Mostrando postagens com marcador Lula. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Lula. Mostrar todas as postagens

sábado, 30 de outubro de 2010

O cabo eleitoral - Ruy Fabiano

Minha impressão é a de que esse jornalista foi muito generoso e complacente, como esse cabo eleitoral.
Paulo Roberto de Almeida

O cabo eleitoral
Ruy Fabiano
30.10.2010

 A presente campanha eleitoral, que amanhã (enfim) chega ao fim, entra para a história como aquela em que os personagens centrais não foram nem os candidatos, nem suas propostas, mas um cabo eleitoral: o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva.

Ele foi o fator de desequilíbrio, colocando em segundo plano – na verdade, em nenhum plano – os temas que poderiam ter algum relevo, reduzindo a campanha a um plebiscito entre ele e “os outros”.
Nesse embate, valeu tudo: atribuir ao adversário causas que não sustentou – como a privatização da Petrobras – e condutas que não teve, como a de forjar uma agressão que efetivamente sofreu, num ato eleitoral no Rio, semana passada.

Até hoje, não obstante demonstrações periciais – não apenas a da TV Globo, mas também a do SBT -, Lula insiste em que Serra foi atingido apenas por uma “bolinha de papel”, deixando de lado o fator essencial do episódio, que foi a tentativa da militância do PT de barrar uma manifestação eleitoral legítima, mediante truculência.

Seja quem for o vencedor, haverá consequências, dado o ambiente de exacerbação que essa conduta ocasionou. Lula investiu no sentimento divisionista da sociedade, o que é sempre perigoso, além de contraproducente.

Não poucas vezes, incitou a luta de classes, atribuiu ao candidato adversário a pecha de inimigo dos pobres e do Nordeste, empenhado em vender o patrimônio público e desfazer benesses sociais, como o Bolsa Família, que, na verdade, nem foi concebida em seu governo, mas no do adversário. O resultado é preocupante.

Vencendo, Dilma Roussef não contará com a boa vontade dos derrotados para estabelecer um padrão equilibrado de oposição. Vencendo Serra, o clima será ainda mais hostil, dados os efeitos da conduta presidencial sobre a militância petista. A agravar o quadro está a perspectiva de que o país está no fim do ciclo de bonanças.

Ciro Gomes, aliado de Dilma, já antevia uma séria crise fiscal no horizonte, que obrigará o futuro governo a tomar medidas impopulares. Isso implica a necessidade de um ambiente político propício ao debate e à negociação. Não é preciso dizer que esse ambiente inexiste e tende a se agravar com o resultado eleitoral, não importa quem vença.

Embora as pesquisas indiquem razoável margem de favoritismo para Dilma, o próprio PT sabe que não há tanto conforto assim e que há chances concretas de um resultado adverso. Daí a radicalização dos dias finais. Quem está seguro da vitória não radicaliza. Ao contrário, providencia pontes com o adversário, tendo em vista o day after. Não há nenhuma ponte à vista – só muros.

Lula errou na dose. Jogou toda a sua popularidade em prol de uma facção, embora ela lhe advenha do conjunto da sociedade e não de um partido. Basta ver que sua candidata obteve em votos, no primeiro turno, pouco mais da metade da aprovação dada nas pesquisas a seu governo, o que indica que nem todos que aprovam Lula querem Dilma como sucessora. É uma leitura óbvia.

É legítimo que um presidente da República tenha um candidato e que o manifeste. Todos os antecessores de Lula o tiveram e o manifestaram. Nenhum, porém, ao ponto de atropelar a liturgia do cargo e se transformar em cabo eleitoral, envolvendo nessa empreitada toda a estrutura do governo.

O cabo eleitoral Lula criou ainda a figura inédita do expediente presidencial, como se o chefe da Nação estivesse circunscrito a uma carga horária específica e abdicasse da função nos feriados e fins de semana, deixando o Estado acéfalo diariamente entre as 18 horas e as 8 horas e em tempo integral nos dias em que não há expediente nas repartições públicas.

Não bastasse, ajustou a agenda de governo aos comícios de sua candidata, confundindo-os. Providenciou inaugurações onde não havia o que inaugurar, misturando as despesas do partido com as do governo. Pior que tudo: violou o calendário eleitoral, antecipando-o em quase dois anos, colecionando multas judiciais que configuram também outro ineditismo na história das eleições e da República, desde que Deodoro a proclamou.

É ele, sem dúvida, o principal personagem que esta campanha eleitoral levará para a História.

Ruy Fabiano é jornalista

Um petista arrependido - Bruno Pontes

Salvar a democracia. O resto é detalhe
jornal O Estado (Fortaleza, CE), 28 de outubro de 2010

Em outubro de 2002, Lula veio fazer comício em Fortaleza. Dali a alguns dias ele venceria no segundo turno o candidato do PSDB, José Serra. Eu estava lá na Praça do Ferreira, 17 anos, sol do meio-dia, o menino mais feliz do mundo, vestindo uma camisa adquirida no comitê da petralhada.

A multidão aguardava a aparição do futuro presidente operário (perdeu um dedo trabalhando!) como quem espera Mick Jagger surgir por detrás da cortina. Quando Lula tomou o palco, a comoção da massa me fez acreditar que eu participava de um famoso “momento histórico”. Como eu era consciente! Como era crítico o meu pensamento! Eu morria de orgulho de mim.

Não há uma fala retardada de Lula que não me remeta àquele dia na Praça do Ferreira. Ele discursava, adivinhem, contra Fernando Henrique Cardoso (antes, hoje e sempre). Debochava de sua formação acadêmica. A exaltação da ignorância me fazia vibrar. Naquela fase mental da minha vida, eu bem que poderia estufar o peito para dizer que Lula cursara a escola da vida.

Lá pelas tantas, na cólera do ataque ao homem que havia cometido o crime de derrotar a inflação, Lula soltou a jactância triunfal. Milhões de anos passarão e eu não esquecerei as palavras: “Ele pode saber falar inglês, mas eu sei falar a língua do povo”. Foi uma explosão. Aplaudi com força, quase tive um orgasmo. Eu era um adolescente-massa com as rédeas soltas, em festa junto aos meus semelhantes.

Não é fácil revelar um episódio desses. Minha ingenuidade foi um crime. Ainda ouço a frase. Sempre sentirei vergonha do meu aplauso fanático, da minha admiração abjeta por aquele sociopata que fez carreira puxando as cordas da multidão com o bom e velho culto do ressentimento, da inveja, da estupidez e de toda sorte de instinto primitivo e politicamente útil. Os mesmos instintos primitivos que os petistas atiçam agora para manipular os simplórios de sempre.

Oito anos depois, estou escrevendo um artigo que começa com uma confissão de culpa e termina com um desejo de expiação. Nossa República, para resumir, está apodrecendo, na iminência de ir para nunca mais voltar. Para qualquer lado que se olhe, lá está a manifestação do mal, a apologia da iniqüidade, o esforço pela rendição ao Partido. São nossos colegas, amigos, familiares, todos cúmplices na institucionalização do reino da mentira.

Investindo dia após dia contra tudo que é bom e verdadeiro, Lula imbecilizou todo um povo. Agora pretende usar seu ventríloquo para dar o golpe final. Leitor, não há nenhum dilema aqui. Dilma é o PNDH 3. Quaisquer que sejam nossas discordâncias com Serra, e eu as tenho, ele é a ferramenta de que dispomos para salvar a democracia. É simples assim, e todo o resto é detalhe.

sábado, 16 de outubro de 2010

Retrato da campanha eleitoral

Em matéria de mentira e de mistificação, tem gente que, mesmo sem diploma nenhum, é PhD. O teor da matéria é o exato contrário do seu título.
Paulo Roberto de Almeida

Lula diz que campanha de Serra é ‘uma vergonha’
por Jair Stangler
Agencia Estado, 15.outubro.2010 20:20:34

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva classificou nesta sexta-feira, 15, a campanha de José Serra como “uma vergonha”. Lula participou de um comício com a candidata do PT à Presidência da República, Dilma Rousseff, na Praça do Forró, em São Miguel Paulista, zona leste de São Paulo.

“É uma vergonha a campanha do nosso adversário (José Serra, do PSDB), é uma vergonha o que estão fazendo na internet. Não é a primeira vez em que somos atacados e que vemos preconceito contra a mulher. Isso é histórico e crônico aqui em São Paulo. São ataques inclusive do submundo religioso”, afirmou o presidente. “É falta de caráter e hombridade das pessoas que tentam se aproveitar das outras”, afirmou.

Lula lembrou que, em 1982, panfletaram que sua mãe morava em uma favela de Santos e que ele não cuidava dela. “Vivi isso em 1989, 1994 e 1998. Em 2002, o povo resolveu dizer ‘chega’. E foi contra o Serra”, completou. E ainda fez graça: “Nós passamos tantos anos levando o Brasil ladeira acima e não podemos permitir que na eleição o Brasil siga Serra abaixo.”

Ainda de acordo com Lula, “a gente conhece o outro (Serra) faz 30 anos. Eu conheço essa mulher há 8 anos. E posso dizer que ela é muito mais competente que o outro”.

O presidente criticou ainda a proposta do tucano de pagar 13º salário para os beneficiários do Bolsa-Família. “Falaram 8 anos contra o Bolsa-Família, agora prometem 13º para o Bolsa Família”, declarou.

Lula afirmou ainda que Netinho de Paula (PCdoB), candidato derrotado ao Senado, não foi eleito senador por causa do preconceito contra o negro no Brasil.

Lula x FHC

Já Dilma concentrou sua fala na comparação entre os governos Lula e Fernando Henrique Cardoso. A candidata disse que a população terá de escolher entre dois caminhos. “O nosso caminho vocês conhecem, é o caminho que permitiu comprar fogão, geladeira, que criou 14 milhões de empregos com carteira assinada. Tem de comparar com o Brasil que eles [PSDB] governaram, do desemprego e da desigualdade. Nós não podemos permitir que se dê um passo para trás”, declarou.

Dilma voltou a acusar o ex-presidente da Agência Nacional de Petróleo (ANP), David Zylbersztajn, de planejar privatizar o petróleo das camadas do pré-sal, caso José Serra seja eleito.

Dilma, assim como outros oradores da noite, atribuiu ataques que vem sofrendo a “preconceito contra a mulher”. “Sempre apostaram que o governo Lula não ia dar certo, diziam que trabalhador não sabe governar. A mesma coisa comigo agora, acham que mulher não pode governar”, disse. “Mas 67% dos eleitores mostraram que querem uma mulher presidente. Vamos ter, no dia 31, o embate entre o País do amor e da esperança e o País do ódio e do medo. Com a força de vocês eu serei a primeira presidenta da República do Brasil, preciso do voto de vocês”, concluiu.

Religiosos presentes

O evento teve grande participação de religiosos católicos e evangélicos, ainda em uma tentativa para debelar a crise originada a partir da polêmica sobre o aborto. Um dos primeiros oradores da noite foi o padre Júlio Lancelotti. Em sua fala, ele afirmou que a presença dos religiosos era para “afastar o demônio da calúnia e da mentira”. Declarou, ainda, esperar que o “nosso povo seja tratado como quem tem a consciência livre”. O padre encerrou sua participação chamando a população do local para rezar o Pai Nosso.

A ex-prefeita de São Paulo e deputada federal Luiza Erundina (PSB) também discursou. Ela começou afirmando que “aqui é tudo cabeça chata, tudo gente de pescoço curto, tudo nordestino, tudo presidente Lula”. A deputada lembrou de sua campanha para a Prefeitura em 1988. Segundo Erundina, “foi nesta praça que a gente consagrou a nossa vitória. E adivinha quem eu derrotei? O Maluf. E sabe quem mais? Eu derrotei José Serra”.

Também subiram ao palanque o candidato derrotado pelo PCdoB ao Senado, Netinho de Paula, a senadora eleita pelo PT paulista, Marta Suplicy, o candidato derrotado ao governo de São Paulo, senador Aloizio Mercadante (PT), e o candidato a vice na chapa de Dilma, deputado Michel Temer (PMDB), além de representantes das centrais sindicais e do MST.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Uma analise da conjuntura entre os dois turnos - Reinaldo Azevedo

PT vislumbra a possibilidade de Serra vencer e tenta criar clima de intranqüilidade na eleição. Ou: A derrota que Lula já sofreu
Reinaldo Azevedo, 12.10.2010

Entre os fatores que concorreram para Dilma Rousseff não ser o estrondo que se esperava nas urnas, está, quero crer, a agressividade de Lula no último mês de campanha, especialmente depois que ficou evidente que uma quadrilha operava na Casa Civil. Estivessem certos os institutos sérios (não creio que estivessem; os não-sérios são apenas bandidos, mas esse é outro debate), não haveria uma miserável razão, recorrendo à metáfora futebolística de que ele gosta tanto, para o presidente optar pelo jogo bruto: deu carrinho por trás, entrou de sola, foi na canela, usou pé alto, chegou mesmo a bolinar a democracia ao sugerir que era preciso eleger senadores servis ao Executivo… Por quê? Aquilo não era comportamento de quem estava vencendo a partida por um placar tão largo.

É que o PT, que nunca soube perder, também não sabe vencer, o que é típico de grupos fascistóides. A iminência da vitória no primeiro turno lhes trouxe o sonho de sempre: extirpar — Lula usou esse verbo em Santa Catarina para se referir ao DEM — os adversários. O presidente atacou a imprensa, que chamou de “partido”; declarou-se a si e aos seus a própria “opinião pública”; cobrou, em palanque, onde estavam, afinal, os sigilos violados dos tucanos e dos familiares de Serra — em vez de condenar o jogo sujo, pediu que o crime fosse exibido em praça pública; asseverou que venceria “esse sujeito”, referindo-se a Geraldo Alckmin, em São Paulo; prometeu ser ele a pôr a faixa em Mercadante… Arrogante! Bruto! Antidemocrático! Por isso o Manifesto em Defesa da Democracia, em três semanas, passa a marca dos 80 mil signatários. Já o manifesto do oficialismo, em apoio ao presidente, sumiu no ralo da história.

Por que toda essa histeria do PT, que vai da denúncia calhorda e falsa de que existe uma guerra santa contra o partido à ida de Dilma Rousseff à Basílica de Aparecida (onde errou ao persignar-se), passando pelo comportamento destrambelhado da candidata no debate e por um ato ilegal de intelectuais petistas (oximoro delicioso) na Faculdade de Direito da USP? O que se tenta é classificar de artificialismo e golpe uma eventual virada no jogo eleitoral, como se a derrota de Dilma não fosse uma das possibilidades que sempre estiveram presentes. Por isso se disputa eleição, não é? Para ganhar ou para perder. Não para os petistas!

Tentam fazer crer a sociedade que só uma tramóia tira a eleição de Dilma. Esse não é um comportamento sem desdobramentos práticos.

A sabotagem na vitória
Vitorioso em 2002, o PT passou longos oito anos desconstruindo o governo FHC da maneira mais calhorda e mentirosa possível. Porque não bastava a Lula, dentro da lógica normal da democracia, implementar o seu programa, corrigir erros, cometer os seus próprios, acertar. Notem: era preciso não deixar pedra sobre pedra, sustentar que nada de bom, NADA!!!, veio do governo anterior. A edição que o marqueteiro de Dilma fez do debate da Band é uma súmula das mistificações erigidas ao longo desses anos.

Lula não tentou ser melhor do que FHC na comparação — essa é outra mentira. Ele tentou destruir o seu antecessor, como tenta destruir os seus adversários.

Sabotagem na derrota
E que partido agia assim? Aquele mesmo que passara os oito anos na oposição sabotando o… mesmo governo FHC: lutou contra o Real, denunciou o Proer, recorreu à Justiça contra a Lei de Responsabilidade Fiscal, chutou o traseiro de investidores durante a privatização de estatais, votou contra o Fundef, ATACOU OS PROGRAMAS DE RENDA MÍNIMA, CHAMANDO-OS DE ESMOLA…

Agora, vislumbrada a possibilidade Serra vencer a disputa, o PT faz o quê? Denuncia uma grande conspiração — sabe-se lá de quem; seria dos cristãos? — e, acreditem, já anuncia que, se tudo der errado, retoma o seu velho padrão, aquele celebrizado nos oito anos de oposição: sabotagem!

Uns bobocas dizem: “Ah, você sataniza o PT; é muito mais rigoroso com ele do que com os outros partidos”. Eu não me obrigo a distribuir igualmente as minhas broncas só para mostrar a minha isenção. Não tenho partido, mas tenho lado (democracia, estado de direito, economia de mercado, essas coisas…). Ao longo de oito anos, é consenso que faltou ao PSDB um teor mais ato alto de oposicionismo. O partido não se caracterizou por dizer “não” a tudo o que viesse do governo Lula. Já o PT teve a cara-de-pau de implementar projetos e de adotar práticas que, na oposição, considerava lesivas aos interesses da pátria e do povo.

Falta de compostura
A falta de compostura do presidente da República no processo eleitoral, de que ele é, no Executivo, um magistrado, fala por si. Pensem no exemplo de civilidade que deu FHC em 2002 na iminência da derrota e vejam o comportamento destrambelhado de Lula, mesmo as pesquisas apontando, por enquanto ao menos, a dianteira de Dilma. Aquele presidente soube ganhar e soube perder; Lula não sabe nem uma coisa nem outra. Se vence, tenta destruir o adversário, como tentou; se vislumbra o risco de perder, denuncia uma conspiração e tenta qualificar, de antemão, de ilegítima a eventual vitória dos adversários.

Não vai colar. Nem o PT fará o que bem entende se Dilma ganhar a eleição — e eles já perceberam que a sociedade não aceita arreganhos autoritários — nem Serra terá maculada a sua vitória, se acontecer, por uma clima de intranqüilidade que o PT tenta criar artificialmente.

Essa batalha, ao menos, o lulo-petismo já perdeu. A não-eleição de Dilma no primeiro turno significou um “não” aos arreganhos autoritários do partido e de seu chefe máximo. Lula pode incluir mais essa derrota em sua carreira.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

O debate para o segundo turno promete ser ruim...

Isso graças ao "coordenador" da campanha da candidata oficial, que parece ter uma linguagem destrambelhada.
Vai acabar sendo demitido pelo presidente, que manda na campanha, como senhor de baraço e cutelo...
Paulo Roberto de Almeida

Ciro Gomes tenta pautar a campanha pela conveniência do PT
por João Bosco Rabello
Blogs Estadão, Política, 07.outubro.2010 19:30:49

Pela voz de Ciro, PT estabelece que o tema aborto na campanha é uma “calhordice”.

O deputado Ciro Gomes (PSB-CE) acrescentou mais um item à cesta de assuntos que o PT elegeu como de “baixo nível” na sua tentativa de pautar a campanha pelas suas conveniências.

Depois de classificar a quebra de sigilo como crime comum e as denúncias de tráfico de influência na Casa Civil como “baixarias” do candidato José Serra, que a “a mídia tucana” absorveu, o PT agora, pela voz de Ciro, estabelece que o tema aborto na campanha é uma “calhordice”.

Como Ciro sempre se caracterizou por banalizar a ênfase, nada de novo. A não ser pela distorção dos fatos, também um hábito seu quando quer encerrar um assunto.

Quem levantou o tema do aborto não foi Serra, mas a própria Dilma na sua Carta ao Povo de Deus ou coisa que o valha. Também em entrevista ao SBT. O resto a Internet cuidou de fazer.

Ainda que o tema viesse pelo candidato tucano, por que é calhorda? Se a Igreja também o trata abertamente como tema eleitoral de importância para os cristãos, é de se supor que a sentença de Ciro (aliás, como é dado a sentenças!) se estende à Santa Madre.

É indiscutível que não se trata de uma questão afeita à figura do presidente da República e nem de sua estrita alçada como chefe do Poder Executivo. Mas, em qualquer campanha, em qualquer país, o eleitor quer saber a posição dos candidatos em relação a esse e outros assuntos correlatos.

A questão é que Dilma não passa sinceridade ao falar sobre o assunto. Poderia dizer que já mudou de idéia, mas prefere insistir em dizer que “sempre” foi contra o aborto, apesar de desmentida por vídeos em que aparece dizendo o contrário.

Não é a melhor forma de enfrentar a questão, vide os dois fatos anteriores mencionados no início deste post: a quebra dos sigilos e o tráfico de influência na Casa Civil.

Curioso é que os desmentidos à candidata e ao presidente Lula, nos dois episódios, vieram pelo governo. Um deles, pelo próprio Lula que, depois de culpar a mídia pelo problema na Casa Civil, demitiu a ministra Erenice Guerra que, daqui a alguns dias, deverá depor na Polícia Federal.

Ontem, a Receita Federal divulgou a conclusão sobre a investigação da quebra de sigilo do vice-presidente do PSDB, Eduardo Jorge, incriminando o analista tributário Gilberto Souza Amarante, filiado e militante do PT, do qual foi dirigente em Formiga (MG), onde praticou o crime.

A conclusão é contundente: Gilberto, do PT, violou o sigilo de Eduardo Jorge, do PSDB, com motivação político-eleitoral, estendendo a violação ao cadastro de três empresas da vítima.

E mais: mentiu publicamente ao justificar a quebra de sigilo como involuntária por ter confundido Eduardo Jorge com um homônimo. Impõe-se a pergunta: por que violar o sigilo do adversário, senão para usar algo que pudesse comprometê-lo e que acabou não encontrando?

A estratégia de atropelar os fatos tinha sentido estratégico quando a aliança PT/PMDB tinha como certa a vitória no primeiro turno. Afinal, depois seriam polêmicas de campanha destinadas ao esquecimento.

Com o segundo turno, a aliança precisa administrar melhor suas contradições porque estarão expostas por mais tempo num ambiente em que não haverá mais a possibilidade de tangenciá-las: os debates não terão mais quatro candidatos, mas só Dilma e Serra, e as atenções estarão concentradas apenas nos dois.

================

“Calhordice” de Ciro Gomes vai chegar ao Papa
Poder Online - com Jorge Félix e Tales Faria
IG, quinta-feira, 7 de outubro de 2010

A frase do deputado Ciro Gomes (PSB-CE), novo coordenador da campanha de Dilma Rousseff, definido como “calhordice” a “mistificação” em torno do aborto na eleição, publicada hoje pelo jornal O Estado de S. Paulo, foi recebida como uma provocação pela igreja católica e deverá, inclusive, ser comunicada ao Papa Bento XVI.

Por coincidência, o arcebispo de Aparecida, Dom Raymundo Damasceno Assis, viajou hoje para Roma, onde participa até o dia 24 do Sínodo dos Bispos – organismo de assessoria do Papa -, e já embarcou sabendo da notícia.

A declaração de Ciro só fez ampliar o clima hostil dos líderes católicos à candidata do PT a presidente. Ciro esqueceu que quem introduziu o debate sobre aborto na campanha foi a igreja católica. Como sempre faz.

A favor de Ciro está apenas o fato de que o clima anti-Dilma já estava cristalizado entre os bispos desde a sua ausência do debate na TV Canção Nova, em 24 de agosto. Os bispos consideraram uma ofensa Dilma se recusar a comparecer diante das câmeras católicas para discutir os temas “importantes para a sociedade em geral”, segundo palavras de dom Damasceno.

Naquela noite, no estúdio montado na Universidade Santa Marcelina, no bairro de Perdizes, dom Damasceno era um dos mais, digamos, insatisfeitos com a ausência da candidata. Não apenas pelo desprezo ao debate em si, mas porque também, segundo informação obtida pelo Poder Online, o evento custou caro para a igreja e precisou até de uma ajuda de José Bonifácio de Oliveira Sobrinho – ele, inclusive, era aguardado para o evento.

Quase todos os bispos e arcebispos mais importantes do Brasil estavam lá, sentados em fileira e nenhum político do PT compareceu para prestigiar o debate. Se pelo menos um tivesse ido perceberia facilmente que Dilma começou a perder votos ali. Mesmo a presença dela no debate da CNBB não convenceu o bispado.

Minutos depois do programa, dom Damasceno já pedia aos fiéis que não se deixassem influenciar pelas pesquisas e pelo clima de já ganhou. Como se viu, no dia 3, fez efeito.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Serra contra a maquina incrustrada no Estado: batalha desigual

Sem comentários.
Paulo Roberto de Almeida

Disputa desigual traz Estado contra Serra
Rosângela Bittar
Valor Econômico, 15/09/2010

A moda, agora, na campanha eleitoral do PSDB, é reviver o esporte que vigorou ao longo do processo de definição da candidatura a presidente do partido, entre novembro do ano passado e fevereiro deste, toda vez que a discussão pendia para o então governador de São Paulo: falar muito mal de José Serra. Políticos importantes da cúpula, os de importância média, aprendizes de feiticeiros, grupos de base eleitoral com influência, até simples simpatizantes atribuem a Serra a culpa pelas dificuldades que todos enfrentam na campanha.

Seria de sua única responsabilidade não crescer nas intenções de voto, ser o seu próprio marqueteiro, não ouvir o comando político, permitir a virada nos Estados, ter se imposto ao ex-governador de Minas - sim, esta também voltou - e, a mais recente, ter tido um desempenho fraco no debate eleitoral. Serra estaria, também, tenso, nervoso, preocupado, indormido.

Bem, em Brasília, segunda-feira, ao longo de uma reunião com a Ordem dos Advogados do Brasil para debater a reforma política, e depois do encontro, José Serra estava absolutamente tranquilo, seguro, cordial, expondo com uma clareza impressionante suas reflexões sobre o tema e, nelas, os riscos que a atual campanha eleitoral tem representado ao Estado de Direito, à Democracia.

Vendo-o em ação, não é possível identificá-lo com o personagem de todas as culpas. Seriam os que o acusam inocentes? Aécio Neves, Tasso Jereissati, Sérgio Guerra, Arthur Virgílio, Álvaro Dias, líderes em geral, qualquer um dos políticos do PSDB que, ao longo dos últimos oito anos, não se encontraram com o exercício da oposição, não souberam definir seus adversários políticos nem criar antídotos aos efeitos monumentais da propaganda, são culpados do que ocorre hoje. E Serra inclusive.

Numa campanha como a de 2010, desde já candidata a ser objeto de aprofundados estudos políticos e, bastante necessários, também jurídicos, dificilmente um outro candidato de oposição, qualquer um, lograria desempenho diferente.

Serra não tem dado sinais de desânimo com as críticas internas e toca a etapa final da campanha exibindo confiança em levá-la ao segundo turno. Em segundo lugar nas intenções de voto para Presidente da República, parece consciente de que está cumprindo um papel histórico.

Serra não está questionando o fato de a candidata do PT, Dilma Rousseff, sua principal adversária, estar muito à frente nas intenções de voto, posição que já ele próprio teve em outro momento da campanha. O recado que chega da sua atual pregação é que está lutando não pelo projeto de seu partido contra o projeto do partido adversário, mas contra um Estado inteiro, capturado por um grupo político cujo líder, o presidente da República, governa para aliados eleitorais.

O Estado está a serviço do terceiro mandato que o presidente Lula ficou impedido constitucionalmente de disputar, mas deu um jeito, construindo agora a ponte para a possibilidade legal de disputar com seu próprio nome, mais adiante, o quarto e o quinto. Não são, portanto, três mandatos, mas cinco, o período pleiteado pelos adversários para o qual a oposição teria que ter se preparado para enfrentar.

Por mais que tivesse o chefe da Nação dito que faria tudo - "tudo é tudo", detalharam seus intérpretes - para eleger presidente quem escolheu para ser, sem um contraditório ou interferência partidária, a oposição não poderia ter imaginado que seria como está sendo: O Estado contra um candidato.

Lula criou o poste, jargão eleitoral com que se define um candidato absolutamente desconhecido, implantou-o e iluminou-o. Em dois anos, colocou seu palanque governamental, integralmente, a serviço desse projeto. Inovou, pois nenhum de seus antecessores se despiram da Presidência para eleger o sucessor.

Nenhum grupo político, também, preparou antídoto para essa ação, nem se sabe se ela existe na crônica eleitoral.

Até aliados jamais ousaram contraditar ou sugerir acréscimos. É obra de um homem só: da transgressão à lei à defesa de extermínio de partido adversário, da impunidade a aliados ao capricho de nominar o próximo alvo.

O presidente Lula nada está fazendo que não tenha feito nos seus oito anos de mandato, mas a oposição, não se sabe por quê, achou que seria diferente. Frustrada agora em suas expectativas, responsabiliza Serra. Não pela perda da disputa, pois ainda não a perdeu e há institutos de pesquisa com credibilidade que ainda apontam possibilidade técnica de a disputa ir ao segundo turno. Mas pelas dificuldades, sendo que boa parte delas decorre do próprio pessimismo.

Esses políticos estão surpresos com a frustração de uma expectativa. O erro de Serra foi o mesmo, ter-se equivocado com o adversário, como todo o PSDB, e não haver se preparado para sustentar a vantagem e fazer a disputa com um presidente do tipo Lula. Precisaria ser uma obra coletiva. Que até, numa análise a posteriori, não teria como evitar muitos problemas, mas teria instrumentalizado melhor os contendores para enfrentá-los.

O PSDB foi ao longo de todo o processo, e ainda é, um poço de dúvidas. As eleições prévias que, vê-se hoje, seriam importantes para o partido, ninguém as quis. Nem Aécio Neves que, se realmente as quisesse, teriam existido. Mas ele tinha dúvidas sobre seu desempenho. Ninguém quis ser o anti-Lula. Acreditavam que, não sendo Lula o candidato, ele atuaria com os limites da Presidência, uma prova de desconhecimento do adversário. Serra entrou numa eleição cuja extrema dificuldade, quase uma impossibilidade, só foi percebida em toda a sua crueza quando se viu que o trabalho para enfrentá-la teria que ter começado oito anos antes.

É Lula que está em jogo. Um Lula destemido, desafiador da Justiça, personalista e possuído por poderes divinais. Quem diz que Serra é culpado não é inocente, e precisa urgentemente trabalhar com a realidade. O que houve até agora foi acerto de Lula com seu eleitorado.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Fazendo campanha com odio

'Precisamos extirpar o DEM da política brasileira', afirma Lula
G1, São Paulo, 13.09.2010

Em comício da candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, na noite desta segunda-feira (13), em Joinville (SC), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu que o partido de oposição DEM seja "extirpado" da política brasileira.
Em discurso marcado por críticas à sigla opositora e aos adversários do PT em Santa Catarina, Lula disse que o Democratas "alimenta ódio".
"Eu não quero crer que esse povo extraordinário de Santa Catarina vá pensar em colocar no governo alguém de um partido que alimenta ódio, que entrou na Justiça para acabar com o ProUni [programa federal de concessão de bolsas universitárias], como o DEM entrou", disse Lula.
Segundo última pesquisa do Ibope, o candidato do DEM ao governo de SC, Raimundo Colombo, assumiu a liderança na disputa. Colombo tem o apoio do PSDB e do PMDB do ex-governador Luiz Henrique, apoiado por Lula em 2006 e que hoje disputa vaga no Senado.
"Quando Luiz Henrique foi eleito pensei que ele ia mudar, mas ele trouxe de volta o DEM, que nós precisamos extirpar da política brasileira", disse o presidente.
Em discurso, o presidente também centrou fogo na família Bornhausen, tradicional na política catarinense, do deputado federal Paulo Bornhausen (DEM-SC) e do ex-presidente nacional do partido Jorge Bornhausen.
"Nós já aprendemos demais e sabemos que os Bornhausen não podem vir disfarçados de carneiros, porque já sabemos quem são os Bornhausen, já conhecemos as histórias deles", disse Lula.

Lula critica 'direita raivosa'
Em referência ao escândalo do mensalão, Lula disse ter sido alvo da "direita raivosa" que "levou Getúlio Vargas a dar um tiro no coração" e também impulsionou a ditadura militar no país.
"Essa mesma direita tentou fazer o mesmo comigo em 2005, e não fez. Porque eu tinha um ingrediente a mais, eu tinha vocês, e eles nunca tinham lidado com um presidente da República que tinha nascido no berço da classe operaria desse pais", afirmou.
O presidente citou números de repasses federais a Santa Catarina e disse ter atitude "republicana" em relação a governantes de oposição. Fez menção ao candidato do PSDB à Presidência, José Serra, ao afirmar que não distribui verbas por critérios partidários.
"O adversário dessa mulher aqui [Dilma] recebeu mais dinheiro no meu governo do que o Mário Covas [ex-governador de SP] recebeu em oito anos quando o Fernando Henrique Cardoso era do mesmo partido e presidia esse país", disse.

Dilma diz que adversários representam 'passado'
Usando um banco para se apoiar no palco, em razão de uma torção de tornzelo que a levou a usar bota ortopédica, Dilma associou seus adversários ao "passado".
"Queremos o futuro que apresenta para nós a possibilidade desse pais acabar de vez com a miséria, de contnuar se transformando em uma das maiores nações do mundo [...], ou nós queremos a volta da paralisia, do desemprego e da desigualdade?", questionou.
Dilma disse que o Brasil vive um "processo de transformação" que "começou pela mão do nosso presidente Lula". Repetiu discurso estratégico da campanha ao dizer ter recebido do presidente a tarefa de "cuidar da coisa que ele mais ama no mundo, que é o povo brasileiro".
Nos discursos, presidente e candidata não fizeram menção aos episódios de quebras de sigilo na Receita Federal e à denúncia de tráfico de influência na Casa Civil.

Presidente do DEM vê 'desequilíbrio' de Lula
O presidente nacional do DEM, Rodrigo Maia, disse que as declarações de Lula denotam "desequilíbrio" do presidente. Afirmou que Lula "se aproveita de sua popularidade para agredir, tentar pisar em seus adversários", e que o presidente "deve estar com algum problema em relação aos últimos episódios [denúncias de irregularidades na Receita e na Casa Civil]".
Maia afirmou ainda que o presidente busca um "Congresso submisso ao PT" e que o discurso em Santa Catarina reflete "ódio pessoal que não sabe em um estadista, um homem que chegou onde ele chegou".

Presidente completa 15 comícios com Dilma
O comício em Joinville foi o 15º com participação de Dilma e Lula desde o início oficial da corrida presidencial, em julho, e o primeiro em Santa Catarina, estado em que a candidata do PT ao governo, Ideli Salvatti, está em terceiro lugar nas pesquisas.
Lula também já subiu em palanques com Dilma nesta campanha no Rio de Janeiro (RJ), Garanhuns (PE), Porto Alegre (RS), Curitiba (PR), Belo Horizonte (MG), Osasco (SP), Mauá (SP), São Bernardo do Campo (SP), Campo Grande (MS), Salvador (BA), Recife (PE), Foz do Iguaçu (PR), Valparaíso (GO) e Betim (MG).

sábado, 4 de setembro de 2010

Os candidatos e a politica externa - revista Veja

Desafios brasileiros
Os presidenciáveis e a política externa
Campanha de Dilma foi a única que não citou os direitos humanos
Site da revista Veja, 3/09/2010

Durante esta semana, o site de VEJA apresentou reportagens e entrevistas sobre os principais desafios que o próximo governo deverá enfrentar na área das relações exteriores. Encerrando a série, apresentamos as propostas dos três principais candidatos à Presidência da República, que, a partir de 2011, terão a missão de comandar a política externa do país e ditar novos rumos. As informações apresentadas a seguir foram fornecidas pela coordenação de campanha dos candidatos Dilma Rousseff (PT), José Serra (PSDB) e Marina Silva (PV).

Chama a atenção o destaque dado por Serra e Marina à promoção dos direitos humanos na relação com outras nações. O tema foi debatido em reportagem da série devido ao fato de o governo Lula haver mantido uma postura leniente em relação a abusos cometidos por colegas - como Hugo Chávez, na Venezuela, e a ditadura castrista de Cuba. [postado in fine]

A campanha de Serra ressalta que, em um eventual governo tucano, as posições a serem defendidas pelo Brasil no tocante aos direitos humanos e à democracia "refletirão os valores que defendemos internamente e não afinidades ideológicas". Marina, por sua vez, diz que o Brasil, sob um eventual governo verde, deveria adora uma postura firme diante de violações dos direitos humanos e democráticos. "Nesse sentido, (o país) deve adotar, considerando sempre o princípio da não intervenção, uma postura crítica com relação a países que violem os direitos humanos e, ao contrário do que tem acontecido, o país não deve relativizar esses princípios em suas relações de estado".

A equipe de Dilma afirma que o atual governo manteve a "estabilidade macroeconômica, reduzindo nossa vulnerabilidade externa (...) num ambiente de aprofundamento da democracia". Contudo, não explica como poderia lidar com a questão dos direitos humanos em um eventual governo da petista. Deixa apenas uma certeza: não haverá mudanças em relação à atual política externa.

Vizinhança - Um ponto em comum entre as propostas de Serra, Marina e Dilma é relativa à integração regional. "Ao Brasil interessa que todos os seus vizinhos cresçam e prosperem. Como maior economia da região, o Brasil dará todo o apoio, de forma realista e sem arroubos de generosidade, para que esse objetivo seja alcançado", diz o texto do tucano. A campanha de Dilma explica que a candidata "seguirá valorizando uma agenda positiva com nossos vizinhos, promovendo a integração física, energética, produtiva, social e política da América do Sul".

Referindo-se especificamente aos destinos do Mercosul, Marina Silva propõe um comércio mais livre, justo e sustentável. "O Brasil deve ter um papel ativo na eliminação das barreiras e distorções que prejudicam o livre comércio. Para isso, deve se valer dos instrumentos que a globalização jurídica lhe oferece, seja no âmbito multilateral (OMC), seja no âmbito regional (Mercosul)", diz a proposta.

Serra promete continuar mantendo o apoio ao bloco, como processo que levará a uma crescente integração comercial dos países do Cone Sul, a médio e longo prazo. O tucano, porém, aponta que será preciso introduzir inovações no grupo. "Para beneficio de todos os países membros, contudo, algumas regras terão de ser flexibilizadas, permitindo que cada país possa negociar individualmente e que o mecanismo de solução de controvérsias seja efetivo". Dilma também apoia o aprofundamente do Mercosul. Mas afirma que, se eleita, trabalharia pelo avanço das negociações com União Européia e "outros blocos".

==========

Desafios brasileiros
Diplomacia brasileira: muitas embaixadas e afagos a ditadores
Revista Veja, 30/08/2010 - 20:49

[Foto] O chanceler Celso Amorim e o presidente Lula comemoram acordo assinado com o Irã, em maio de 2010 (AFP)

Sob a batuta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o Ministério das Relações Exteriores inaugurou 62 representações diplomáticas e consulares pelo mundo - outras 17 estão em processo de abertura. Atualmente, o país conta com 212 postos. Muitos deles não têm qualquer relevância no cenário político e econômico internacional. Mas fazem parte de uma estratégia deste governo, que tem priorizado as relações com nações africanas e emergentes. Nos últimos oito anos, por exemplo, Lula visitou 27 nações da África, contra três de seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso. Analistas acreditam que o método pode estar ligado ao desejo brasileiro de conseguir uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU.

Uma segunda característica da política externa da atual gestão é a pretensão de mediar conflitos em regiões distantes. Em julho, o chanceler Celso Amorim foi ao Oriente Médio, onde envolveu-se em conversações sobre o processo de paz. Meses antes, palestinos e israelenses já haviam dispensado a intromissão brasileira no complicadíssimo conflito. O Irã também entrou na agenda brasileira. Na contra-mão do que pedia a comunidade internacional, o Brasil queimou parte sua credibilidade ao respaldar um acordo que pretendia garantir aos aiatolás o acesso a urânio enriquecido para fins medicinais. Nenhuma nação, exceto a Turquia, aceitou o tratado, que fracassou: os líderes mundiais sabem que o sonho do radical Mahmoud Ahmadinejad é destruir Israel - e o caminho para isso são as armas atômicas.

Em outro momento, Lula deixou de repreender o opressor governante iraniano em questões relacionadas aos direitos humanos. Foi o caso da condenação por apedrejamento da iraniana Sakineh Mohammadi Ashtiani, acusada de adultério. Esquivando-se de censurar publicamente o colega, Lula apenas ofereceu refúgio a Sakineh. Teerã se negou a entregá-la, dizendo que "não havia necessidade de criar problemas ao presidente brasileiro". Acrescentou ainda que "Lula tem um temperamento muito humano e emotivo e provavelmente não recebeu informações suficientes sobre este caso".

Não foi a primeira vez em que Lula preferiu afagar colegas ditadores a zelar pelos direitos humanos. Em fevereiro, o presidente recebeu uma carta de 50 dos 75 presos políticos cubanos detidos na onda de repressão que ficou conhecida como Primavera Negra. Os dissidentes pediam que o governo brasileiro advogasse em favor de sua libertação e, principalmente, falasse sobre a situação de Orlando Zapata, que estava em greve de fome havia mais de 80 dias. Nada disso foi feito. Zapata morreu. E Lula ainda comparou os perseguidos pelo regime castrista a criminosos comuns detidos em prisões brasileiras.

Além dos irmãos Castro e Ahmadinejad, Lula encerra o seu mandato com uma lista de pelo menos outros sete ditadores-amigos. O último agraciado com o título foi Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, presidente de Guiné Equatorial, durante visita oficial em julho. O conjunto da obra faz mal à imagem do Brasil.

Há ainda outras questões relevantes a discutir. É o caso dos rumos do comércio exterior. O Brasil deve seguir financiando projetos em nações vizinhas e até em Cuba? E os grandes acordos comerciais, devemos retomar negociações com blocos regionais? Qual a atual situação do Mercosul e também as suas perspectivas?

Este é um breve panorama das questões mais polêmicas ligadas à atual política externa do governo brasileiro. Durante esta semana, VEJA.com vai analisá-las, ouvindo especialistas e as campanhas presidenciais, para saber que linha o Itamaraty deve adotar no próximo governo. Você também pode participar, dizendo o que pensa sobre o assunto. Deixe sua opinião na área de comentários desta página e participe da enquete a seguir.
[http://veja.abril.com.br/noticia/internacional/diplomacia-brasileira-muitas-embaixadas-e-afagos-a-ditadores]

O estado da campanha, ou o estado a que chegamos...

Não muito sério, nem muito objetivo, e talvez completamente oposicionista -- certamente não em favor do candidato da oposição, mas em oposição às irracionalidades e mentiras da campanha oficial -- estes dois posts do jornalista Augusto Nunes -- em seu blog na Veja -- revelam, com a ajuda de um "comissário da Língua Portuguesa", o estado a que chegou a campanha oficial, reduzida a um "dilmês" incompreensível, por falhas inacreditáveis de pensamento, ou de simples lógica formal e conceitual, e uma disposição muito grande -- que só pode revelar falhas terríveis de caráter -- a mentir desbragadamente, na indiferença geral da imprensa e do próprio eleitorado.
O Brasil adentrou, se ouso dizer, num "estado mágico" de surrealismo completo na campanha eleitoral, em que nada vale nada, ou seja, em que não adianta qualquer análise crítica das mensagens veiculadas, pois a personalidade megalomaníaca do Nosso Guia a tudo domina e a todos domina.
Uma miséria moral, uma degradação política e uma pobreza de espírito inacreditáveis.
Reproduzo esses posts como amostra do que vai pela campanha.
Paulo Roberto de Almeida

Direto ao Ponto
Celso Arnaldo: uma das mais estarrecedoras entrevistas da curta e assombrosa história política de Dilma sobre a face da Terra (1)
Augusto Nunes, Blog na Veja, 29/08/2010 às 12:56

Ainda bem que fui alertado com algumas horas de antecedência: “Acredite, é uma das mais estarrecedoras entrevistas da curta e assombrosa história política de Dilma sobre a face da Terra”, avisou-me Celso Arnaldo ontem à noite. Claro que acreditei. Nem por isso escapei dos sobressaltos. A coisa é tão perturbadora que, para permitir ao leitor recuperar o fôlego e recuperar-se do assombro, a coluna decidiu publicá-la em dois capítulos. A parte final entra no ar às quatro da tarde. Apertem os cintos, amigos. Estamos entrando no túnel do espanto:

Faltam 35 dias para as eleições e, a menos que seja asfixiada por um colar de anacolutos no discurso de posse, a mulher completamente desarticulada que aparece neste vídeo não é mais a candidata tosca e folclórica à Presidência, uma sátira à la Zorra Total, mas a mulher que vai receber, de mão beijada pelo bafo de Lula, um mandato pelo qual os brasileiros a autorizam a exercitar na prática o conjunto de suas sapiências, suas expertises, nas diferentes áreas da administração federal.

O assunto que Dilma Rousseff escolheu para esta “conversa” com a imprensa é a “assistência integral” à criança. A iniciativa de discorrer sobre o tema foi portanto dela, o que elimina qualquer atenuante para o assombroso teor desta entrevista. É crime doloso, é o infanticídio de um governo natimorto.

Ela chega toda animada, já com ares de presidente e aquele sorriso falso que põe um dente na calçada e logo se recolhe. E aparentemente entusiasmada com o que vira na véspera:

– Até porque, eu tive (sic) ontem na Bahia…

Da Bahia trouxe mais um subsídio para incluir no projeto que promete revolucionar a assistência à criança no Brasil, da barriga da mãe até o “ensino fundamental, mé….fundamental e médio, ensino básico”, como ela explicará mais tarde.

“Salta aos olhos uma coisa, né? Porque um país do tamanho do nosso, com a população de crianças e jovens que nós temos, é um pais que vai tê de sê medido pela capacidade que tivé de fazê uma política que inclua as crianças”.

Seja lá o que for isso, soa como um mea culpa: nos oito anos do governo Lula, os 60 milhões de crianças brasileiras de 0 a 14 anos formaram um coral de Macaulays Culkins: “Esqueceram de nós, esqueceram de nós!!!”

Mas como a presidente Dilma pretende “incluir” as crianças em seu governo?

“De uma forma especial. Que construa o cuidado com as crianças desde o momento da gestação da mãe, passano obviamente pelo parto e chegando até ao atendimento à criança nos seus primeiros anos de vida, que é um momento muito especial”.

A presidente Dilma deve ter aprendido esse “construa” com a ex-companheira Marina, mas aprendeu também que as crianças nascem — aliás depois da gestação da mãe, e não do pai, como às vezes acontecia no governo da oposição — e precisam de cuidados desde o momento em que vêm ao mundo. Ninguém ainda havia pensado nisso.

E o que a presidente Dilma vai fazer, ou já fez, para inventar no Brasil a assistência materno-infantil, que nem Lula pensou em criar? Ela explica com autoridade:

“Nós, pra isso, pra essa, pra esse cuidado, construímos a Rede Cegonha”

Olha ela aí gente!! Novidade: a Rede Cegonha já foi “construída” pela presidente Dilma. Para levar o Brasil no bico.

“A Rede Cegonha é um….primeiro, ela tá baseada num ponto de prevenção, que é o tratamento da mulher quando grávida. O acompanhamento da gravidez, todos os exames de praxe e também a avaliação do feto e todo o acompanhamento que isso requer. Será feito através de Clínicas da Mulher”

Não deu para entender muito bem. Dilma pretende criar isso? O que ela descreve como “meta de governo”, embora com outro nome, é o beabá da assistência materno-infantil, disponível em todo o Brasil. Melhorar é outra história. São Paulo, aliás, tem um programa da mulher quase modelar, em nível municipal e estadual.

“Depois tem a questão fundamental do parto. Ter maternidade de baixo risco e alto risco. E, na sequência, no tratamento dos primeiros dias, meses da criança, é a estrutura de UTIs neonatais, com hospitais de referência da criança”.

A presidente Dilma acaba de criar, por decreto, a Obstetrícia e a Pediatria Neonatal no Brasil. Começa bem. Mas o que será oferecido nesses hospitais de “referência”?

“Cê tem basicamente um atendimento que eles chamam, né, já mais sofisticado, né, com maior nível de complexidade. Então lá se trata de problemas que vão desde a questão do coração, né, por exemplo, crianças que nascem com problemas de coração, passando por todas as doenças que podem levá a risco de vida do bebê”

Nos hospitais criados por Dilma, doenças serão tratadas, bem como doenças afetivas, a tal “questão do coração”.

Mas, depois de dona Cegonha, é hora de introduzir outra pérola que a deslumbra: o SAMU, o já consagrado serviço de resgate federal.

Traduzindo: é o serviço, aliás eficientíssimo e valoroso, que vem até você quando se disca 192. A presidente quer reinventar o SAMU -– lembram do debate da Band, “aquele serviço que transporta crianças”?

“Junto a isso, nós temos o SAMU. Porque o SAMU tem desempenhado no Brasil um papel fundamental, que é juntá toda a rede e olhá onde que tem disponibilidade e onde que a criança, ou o adulto, no caso, deve ser levado”

A presidente Dilma descobriu recentemente que os motoristas e atendentes do SAMU só levam seus passageiros a prontos-socorros e hospitais onde eles possam ser atendidos prontamente, depois da óbvia checagem pelo rádio, no caminho -– é isso que ela chama de “juntá toda a rede e olhá onde tem”.

Mas estava na hora de juntar SAMU com cegonha, não? Lógico:

“Para as crianças criamos o SAMU Cegonha”.

Ah, já criou? Posso chamar? A presidente Dilma aciona a sirene:

“O SAMU Cegonha é basicamente para o atendimento da mulher no momento da gravidez”

Ou seja: engravidou, já chama o SAMU Cegonha para lhe dar os parabéns. Mas espere:

“E o SAMU Cegonha da fase já do bebê é o atendimento pra levá a criança, justamente ou pruma, prum tratamento na UTI neonatal ou prum hospital de referência de alta complexidade”

Ou seja: o SAMU Cegonha fará exatamente o que já fazem as ambulâncias. Mas parece claro que, no governo Dilma, a “fase já do bebê” será coisa de gente grande.

(A segunda e última parte do grande texto de Celso Arnaldo será publicada às quatro da tarde)
[Segue abaixo]
===============

Direto ao Ponto
Celso Arnaldo completa a radiografia da mais estarrecedora entrevista de Dilma (2)
Augusto Nunes, Blog na Veja, 29/08/2010 às 17:04

A segunda parte do texto de Celso Arnaldo completa a radiografia da entrevista assustadora. Embarquem novamente no trem-bala do horror, amigos. Volto no fim:

Ok, a criança chegou a um hospital de alta complexidade criado por Dilma -– sim, porque ninguém tinha pensado antes num hospital para atender doenças mais graves. O InCor, por exemplo, é uma miragem. O que vai acontecer ali? Agora, sim, Dilma revela o que viu na Bahia que a impressionou tanto:

“Uma proposta que conjuga não só tecnologia de ponta, tecnologia sofisticada pro tratamento da criança, mas também um grande nível de humanização, porque eles usam todo aquela questão do envolvimento da criança, mostrano que a boneca vai, tamém, cuidá da cabeça ou quando a criança é submetida a algum nivel de tratamento mais estressante, tomá os cuidados para garanti que psicologicamente ela se…enfim, ela tenha uma chegada maior a um processo que inclusive é de dor”.

Nos hospitais de Dilma, os doutores serão de uma alegria só — até o dia da “chegada maior” de Dilma pra cuidá da cabeça com a boneca.

Nos longos minutos que se seguem, Dilma se dedica a tentar provar, de novo, que as creches são a diferença entre Bill Gates e Nem do tráfico. Ela repete, no mesmo palavreado vão e leviano, a promessa das 6 mil creches em quatro anos -– mas de novo não explica, nem lhe foi perguntado pela mídia adestrada, porque não convenceu Lula a fazer uma só como protótipo ao longo de oito anos.

Depois da creche, o processo de “atendimento integral” das crianças da presidente Dilma passa evidentemente pela escola. Está em marcha uma revolução que faria o companheiro Paulo Freire parecer uma professorinha de quermesse:

“Já existe 10 mil, em torno de 10 mil escolas no Brasil, é, de ensino, de ensino fundamental, de ensino mé…., de ensino fundamental e médio, de ensino básico, portanto…”

Interrompida pelo Controle Social da Mídia. Se a presidente Dilma passou com louvor na prova de saúde, nessa questão da escola ela precisa estudar um pouquinho mais. Vamos deixar para a próxima?

Uma jornalista então quer saber: por que esse interesse tão súbito da presidente pela “criança integral”?

Atenção para a resposta, professor Sirio Possenti:

– Eu vô sê vó!!

E isso desperta em vovó Dilma não só instintos avoengos como essa dedicação integral à criança, que ela justifica com uma máxima inédita:

– As crianças são o futuro deste país.

Até aqui, Dilma falara sem ser questionada. Timidamente, uma repórter parece perguntar se essa tal Rede Cegonha já não existe em algum lugar. A presidente se irrita, pela primeira vez:

“O Rede Cegonha é uma criação do Rio de Janeiro. Não é nossa. É uma parte também do Mãe Coruja, de Pernambuco. Essa mania das pessoas se adonarem de projetos que estão em curso no Brasil é errado.”

Taí: gostei do “se adonarem” -– em 11 meses de caçada, é a primeira expressão original, e correta, que ouço de Dilma. Mas quem está se adonando dos projetos alheios é a presidente Dilma, não é não?

O SAMU Cegonha, que “nós criamos”, também já não existe, presidente?

“O SAMU Cegonha inclusive ele existe, tem até uma cegonha pintada naquela parte branca da….do…..”

A presidente parece ter até desistido da conclusão do pensamento quando vem o sopro redentor:

– Da ambulância.

– Da ambulância, né?

Seria cômico, se não fosse trágico: nos próximos quatro anos, é isso aí.

Brilhante como sempre, o texto de Celso Arnaldo colide estrondosamente com a indigência mental da sucessora que Lula inventou. Também por isso, não dou por liquidada a disputa pela Presidência da República. Falta um mês para a votação. No calendário político isso é uma eternidade. É mais que suficiente para que a oposição mostre ao Brasil o que vem por aí com a mesma nitidez e objetividade que marcam todos os posts sobre a candidata aqui publicados. Tempo para desconstruir a farsa existe de sobra. O que tem faltado à campanha de José Serra é lucidez, coragem, valentia e, sobretudo, vontade de vencer.

Acompanho confrontos eleitorais desde que nasci. Dois anos depois de derrotado na estreia como candidato a prefeito, e dois anos antes de conquistar o cargo que exerceria quatro vezes, meu pai vivia como sempre viveu: em campanha. Primeiro em Taquaritinga, na região e no Estado de São Paulo, depois como jornalista, testemunhei incontáveis duelos do gênero em todos os níveis — sempre na fila do gargarejo. Sei o que estou dizendo ao afirmar que Dilma Rousseff é a adversária que todo candidato pede a Deus. O problema é que, até agora, José Serra também tem sido.

=============

Direto ao Ponto
Celso Arnaldo assiste a uma aula na Escolinha Média Fundamental Básica Profissionalizante da Professora Dilma
Augusato Nunes, Blog na Veja, 02/09/2010 às 15:08

Maior especialista em dilmês do país, o jornalista Celso Arnaldo Araújo resolveu assistir a uma aula da candidata que Lula inventou. Tema: educação. O relato comprova que Dilma Rousseff representa um perigo para qualquer brasileiro com mais de dois neurônios: é de matar de rir — e de morrer de medo:

Na redação da revista Manchete, no Rio, onde trabalhei nos meus primeiros cinco anos de carreira, foram bolados alguns dos mais saborosos – porque bem temperados entre a genialidade e a infâmia – títulos de reportagem do jornalismo “fait divers” no Brasil. Muitos ficaram célebres, como “China vai de Mao a Piao” – quando o líder chinês Mao Tse-Tung, doente, foi provisoriamente substituído no governo por seu ministro de Defesa, Lin Piao.

Dei também minhas contribuições a esse capítulo – e meu título mais “escandaloso” foi para uma matéria sobre um médium espírita anão que atraía multidões em Porto Alegre com seu poder de cura:

“O PEQUENO GRANDE MÉDIUM”

Lembro desse episódio anedótico a propósito de…Dilma Rousseff. Sim, a “Pequena grande mentecapta” que, se tudo correr mal, será nossa presidente a partir de primeiro de janeiro de 2011. Há pelo menos dois anos avisada de que Lula lhe apontaria o “dedazo” zapatista para ser sua sucessora, ela teve todo esse tempo para tentar ficar pelo menos à meia altura da missão que lhe caiu ao colo.

Mas o dedo apontado deve ter sido o mindinho esquerdo, ausente – e por isso a indigitada Dilma não se preparou nem minimamente para conhecer e discorrer sobre os temas de maior peso na vida de um país emergente e ainda repleto de carências: saúde, educação, segurança, etc.

Como se viu pelo vídeo anterior, a proposta de Dilma para a saúde pública não tem o alcance de um band-aid – seu desconhecimento sobre o tema, a 30 dias de sua provável eleição, revelou-se assustador. Na mesma “entrevista”, na verdade uma desastrada tentativa de voo-solo para mostrar aura de estadista, ela chegou a ensaiar um blá-blá-blá tatibitate sobre educação – mas parou na iminência de um edema de glote, quase engasgada com o “ensino mé, fundá, médio-fundamental, ou seja, o ensino básico.”

Mas a Dra. Dilma Rousseff, que também não tem o menor senso de autocrítica, o que é próprio dos grandes mentecaptos, deve ter dado alta com louvor para sua doentia performance sobre saúde e repetiu o diagnóstico, no mesmo cenário, a porta de casa – desta vez para completar seu pensamento vivo sobre educação.

Com a mesma blusa branca, a agora Professora Dilma, que acabara de receber o presidente da CNI, “o Robinson”, pôs-se a divagar, já na forma de planos de governo, sobre ideias que acabara de ouvir de orelhada na reunião e que, mal processadas por seu neurônio duplo, resultaram em mais um show de despreparo e desconhecimento absolutos e irreparáveis.

O tumor da Receita é grave e metastático, característica do adenocarcinoma petista. Mas o estado de ignorância integral, mediado pela má-fé, que a candidata quase eleita demonstra sem trégua há 11 meses me parece ainda mais preocupante – porque será doença crônica e incapacitante durante pelo menos quatro anos. Ela não sabe nada sobre o País que pode vir a governar – nem sobre o que fazer com ele.

Na saída da reunião, entre triunfante e compenetrada, começou a falar sobre os “problemas da era do crescimento”. Ou seja, o Brasil de Lula cresceu tanto que, se melhorar, estraga.

“O país, chegando quase ao pleno emprego, nós vamos precisá de qualificá bastante a nossa mão de obra para podê dá um salto”, recita a candidata que dará o maior salto de sua vida sem precisá de se qualificá nem um pouquinho.

Muitas sugestões ouvidas do presidente da CNI viraram “plano de governo” no caminho da sala da casa à calçada da coletiva:

“A CNI tem um processo que é muito interessante di, i qui afina-se com a minha proposta em relação ao ProMédio (programa de bolsas de estudo para alunos de ensino médio e baixa renda, ainda uma ficção), que é combiná o ensino médio com o ensino profissionalizante. Então, no nosso caso, a gente utilizaria, né, as vagas tanto nas escolas, é, nos institutos federais tecnológicos e também de todas as entidades privadas que prestam cursos profissionalizantes. Então a gente compraria vagas e complementaria o ensino técnico com o ensino médio, articulando um no outro. Eles chamam isso de ensino articulado”.

Dilma também gostou muito de algo que ouviu do presidente da CNI sobre o ensino em regiões remotas. Já encampou a ideia, mas vamos ver se ela entendeu direitinho:

“E outra sugestão muito interessante que eu achei é em pequenas cidades no Amazonas usar o ensino técnico móvel. Seria uma capacitação muito parecida com que nós fazemos no Brasil Profissionalizante, que é, por exemplo, eles operam muito com caminhões ou com ônibus. Ali, a escola chega, eles formam eletricistas. Nós fizemos isso aliás no Luz para Todos. No Luz para Todos faltava eletricista e a gente tinha de formá nos próprios lugares”.

Deve ser um projeto maravilhoso, mas a versão de Dilma, aparentemente, é meio esquisita. Caminhões e ônibus transportam muito poucas coisas no Amazonas, um estado basicamente fluvial. Um caminhão ou um ônibus chegando a uma cidade remota com uma escola dentro seria um acontecimento. Se me falta a luz necessária para entender o programa, não faltarão eletricistas para nos iluminar a todos.

Esses são apenas os primeiros quatro minutos do vídeo. Há mais cinco minutos impagáveis — mas que pagaremos caro.

Divirtam-se com a Escolinha Média Fundamental Básica Profissionalizante da Professora Dilma.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Ilegalidades Oficiais (3): estimuladas pelo presidente da republica e pela maquina do Estado

Inacreditável: nunca antes neste país, desde antes de Cabral, um governicho, desses bem vagabundos, se comporta dessa forma num processo eleitoral. Talvez nas quebradas do sertão, nos grotões da política brasileira, coroneis e caciques ao velho estilo se comportem da mesma forma, mas não se tinha notícia da presidência da república (com letras minusculérrimas, sempre) fazendo isso que ocorre no Brasil atualmente.
Em qualquer país decente, já haveria processo por crime eleitoral e talvez impeachment.

A transgressão consagrada
Editorial do Estadão, 16.07.2010

Luiz Inácio Lula da Silva entrará para a história das eleições presidenciais brasileiras sob o Estado Democrático de Direito pela desfaçatez sem paralelo com que se conduz. Ele não apenas colocou os recursos de poder próprios do cargo que exerce à disposição de sua candidata — escolhida, de resto, por um ato de vontade imperial —, como ainda assume ostensivamente o abuso e disso se jacta.

A demolição das leis e das instituições destinadas a separar Estado, governo e campanhas políticas não se fez em um dia. Lula começou a pensar no segundo mandato, e a se guiar rigorosamente por essa meta, mal tirou a faixa recebida do antecessor em 1.º de janeiro de 2003 — se não antes. E começou a pensar no nome do sucessor, e a subordinar a administração federal aos seus cálculos eleitorais, tão logo descartou definitivamente, decerto ao concluir que se tratava de uma aventura de desfecho incerto, a possibilidade de um terceiro período no Planalto.

Depois que os dois grandes escândalos do lulismo — o mensalão e a perseguição a um caseiro — excluíram da lista dos presidenciáveis do presidente os cabeças de seu governo, José Dirceu e Antonio Palocci, a solitária decisão de lançar a candidatura da ministra Dilma Rousseff, com experiência zero em competições pelo voto popular, embutia uma consequência que só o seu patrono poderia barrar. Desde que, bem entendido, tivesse ele um mínimo de apreço pelos valores republicanos dos quais fala de boca cheia.

A consequência, evidentemente, era a conversão do Estado e do governo em materiais de construção da campanha dilmista — numa escala e com uma intensidade que talvez fossem menos extremadas se o candidato se chamasse Dirceu ou Palocci. Diga-se o que se queira deles, um e outro têm bagagem partidária e milhagem na rota das urnas bastantes para não depender, tanto quanto Dilma, do sistemático abuso de poder do chefe (ou, no caso dela, chefe e criador). Em outras palavras, a fragilidade eleitoral intrínseca da ex-ministra clamava pelo vale-tudo para ser neutralizada — e não seria Lula quem deixaria de fazê-lo.

Assim que ele bateu o martelo em seu favor, aflorou no mundo político e na imprensa a questão da transferência de votos. Seria o mais popular dos presidentes brasileiros capaz de eleger a candidata tida como um poste? Seria o seu formidável carisma suficiente para impedir que ela naufragasse por seus próprios méritos, por assim dizer? Perguntas pertinentes — e enganadoras. Do modo como foram formuladas, tendem a fazer crer que os eventuais efeitos, em 3 de outubro, do poder de persuasão de Lula independem da sua gana de atrelar o comando do Executivo aos seus interesses eleitorais.

É bem verdade que Lula chegou lá da primeira vez (na quarta tentativa) concorrendo pela oposição. Mas, em 2002, o desejo de mudança que ele encarnava provavelmente prevaleceria ainda que o então presidente Fernando Henrique, com a mesma falta de escrúpulos que o sucessor exibiria, transformasse o seu gabinete em quartel-general da campanha do candidato José Serra. Agora, chega a ser intrigante, nas análises políticas, a dissociação entre o uso da popularidade de Lula e a sua desmesurada desenvoltura em entrelaçá-lo com o abuso de sua posição.

Não foi por falta de aviso. Já não bastassem as transgressões que cometia ao carregar Dilma nos ombros presidenciais para cima e para baixo, ele anunciou no congresso do PT, em maio passado, que a sua prioridade este ano — como presidente da República — era eleger a sua protegida. Para quem tem a caradura de escarnecer tão desbragadamente do decoro político elementar, nada mais natural do que proclamar que sabe que transgride a lei e nem por isso deixará de transgredi-la.

Foi o que fez anteontem em um evento oficial na sede temporária do governo, numa dependência do Banco do Brasil. “Eu nem poderia falar o nome dela (Dilma) porque tem um processo eleitoral”, reconheceu, “mas a história (da alegada atuação da ministra no projeto do trem-bala) a gente também não pode esconder por causa de eleição.” Sob medida para os telejornais e o horário de propaganda.

Perto disso, que diferença fará uma multa a mais?

=================

A INCRÍVEL MAQUINA DE ILEGALIDADES - PLANALTO PROMOVE DILMA EM KIT POR VOTO EM MULHERES
Distribuição do material, por parte do governo, começou no mês passado, pouco antes do início oficial da campanha eleitoral.

Por Christiane Samarco e Leandro Colon, no Estadadão:
O governo federal produziu e distribuiu 215 mil cartilhas, 20 mil cartazes e 3 mil livros defendendo o voto nas mulheres. Também foi incluído no material um discurso de seis páginas da candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff. O kit foi enviado em caixas de papelão pela Secretaria de Políticas para as Mulheres - órgão vinculado à Presidência da República - a partidos políticos, deputados, senadores e demais candidatos nos Estados.

Apesar de ter sido elaborado em 2008 e 2009, o material só foi impresso em maio. A distribuição, por parte do governo, começou no mês passado, pouco antes do início oficial da campanha eleitoral. A capa da cartilha, intitulada Mais Mulheres no Poder Plataforma 2010, traz a imagem de um botão verde com a expressão “confirma” ? “confirma”, similar a uma urna eletrônica ? eletrônica, e a frase “eu assumo este compromisso”. Ontem, a Secretaria para as Mulheres distribuiu a publicação em Brasília numa conferência sobre a mulher na América Latina.

Militante
Já o livro intitulado Mais Mulher no Poder: uma questão da democracia & Pesquisa Mulheres na Política Política informa ser a Presidência da República a responsável pela obra e a secretaria pela “elaboração, distribuição e informações”.

A partir da página 17, Dilma relata seu passado de militante de esquerda, seu histórico no governo Lula e destaca ter sido a primeira mulher a ocupar a chefia da Casa Civil. “Eu acredito que as mulheres são capazes de assumir esses espaços e têm uma dedicação inequívoca”, diz trecho do discurso feito por Dilma num seminário no ano passado.

Em carta assinada no dia 18 de junho e enviada ao Congresso, Sônia Malheiros Miguel, subsecretária de Articulação Institucional e Ações Temáticas, relata aos parlamentares detalhes sobre o livro e a cartilha. Ela avisou que, se for necessário, o governo poderá enviar mais exemplares.

Site
Em nome de Sônia Miguel está o site Mais Mulheres no Poder, que destaca a cartilha que pede votos para as mulheres com o botão verde “confirma”. Ela aparece como “coordenadora-geral”. O governo contribui para a manutenção do site. Em abril, por exemplo, lançou edital para contratar consultoria destinada a abastecer o seu conteúdo. No mês passado, o site oficial da campanha de Dilma indicou a visita a essa página, informando que o “governo federal” a lançou.

O custo de impressão das cartilhas, dos livros e dos cartazes foi de, pelo menos, R$ 72 mil. O dinheiro saiu de um convênio entre o governo e o PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento). Coube à Secretaria de Políticas para as Mulheres enviar para a gráfica o arquivo com o material a ser impresso, aprovar o produto final e recebê-lo para distribuição em todo o País. Dois funcionários da secretaria foram destacados para cuidar dessa etapa de produção.

Inicialmente, seriam impressas 100 mil cartilhas ao preço total de R$ 27 mil, mas um pedido extra de mais 115 mil foi feito à gráfica contratada, acrescentando uma despesa de mais R$ 31 mil. Os livros custaram R$ 9,7 mil e os cartazes, R$ 4,7 mil.

As caixas enviadas pelo governo ao Congresso, cada uma com 450 publicações, pegaram os parlamentares da oposição de surpresa. O conteúdo do material chamou a atenção por defender o voto nas mulheres com um discurso de Dilma Rousseff dentro de um livro.

terça-feira, 13 de julho de 2010

O patrimonialismo em construcao

A cara do patrimonialismo lulista
Ricardo Vélez Rodríguez
O Estado de S.Paulo, 13 de julho de 2010

Mal começou a campanha eleitoral e os petistas mostram a que vieram. Isto é, vieram para culminar a obra de desmonte das instituições democráticas, mediante a definitiva consolidação do Estado patrimonial, submetido ao peleguismo lulista. Demétrio Magnoli identificou muito bem essa realidade (A escolha de Serra, 8/7, A2): "O lulismo não é a política macroeconômica do governo, tomada de empréstimo de FHC, mas uma concepção sobre o Estado. A sua vinheta de propaganda, divulgada com dinheiro público pelo marketing oficial, diz que o Brasil é um país de todos. Eis a mentira a ser exposta. O Estado lulista é um conglomerado de interesses privados. Nele se acomodam a elite patrimonialista tradicional, a nova elite política petista, grandes empresas associadas aos fundos de pensão, centrais sindicais chapa-branca e movimentos sociais financiados pelo governo."

Lula e seguidores são caras de pau ao pretenderem vender aos eleitores uma continuidade patrimonialista com o falso nome de "democracia para todos". A candidata Dilma Rousseff não teve a menor vergonha em afirmar que o programa de governo apresentado ao Tribunal Superior Eleitoral em 5 de julho não era para valer, tendo-o substituído por novo texto (e em 7/7 anunciou que sua campanha entregaria uma terceira e definitiva versão à Justiça Eleitoral contendo as sugestões de consenso dos partidos que compõem a coligação de sua candidatura, conforme publicado pelo Estado). Isso é fazer de todos nós, eleitores, um bando de ingênuos. Será que vamos engolir mais essa? Lula já tinha feito coisa semelhante quando revogou o programa do partido em 2002, a famosa Carta do Recife, substituindo-o, a toque de caixa, pela memorável Carta ao Povo Brasileiro, com base na qual desenvolveu a sua campanha. O problema é que Lula, Dilma e demais confrades não acreditam nas instituições democráticas. Guardaram dos seus anos de militância o menosprezo pelas denominadas "instituições burguesas", que, como ensinavam Marx e Lenin, deveriam simplesmente ser destruídas para erguer sobre as suas ruínas uma ditadura personalista.

Lula acrescentou, sobre essa herança perversa do marxismo-leninismo inserida na ideologia petista, o componente populista. Para essa forma de fazer política o que importa é estabelecer uma espécie de "convívio emocional" entre o líder e o povão que ele diz representar, prescindindo das instituições. Como afirma um dos mais importantes estudiosos contemporâneos do fenômeno, o sociólogo francês Pierre-André Taguieff, na sua obra A Ilusão Populista (Paris, 2007), o líder populista é um demagogo cínico que apregoa a salvação do povinho destruindo as instituições democráticas. Isto é, nem mais nem menos, o que Lula tem feito: desmoralizar as instituições de direito, a começar pela representação política, pela Justiça, pela imprensa livre, pelos Tribunais de Contas e pela vida político-partidária, para, sobre as cinzas da anomia, erguer a sua figura de salvador da Pátria. O atual presidente não duvida um instante em comprometer a credibilidade da nossa diplomacia, tirando dela qualquer seriedade ao acomodá-la aos seus interesses populistas. Acaba de fazer isso na visita ao ditador e genocida Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, da Guiné Equatorial, alcunhando essa vulgar iniciativa de "pragmatismo".

O "nosso guia" já tinha tomado atitude semelhante, em múltiplas oportunidades, ao longo dos seus quase oito anos de mandato, em face de outros autocratas, como o presidente do Sudão, ou saindo na defesa ardorosa dos populistas latino-americanos Hugo Chávez, Evo Morales, Rafael Corrêa, Daniel Ortega, para não falar da sua amizade incondicional com os irmãos Castro, que presidem a mais antiga satrapia ibero-americana. E por falar em sátrapas, Lula desmoralizou ainda mais a nossa política externa ao se alinhar, desavergonhadamente, com o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, cuja legitimidade, nas eleições que o guindaram de novo ao poder, é questionada no próprio Irã e pela comunidade internacional. Tudo com a finalidade clara de deixar uma porta aberta para uma desvairada corrida atômica, banida pela nossa Carta Magna. Aliando-se a quem não deve, Lula terminou, de outro lado, brigando com quem não deve, colocando pedras no caminho de dois países latino-americanos que derrubaram as tentativas de tomada acintosa do poder por populistas ou totalitários: foram decepcionantes as reiteradas críticas do seu governo às ações empreendidas pelo presidente Álvaro Uribe, da Colômbia, contra as Farc (ainda não consideradas terroristas pelo governo brasileiro), bem como a tragicômica encenação na embaixada brasileira em Honduras para prestigiar o golpista ex-presidente Manuel Zelaya, aliado de Chávez.

Mas voltemos à nossa cena da campanha presidencial que começa. Como muito bem esclareceu o candidato José Serra, as diretrizes de um programa de governo são "a alma" do que se quer, e alguns pontos que constavam da primeira versão da equipe de Dilma são o que o PT realmente defende, "como a facilitação de invasão de terras". Ele citou, ainda, o controle da imprensa. "É tema em que a gente sabe o que eles pensam. Sempre que podem, isso é dito, depois eles vêm e corrigem." O que os adversários mostram, frisou Serra, "não são duas caras, são várias caras". E acrescentou: "Nós temos uma só cara, a minha cara." Garantiu em seguida que as diretrizes de seu programa foram "minuciosamente escritas".

Como questionou Magnoli, terá Serra, neste momento, a coragem de apresentar a sua cara de estadista e denunciar a farsa petista que pretende dar continuidade, no Brasil, ao abjeto patrimonialismo, que pratica a privatização do Estado pela elite clientelista tradicional, pela nova elite sindical, pelas grandes empresas associadas aos fundos de pensão e pelos movimentos sociais financiados pelo governo?

COORDENADOR DO CENTRO DE PESQUISAS ESTRATÉGICAS DA UFJF
E-MAIL: RIVE2001@GMAIL.COM


sábado, 26 de junho de 2010

Peculiaridades do processo eleitoral

Entre o céu e o inferno
Ruy Fabiano - jornalista
O Globo, 26.06.2010

A presente eleição exibe uma singularidade: o candidato principal não está na disputa. É o presidente Lula. Ele mesmo não fez cerimônia quanto a isso. Disse que o “vazio da cédula” será preenchido com o nome de Dilma Roussef, mas o candidato é ele.

Nenhum antecessor, em qualquer época, portou-se assim. Os paradigmas mais próximos são as eleições chilenas e as colombianas. Mas nenhum dos dois presidentes – Michele Bachelet e Alvaro Uribe -, embora ostentassem índices de popularidade até superiores aos de Lula (Bachelet deixou o governo com 84% e Uribe com 82%, enquanto Lula tem 76%), agiram com a mesma contundência.

Nenhum disse que ele próprio era o candidato, e o sucessor um poste. Dilma resigna-se ao papel, pois sabe que, em outras circunstâncias, não teria chances. O que não se sabe – e as pesquisas estão longe de esclarecer – é a consistência dessa estratégia.

No Chile, não funcionou; o candidato de Michelet perdeu. Na Colômbia, funcionou; o de Uribe ganhou. Em ambos, a população estava, como aqui, satisfeita com o governo.

Mas no Chile, com instituições estáveis e economia sólida, o eleitor não viu perigo na mudança. Na Colômbia, atormentada pelo narcotráfico, viu. E elegeu o personagem da continuidade, exatamente o encarregado de combater as Farcs, o ministro da Defesa, general Juan Manuel Santos.

O quadro brasileiro mistura um pouco as duas coisas: tem instituições razoavelmente estáveis e economia em alta, como o Chile; mas vive os tormentos da criminalidade, como a Colômbia. O narcotráfico mata 50 mil pessoas por ano, a maioria jovens e pobres.

É o equivalente a cem vezes o total de mortos nos 21 anos de ditadura militar – e isso por ano. O eleitor convive com um cenário paradoxal: de um lado o cenário de prosperidade que a máquina de propaganda do governo lhe exibe diariamente na mídia; de outro, o noticiário policial da mesma mídia. Entre o céu e o inferno.

O governo ancora seu discurso na prosperidade e, a partir dela, fala dos outros temas: saúde, educação, emprego, desenvolvimento. A oposição, sem êxito, diz que pode mais. Prefere disputar votos no que está dando certo, avalizando o cenário de bem-estar que o governo proclama. Despreza, até aqui, o potencial do mal-estar social que convive nessa conjuntura.

O máximo que fez foi propor a criação de um Ministério da Segurança, sem aprofundar as deficiências que o justificam e como se propõe a supri-las. E há reflexos contundentes da ação da rede criminosa continental, que tem nas Farcs um de seus pilares, em segmentos como saúde pública e educação.

As relações do governo brasileiro com aquela entidade, que vive do roubo de gado, venda de drogas (sobretudo para o Brasil) e sequestro de pessoas (com campos de concentração na selva amazônica) são ainda nebulosas, para dizer o mínimo.

Jamais houve uma condenação explícita. Ao contrário, Lula sugeriu que se transformassem em partido político e Marco Aurélio Garcia recusa-lhe o rótulo de organização terrorista, atribuído por Estados Unidos e União Europeia.

É um flanco em aberto que explica a porosidade da fronteira boliviana, mencionada de passagem por Serra, de onde procedem 90% da cocaína vendida ao Brasil, aqui processada e revendida pelo tráfico. Por aí, chega-se aos 50 mil brasileiros assassinados anualmente, o que caracteriza uma guerra civil silenciosa – ou nem tanto.

sábado, 19 de junho de 2010

Ectoplama no poder? - Rolf Kuntz

O ectoplasma e o poder
Rolf Kuntz*
O Estado de S.Paulo, 16/06/2010

Agora todos sabem: dona Dilma não será a primeira mulher na Presidência do Brasil, mesmo se eleita. Para isso ela precisaria existir, mas não existe, segundo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva

Luiz XIV uma ova. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva é muito mais. O rei francês nunca administrou as maiores empresas de seu país nem se candidatou à própria sucessão. O presidente Lula tem feito isso e muito mais. Suas atividades múltiplas eram conhecidas, mas ele, talvez por modéstia, só agora decidiu reconhecer publicamente a extensão de seus esforços. Na semana passada, ele confirmou um fato sabido há muito tempo, mas por ele tratado com discrição até recentemente: a Petrobras é comandada de seu gabinete. Poucos dias depois, uma nova confissão: é ele o real candidato do PT à Presidência da República.

Ao tornar público esse dado, ele desfez uma expectativa suscitada pelos discursos de dona Dilma Rousseff. Agora todos sabem: dona Dilma não será a primeira mulher na Presidência do Brasil, mesmo se eleita. Para isso ela precisaria existir, mas não existe, segundo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. É apenas um nome para preencher um espaço numa cédula, de acordo com a explicação fornecida por ele mesmo, em discurso na convenção do PT. "Eu mudei de nome", confessou.

A figura rotulada como Dilma Rousseff permaneceu calada, como seria de esperar, no caso de uma personagem fictícia, de uma boneca ou, talvez, de um ectoplasma produzido por um médium. Quando falou, gastou muitas palavras para elogiar Lula. Foi o único detalhe feio dessa história. Como ela não é mais do que uma projeção dele mesmo, as lindas palavras sobre Lula não foram, afinal, mais que um autoelogio. A modéstia deve ter acabado, mas também isso parece natural, depois da tentativa de mediar o conflito entre israelenses e palestinos.

A explicação sobre quem manda na Petrobrás foi dada em Natal, na quarta-feira passada. Segundo o presidente, a diretoria da estatal não queria saber de refinarias novas. A capacidade produtiva das atuais era considerada suficiente. Mas a palavra final não cabe a esses diretores. É prerrogativa do presidente da República. A construção de refinarias novas no Nordeste resulta de "uma decisão de governo", de acordo com Lula. Ele poderia ter usado uma linguagem mais simples e mais direta: decisão dele mesmo seria uma boa descrição. A condição da Petrobrás como empresa de capital aberto, com ações negociadas no Brasil e no exterior, parece fazer pouca ou nenhuma diferença para o presidente Lula, ou Dilma, ou Lula-Dilma. De fato, nada parece fazer diferença, além de seu projeto de poder. Nesse projeto, o partido tem obviamente uma função apenas instrumental.

Os demais candidatos à Presidência da República devem ao presidente Lula um favor, pelo esclarecimento oficial de alguns pontos:

a campanha é plebiscitária, sim, porque envolve uma disputa direta entre o atual governante e todos os demais. É preciso escolher entre a continuidade do governo de hoje e qualquer outra possibilidade, baseada ou não em experiências do passado recente;

será uma tolice, portanto, insistir em qualquer comparação com a candidata Dilma Rousseff, porque nenhuma figura conhecida por esse nome tem existência própria e independente do presidente Lula;

quando o presidente afirma ter dado algum conselho a Dilma Rousseff, como, por exemplo, não responder a certas acusações, a palavra "conselho" é mero eufemismo. Indica uma decisão tomada - ou pelo menos anunciada - por quem de fato disputa o poder em nome do PT. O real concorrente manda no partido, resolve as questões mais importantes e se protege por mera conveniência atrás da imagem de uma figura política fictícia;

é preciso avaliar e discutir as promessas vocalizadas por essa personagem com base no estilo de governo seguido desde 2003. A partir daí será possível desqualificar qualquer promessa de reforma politicamente difícil, como a tributária. Em sete anos e meio, o atual governo evitou cuidadosamente qualquer inovação dependente de uma negociação complicada, como foi, nos anos 90, a dos padrões fiscais prescritos para os Estados e municípios.

Para uso geral, é possível sintetizar este último detalhe na seguinte mensagem: mantido o padrão observado a partir de 2003, o governo tentará promover o crescimento com base em reformas aprovadas nos anos 90 e no começo desta década. As tentativas de reforma serão de outra natureza. Pode-se apostar num aprofundamento do peleguismo, na ampliação das bases cooptadas para apoiar o autoritarismo e em novas tentativas de controle dos meios de comunicação. Já houve pelo menos duas -a última com o Decreto dos Direitos Humanos -, seus autores não desistirão e só os muito conscientes da importância da liberdade tentarão resistir.

*Rolf Kuntz é jornalista.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Democracia é soberania do eleitor e alternancia de governantes

Um texto analítico, de um jornalista conhecido.

OS DOCES TOTALITÁRIOS
Reinaldo Azevedo
15 de junho de 2010

Vamos a um post que tende a ser um tantinho longo, daqueles que costumo classificar de “textos de formação”, seja porque remetem a algumas questões de princípio deste escriba — a minha própria “formação”, portanto —, seja porque podem ser um instrumento a mais a auxiliar o leitor nas suas escolhas. Vamos lá.

Dos princípios
Estou certamente entre os articulistas mais — à falta de melhor palavra, vai esta mesmo — “transparentes” da imprensa. Os leitores sabem o que penso. Ninguém pode se dizer enganado ao entrar nesta página: “Ah, pensava que você fosse outra coisa…” Então é porque não tinha lido direito. As esquerdas de modo geral— e esse bolchevismo à moda Sarney do PT em particular — não têm por que se animar comigo. Se me lêem, e como lêem!, é para ter uma chance a mais de secretar o seu fel. Há quem não consiga viver sem destilar algumas doses diárias de ódio. Questão de gosto.

Qual é a minha escolha em política? É a que preserva ou que faz avançar aqueles que considero valores inegociáveis da democracia. Quando estrilo aqui, ainda que quase sempre com bom humor, é porque avalio que o padrão democrático está sendo ou pode ser arranhado. Os textos estão em arquivo aos milhares. Basta fazer uma consulta.

A minha mais recente cruzada — bem-sucedida, ainda que não inteiramente vitoriosa porque há muita porcaria lá — foi contra o tal Plano Nacional-Socialista dos Direitos humanos, com suas agressões ao direito de propriedade, à Justiça, à imprensa e às liberdades públicas. Enxerguei lá a síntese do modo petista de trabalhar. Escrevi dezenas de textos a respeito porque não gosto do PT? Posso não gostar como conseqüência das escolhas que o partido faz, não por um capricho. Se eles experimentarem aderir à democracia pra valer, aí vamos ver como me comporto. Mas ninguém terá a chance de ver tal hipótese testada na prática.

Eles querem controlar a sociedade, submetendo a Constituição à arbitragem de grupos de pressão; eu a quero soberana, articulada com leis democraticamente votadas. Não há chance de conciliação. No mundo deles, um partido se impõe à sociedade; no meu mundo, a sociedade se impõe aos partidos. E essa minha escolha pauta, evidentemente, muitas outras; leva-me a fazer escolhas.

Lulocentrismo
Chega a ser escandaloso que Lula diga que a cédula eleitoral tem um vazio desde a redemocratização: seu nome não está lá. E que emende: ele agora se chama “Dilma”, tomando-se como o senhor absoluto da política. “Ah, essa é uma posição que ele conquistou democraticamente”, poderia dizer alguém. Pois é: os princípios elencados acima, então, começam a fazer diferença.

Lula foi eleito e reeleito não para subordinar a democracia a seus caprichos — ainda que ela permaneça com seus mecanismos formais intocados —, mas para se subordinar a ela, promovê-la, aperfeiçoá-la. Esse cesarismo tropical é uma derivação teratológica, doente, do embate democrático.

As palavras têm sentido, mesmo quando pronunciadas por Lula. Ele está nos dizendo, em suma, que poderia ter escolhido quem bem entendesse; fosse quem fosse o ungido, e os brasileiros estariam, a seu juízo, referendando o nome indicado. Lula dá um pé no traseiro de 130 milhões de eleitores e afirma a existência de um eleitor só: ele próprio. No mesmo discurso, como vimos, atacou a oposição, que é vítima de dossiês que circulam na petezada, e a imprensa — que, não obstante, têm contribuído para a criação desta nova categoria política e de pensamento: o lulocentrismo.

Ataque à democracia
Esse lulocentrismo, especialmente na crônica política, chega às raias da negação da própria política e do regime democrático. Não é raro — de fato, é muito freqüente — que esbarremos em textos que ficam muito perto de indagar como um candidato de oposição se atreve a disputar eleições se o governo Lula é tão popular. Notável contradição esta, que nasce da contaminação do pensamento por teses muito antigas, de filiação obviamente autoritária, quando não totalitária mesmo.

Ora, por que a democracia é um regime superior a qualquer outro? Porque ela dispõe de instrumentos para vigiar o poder e para substituir o governante — por meio das urnas ou da Justiça. Também está provado que é o único regime que consegue aliar liberdades púbicas públicas a qualidade da gestão. Não havendo qualidade, as tais liberdades se encarregam de fazer a troca, ou no tempo previsto do pleito seguinte ou em razão de algum outro mecanismo legal.

A estarem certos alguns coleguinhas “analistas”, a democracia que conduz à qualidade de gestão anularia a si mesma à medida que um governo aprovado pela maioria caminharia para a eternização, ainda que preenchendo o “vazio” da cédula por um mero avatar do governante popular. Não creio que José Serra ou mesmo Marina Silva estejam na disputa em razão de uma função, sei lá, meramente fática do processo democrático; apenas para justificar a sua existência. Ambos têm propósitos distintos do governo que aí está e devem se considerar mais preparados do que a sua adversária governista.

Mas também é inegável que é a existência de uma oposição no pleno exercício de suas prerrogativas, em condições de vencer uma eleição, que distingue um regime democrático de um regime autoritário. A eficiência não faz uma democracia, como bem sabe a China, por exemplo. Não se duvide: aquele é um governo que “funciona” e que realizou pelo “povo” prodígios numa escala que nem podemos imaginar por aqui. O país tirou da miséria uns 400 milhões de pessoas nos últimos 20 anos. E, não obstante, trata-se de uma ditadura feroz.

Povo teimoso
A análise, com alguma freqüência, se deixa contaminar pela propaganda e pelo bordão “nunca antes na história destepaiz”, repetido, com pequenas variações, na propaganda oficial do governo, na publicidade das estais e até nas mensagens publicitárias de empresas privadas. Nesse contexto, a chance de alternância de poder passou a ser tratada como um exotismo, como um absurdo, como falta de coerência: “Afinal, se eles estão contentes e aprovam o governo, por que votariam num candidato de oposição?”

Os eleitores têm insistido em desapontar os analistas. A disputa, na maioria das pesquisas, está empatada entre Serra e Dilma. É bem possível que os eleitores do tucano não reconheçam nele alguém disposto a desfazer tudo o que está aí, no que estão certos. Pode mesmo haver quem considere que as melhores chances da continuidade das melhorias estão na mudança.

Elemento estranho ao jogo — ao jogo da democracia ao menos — é satanizar a alternância; é supor que há uma contradição inelutável entre aprovar o governo e eleger um eventual opositor. Não na democracia!!! Contraditório com o regime democrático é supor que o normal — ou desejável — é que um governo popular simplesmente homologue o seu sucessor. É a oposição que faz o governo ser governo; é o governo que faz a oposição ser oposição. Eles são protagonistas da mesma narrativa; a história de um não pode ser contada sem a história do outro. Ou estaríamos numa ditadura, ainda que muitos a pretendessem virtuosa.

E não há ditaduras virtuosas.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

O Estado (mediocre) sou eu: azar o nosso

Opinião
Vaidade sem limites
Rodrigo Constantino, diretor do Instituto Liberal.
Opinião e Notícia, 15/06/2010

Luís XIV, o "Rei-Sol" da França, teria dito "o Estado sou eu". Luís Inácio, o "molusco tupiniquim", parece pensar o mesmo.

O presidente Lula não encontra limites para sua vaidade e seu delírio de grandeza. Do alto de sua enorme popularidade, ele dispara comentários absurdos que permanecem impunes na República das Bananas. Sua mais recente demonstração de megalomania foi a afirmação de que Dilma era apenas seu novo nome na cédula eletrônica, para preencher o “vazio” deixado pela sua ausência entre os candidatos. Que Dilma é apenas um “poste” criado por Lula para se manter no poder, muitos já sabiam. Mas que o próprio Presidente faria esta confissão, constatando a insignificância de sua criatura, isso foi uma surpresa.

O editorial do Estadão hoje (O criador e a criatura) bate justamente neste ponto, e merece ser lido com atenção. Outro artigo recomendável hoje é o de Miriam Leitão (Erro repetido), lembrando que o presidente Lula passa longe de ser um estadista que governa para todos. Lula é um político em eterna campanha, ignorando suas funções de chefe do Estado, e ainda por cima ignorando as leis eleitorais do País.

Lula é “o flagrante mais explícito da mistura entre partido e governo”, resume a colunista. Ela compara a situação atual do País, em que o Presidente prefere atacar a oposição quando seu próprio partido cria dossiês ilegais, com o caso Watergate, que derrubou o presidente Nixon nos Estados Unidos. O uso do aparato estatal para fins partidários é um grave crime. Infelizmente, o presidente Lula se coloca acima das leis, e estimula o avanço de práticas nefastas que corroem a democracia.

Luís XIV, o “Rei-Sol” da França, teria dito “o Estado sou eu”. Luiz Inácio, o “molusco tupiniquim”, parece pensar o mesmo. Hoje, seus arroubos de vaidade parecem blindados por sua popularidade. Mas não custa lembrar: Hitler e Mussolini foram bem populares em seus países por algum tempo…

sábado, 5 de junho de 2010

Ilegalidades Eleitorais: desafio ao TSE

Ou o Judiciário enquadra Lula ou Lula desmoraliza o Judiciário. Não existe uma terceira opção
Augusto Nunes
3 de junho de 2010

Em 15 de abril de 2009, por 5 votos a 2, o Tribunal Superior Eleitoral puniu com a cassação do mandato o governador do Maranhão, Jackson Lago, eleito pelo PDT. A maioria dos ministros decidiu-se pelo castigo depois da exibição do vídeo que documentou uma solenidade oficial realizada no município de Codó durante a campanha de 2006. No meio do discurso, o então governador José Reinaldo Tavares transformou a mesa das autoridades em palanque e declarou apoio a Lago. Isso não pode, entendeu o TSE. É abuso do poder político.

(Autonomeado Primeiro Cabo Eleitoral em 2007, o presidente da República improvisa um comício por dia para apoiar enfaticamente a candidatura de Dilma Rousseff)

Em 21 de novembro de 2008, o TSE impôs ao governador da Paraíba, Cássio Cunha Lima, o mesmo castigo que aplicaria a Jackson Lago cinco meses mais tarde. Por unanimidade, os ministros decidiram que Cunha Lima, reeleito pelo PSDB, incorrera em “abuso do poder econômico e político” ao usar a máquina do Estado na campanha de 2006. O tribunal considerou particularmente grave a distribuição de 35 mil cheques, somando R$ 3,5 milhões, por uma fundação subordinada ao gabinete do governador.

(Há pelo menos dois anos, Lula e Dilma vêm usando como gazuas eleitorais o dinheiro do Orçamento, do PAC e dos programas sociais. Em vez dos cheques de Cunha Lima, distribuem verbas, contratos, licitações espertas, cestas básicas e bolsa-esmola)

Em 26 de junho de 2009, Marcelo Miranda completou a trinca de governadores punidos por motivos semelhantes em menos de sete meses. Para continuar no cargo mais cobiçado do Tocantins, o candidato do PMDB animou a temporada de caça ao voto com a distribuição de milhares de cargos comissionados. Ganhou nas urnas por larga vantagem. Perdeu no TSE por unanimidade.

(Confrontada com o obsceno aparelhamento do Estado em curso há mais de sete anos, a esperteza de Marcelo Miranda parece peraltice de coroinha. É mais fácil encontrar uma ararinha-azul que um petista desempregado. Os companheiros da base alugada também se arranjaram na vida. Os morubixabas ganharam diretorias em estatais ─ incluída aquela da Petrobras que fura poço. A multidão dos comuns tem salário garantido)

No relato sobre os três casos exemplares, o repórter Fernando Mello, de VEJA.com, incluiu o preciso resumo da ópera produzido pelo ministro Carlos Ayres Britto, então presidente do TSE, tão logo terminou o julgamento de Jackson Lago: “Cinco votos concluíram pelo abuso do poder político, revestido de potencialidade para influenciar o resultado do pleito. Ficou assentado um entrelace de administrações na perspectiva de forçar o eleitorado a dar sequência de trabalho que somente seria assegurada se o governador de então fizesse o seu sucessor”.

De meia em meia hora, Lula e a sucessora que inventou avisam que o Brasil estará em perigo se a candidata for derrotada. O porão dos dossiês cafajestes foi reativado. A fábrica de mentiras já funciona sem intervalos para descanso. A rede escolar paulista acaba de ser inundadas por uma tempestade de panfletos que celebram proezas imaginárias do governo federal. Lula coleciona delinquências que afrontam o cargo que ocupa e a Justiça eleitoral. Oficialmente, a campanha nem começou.

Não existem brasileiros acima da lei. Existem os cumpridores da lei e os fora-da-lei. O presidente se incluiu acintosamente na segunda categoria e reduziu a contraventores aprendizes os governadores cassados. É preciso detê-lo agora. Ou o Judiciário enquadra Lula ou Lula desmoraliza o Judiciário.

Não existe uma terceira opção.