasileira, os bandidos e oportunistas de sempre, aqueles que estão sempre com o governo, qualquer governo, sempre que for para mamar também.
Para um petista sincero -- se é que existe ainda essa figura idealista -- deve ser duro ter de aguentar a "grande transformação", a descida para os grotões; é preciso ter muito estômago para aguentar os novos companheiros de viagem, e sobretudo é preciso ter muita cara de pau para assistir às denúncias de imprensa contra seus corruptos e vigaristas e ainda assim não só ter de ficar quieto mas sobretudo ter de defender essa gente de rouba e não faz. É preciso muito estômago para aguentar o asco...
Enfim, termino por aqui e reporto-me agora aos números, sabendo já a quem atribuir os votos de um e de outro candidato.
Paulo Roberto de Almeida
Congresso em Foco, Segunda-Feira, 1 de Novembro de 2010
Reportagens Especiais
01/11/2010 - 07h00
O raio X da disputa presidencial
Apesar da grande vantagem obtida por Dilma, Serra teve no segundo turno a melhor performance do PSDB em uma campanha presidencial desde 1998. Veja onde os dois presidenciáveis se saíram melhor, nas votações de ontem e do dia 3 de outubro
| Dilma sai das eleições com quase 56 milhões de votos. Mas Serra garantiu à oposição seu melhor desempenho desde a última eleição de FHC |
Para quem nunca disputou na vida uma eleição, trata-se de uma estreia política impressionante. A nova presidenta do Brasil, Dilma Rousseff, a primeira mulher a exercer o cargo mais importante do país, é dona de quase 56 milhões de votos. Às 2h desta segunda-feira, com 99,99% dos votos apurados, sua votação era de 55,7 milhões de votos. Dilma venceu as eleições em 16 estados e no Distrito Federal. E teve do seu lado a totalidade dos estados do Nordeste.
Apesar da vitória imensa, as eleições de 2010 foram as mais apertadas dos últimos anos. Esse equilíbrio ficou bastante claro, por exemplo, no desempenho que os dois candidatos tiveram nas capitais.
Dilma perde na comparação com o desempenho de Lula em 2002 e 2006. E Serra cresce nas comparações com ele mesmo em 2002 e com Geraldo Alckmin em 2006. Mesmo com a expressiva vitória obtida por Dilma, a oposição demonstrou considerável poder de fogo na votação de ontem.
Além de vencer a eleição em dez estados, José Serra (PSDB) teve o melhor desempenho do seu partido desde 1998, quando Fernando Henrique derrotou Lula no primeiro turno. O tucano manteve a vantagem que já havia conseguido em oito unidades federativas e virou o jogo em outras três, Rio Grande do Sul, Goiás e Espírito Santo.
Dilma, que superou Serra em mais de 12 milhões de votos (ou 12 pontos percentuais), ganhou a disputa no Distrito Federal e mais 16 estados. Em alguns deles, sua vitória foi estrondosa. Destacaram-se Amazonas (onde ela conquistou 80,57% dos votos válidos), Ceará (77,35%), Maranhão (79,09%) e Pernambuco (75,65%).
Serra obteve sua maior votação proporcional em dois pequenos estados, Acre (onde o governador eleito, já no primeiro turno, é o senador petista Tião Viana) e Roraima. No Acre, com 99% dos votos apurados, o ex-governador paulista contabilizava 69,68% dos votos válidos. Em Roraima, ele teve 66,56%.
Histórico
Dilma obteve no segundo turno pouco mais de 56% dos votos válidos, enquanto Serra obteve quase 44%. O candidato do PSDB sai das eleições com 43,7 milhões de votos. São mais de 10 milhões de votos além do que ele obteve nas eleições de 2002, quando saiu do Ministério da Saúde como o candidato do governo para enfrentar Lula.
Naquela ocasião, Serra somou 33,4 milhões de votos. Se a vantagem de Dilma sobre Serra em 2010 foi de 12 milhões de votos, a vantagem de Lula sobre Serra em 2002 foi de 19,4 milhões de votos.
Em 2002, Serra venceu o segundo turno em um único estado: Alagoas. E teve 38,7% dos votos, contra 61,3% obtidos por Lula.
Em termos percentuais, a vitória de Lula sobre Serra em 2002 foi mais folgada que a vitória sobre Geraldo Alckmin em 2006. Lula obteve 60,83% dos votos, contra 39,17% de Alckmin. O candidato tucano venceu em cinco estados e no Distrito Federal: Roraima, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, além do DF. Lula fez 58,3 milhões de votos, e Alckmin 37,5 milhões. Em termos numéricos, porém, Lula despachou Alckmin com uma diferença maior de votos com relação à disputa com Serra em 2002: a vantagem de Lula sobre Alckmin foi de 20,8 milhões de votos.
Onde cada um foi melhor
Mesmo longe de ter sido capaz de reverter o resultado da eleição, Serra melhorou seu desempenho neste segundo turno sobre Dilma, em comparação com o primeiro turno.
No último dia 3 de outubro, Dilma venceu as eleições em 18 estados (Amazonas, Pará, Amapá, Maranhão, Ceará, Piauí, Paraíba, Pernambuco, Sergipe, Alagoas, Bahia, Tocantins, Goiás, Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte e Rio Grande do Sul).
Serra ganhou em oito (Acre, Roraima, Rondônia, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, São Paulo, Paraná e Santa Catarina), e Marina Silva, do PV, no Distrito Federal.
O Congresso em Foco preparou para você um mapa completo das eleições deste ano. Aqui, você verá todos os números das eleições no primeiro e no segundo turno. Os dados estão atualizados até as 2h de hoje (segunda, 1 de novembro), quando estavam apurados 99,99% dos votos destas eleições.
Clique aqui para ver o mapa completo das eleições de 2010
LEIA TAMBÉM:
O primeiro discurso de Dilma como presidenta eleita
Oposição governará maioria dos brasileiros
PT e PMDB elegem quase metade dos senadores
O novo Senado em 2011
A nova composição da Câmara
Base aliada cresce na CâmaraTudo que você precisa saber sobre as eleições de 2010
Marcadores:
2010,
Eleicoes presidenciais,
resultados
A segunda analise do quadro pos-eleitoral
Foi a política que fez a oposição encurtar a distância; logo, faltou ainda mais política
Reinaldo Azevedo, 1.11.2010
Como escrevo em outro texto — e jamais vou perder isso de vista —, assistimos nessa campanha a uma truculência inédita do poder federal. Lula aviltou as instituições para eleger a sua criatura eleitoral. Isso não nos deve impedir, no entanto, de apontar erros essenciais na campanha do PSDB, em especial no horário eleitoral.
Comecemos do básico: Lula será mesmo esse demiurgo, que pode eleger quem bem entender — daí a necessidade de a oposição fazer uma campanha que evite o confronto, abstendo-se tanto de falar bem de si mesma como de falar mal do governo? Pois é. Estamos diante de uma doxa. Contra todas as evidências aparentes, a resposta é “não”. Querem ver?
Em 1989, quase um terço dos eleitores que foram às urnas votou na esquerda: 16,08% em Lula e 14,45% em Brizola. Em 1994, a mesma coisa: 27,04% em Lula e 3,18% em Brizola. Em 1998, idem (31,71% em Lula). Em 2002 e 2006, com discurso novo e política agressiva de alianças, o PT saiu daquele terço tradicional: Lula obteve, respectivamente, 46,44% e 48,61% no primeiro turno, índice quase igual ao de Dilma em 2010: 46,91%.
A seqüência de números nos indica algumas coisas: um terço do eleitorado pertence à esquerda e ponto final. Um terço vota contra a esquerda e ponto final. E é sempre aquele terço intermediário que está em disputa. Qualquer que fosse o candidato do PT, com ou sem as bênçãos de Lula, esse potencial está garantido. O resto tem de ser conquistado. Por três eleições seguidas, o PT fez a sua maioria naquele grupo — desta vez, bem menos do que nas duas anteriores.
O eleitorado brasileiro tem 135 milhões de pessoas — e é nessa base que os institutos avaliam a popularidade do presidente. Se ela for mesmo de 83%, estamos falando na aprovação de quase 113 milhões de pessoas. Dilma se elegeu presidente com 55,7 milhões de votos. Compareceram às urnas 106.050.082 pessoas, 78,55% do eleitorado. O candidato da esquerda levaria um terço disso ainda que fosse um poste — logo, não haveria por que Dilma não levar: 35,35 milhões. O real poder de transferência de votos de Lula é, pois, de 20,35 milhões de pessoas no máximo — 15% do eleitorado total, ou, contando com generosidade, 19% do que compareceu para votar. É rigorosamente disso que se trata. É histórico e é matemático.
Medos
Foi com medo desses 15% ou 19%, na prática, que a campanha da oposição — e sempre se deve relevar o jogo sujo, reitero — tomou o caminho errado, repetindo, diga-se, o erro de 2006. Alguém dirá: “Pô, mas somem-se esses 15% ou 19% àquele terço, e se tem praticamente mais da metade, Reinaldo”. Pois é. Eu me referi ao potencial máximo de transferência. Não quer dizer que ele se realizasse fatalmente e que pessoas desse grupo não pudessem ser convencidas. Mais ainda: a abstenção passou de 20%. É gente pra chuchu, que tem de ser chamada a votar. Como?
Eis o busílis. O PSDB passou boa parte do primeiro turno dedicado à maximização do minimalismo administrativista, sem uma mensagem política clara aos eleitores. Aquele que é sabidamente o homem público mais preparado do país — e isso não é chavão ou clichê, mas fato — foi convencido, deixou-se convencer ou foi tragado pelo argumento de que a política era um mau caminho: o confronto haveria de se dar no terreno da administração, da gestão, da comparação de biografias (a dele é infinitamente mais rica) e das obras realizadas. A questão seria esta: “Quem é mais competente para dar seqüência à obra de Lula: a Dilma ou o Zé?” A intenção de voto murchava.
Não por acaso, esse era a escolha do PT. Também o partido de Lula deixou a política de lado — a não ser para fazer comparações falsas, vigaristas, entre os oito anos do PT e os oito anos do PSDB. Obreirismo contra obreirismo, o do PT se mostrava mais festivo; promessa contra promessa, o lulismo será sempre imbatível.
Quem politizou?
A diferença entre Dilma e Serra é bem menor do que apostavam os petistas. Não tenho dúvida de que ela se deve à politização havida na reta final do primeiro turno, que QUASE teve seqüência no segundo. E é bom deixar claro: não foi uma escolha do PSDB, não! Foi uma escolha da sociedade. Questões como o aborto e a liberdade de expressão — às quais Dilma se viu obrigada a se referir em seu primeiro pronunciamento — serviram para aproximar mais o PT de si mesmo; criaram uma justa sombra desconfiança. Justa porque ninguém atribuía ao partido e à candidata nada que não fosse de sua natureza e de sua história. A sociedade levou a disputa para o segundo turno. E a primeira pesquisa feita depois do dia 3 indicava uma diferença de apenas 8 pontos entre os dois candidatos — acabou sendo de 12.
Aquela primeira semana era decisiva. As ruas respiravam um certo clima de virada — e se esperava que ao cruzado no queixo se seguissem outros golpes firmes da oposição. A PT ficou visivelmente aparvalhado. Antes mesmo que pudesse se reorganizar, a campanha do PSDB, reiniciada na sexta seguinte, dia 8, voltava a oferecer aquele mais do mesmo do primeiro turno: a tal maximização do minimalismo administrativista, em que o homem preparado para ser estadista se dedicava a propostas pontuais para resolver a saúde, a educação, o transporte. Em vez de a campanha embarcar na onda que estava nas ruas, quase fez o contrário: mandou todo mundo pra casa para esfriar a cabeça.
Privatização
No seu segundo programa na TV, o PT decidiu partir, ele sim, para a politização aberta e para o escracho. Não só passou a acusar os tucanos de desvios éticos por causa de Paulo Souza — se isso contou, contou pouco — como passou a pespegar nos adversários a pecha de privatistas, inventando a mentira de que, se eleito, Serra privatizaria o pré-sal e a Petrobras. A reação tucana, como escrevo num texto abaixo, foi tardia e falha. Exibiu as suas reais conquistas na área de telefonia quase com preguiça e praticamente aderiu à tese do PT de que concessão em petróleo corresponde a privatização, tentando inverter a acusação. Ora, quem consegue ser mais verossímil, mesmo mentindo, ao atribuir este suposto “defeito” ao adversário? É evidente que o caminho era outro. O PSDB foi vítima duas vezes da mesma vigarice, da mesma patacoada. Teve uma reação errada em 2006. Teve uma reação errada agora. Na segunda semana da campanha do segundo turno, o PT havia estancado o que poderia ser a sangria de votos de Dilma Rousseff.
Temas essenciais para os brasileiros — cito um óbvio: a baderna que o MST promove no campo, por exemplo — entraram na campanha na reta final, como mera ilustração de uma crítica que Serra fez ao MST em um dos debates. A politização tinha levado ao segundo turno e àquele clima de virada. E a possibilidade de vitória estava em oferecer mais política, não menos, como se fez. O administativismo tinha quase conduzido à derrota no primeiro turno. Era improvável que ajudasse a conquistar a vitória no segundo.
Para encerrar
Lula, Tarso Genro e Marco Aurélio Top Top Garcia comentaram o resultado das eleições — o presidente ainda antes do fim da votação. Foram brutais, como de hábito. Para eles, Serra perdeu porque partiu para o ataque. Bem, se é petista falando sobre tucano, então deve ser o contrário. Faltou dureza e faltou política, issso, sim! O presidente dos 83% de popularidade ganhou uma disputa, num eleitorado de quase 136 milhões de habitantes, por uma diferença pouco superior a 12 milhões de votos: menos de 9%!
Ele não imbatível, intocável ou incriticável. Com mais política, desde o começo, talvez se tivesse conseguido chegar lá. Teria chegado fatalmente? Como é que eu vou saber. Sei o que a política fez em benefício da democracia: levou as eleições para o segundo turno e deu às oposições um oceano de votos. Dilma e o PT já perceberam isso. O seu discurso da vitória já incorporou o recado das urnas (comentarei a seua fala). Que a oposição tenha claro: sempre será a política!
Reinaldo Azevedo, 1.11.2010
Como escrevo em outro texto — e jamais vou perder isso de vista —, assistimos nessa campanha a uma truculência inédita do poder federal. Lula aviltou as instituições para eleger a sua criatura eleitoral. Isso não nos deve impedir, no entanto, de apontar erros essenciais na campanha do PSDB, em especial no horário eleitoral.
Comecemos do básico: Lula será mesmo esse demiurgo, que pode eleger quem bem entender — daí a necessidade de a oposição fazer uma campanha que evite o confronto, abstendo-se tanto de falar bem de si mesma como de falar mal do governo? Pois é. Estamos diante de uma doxa. Contra todas as evidências aparentes, a resposta é “não”. Querem ver?
Em 1989, quase um terço dos eleitores que foram às urnas votou na esquerda: 16,08% em Lula e 14,45% em Brizola. Em 1994, a mesma coisa: 27,04% em Lula e 3,18% em Brizola. Em 1998, idem (31,71% em Lula). Em 2002 e 2006, com discurso novo e política agressiva de alianças, o PT saiu daquele terço tradicional: Lula obteve, respectivamente, 46,44% e 48,61% no primeiro turno, índice quase igual ao de Dilma em 2010: 46,91%.
A seqüência de números nos indica algumas coisas: um terço do eleitorado pertence à esquerda e ponto final. Um terço vota contra a esquerda e ponto final. E é sempre aquele terço intermediário que está em disputa. Qualquer que fosse o candidato do PT, com ou sem as bênçãos de Lula, esse potencial está garantido. O resto tem de ser conquistado. Por três eleições seguidas, o PT fez a sua maioria naquele grupo — desta vez, bem menos do que nas duas anteriores.
O eleitorado brasileiro tem 135 milhões de pessoas — e é nessa base que os institutos avaliam a popularidade do presidente. Se ela for mesmo de 83%, estamos falando na aprovação de quase 113 milhões de pessoas. Dilma se elegeu presidente com 55,7 milhões de votos. Compareceram às urnas 106.050.082 pessoas, 78,55% do eleitorado. O candidato da esquerda levaria um terço disso ainda que fosse um poste — logo, não haveria por que Dilma não levar: 35,35 milhões. O real poder de transferência de votos de Lula é, pois, de 20,35 milhões de pessoas no máximo — 15% do eleitorado total, ou, contando com generosidade, 19% do que compareceu para votar. É rigorosamente disso que se trata. É histórico e é matemático.
Medos
Foi com medo desses 15% ou 19%, na prática, que a campanha da oposição — e sempre se deve relevar o jogo sujo, reitero — tomou o caminho errado, repetindo, diga-se, o erro de 2006. Alguém dirá: “Pô, mas somem-se esses 15% ou 19% àquele terço, e se tem praticamente mais da metade, Reinaldo”. Pois é. Eu me referi ao potencial máximo de transferência. Não quer dizer que ele se realizasse fatalmente e que pessoas desse grupo não pudessem ser convencidas. Mais ainda: a abstenção passou de 20%. É gente pra chuchu, que tem de ser chamada a votar. Como?
Eis o busílis. O PSDB passou boa parte do primeiro turno dedicado à maximização do minimalismo administrativista, sem uma mensagem política clara aos eleitores. Aquele que é sabidamente o homem público mais preparado do país — e isso não é chavão ou clichê, mas fato — foi convencido, deixou-se convencer ou foi tragado pelo argumento de que a política era um mau caminho: o confronto haveria de se dar no terreno da administração, da gestão, da comparação de biografias (a dele é infinitamente mais rica) e das obras realizadas. A questão seria esta: “Quem é mais competente para dar seqüência à obra de Lula: a Dilma ou o Zé?” A intenção de voto murchava.
Não por acaso, esse era a escolha do PT. Também o partido de Lula deixou a política de lado — a não ser para fazer comparações falsas, vigaristas, entre os oito anos do PT e os oito anos do PSDB. Obreirismo contra obreirismo, o do PT se mostrava mais festivo; promessa contra promessa, o lulismo será sempre imbatível.
Quem politizou?
A diferença entre Dilma e Serra é bem menor do que apostavam os petistas. Não tenho dúvida de que ela se deve à politização havida na reta final do primeiro turno, que QUASE teve seqüência no segundo. E é bom deixar claro: não foi uma escolha do PSDB, não! Foi uma escolha da sociedade. Questões como o aborto e a liberdade de expressão — às quais Dilma se viu obrigada a se referir em seu primeiro pronunciamento — serviram para aproximar mais o PT de si mesmo; criaram uma justa sombra desconfiança. Justa porque ninguém atribuía ao partido e à candidata nada que não fosse de sua natureza e de sua história. A sociedade levou a disputa para o segundo turno. E a primeira pesquisa feita depois do dia 3 indicava uma diferença de apenas 8 pontos entre os dois candidatos — acabou sendo de 12.
Aquela primeira semana era decisiva. As ruas respiravam um certo clima de virada — e se esperava que ao cruzado no queixo se seguissem outros golpes firmes da oposição. A PT ficou visivelmente aparvalhado. Antes mesmo que pudesse se reorganizar, a campanha do PSDB, reiniciada na sexta seguinte, dia 8, voltava a oferecer aquele mais do mesmo do primeiro turno: a tal maximização do minimalismo administrativista, em que o homem preparado para ser estadista se dedicava a propostas pontuais para resolver a saúde, a educação, o transporte. Em vez de a campanha embarcar na onda que estava nas ruas, quase fez o contrário: mandou todo mundo pra casa para esfriar a cabeça.
Privatização
No seu segundo programa na TV, o PT decidiu partir, ele sim, para a politização aberta e para o escracho. Não só passou a acusar os tucanos de desvios éticos por causa de Paulo Souza — se isso contou, contou pouco — como passou a pespegar nos adversários a pecha de privatistas, inventando a mentira de que, se eleito, Serra privatizaria o pré-sal e a Petrobras. A reação tucana, como escrevo num texto abaixo, foi tardia e falha. Exibiu as suas reais conquistas na área de telefonia quase com preguiça e praticamente aderiu à tese do PT de que concessão em petróleo corresponde a privatização, tentando inverter a acusação. Ora, quem consegue ser mais verossímil, mesmo mentindo, ao atribuir este suposto “defeito” ao adversário? É evidente que o caminho era outro. O PSDB foi vítima duas vezes da mesma vigarice, da mesma patacoada. Teve uma reação errada em 2006. Teve uma reação errada agora. Na segunda semana da campanha do segundo turno, o PT havia estancado o que poderia ser a sangria de votos de Dilma Rousseff.
Temas essenciais para os brasileiros — cito um óbvio: a baderna que o MST promove no campo, por exemplo — entraram na campanha na reta final, como mera ilustração de uma crítica que Serra fez ao MST em um dos debates. A politização tinha levado ao segundo turno e àquele clima de virada. E a possibilidade de vitória estava em oferecer mais política, não menos, como se fez. O administativismo tinha quase conduzido à derrota no primeiro turno. Era improvável que ajudasse a conquistar a vitória no segundo.
Para encerrar
Lula, Tarso Genro e Marco Aurélio Top Top Garcia comentaram o resultado das eleições — o presidente ainda antes do fim da votação. Foram brutais, como de hábito. Para eles, Serra perdeu porque partiu para o ataque. Bem, se é petista falando sobre tucano, então deve ser o contrário. Faltou dureza e faltou política, issso, sim! O presidente dos 83% de popularidade ganhou uma disputa, num eleitorado de quase 136 milhões de habitantes, por uma diferença pouco superior a 12 milhões de votos: menos de 9%!
Ele não imbatível, intocável ou incriticável. Com mais política, desde o começo, talvez se tivesse conseguido chegar lá. Teria chegado fatalmente? Como é que eu vou saber. Sei o que a política fez em benefício da democracia: levou as eleições para o segundo turno e deu às oposições um oceano de votos. Dilma e o PT já perceberam isso. O seu discurso da vitória já incorporou o recado das urnas (comentarei a seua fala). Que a oposição tenha claro: sempre será a política!
Marcadores:
quadro pos-eleitoral,
Reinaldo Azevedo
A primeira analise sensata do quadro pos-eleitoral
Que Dilma governe para todos
por Marcos Guterman
Blogs Estadão
Seção: América Latina
31.outubro.2010 19:15:57
A eleição de Dilma Rousseff foi uma prova da enorme força política do presidente Lula. Ele não apenas fez sua sucessora; ele inventou uma, construindo sua candidatura do nada, a partir da constatação de que todos os quadros petistas com potencial de substituí-lo haviam sido devorados por escândalos. Lula colocou sua formidável biografia e sua inédita popularidade a serviço de uma completa anônima, talvez com o único e simples objetivo de mostrar que podia criar um presidente de acordo com sua vontade. O grau de personalismo envolvido na sucessão, aliado ao fato de que o conhecimento que temos sobre a capacidade administrativa de Dilma é bastante limitado, obriga a analisar as perspectivas do próximo governo pela régua do lulismo e sua obsessão pela unanimidade. E todo o discurso que começou a ser construído há mais de dois anos, quando Lula lançou Dilma mesmo quando a lei não permitia, sugere que a minoria – isto é, aqueles brasileiros que não comungam das ideias do presidente-messias – será vista somente como um bom argumento para consolidar o exercício da tirania da maioria.
O conceito de tirania da maioria nas democracias foi elaborado por John Stuart Mill em sua obra “Sobre a Liberdade” (1859). Para ele, a liberdade estaria ameaçada não por causa do governo, mas pela maioria da sociedade alinhada ao governo, que enxerga a minoria dissidente como um risco permanente. O problema de Stuart Mill não era criar qualquer forma de proteção, em princípio, à minoria, mas sim garantir que a maioria fosse ao menos tolerante com a opinião que lhe fosse contrária. No limite, significava que a liberdade não podia ser tratada como uma “concessão” da maioria para quem se enquadrasse, mas como um direito assegurado a todos, mesmo aos dissidentes.
Sob a tirania da maioria, diz Stuart Mill, “a sociedade pode, e executa, seus próprios mandatos; e, se expede mandatos equivocados no lugar dos corretos, ou quaisquer mandatos a respeito de coisas nas quais não deveria interferir, pratica uma tirania social mais temível do que muitas espécies de opressão política, uma vez que, muito embora nem sempre venha sustentada por penalidades extremas, penetra mais profundamente nos detalhes da vida, escraviza a própria alma, deixando poucas vias de fuga”.
No Brasil atual, os arvorados porta-vozes da maioria, isto é, dos brasileiros que aprovam Lula, consideram ser sua missão obter a unanimidade total em torno do lulismo. A “escravização da alma” significa manter a sociedade sob o transe da “transformação do Brasil”, enquanto as contas públicas não fecham e o Estado é rateado por corruptos, nepotistas e autoritários de toda sorte.
A “escravização da alma” só pode ser feita por meio da desmoralização do contraditório, que ameaça a percepção do real que o regime quer construir. Só se entrega de corpo e alma aquele que é “protegido” da realidade e aceita a lógica oferecida pelo discurso da “maioria”, verbalizado por seus iluminados representantes – entre os quais jornalistas e intelectuais que gozam de benesses oficiais. Nesse contexto, os dissidentes não são tratados somente como “oposição”, como queria Stuart Mill. Eles se transformam em “golpistas” – de acordo com esse raciocínio, quem denuncia os desvios éticos e morais do governo, como faz a imprensa, torna-se parte de uma “conspiração” para minar o projeto mais amplo, e moralmente inatacável, de “transformação” da sociedade.
Os regimes de vocação totalitária funcionam assim. Durante o governo de Stálin na URSS, não havia opositores, havia “inimigos do povo”, vistos como sabotadores do “novo mundo” que estava sendo criado. A despeito dos conhecidíssimos horrores do stalinismo contra os milhões de “inimigos do povo”, muitos intelectuais ocidentais apoiaram Stálin de modo entusiasmado. Mas estes pelo menos tinham a desculpa de viver fora da URSS e desconhecer a realidade local em sua totalidade. No entanto, mesmo intelectuais russos respeitados aceitaram o stalinismo e sua brutalidade como parte do processo. Boris Pasternak, por exemplo, escreveu em 1935: “A verdade é que, quanto mais vivo, mais firmemente acredito no que está sendo feito (na URSS), apesar de tudo. Boa parte disso pode parecer selvageria, mas as pessoas nunca olharam tanto para o futuro, e com uma autoestima tão alta, e com motivos tão bons, e por razões tão vitais e lúcidas”.
Do mesmo modo, a autoestima dos brasileiros nunca esteve tão alta, segundo a avaliação dos lulistas, e isso parece ser bom o bastante para ignorar a corrupção e a destruição da ética ou então para relativizá-las, como se fossem um preço menor a pagar pelo desenvolvimento do país. Os brasileiros que discordam disso são constrangidos a se manter calados. “A opinião pública somos nós”, bradou Lula, para não deixar dúvidas sobre quem determina o pensamento no Brasil. Em outras palavras, a oposição que não puder ser comprada deve ser desmoralizada (ou “extirpada”, nas palavras do presidente).
Do ponto de vista dos brasileiros que não se alinham ao lulismo, portanto, as perspectivas não são nada boas. Em seu Twitter, Dilma (ou alguém em seu nome) escreveu neste domingo eleitoral: “De novo, sem palavras para agradecer a todos os que estiveram a meu lado nessa caminhada. Hoje é #13neles”. Por que “#13neles”? Neles quem? Nos “inimigos do povo”?
Dilma, porém, reservou palavras menos hostis quando comentou, em entrevista em Porto Alegre, sobre como pretende governar: “É exigido que as pessoas que assumam a direção do país tenham sentido republicano e tenham compromisso de governar para todos. Agora, a minha coligação, a que me trouxe até aqui, é a coligação com a qual eu vou governar. Eu governarei para todos”.
Que assim seja.
por Marcos Guterman
Blogs Estadão
Seção: América Latina
31.outubro.2010 19:15:57
A eleição de Dilma Rousseff foi uma prova da enorme força política do presidente Lula. Ele não apenas fez sua sucessora; ele inventou uma, construindo sua candidatura do nada, a partir da constatação de que todos os quadros petistas com potencial de substituí-lo haviam sido devorados por escândalos. Lula colocou sua formidável biografia e sua inédita popularidade a serviço de uma completa anônima, talvez com o único e simples objetivo de mostrar que podia criar um presidente de acordo com sua vontade. O grau de personalismo envolvido na sucessão, aliado ao fato de que o conhecimento que temos sobre a capacidade administrativa de Dilma é bastante limitado, obriga a analisar as perspectivas do próximo governo pela régua do lulismo e sua obsessão pela unanimidade. E todo o discurso que começou a ser construído há mais de dois anos, quando Lula lançou Dilma mesmo quando a lei não permitia, sugere que a minoria – isto é, aqueles brasileiros que não comungam das ideias do presidente-messias – será vista somente como um bom argumento para consolidar o exercício da tirania da maioria.
O conceito de tirania da maioria nas democracias foi elaborado por John Stuart Mill em sua obra “Sobre a Liberdade” (1859). Para ele, a liberdade estaria ameaçada não por causa do governo, mas pela maioria da sociedade alinhada ao governo, que enxerga a minoria dissidente como um risco permanente. O problema de Stuart Mill não era criar qualquer forma de proteção, em princípio, à minoria, mas sim garantir que a maioria fosse ao menos tolerante com a opinião que lhe fosse contrária. No limite, significava que a liberdade não podia ser tratada como uma “concessão” da maioria para quem se enquadrasse, mas como um direito assegurado a todos, mesmo aos dissidentes.
Sob a tirania da maioria, diz Stuart Mill, “a sociedade pode, e executa, seus próprios mandatos; e, se expede mandatos equivocados no lugar dos corretos, ou quaisquer mandatos a respeito de coisas nas quais não deveria interferir, pratica uma tirania social mais temível do que muitas espécies de opressão política, uma vez que, muito embora nem sempre venha sustentada por penalidades extremas, penetra mais profundamente nos detalhes da vida, escraviza a própria alma, deixando poucas vias de fuga”.
No Brasil atual, os arvorados porta-vozes da maioria, isto é, dos brasileiros que aprovam Lula, consideram ser sua missão obter a unanimidade total em torno do lulismo. A “escravização da alma” significa manter a sociedade sob o transe da “transformação do Brasil”, enquanto as contas públicas não fecham e o Estado é rateado por corruptos, nepotistas e autoritários de toda sorte.
A “escravização da alma” só pode ser feita por meio da desmoralização do contraditório, que ameaça a percepção do real que o regime quer construir. Só se entrega de corpo e alma aquele que é “protegido” da realidade e aceita a lógica oferecida pelo discurso da “maioria”, verbalizado por seus iluminados representantes – entre os quais jornalistas e intelectuais que gozam de benesses oficiais. Nesse contexto, os dissidentes não são tratados somente como “oposição”, como queria Stuart Mill. Eles se transformam em “golpistas” – de acordo com esse raciocínio, quem denuncia os desvios éticos e morais do governo, como faz a imprensa, torna-se parte de uma “conspiração” para minar o projeto mais amplo, e moralmente inatacável, de “transformação” da sociedade.
Os regimes de vocação totalitária funcionam assim. Durante o governo de Stálin na URSS, não havia opositores, havia “inimigos do povo”, vistos como sabotadores do “novo mundo” que estava sendo criado. A despeito dos conhecidíssimos horrores do stalinismo contra os milhões de “inimigos do povo”, muitos intelectuais ocidentais apoiaram Stálin de modo entusiasmado. Mas estes pelo menos tinham a desculpa de viver fora da URSS e desconhecer a realidade local em sua totalidade. No entanto, mesmo intelectuais russos respeitados aceitaram o stalinismo e sua brutalidade como parte do processo. Boris Pasternak, por exemplo, escreveu em 1935: “A verdade é que, quanto mais vivo, mais firmemente acredito no que está sendo feito (na URSS), apesar de tudo. Boa parte disso pode parecer selvageria, mas as pessoas nunca olharam tanto para o futuro, e com uma autoestima tão alta, e com motivos tão bons, e por razões tão vitais e lúcidas”.
Do mesmo modo, a autoestima dos brasileiros nunca esteve tão alta, segundo a avaliação dos lulistas, e isso parece ser bom o bastante para ignorar a corrupção e a destruição da ética ou então para relativizá-las, como se fossem um preço menor a pagar pelo desenvolvimento do país. Os brasileiros que discordam disso são constrangidos a se manter calados. “A opinião pública somos nós”, bradou Lula, para não deixar dúvidas sobre quem determina o pensamento no Brasil. Em outras palavras, a oposição que não puder ser comprada deve ser desmoralizada (ou “extirpada”, nas palavras do presidente).
Do ponto de vista dos brasileiros que não se alinham ao lulismo, portanto, as perspectivas não são nada boas. Em seu Twitter, Dilma (ou alguém em seu nome) escreveu neste domingo eleitoral: “De novo, sem palavras para agradecer a todos os que estiveram a meu lado nessa caminhada. Hoje é #13neles”. Por que “#13neles”? Neles quem? Nos “inimigos do povo”?
Dilma, porém, reservou palavras menos hostis quando comentou, em entrevista em Porto Alegre, sobre como pretende governar: “É exigido que as pessoas que assumam a direção do país tenham sentido republicano e tenham compromisso de governar para todos. Agora, a minha coligação, a que me trouxe até aqui, é a coligação com a qual eu vou governar. Eu governarei para todos”.
Que assim seja.
Marcadores:
Dilma Rousseff,
Marcos Guterman
O primeiro discurso da presidente eleita
Em discurso, Dilma se compromete a estender a mão para a oposição; leia a íntegra
'Reforço o meu compromisso: a erradicação da miséria e a criação de oportunidade para todos os brasileiros e brasileiras', afirmou a nova presidente brasileira
Gustavo Uribe - Agência Estado
31 de outubro de 2010 | 23h 08
Em tom conciliatório, após um segundo turno inflamado, a petista afirmou que pretende honrar os compromissos estabelecidos nos governos anteriores, dando continuidade às conquistas alcançadas no Brasil. A petista ressaltou que a meta mais ambiciosa de seu futuro governo será erradicar a fome no País. "Reforço o meu compromisso: a erradicação da miséria e a criação de oportunidade para todos os brasileiros e brasileiras", afirmou.
Nos 25 minutos de discurso, a candidata destacou que os brasileiros não podem descansar enquanto houver fome e o crack "reinar" no Brasil. "A erradicação da miséria é uma meta que assumo, mas que peço humildemente o apoio de todos", afirmou. Ao lado de seu vice, deputado federal Michel Temer (PMDB), a presidente eleita reconheceu que ambos terão um "duro trabalho" para qualificar o desenvolvimento econômico do País.
A petista destacou que a crise financeira mundial ainda se perpetua nas economias desenvolvidas e que o Brasil não conta atualmente com a ajuda "da pujança das nações desenvolvidas". "É preciso reconhecer que teremos grandes responsabilidades num mundo que ainda enfrenta os desafios de uma crise financeira mundial", afirmou. "Eu estou longe de dizer com isso que pretendemos fechar o País ao mundo, muito pelo contrário", ponderou.
Ela destacou ainda que pretende enfrentar a guerra cambial e a inflação e defendeu a criação, no plano multilateral, de regras que evitem a alavancagem e a disputa excessiva entre os países. "Atuaremos firmemente nos fóruns internacionais", garantiu a petista e, em seguida, prometeu fazer todos os esforços pela " melhoria dos gastos públicos" e pela "simplificação da tributação". Mas, ponderou: "Recusamos as visões de ajustes que recaem sobre programas sociais, serviços fundamentais e sobre os investimentos que sejam bons para o Brasil."
Dilma Rousseff prometeu também zelar em seu futuro governo pela poupança pública, pela meritocracia na gestão pública e pelo aperfeiçoamento de todos os mecanismos públicos. "Construirei modernos mecanismos de aperfeiçoamento econômico", garantiu. Ela pregou ainda a estabilidade econômica e o respeito aos contratos firmados pelo governo federal. Ela garantiu ainda que trabalhará pela aprovação, no Congresso Nacional, do projeto de lei que cria um Fundo Social por meio dos recursos extraídos da exploração da camada do pré-sal.
Leia a seguir o discurso da nova presidente do Brasil na íntegra:
"Minhas amigas e meus amigos de todo o Brasil,
É imensa a minha alegria de estar aqui. Recebi hoje de milhões de brasileiras e brasileiros a missão mais importante de minha vida. Este fato, para além de minha pessoa, é uma demonstração do avanço democrático do nosso país: pela primeira vez uma mulher presidirá o Brasil. Já registro portanto aqui meu primeiro compromisso após a eleição: honrar as mulheres brasileiras, para que este fato, até hoje inédito, se transforme num evento natural. E que ele possa se repetir e se ampliar nas empresas, nas instituições civis, nas entidades representativas de toda nossa sociedade.
A igualdade de oportunidades para homens e mulheres é um principio essencial da democracia. Gostaria muito que os pais e mães de meninas olhassem hoje nos olhos delas, e lhes dissessem: SIM, a mulher pode!
Minha alegria é ainda maior pelo fato de que a presença de uma mulher na presidência da República se dá pelo caminho sagrado do voto, da decisão democrática do eleitor, do exercício mais elevado da cidadania. Por isso, registro aqui outro compromisso com meu país:
- Valorizar a democracia em toda sua dimensão, desde o direito de opinião e expressão até os direitos essenciais da alimentação, do emprego e da renda, da moradia digna e da paz social.
- Zelarei pela mais ampla e irrestrita liberdade de imprensa.
- Zelarei pela mais ampla liberdade religiosa e de culto.
- Zelarei pela observação criteriosa e permanente dos direitos humanos tão claramente consagrados em nossa constituição.
- Zelarei, enfim, pela nossa Constituição, dever maior da presidência da República.
Nesta longa jornada que me trouxe aqui pude falar e visitar todas as nossas regiões. O que mais me deu esperanças foi a capacidade imensa do nosso povo, de agarrar uma oportunidade, por mais singela que seja, e com ela construir um mundo melhor para sua família. É simplesmente incrível a capacidade de criar e empreender do nosso povo. Por isso, reforço aqui meu compromisso fundamental: a erradicação da miséria e a criação de oportunidades para todos os brasileiros e brasileiras.
Ressalto, entretanto, que esta ambiciosa meta não será realizada pela vontade do governo. Ela é um chamado à nação, aos empresários, às igrejas, às entidades civis, às universidades, à imprensa, aos governadores, aos prefeitos e a todas as pessoas de bem.
Não podemos descansar enquanto houver brasileiros com fome, enquanto houver famílias morando nas ruas, enquanto crianças pobres estiverem abandonadas à própria sorte. A erradicação da miséria nos próximos anos é, assim, uma meta que assumo, mas para a qual peço humildemente o apoio de todos que possam ajudar o país no trabalho de superar esse abismo que ainda nos separa de ser uma nação desenvolvida.
O Brasil é uma terra generosa e sempre devolverá em dobro cada semente que for plantada com mão amorosa e olhar para o futuro. Minha convicção de assumir a meta de erradicar a miséria vem, não de uma certeza teórica, mas da experiência viva do nosso governo, no qual uma imensa mobilidade social se realizou, tornando hoje possível um sonho que sempre pareceu impossível.
Reconheço que teremos um duro trabalho para qualificar o nosso desenvolvimento econômico. Essa nova era de prosperidade criada pela genialidade do presidente Lula e pela força do povo e de nossos empreendedores encontra seu momento de maior potencial numa época em que a economia das grandes nações se encontra abalada.
No curto prazo, não contaremos com a pujança das economias desenvolvidas para impulsionar nosso crescimento. Por isso, se tornam ainda mais importantes nossas próprias políticas, nosso próprio mercado, nossa própria poupança e nossas próprias decisões econômicas.
Longe de dizer, com isso, que pretendamos fechar o país ao mundo. Muito ao contrário, continuaremos propugnando pela ampla abertura das relações comerciais e pelo fim do protecionismo dos países ricos, que impede as nações pobres de realizar plenamente suas vocações.
Mas é preciso reconhecer que teremos grandes responsabilidades num mundo que enfrenta ainda os efeitos de uma crise financeira de grandes proporções e que se socorre de mecanismos nem sempre adequados, nem sempre equilibrados, para a retomada do crescimento.
É preciso, no plano multilateral, estabelecer regras mais claras e mais cuidadosas para a retomada dos mercados de financiamento, limitando a alavancagem e a especulação desmedida, que aumentam a volatilidade dos capitais e das moedas. Atuaremos firmemente nos fóruns internacionais com este objetivo.
Cuidaremos de nossa economia com toda responsabilidade. O povo brasileiro não aceita mais a inflação como solução irresponsável para eventuais desequilíbrios. O povo brasileiro não aceita que governos gastem acima do que seja sustentável.
Por isso, faremos todos os esforços pela melhoria da qualidade do gasto público, pela simplificação e atenuação da tributação e pela qualificação dos serviços públicos. Mas recusamos as visões de ajustes que recaem sobre os programas sociais, os serviços essenciais à população e os necessários investimentos.
Sim, buscaremos o desenvolvimento de longo prazo, a taxas elevadas, social e ambientalmente sustentáveis. Para isso zelaremos pela poupança pública.
Zelaremos pela meritocracia no funcionalismo e pela excelência do serviço público. Zelarei pelo aperfeiçoamento de todos os mecanismos que liberem a capacidade empreendedora de nosso empresariado e de nosso povo. Valorizarei o Micro Empreendedor Individual, para formalizar milhões de negócios individuais ou familiares, ampliarei os limites do Supersimples e construirei modernos mecanismos de aperfeiçoamento econômico, como fez nosso governo na construção civil, no setor elétrico, na lei de recuperação de empresas, entre outros.
As agências reguladoras terão todo respaldo para atuar com determinação e autonomia, voltadas para a promoção da inovação, da saudável concorrência e da efetividade dos setores regulados.
Apresentaremos sempre com clareza nossos planos de ação governamental. Levaremos ao debate público as grandes questões nacionais. Trataremos sempre com transparência nossas metas, nossos resultados, nossas dificuldades.
Mas acima de tudo quero reafirmar nosso compromisso com a estabilidade da economia e das regras econômicas, dos contratos firmados e das conquistas estabelecidas.
Trataremos os recursos provenientes de nossas riquezas sempre com pensamento de longo prazo. Por isso trabalharei no Congresso pela aprovação do Fundo Social do Pré-Sal. Por meio dele queremos realizar muitos de nossos objetivos sociais.
Recusaremos o gasto efêmero que deixa para as futuras gerações apenas as dívidas e a desesperança.
O Fundo Social é mecanismo de poupança de longo prazo, para apoiar as atuais e futuras gerações. Ele é o mais importante fruto do novo modelo que propusemos para a exploração do pré-sal, que reserva à Nação e ao povo a parcela mais importante dessas riquezas.
Definitivamente, não alienaremos nossas riquezas para deixar ao povo só migalhas. Me comprometi nesta campanha com a qualificação da Educação e dos Serviços de Saúde. Me comprometi também com a melhoria da segurança pública. Com o combate às drogas que infelicitam nossas famílias.
Reafirmo aqui estes compromissos. Nomearei ministros e equipes de primeira qualidade para realizar esses objetivos. Mas acompanharei pessoalmente estas áreas capitais para o desenvolvimento de nosso povo.
A visão moderna do desenvolvimento econômico é aquela que valoriza o trabalhador e sua família, o cidadão e sua comunidade, oferecendo acesso a educação e saúde de qualidade. É aquela que convive com o meio ambiente sem agredi-lo e sem criar passivos maiores que as conquistas do próprio desenvolvimento.
Não pretendo me estender aqui, neste primeiro pronunciamento ao país, mas quero registrar que todos os compromissos que assumi, perseguirei de forma dedicada e carinhosa. Disse na campanha que os mais necessitados, as crianças, os jovens, as pessoas com deficiência, o trabalhador desempregado, o idoso teriam toda minha atenção. Reafirmo aqui este compromisso.
Fui eleita com uma coligação de dez partidos e com apoio de lideranças de vários outros partidos. Vou com eles construir um governo onde a capacidade profissional, a liderança e a disposição de servir ao país será o critério fundamental.
Vou valorizar os quadros profissionais da administração pública, independente de filiação partidária.
Dirijo-me também aos partidos de oposição e aos setores da sociedade que não estiveram conosco nesta caminhada. Estendo minha mão a eles. De minha parte não haverá discriminação, privilégios ou compadrio.
A partir de minha posse serei presidenta de todos os brasileiros e brasileiras, respeitando as diferenças de opinião, de crença e de orientação política. Nosso país precisa ainda melhorar a conduta e a qualidade da política. Quero empenhar-me, junto com todos os partidos, numa reforma política que eleve os valores republicanos, avançando em nossa jovem democracia.
Ao mesmo tempo, afirmo com clareza que valorizarei a transparência na administração pública. Não haverá compromisso com o erro, o desvio e o malfeito. Serei rígida na defesa do interesse público em todos os níveis de meu governo. Os órgãos de controle e de fiscalização trabalharão com meu respaldo, sem jamais perseguir adversários ou proteger amigos.
Deixei para o final os meus agradecimentos, pois quero destacá-los. Primeiro, ao povo que me dedicou seu apoio. Serei eternamente grata pela oportunidade única de servir ao meu país no seu mais alto posto. Prometo devolver em dobro todo o carinho recebido, em todos os lugares que passei.
Mas agradeço respeitosamente também aqueles que votaram no primeiro e no segundo turno em outros candidatos ou candidatas. Eles também fizeram valer a festa da democracia.
Agradeço as lideranças partidárias que me apoiaram e comandaram esta jornada, meus assessores, minhas equipes de trabalho e todos os que dedicaram meses inteiros a esse árduo trabalho. Agradeço a imprensa brasileira e estrangeira que aqui atua e cada um de seus profissionais pela cobertura do processo eleitoral.
Não nego a vocês que, por vezes, algumas das coisas difundidas me deixaram triste. Mas quem, como eu, lutou pela democracia e pelo direito de livre opinião arriscando a vida; quem, como eu e tantos outros que não estão mais entre nós, dedicamos toda nossa juventude ao direito de expressão, nós somos naturalmente amantes da liberdade. Por isso, não carregarei nenhum ressentimento.
Disse e repito que prefiro o barulho da imprensa livre ao silencio das ditaduras. As criticas do jornalismo livre ajudam ao pais e são essenciais aos governos democráticos, apontando erros e trazendo o necessário contraditório.
Agradeço muito especialmente ao presidente Lula. Ter a honra de seu apoio, ter o privilégio de sua convivência, ter aprendido com sua imensa sabedoria, são coisas que se guarda (sic) para a vida toda.
Conviver durante todos estes anos com ele me deu a exata dimensão do governante justo e do líder apaixonado por seu pais e por sua gente. A alegria que sinto pela minha vitória se mistura com a emoção da sua despedida.
Sei que um líder como Lula nunca estará longe de seu povo e de cada um de nós. Baterei muito a sua porta e, tenho certeza, que a encontrarei sempre aberta. Sei que a distância de um cargo nada significa para um homem de tamanha grandeza e generosidade. A tarefa de sucedê-lo é difícil e desafiadora. Mas saberei honrar seu legado. Saberei consolidar e avançar sua obra.
Aprendi com ele que quando se governa pensando no interesse público e nos mais necessitados uma imensa força brota do nosso povo. Uma força que leva o país para frente e ajuda a vencer os maiores desafios.
Passada a eleição agora é hora de trabalho. Passado o debate de projetos agora é hora de união. União pela educação, união pelo desenvolvimento, união pelo país. Junto comigo foram eleitos novos governadores, deputados, senadores. Ao parabenizá-los, convido a todos, independente de cor partidária, para uma ação determinada pelo futuro de nosso país.
Sempre com a convicção de que a Nação Brasileira será exatamente do tamanho daquilo que, juntos, fizermos por ela.
Muito obrigada."
Marcadores:
Dilma Rousseff,
discurso presidencial
A primeira analise do quadro pos-eleitoral
Qual é o futuro da oposição? Sair do armário. Ou não tem futuro.
Reinaldo Azevedo, 1.11.2010
Começo este texto pela ressalva: qualquer comentário que não leve em conta a truculência oficial no processo eleitoral será sempre manco. Nunca se viu uso tão descarado da máquina pública em favor de uma candidatura. O desassombro com que o presidente Lula renunciou a qualquer resquício de decoro, à tal liturgia do cargo, para se entregar ao bate-boca eleitoral é certamente inédito. Nunca se viu uma agenda administrativa tão colada à agenda eleitoral e partidária. Até mesmo o anúncio de uma possível nova reserva gigante de petróleo no pré-sal - que pode conter “x” bilhões de barris ou “5x” - se fez de acordo com as exigências do calendário político: dois dias antes da eleição. E assim se fez quando a peça da resistência da campanha eleitoral petista era justamente a suposta, porque falsa, intenção dos tucanos de privatizar a Petrobras e o pré-sal. A ressalva se estende por mais um parágrafo ainda, antes que retome o fio da primeira linha.
Nunca antes nestepaiz se viu tanta sujeira numa campanha. Já na largada, descobriu-se um verdadeiro bunker montado em Brasília destinado à produção de dossiês. Constatou-se, o que endossou as acusações de Serra, que o sigilo fiscal de tucanos e de familiares do candidato havia sido violado. Em todos os casos, as digitais do petismo se fizeram presentes. No bate-boca eleitoral, atribuiu-se, com a colaboração de setores da imprensa - o que é fabuloso -, o jogo bruto à vítima. Isso também é inédito Feitas as ressalvas, retomemos o fio.
Há pelo menos oito anos, esta que se chama hoje oposição é refém da narrativa que o PT inventou para ela. As três campanhas eleitorais tucanas - 2002, 2006 e 2010 - mostraram-se incapazes de responder à vaga de desqualificação do petismo. Nem mesmo se pode dizer que consegue ser apenas reativa porque nem a isso chega. Ao contrário até: faz um enorme esforço para mudar de assunto. E a estratégia tem falhado reiteradamente. Disputou com candidatos ruins? De jeito nenhum! José Serra e Geraldo Alckmin eram personagens eleitoralmente viáveis. O problema é de outra natureza. Parece haver um erro básico de leitura da realidade.
Tenho pra mim que há três eleições pelo menos os tucanos se tornaram reféns também de pesquisas qualitativas: em 2002, o fantasma era a “impopularidade” de FHC, o que fez com que a campanha da oposição tentasse se descolar do governo - governo que tinha, sim, passado pela crise energética em 2001, mas que reunia méritos gigantescos, muitos deles então frescos na cabeça do eleitor. Mas as pesquisas diziam: “Não toquem no nome de FHC pelo amor de Deus!”. E o governo que havia estabilizado a economia, domado a inflação, tirado muitos milhões da miséria, inaugurado os programas sociais que viraram o Bolsa Família, bem, aquele governo parecia um anátema.
Em 2006, com Geraldo Alckmin candidato, o PSDB insistiu no mesmo erro básico - medo de sua história. Às mistificações do lulo-petismo, respondeu com o que chamo “maximização do mínimalismo administrativista”, erro, entendo, reiterado desta vez. O fantasma da privatização, brandido de novo pelo petismo, é um bom emblema. O marketing tucano caiu duas vezes no mesmo truque, tropeçou duas vezes na mesma pedra, permitiu que João Santana risse duas vezes da mesma piada.
Ora, é falso, mentiroso, mistificação barata, sustentar duas coisas, a saber: a) que a concessão de áreas para a exploração de petróleo seja privatização; b) que os tucanos queriam privatizar a Petrobras e o pré-sal. Mas qual foi a reação, TARDIA, da propaganda do PSDB na TV? Agasalhar a tese de que concessão é privatização; tomar a privatização com um malefício e depois devolver a acusação: “Quem fez, sei lá, 108 ‘privatizações’ foi a Dilma”. Ou seja: tentou falar a linguagem do inimigo, aderir à sua racionalidade vigarista, para tentar inverter o jogo. Em nenhum momento os programas eleitorais do PSDB se lembraram de INFORMAR aos eleitores que, quando FHC chegou ao poder, o Brasil produzia 700 mil barris de petróleo por dia; quando ele deixou o governo, em 2002, o país produzia 1,4 milhão de barris - o dobro. No governo Lula, o aumento da produção foi de 50%.
Não quero me ater neste texto aos muitos erros do horário eleitoral. Até porque esses poucos que citei servem apenas para ilustrar uma tese: se quer voltar ao poder federal, a oposição terá, em primeiro lugar, de se tonar senhora de sua própria história, recolocando os fatos em seu devido lugar. E terá de enfrentar o lulo-petismo sem receio - terá de enfrentar, inclusive, o mito do “Lula intocável”. Porque os números,ao contrário do que rezam as aparências, demonstram que isso também é falso, o que fica para outro texto.
Desde já
Se as atuais oposições pretendem voltar ao poder em 2015, vencendo, pois, as eleições de 2014, têm de começar a enfrentar o governo desde já - ou, vá lá, a partir de 2 de janeiro de 2011.Assim se faz nas grandes democracias do mundo. Barack Obama estava no poder havia 15 dias, e o odiado Dick Cheney deu o grito de guerra. Alguns chegaram a dizer que ele estava enterrando o Partido Republicano. É mesmo? Pois os republicanos estão prestes a tomar de Obama a maioria no Senado e na Câmara. E olhem que, em matéria de mito, o presidente americano dá surra em qualquer um.
De fato, foram oito anos de quase não-oposição - essa é a verdade. E não se consegue despertar para esse mister nos quatro ou cinco meses que antecedem uma eleição. Nesse tempo, o PT contou a história como bem quis. “Então você sugere que os tucanos digam ‘não’ ao governo mesmo quando a proposta é boa, seguindo o modelo petista?” Não! Eu sugiro que os tucanos, democratas e quantos se oponham ao PT - desde que não seja optando pela extrema esquerda, claro! - tentem apresentar sempre propostas MELHORES. E que não tenha receio de ter a sua agenda. É difícil? Claro que sim! Mas precisa ser feito.
Dilma, agora, vai procurar a conciliação. É da natureza do jogo. A conversa é a de sempre: “Os interesses do país pedem etc e tal”. O próprio Lula se lembrará de ser um “conciliador”, convocando os homens que querem o bem do Brasil… Até a próxima disputa. Se os oposicionistas caírem na conversa da tal “agenda comum”, serão jantados de novo daqui a pouco.
Agenda comum?
Como sempre, o começo do governo será pautado pela urgência da reforma política, da reforma tributária, da reforma trabalhista - as reformas, enfim, que todos dizem querer fazer e que acabam não sendo feitas. O governo Dilma terá maioria esmagadora na Câmara e no Senado. Mas sabemos todos que essa maioria nominal não diz muita coisa a depender do tema. Sim, a oposição tem de ter as suas próprias propostas e brigar muito por elas no detalhe, comparecendo para o debate.
Quem quer que vá liderar esse trabalho tem de se mostrar como uma alternativa de poder, não como linha auxiliar do governo, o que o PSDB demonstrou ser muitas vezes. Isso não impediu, como se viu em 2006 e 2010, o eficiente trabalho de satanização promovido pelo PT. Considerados os governos dos estados, e ainda escreverei mais a respeito, as oposições governarão praticamente a metade da população e, vou fazer as contas, mais de 60% do PIB. Têm um base formidável para traçar as coordenadas de seu futuro. E, curiosamente, o seu futuro tem de começar por não ter medo do seu passado, que tem de ser libertado do cativeiro em que o prendeu o PT.
Reinaldo Azevedo, 1.11.2010
Começo este texto pela ressalva: qualquer comentário que não leve em conta a truculência oficial no processo eleitoral será sempre manco. Nunca se viu uso tão descarado da máquina pública em favor de uma candidatura. O desassombro com que o presidente Lula renunciou a qualquer resquício de decoro, à tal liturgia do cargo, para se entregar ao bate-boca eleitoral é certamente inédito. Nunca se viu uma agenda administrativa tão colada à agenda eleitoral e partidária. Até mesmo o anúncio de uma possível nova reserva gigante de petróleo no pré-sal - que pode conter “x” bilhões de barris ou “5x” - se fez de acordo com as exigências do calendário político: dois dias antes da eleição. E assim se fez quando a peça da resistência da campanha eleitoral petista era justamente a suposta, porque falsa, intenção dos tucanos de privatizar a Petrobras e o pré-sal. A ressalva se estende por mais um parágrafo ainda, antes que retome o fio da primeira linha.
Nunca antes nestepaiz se viu tanta sujeira numa campanha. Já na largada, descobriu-se um verdadeiro bunker montado em Brasília destinado à produção de dossiês. Constatou-se, o que endossou as acusações de Serra, que o sigilo fiscal de tucanos e de familiares do candidato havia sido violado. Em todos os casos, as digitais do petismo se fizeram presentes. No bate-boca eleitoral, atribuiu-se, com a colaboração de setores da imprensa - o que é fabuloso -, o jogo bruto à vítima. Isso também é inédito Feitas as ressalvas, retomemos o fio.
Há pelo menos oito anos, esta que se chama hoje oposição é refém da narrativa que o PT inventou para ela. As três campanhas eleitorais tucanas - 2002, 2006 e 2010 - mostraram-se incapazes de responder à vaga de desqualificação do petismo. Nem mesmo se pode dizer que consegue ser apenas reativa porque nem a isso chega. Ao contrário até: faz um enorme esforço para mudar de assunto. E a estratégia tem falhado reiteradamente. Disputou com candidatos ruins? De jeito nenhum! José Serra e Geraldo Alckmin eram personagens eleitoralmente viáveis. O problema é de outra natureza. Parece haver um erro básico de leitura da realidade.
Tenho pra mim que há três eleições pelo menos os tucanos se tornaram reféns também de pesquisas qualitativas: em 2002, o fantasma era a “impopularidade” de FHC, o que fez com que a campanha da oposição tentasse se descolar do governo - governo que tinha, sim, passado pela crise energética em 2001, mas que reunia méritos gigantescos, muitos deles então frescos na cabeça do eleitor. Mas as pesquisas diziam: “Não toquem no nome de FHC pelo amor de Deus!”. E o governo que havia estabilizado a economia, domado a inflação, tirado muitos milhões da miséria, inaugurado os programas sociais que viraram o Bolsa Família, bem, aquele governo parecia um anátema.
Em 2006, com Geraldo Alckmin candidato, o PSDB insistiu no mesmo erro básico - medo de sua história. Às mistificações do lulo-petismo, respondeu com o que chamo “maximização do mínimalismo administrativista”, erro, entendo, reiterado desta vez. O fantasma da privatização, brandido de novo pelo petismo, é um bom emblema. O marketing tucano caiu duas vezes no mesmo truque, tropeçou duas vezes na mesma pedra, permitiu que João Santana risse duas vezes da mesma piada.
Ora, é falso, mentiroso, mistificação barata, sustentar duas coisas, a saber: a) que a concessão de áreas para a exploração de petróleo seja privatização; b) que os tucanos queriam privatizar a Petrobras e o pré-sal. Mas qual foi a reação, TARDIA, da propaganda do PSDB na TV? Agasalhar a tese de que concessão é privatização; tomar a privatização com um malefício e depois devolver a acusação: “Quem fez, sei lá, 108 ‘privatizações’ foi a Dilma”. Ou seja: tentou falar a linguagem do inimigo, aderir à sua racionalidade vigarista, para tentar inverter o jogo. Em nenhum momento os programas eleitorais do PSDB se lembraram de INFORMAR aos eleitores que, quando FHC chegou ao poder, o Brasil produzia 700 mil barris de petróleo por dia; quando ele deixou o governo, em 2002, o país produzia 1,4 milhão de barris - o dobro. No governo Lula, o aumento da produção foi de 50%.
Não quero me ater neste texto aos muitos erros do horário eleitoral. Até porque esses poucos que citei servem apenas para ilustrar uma tese: se quer voltar ao poder federal, a oposição terá, em primeiro lugar, de se tonar senhora de sua própria história, recolocando os fatos em seu devido lugar. E terá de enfrentar o lulo-petismo sem receio - terá de enfrentar, inclusive, o mito do “Lula intocável”. Porque os números,ao contrário do que rezam as aparências, demonstram que isso também é falso, o que fica para outro texto.
Desde já
Se as atuais oposições pretendem voltar ao poder em 2015, vencendo, pois, as eleições de 2014, têm de começar a enfrentar o governo desde já - ou, vá lá, a partir de 2 de janeiro de 2011.Assim se faz nas grandes democracias do mundo. Barack Obama estava no poder havia 15 dias, e o odiado Dick Cheney deu o grito de guerra. Alguns chegaram a dizer que ele estava enterrando o Partido Republicano. É mesmo? Pois os republicanos estão prestes a tomar de Obama a maioria no Senado e na Câmara. E olhem que, em matéria de mito, o presidente americano dá surra em qualquer um.
De fato, foram oito anos de quase não-oposição - essa é a verdade. E não se consegue despertar para esse mister nos quatro ou cinco meses que antecedem uma eleição. Nesse tempo, o PT contou a história como bem quis. “Então você sugere que os tucanos digam ‘não’ ao governo mesmo quando a proposta é boa, seguindo o modelo petista?” Não! Eu sugiro que os tucanos, democratas e quantos se oponham ao PT - desde que não seja optando pela extrema esquerda, claro! - tentem apresentar sempre propostas MELHORES. E que não tenha receio de ter a sua agenda. É difícil? Claro que sim! Mas precisa ser feito.
Dilma, agora, vai procurar a conciliação. É da natureza do jogo. A conversa é a de sempre: “Os interesses do país pedem etc e tal”. O próprio Lula se lembrará de ser um “conciliador”, convocando os homens que querem o bem do Brasil… Até a próxima disputa. Se os oposicionistas caírem na conversa da tal “agenda comum”, serão jantados de novo daqui a pouco.
Agenda comum?
Como sempre, o começo do governo será pautado pela urgência da reforma política, da reforma tributária, da reforma trabalhista - as reformas, enfim, que todos dizem querer fazer e que acabam não sendo feitas. O governo Dilma terá maioria esmagadora na Câmara e no Senado. Mas sabemos todos que essa maioria nominal não diz muita coisa a depender do tema. Sim, a oposição tem de ter as suas próprias propostas e brigar muito por elas no detalhe, comparecendo para o debate.
Quem quer que vá liderar esse trabalho tem de se mostrar como uma alternativa de poder, não como linha auxiliar do governo, o que o PSDB demonstrou ser muitas vezes. Isso não impediu, como se viu em 2006 e 2010, o eficiente trabalho de satanização promovido pelo PT. Considerados os governos dos estados, e ainda escreverei mais a respeito, as oposições governarão praticamente a metade da população e, vou fazer as contas, mais de 60% do PIB. Têm um base formidável para traçar as coordenadas de seu futuro. E, curiosamente, o seu futuro tem de começar por não ter medo do seu passado, que tem de ser libertado do cativeiro em que o prendeu o PT.
Marcadores:
missao da oposicao,
Reinaldo Azevedo
Resultados eleitorais (a 99 por cento)
dilma PT
55.744.942
56,05%
56,05%
josé serra PSDB
43.707.036
43,95%
43,95%
Brancos 2,3% (2.452.503)
Nulos 4,4% (4.688.612)
Abstenção 21,5% (29.189.119)
Eleitorado apurado
135.782.484
99,98%
Seções totalizadas
399.912
Marcadores:
Eleicoes presidenciais,
resultados
Assinar:
Postagens (Atom)
