Pesquisa GPP mostra empate técnico com Serra na frente Terça, 26 de Outubro de 2010
O instituto GPP registrou no TRE uma pesquisa onde mostra que o candidato José Serra lidera a disputa com 52% dos votos válidos e Dilma com 48%. Os números são diferentes dos divulgados pela mídia nacional, o que provoca um reboliço.
A pesquisa ouviu 4.047 pessoas entre os dias 22 e 24 de outubro no país inteiro, registramos a pesquisa para mostrar para a população e dizer o seguinte: "não viaje, fique na sua cidade e vote. Porque se isso acontecer, o Serra será presidente do Brasil. A eleição vai ser apertada para qualquer um dos lados", diz o candidato a vice-presidente Índio da Costa.
Segundo ainda informação do Instituto GPP, o único que acertou os números no primeiro turno, estes números são de uma pesquisa de campo e não do tracking tucano, que faz pesquisa telefônica. De qualquer maneira, eles estão próximos do que tem constatado o tracking: uma vantagem para Serra, mas ainda em situação de empate técnico.
O Instituto GPP goza de credibilidade e tem um histórico de acerto em pesquisas sobre intenção de votos, que realizou em outras disputas eleitorais, inclusive no primeiro turno das eleições presidenciais deste ano, quando acertou o resultado.
A pesquisa foi registrada no TRE sob o número 37.219/2010
Se entrarem no site da JOVEM PAN (http://jovempan.uol.com.br/enquete-brasil-eleicao-2010 ) vão ver que na enquete de ontem o Serra ficou na frente na maioria dos municípios pesquisados. (clique nas cidades sobre o mapa, aguarde e veja o resultado ao lado).
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Pesquisas já não servem de conforto
Painel - Renata Lo Prete
Folha de S.Paulo, 2.10.2010
A atitude petista hoje em nada lembra o excesso de confiança exibido na reta final do primeiro turno
AINDA QUE o antepenúltimo Datafolha da sucessão presidencial de 2010 tenha contribuído para tranquilizar integrantes da campanha de Dilma Rousseff -entre os quais havia, na véspera, quem genuinamente esperasse por uma redução da vantagem sobre José Serra-, a atitude petista hoje em nada lembra o excesso de confiança exibido na reta final do primeiro turno.
Mesmo com o quadro de estabilidade desenhado pela pesquisa, encontra-se, entre as vozes alinhadas com o governismo, até a opinião de que o debate da Rede Globo, amanhã à noite, poderá ser "decisivo".
Sério? Com 12 pontos de diferença pelo critério de votos válidos? Uma combinação de fatores explica esse surto de cautela.
Para começar, a zona de conforto de Dilma, embora razoável se considerado o curto intervalo de três dias daqui até a votação, não se compara à de Lula na mesma altura em 2002 (28 pontos sobre Serra) ou 2006 (22 sobre Geraldo Alckmin).
Existe ainda a necessidade de manter a tropa em estado de alerta.
O triunfalismo, antes adequado ao propósito de "criar um clima" para tentar liquidar a eleição pela via rápida, agora poderia desmobilizar a militância, tantas vezes valiosa para o PT na hora decisiva.
Acrescente-se a desconfiança que paira sobre as pesquisas em consequência dos erros cometidos no primeiro turno. Ela não atinge apenas o eleitor. Introduz um permanente "e se?" também na cabeça dos operadores da política.
Os levantamentos internos da campanha de Serra apontam Dilma à frente, porém bem mais próxima do tucano. A fotografia é semelhante à do GPP, historicamente ligado ao DEM, e diferente da apresentada pelos principais institutos.
É perfeitamente possível que estes últimos estejam certos -ou menos errados-, mas a dúvida sobrevive em razão de uma "verdade inconveniente": computadas tanto pesquisas feitas para divulgação quanto para consumo interno, os números apurados pela campanha de Serra foram os que mais se aproximaram do resultado do primeiro turno; os de Dilma superestimaram por larga margem sua dianteira.
Por fim, há a peculiaridade de uma disputa em que nenhum dos dois finalistas, sem prejuízo dos milhões de votos recebidos e a receber, conseguiu empolgar o eleitor.
Isso se reflete não somente no que ainda resta de indecisos (8%, segundo o Datafolha, contra 6% no mesmo momento de 2002 e 3% quatro anos atrás) mas também em fenômenos menos quantificáveis.
Nas "quális", mediadores se impressionam com a inconsistência da defesa tanto de Dilma quanto de Serra. Não raro, participantes mudam de voto uma ou duas vezes na mesma sessão. A questão, no entender de quem acompanhou eleições anteriores, é a escassez de argumentos à disposição do eleitor.
Chama a atenção que Lula seja, até hoje, "o" atributo conferido a Dilma nos grupos. Quanto a Serra, que buscou ser aceito como "continuador", acabou confinado ao cercado que a força do presidente no eleitorado lhe impôs.
À diferença do que aconteceu nos dias anteriores ao primeiro turno, não há movimentação visível. Mas, num terreno assim pantanoso, não estranha que tenha gente enxergando jacaré embaixo da cama.
RENATA LO PRETE é editora do Painel
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quinta-feira, 28 de outubro de 2010
sábado, 23 de outubro de 2010
Triste campanha eleitoral: dividindo o pais - Miriam Leitao
Desvio e deverMiriam Leitão
O Globo, 23.10.2010
A grande questão não é o que acertou a cabeça de José Serra em Campo Grande, mas o que há na cabeça do presidente Lula. É assustador que ele não perceba o perigo de usar toda a sua vasta popularidade para subestimar um episódio de conflito físico entre grupos que disputam o poder. Se ele brinca com fato grave, o que está avisando é que esse tipo de atitude é aceitável.
Não é. Cada lado tem que ter segurança e garantia de fazer a sua festa, a sua passeata, o seu comício em paz. Quem organiza um grupo para interceptar a caminhada do grupo concorrente na disputa política sabe que há risco de que tudo fuja ao controle. O que houve já foi sério o suficiente, mas poderia ter sido ainda pior. Felizmente, há tempo de aprender com esse episódio.
A paixão eleitoral é natural, o maniqueísmo do segundo turno é emburrecedor, o confronto entre as partes só é aceitável se ficar no campo das ideias e propostas. Quem vai com um grupo organizado para hostilizar o adversário no meio da sua caminhada sabe que os ânimos podem ficar exaltados. Desta vez, foi uma pedra na cabeça de uma jornalista, e o rolo de fita na cabeça do candidato José Serra. Esse episódio deve ser visto pelo risco potencial de conflito generalizado. As imagens falam por si. O que mais poderia acontecer numa refrega de rua? No Paraná, a candidata Dilma Rousseff, no dia seguinte, foi alvo — felizmente quem lançou errou a pontaria — de balões de água. Esse é exatamente o ponto em que o chefe da Nação precisa pedir calma aos dois lados, lembrar os valores democráticos, e a melhor atitude na disputa política. Mas é exatamente neste momento que o presidente ofende quem foi atingido e convalida o comportamento desviante de quem agrediu. Ao tratar com leviandade um assunto sério, incentivou a militância a repetir o comportamento, escalou o conflito e deseducou o cidadão.
Essa campanha eleitoral está deixando cicatrizes nas instituições. Um presidente da República não deve fazer o que o presidente Lula tem feito. Não deve usar a máquina, a Presidência, o poder em favor de um dos candidatos dessa forma e com essa força. Claro que Lula tem um lado, um partido e uma candidata. Pode e deve explicitar isso. Seria estranho se não o fizesse. Mas a Presidência da República não pode ser usada como braço do comitê de campanha. Existe uma linha divisória que Lula nunca quis ver. E esse comportamento errado do ponto de vista institucional se repetiu durante toda a campanha. Em alguns momentos, os atos inadequados do presidente ficaram evidentes. Esse episódio deixou claríssimo o que não se deve fazer. Que as pessoas que vierem a ocupar este cargo no futuro vejam nas atitudes do presidente Lula de 2010 exemplos do que não fazer, não repetir.
O risco é que seja visto como natural daqui para frente o governo usar órgãos públicos para espionar adversários políticos; órgãos públicos, estatais e agências serem partidarizadas de maneira abusiva; o presidente não ter freio institucional. Não se acostumar com o erro repetido é a única garantia que se tem em momentos assim.
Quem já viveu sem democracia sabe o valor de cada ritual, limite, processo. Quem nunca viveu não tem como ver os riscos quando eles surgem com seus sinais antecedentes. Por isso é natural que os mais jovens pensem ser um exagero da oposição ou concluam que o episódio de Campo Grande não foi nada. Afinal, como ninguém se feriu seriamente, que problema tem? Podem pensar que se o presidente acha que o candidato da oposição é um farsante como aquele jogador de futebol isso é só mais um jogo, mais uma pelada no campo político. Se os mais jovens forem displicentes, é até compreensível. Um homem nos seus 65 anos, que viu o que o presidente Lula já viu no país, só brinca se não estiver levando a sério o cargo que ocupa, a faixa que recebeu, o poder que tem.
Hoje, os riscos institucionais não vêm mais dos quartéis, como se sabe. As Forças Armadas não conspiram contra a ordem democrática e isso é um salto extraordinário que o país deu com a contribuição de inúmeras pessoas e com o sacrifício de muita gente. Hoje, os riscos são outros, tem novas origens, e métodos diferentes.
Está em moda na América Latina demolir as instituições por dentro, minar a democracia, enfraquecendo o sistema de pesos e contrapesos, descaracterizar os poderes até eles ficarem irreconhecíveis, controlar a imprensa para não ouvir o contraditório. Felizmente, isso não acontece em todos os países, mas os casos em que esse processo está em curso são tão notórios e assustadores que qualquer pessoa que tenha passado pela experiência da ausência de democracia é capaz de ver. Certos governantes começam fazendo chacota de coisas graves, como Hugo Chávez. Ele xingou adversários políticos ou contou piadas e pôs apelidos supostamente engraçados para desacreditá-los. Isso, no princípio. Depois, ficou muito pior. Cristina Kirchner começou falando mal dos jornais e agora fala em estatizar a imprensa. Todos os que escolhem esse desvio político tentam intimidar a oposição para depois tentar exterminá-la.
Nenhum desses governantes do barulho da América Latina sabe o limite no uso dos órgãos e empresas públicas para objetivos políticos porque essa é uma poderosa ferramenta para minar o que mais os ameaça: o princípio da alternância no poder.
Como já escrevi nesse espaço, numa democracia não importa quem ganha a eleição, mas como se ganha a eleição. Se o presidente Lula conseguir seu objetivo tão almejado de fazer Dilma Rousseff sua sucessora, que seja pelos méritos de ambos, e não pelos erros e desvios dessa triste campanha.
O Globo, 23.10.2010
A grande questão não é o que acertou a cabeça de José Serra em Campo Grande, mas o que há na cabeça do presidente Lula. É assustador que ele não perceba o perigo de usar toda a sua vasta popularidade para subestimar um episódio de conflito físico entre grupos que disputam o poder. Se ele brinca com fato grave, o que está avisando é que esse tipo de atitude é aceitável.
Não é. Cada lado tem que ter segurança e garantia de fazer a sua festa, a sua passeata, o seu comício em paz. Quem organiza um grupo para interceptar a caminhada do grupo concorrente na disputa política sabe que há risco de que tudo fuja ao controle. O que houve já foi sério o suficiente, mas poderia ter sido ainda pior. Felizmente, há tempo de aprender com esse episódio.
A paixão eleitoral é natural, o maniqueísmo do segundo turno é emburrecedor, o confronto entre as partes só é aceitável se ficar no campo das ideias e propostas. Quem vai com um grupo organizado para hostilizar o adversário no meio da sua caminhada sabe que os ânimos podem ficar exaltados. Desta vez, foi uma pedra na cabeça de uma jornalista, e o rolo de fita na cabeça do candidato José Serra. Esse episódio deve ser visto pelo risco potencial de conflito generalizado. As imagens falam por si. O que mais poderia acontecer numa refrega de rua? No Paraná, a candidata Dilma Rousseff, no dia seguinte, foi alvo — felizmente quem lançou errou a pontaria — de balões de água. Esse é exatamente o ponto em que o chefe da Nação precisa pedir calma aos dois lados, lembrar os valores democráticos, e a melhor atitude na disputa política. Mas é exatamente neste momento que o presidente ofende quem foi atingido e convalida o comportamento desviante de quem agrediu. Ao tratar com leviandade um assunto sério, incentivou a militância a repetir o comportamento, escalou o conflito e deseducou o cidadão.
Essa campanha eleitoral está deixando cicatrizes nas instituições. Um presidente da República não deve fazer o que o presidente Lula tem feito. Não deve usar a máquina, a Presidência, o poder em favor de um dos candidatos dessa forma e com essa força. Claro que Lula tem um lado, um partido e uma candidata. Pode e deve explicitar isso. Seria estranho se não o fizesse. Mas a Presidência da República não pode ser usada como braço do comitê de campanha. Existe uma linha divisória que Lula nunca quis ver. E esse comportamento errado do ponto de vista institucional se repetiu durante toda a campanha. Em alguns momentos, os atos inadequados do presidente ficaram evidentes. Esse episódio deixou claríssimo o que não se deve fazer. Que as pessoas que vierem a ocupar este cargo no futuro vejam nas atitudes do presidente Lula de 2010 exemplos do que não fazer, não repetir.
O risco é que seja visto como natural daqui para frente o governo usar órgãos públicos para espionar adversários políticos; órgãos públicos, estatais e agências serem partidarizadas de maneira abusiva; o presidente não ter freio institucional. Não se acostumar com o erro repetido é a única garantia que se tem em momentos assim.
Quem já viveu sem democracia sabe o valor de cada ritual, limite, processo. Quem nunca viveu não tem como ver os riscos quando eles surgem com seus sinais antecedentes. Por isso é natural que os mais jovens pensem ser um exagero da oposição ou concluam que o episódio de Campo Grande não foi nada. Afinal, como ninguém se feriu seriamente, que problema tem? Podem pensar que se o presidente acha que o candidato da oposição é um farsante como aquele jogador de futebol isso é só mais um jogo, mais uma pelada no campo político. Se os mais jovens forem displicentes, é até compreensível. Um homem nos seus 65 anos, que viu o que o presidente Lula já viu no país, só brinca se não estiver levando a sério o cargo que ocupa, a faixa que recebeu, o poder que tem.
Hoje, os riscos institucionais não vêm mais dos quartéis, como se sabe. As Forças Armadas não conspiram contra a ordem democrática e isso é um salto extraordinário que o país deu com a contribuição de inúmeras pessoas e com o sacrifício de muita gente. Hoje, os riscos são outros, tem novas origens, e métodos diferentes.
Está em moda na América Latina demolir as instituições por dentro, minar a democracia, enfraquecendo o sistema de pesos e contrapesos, descaracterizar os poderes até eles ficarem irreconhecíveis, controlar a imprensa para não ouvir o contraditório. Felizmente, isso não acontece em todos os países, mas os casos em que esse processo está em curso são tão notórios e assustadores que qualquer pessoa que tenha passado pela experiência da ausência de democracia é capaz de ver. Certos governantes começam fazendo chacota de coisas graves, como Hugo Chávez. Ele xingou adversários políticos ou contou piadas e pôs apelidos supostamente engraçados para desacreditá-los. Isso, no princípio. Depois, ficou muito pior. Cristina Kirchner começou falando mal dos jornais e agora fala em estatizar a imprensa. Todos os que escolhem esse desvio político tentam intimidar a oposição para depois tentar exterminá-la.
Nenhum desses governantes do barulho da América Latina sabe o limite no uso dos órgãos e empresas públicas para objetivos políticos porque essa é uma poderosa ferramenta para minar o que mais os ameaça: o princípio da alternância no poder.
Como já escrevi nesse espaço, numa democracia não importa quem ganha a eleição, mas como se ganha a eleição. Se o presidente Lula conseguir seu objetivo tão almejado de fazer Dilma Rousseff sua sucessora, que seja pelos méritos de ambos, e não pelos erros e desvios dessa triste campanha.
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Miriam Leitao
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
Posicionamento dos militares
Em 2002, os militares eram claramente simpáticos a Lula, em razão, principalmente, de seu aparente "soberanismo nacionalista", de sua "ambiguidade" sobre o poderio nuclear e de forte nacionalismo econômico.
Em 2006, acredito que eles se tenham dividido, com a base do suboficialato e escalões inferiores ainda apoiando Lula, e os oficiais provavelmente rejeitando-o, em vista dos "esquerdistas" no poder, do peleguismo sindical, das generosas indenizações para ex-terroristas, etc.
Agora, creio que o grosso dos militares se posiciona contrariamente à candidata oficial, como se depreende desta mensagem do Clube Militar.
Paulo Roberto de Almeida
ESTÃO VOLTANDO AS FLORES
Gen Div Clovis Purper Bandeira
1º Vice-Presidente do Clube Militar
(16.10.2010)
Vê, estão voltando as flores
Vê, nesta manhã tão linda
Vê como é bonita a vida
Vê, há esperança ainda.
Com a chegada da primavera, vêm à minha mente os belos versos de Paulo Soledade, cantados com tanta beleza por artistas como Elen de Lima, Elizeth Cardoso, Altemar Dutra, Emílio Santiago, Dalva de Oliveira, Simone, Nelson Sargento, Miltinho e outros.
Sim, é setembro e estão voltando as flores.
Pena que não voltem sozinhas, mas venham acompanhadas de tanta tristeza e de tanta preocupação com nosso país e seu futuro.
Uma das notícias mais preocupantes é o ressurgimento do peleguismo sindical em grande forma, ocupando postos que não lhe cabem na máquina do governo, nos ministérios, nas agências reguladoras, empresas estatais e paraestatais, fundações, prestadoras de ser-viço para os diversos níveis do governo, peleguismo abastecido em sua gorda caixa pela contribuição sindical obrigatória de um dia de salário de cada trabalhador sindicalizado – e o são todos os trabalhadores com carteira assinada, por força de lei – livre de impostos e dis-pensado de prestar contas a quem quer que seja sobre o destino dado a esse dinheiro. É, sem dúvida o melhor emprego que existe. É, também, clara evidência de corrupção.
Com tais regalias, o governo compra o silêncio dos trabalhadores e de seus pretensos representantes. De fato, você viu, nestes quase oito anos de desgoverno, greve de traba-lhadores? Somente em estados governados pela oposição, o que demonstra a direção go-vernista que orienta o movimento sindical, comprado para aplaudir a máfia governamental e criar problemas para os dirigentes oposicionistas.
Seria útil olharmos um pouco para o passado recente e vermos o que o compadrio en-tre governo e sindicatos tem produzido: Mussolini e fascismo, Perón e justicialismo, Jango e peleguismo...
Também devemos lembrar que essa infiltração é insaciável e que não admite perder os privilégios que conquistou, exigindo cada vez mais poder e mais benesses. Nem pensam em alternância no poder, tão necessária para oxigenar a democracia. Em todos os casos, só foram apeados das posições em que se encastelaram pela força. O descalabro que produzi-ram exigiu soluções violentas e traumáticas, que custaram doloroso preço para as socieda-des por eles dominadas.
As nações que não zelam pelo profissionalismo no serviço público, permitindo a venda e troca de cargos e funções entre os apaniguados do governante, que cria cada vez mais cargos "de confiança" para poder dominar o dito serviço, distribuindo gratificações disfarça-das – com siglas como FG, DAS etc – para saciar os beneficiados, enquanto os funcionários de carreira são deixados de lado, a não ser que resolvam aderir à festa, em algum momento terão que pagar a conta de sua falta de caráter cívico e de coragem política.
As eleições são o momento por excelência para fazer esses acertos, mas parece que, por enquanto, o problema não é visualizado pelo grande público, e quem o denuncia é taxa-do de catastrofista e adepto de teorias conspiratórias.
Quanto mais se prolongar o aparelhamento sindical, mais difícil e mais doloroso será extirpar o cancro.
Não quero, no entanto, ser pessimista, apenas observar que é bom ficarmos atentos para evitar a surpresa.
Afinal, é primavera, e como continuava o poeta:
Vê, as nuvens vão passando
Vê, um novo céu se abrindo
Vê, o sol iluminando
Por onde nós vamos indo
Em 2006, acredito que eles se tenham dividido, com a base do suboficialato e escalões inferiores ainda apoiando Lula, e os oficiais provavelmente rejeitando-o, em vista dos "esquerdistas" no poder, do peleguismo sindical, das generosas indenizações para ex-terroristas, etc.
Agora, creio que o grosso dos militares se posiciona contrariamente à candidata oficial, como se depreende desta mensagem do Clube Militar.
Paulo Roberto de Almeida
ESTÃO VOLTANDO AS FLORES
Gen Div Clovis Purper Bandeira
1º Vice-Presidente do Clube Militar
(16.10.2010)
Vê, estão voltando as flores
Vê, nesta manhã tão linda
Vê como é bonita a vida
Vê, há esperança ainda.
Com a chegada da primavera, vêm à minha mente os belos versos de Paulo Soledade, cantados com tanta beleza por artistas como Elen de Lima, Elizeth Cardoso, Altemar Dutra, Emílio Santiago, Dalva de Oliveira, Simone, Nelson Sargento, Miltinho e outros.
Sim, é setembro e estão voltando as flores.
Pena que não voltem sozinhas, mas venham acompanhadas de tanta tristeza e de tanta preocupação com nosso país e seu futuro.
Uma das notícias mais preocupantes é o ressurgimento do peleguismo sindical em grande forma, ocupando postos que não lhe cabem na máquina do governo, nos ministérios, nas agências reguladoras, empresas estatais e paraestatais, fundações, prestadoras de ser-viço para os diversos níveis do governo, peleguismo abastecido em sua gorda caixa pela contribuição sindical obrigatória de um dia de salário de cada trabalhador sindicalizado – e o são todos os trabalhadores com carteira assinada, por força de lei – livre de impostos e dis-pensado de prestar contas a quem quer que seja sobre o destino dado a esse dinheiro. É, sem dúvida o melhor emprego que existe. É, também, clara evidência de corrupção.
Com tais regalias, o governo compra o silêncio dos trabalhadores e de seus pretensos representantes. De fato, você viu, nestes quase oito anos de desgoverno, greve de traba-lhadores? Somente em estados governados pela oposição, o que demonstra a direção go-vernista que orienta o movimento sindical, comprado para aplaudir a máfia governamental e criar problemas para os dirigentes oposicionistas.
Seria útil olharmos um pouco para o passado recente e vermos o que o compadrio en-tre governo e sindicatos tem produzido: Mussolini e fascismo, Perón e justicialismo, Jango e peleguismo...
Também devemos lembrar que essa infiltração é insaciável e que não admite perder os privilégios que conquistou, exigindo cada vez mais poder e mais benesses. Nem pensam em alternância no poder, tão necessária para oxigenar a democracia. Em todos os casos, só foram apeados das posições em que se encastelaram pela força. O descalabro que produzi-ram exigiu soluções violentas e traumáticas, que custaram doloroso preço para as socieda-des por eles dominadas.
As nações que não zelam pelo profissionalismo no serviço público, permitindo a venda e troca de cargos e funções entre os apaniguados do governante, que cria cada vez mais cargos "de confiança" para poder dominar o dito serviço, distribuindo gratificações disfarça-das – com siglas como FG, DAS etc – para saciar os beneficiados, enquanto os funcionários de carreira são deixados de lado, a não ser que resolvam aderir à festa, em algum momento terão que pagar a conta de sua falta de caráter cívico e de coragem política.
As eleições são o momento por excelência para fazer esses acertos, mas parece que, por enquanto, o problema não é visualizado pelo grande público, e quem o denuncia é taxa-do de catastrofista e adepto de teorias conspiratórias.
Quanto mais se prolongar o aparelhamento sindical, mais difícil e mais doloroso será extirpar o cancro.
Não quero, no entanto, ser pessimista, apenas observar que é bom ficarmos atentos para evitar a surpresa.
Afinal, é primavera, e como continuava o poeta:
Vê, as nuvens vão passando
Vê, um novo céu se abrindo
Vê, o sol iluminando
Por onde nós vamos indo
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sábado, 16 de outubro de 2010
A corrupcao pouco ordinaria (como nunca antes neste pais); haja estomago para tudo isso...
Mais uma história dessas ordinárias, no sentido mais literal do termo: corrupção da grossa, que deveria gerar alguma reação.
Sou capaz de apostar que sairão com aquela história de sempre: partido da imprensa golpista, intriga da oposição, mentira...
Até o cara ser demitido (mais frequentemente se afastar "voluntariamente").
Asco...
Paulo Roberto de Almeida
'Fui extorquido na Casa Civil'
Diego Escosteguy
Veja, 16.10.2010
Deputado revela que assessor de Dilma Rousseff exigiu 100 000 reais de propina para agilizar processo que dependia de autorização do presidente Lula
O advogado Vladimir Muskatirovic, conhecido em Brasília como “Vlad”, ocupa a poderosa chefia-de-gabinete da Casa Civil da Presidência da República. Assim como a ex-ministra Erenice Guerra fez carreira no governo à sombra da candidata petista Dilma Rousseff, Vlad fez carreira no governo à sombra de Erenice Guerra. Ele era subordinado de Erenice quando esta ocupava a chefia da assessoria jurídica do Ministério de Minas e Energia. Quando Dilma assumiu a Casa Civil e Erenice levou sua turma junto, Vlad foi o primeiro a acompanhá-las.
Apesar de a ex-ministra ter sido apeada do Palácio após vir a público a existência de uma central de corrupção na Casa Civil, Vlad permanece no cargo. Não é por acaso. Além da amizade com Erenice, Vlad mantém relações fraternas com o senador Gim Argello, figura secundária dos subterrâneos de Brasília, que, sabe-se lá por qual razão, caiu nas boas graças de Dilma nos últimos anos.
Nos ambientes em que o senador Gim brilha, Vlad é uma celebridade. VEJA descobriu um dos casos que fazem a fama do chefe-de-gabinete. Em 2007, Vlad, já como assessor de Dilma na Casa Civil, cobrou 100 000 reais de propina – e recebeu parte do dinheiro – para resolver uma pendência de um deputado junto à Presidência da República.
O deputado chama-se Roberto Rocha, do PSDB do Maranhão. Ele é sócio da TV Cidade, retransmissora da Record no estado, e de duas rádios. O pedágio foi exigido para que a Casa Civil autorizasse uma mudança societária nessa TV. O que a Casa Civil tem a ver com isso? Tudo. A concentração de poder na Presidência da República é de tal ordem que cabe à Casa Civil ratificar qualquer compra ou venda envolvendo rádios e TVs do país, que são concessões públicas.
Pode ser coisa grande ou miudeza: tem que passar pela Casa Civil. Depois de passar por lá, o presidente é obrigado a assinar esses atos, como se fosse chefe de um cartório. Diante do fato de que o Ministério das Comunicações analisa previamente todos esses casos, trata-se de um simples carimbo. Um carimbo, no entanto, que vale ouro: pode custar caro obte-lo, evita-lo ou agilizar seu uso. Um carimbo é moeda líquida na cleptocracia federal.
Vlad pôde vender tão caro uma facilidade porque o governo havia criado uma enorme dificuldade – uma que parecia não ter solução. A epopeia começa em 2003, no início do governo Lula, quando o sócio de Roberto Rocha na TV aceitou vender a participação dele no negócio. Esse sócio era aliado de José Sarney. Rocha é adversário do senador. Fez-se a transação, e a papelada seguiu para o Ministério das Comunicações, de modo que os rituais burocráticos fossem cumpridos.
Deveria demorar algumas semanas. Demorou um ano. Demorou em razão do lobby contrário promovido por aliados de Sarney. É fácil entender os motivos disso. Sarney é dono da retransmissora da Globo no Maranhão. Seu principal aliado, o senador Edson Lobão, controla a retransmissora do SBT no estado. Caso o governo autorizasse o negócio do deputado Rocha, portanto, haveria no Maranhão uma TV não-alinhada com os interesses da família – e uma TV num estado pobre é uma poderosa arma política. No final de 2003, apesar das pressões contrárias, o então ministro das Comunicações, deputado Miro Teixeira, finalmente aprovou a transação e encaminhou o papelório para a Casa Civil.
No dia 7 de janeiro de 2004, o Diário Oficial publicou a autorização concedida pelo presidente Lula. Tudo parecia resolvido. Mais eis que sobreveio um episódio insólito, daqueles que só se explicam pela força irresistível de certos interesses políticos. Houve uma reforma ministerial, e o deputado peemedebista Eunício Oliveira, do mesmo partido de Sarney, assumiu a pasta das Comunicações. Tentou-se reverter ali, de todos os modos, a tal autorização já assinada por Lula.
A pressão de Sarney aumentou e, no dia 11 de março, dois meses depois de publicada a autorização, o mesmo Diário Oficial trouxe um ato do mesmo presidente Lula revogando a decisão anterior. Sem justificativa, sem devido processo legal. Pode-se apenas supor as razões políticas para essa aberração jurídica – e todas elas passam pelos interesses do senador Sarney. Inconformado, o deputado Roberto Rocha contratou bons advogados e recorreu ao Supremo Tribunal Federal. O deputado ingressou com um mandado de segurança, que, por sua natureza, deveria ser julgado em pouco tempo, mas que acabou morrendo nas gavetas do Supremo.
Rocha, contudo, não estava sozinho em sua cruzada para assegurar o comando da TV. Todos os políticos anti-Sarney do Maranhão lhe ajudaram O deputado petista Domingos Dutra – que chegou a fazer greve de fome recentemente para impedir que seu partido apoiasse a candidatura de Roseana Sarney ao governo do estado – foi um deles. Diz Dutra: “Falei com as lideranças do PT, falei no governo. Mas eles preferem o Sarney. Rocha chegou a me contar o que aconteceu na Casa Civil da Erenice”.
Parece estranho ver um petista e um tucano atuando harmoniosamente. No Maranhão, entretanto, os políticos dividem-se entre os que são adversários ou aliados de Sarney. Rocha e Dutra pertencem ao primeiro grupo. E os esforços deram algum resultado.
Em 2007, o deputado conseguiu ser recebido na Casa Civil. Esteve com Erenice Guerra, então secretária-executiva, e o assessor Vlad. Ambos confirmaram a teratologia do ato presidencial e prometeram resolver o assunto. Localizado por VEJA, que soubera do caso por intermédio uma fonte na Casa Civil e outra no PT, o deputado relutou em admitir o episódio – mas acabou por narrar o que havia acontecido. Disse Rocha: “Esse assessor Vladimir cobrou para resolver. Fiquei enojado com tudo aquilo. Ter que pagar para que eles fizessem o que era certo? Fui extorquido pela Casa Civil”.
Depois da reunião, Vlad procurou um funcionário do deputado para acertar o pagamento. Os dois encontraram-se no restaurante que funciona no 10º andar da Câmara dos Deputados. “Vladimir deu a garantia de que resolveria tudo, desde que pagássemos 100.000 reais”, narra Ivo Icó Filho, o funcionário. “Ele disse que o valor era alto porque envolvia o trabalho de outras pessoas”.
O deputado conta que ponderou e, apesar de “revoltado”, resolveu pagar: “Autorizei meu assessor a providenciar um sinal: 20.000 reais”. Rocha não quis fornecer detalhes do pagamento. Completa o deputado: “E o pior é que não deu certo. Esse Vladimir nunca mais retornou as ligações ou respondeu emails. Foi um golpe”
Procurado pela reportagem, o chefe-de-gabinete da Casa Civil respondeu por meio de nota. Vlad admitiu frequentar o restaurante da Câmara e manter “reuniões políticas” com o senador Gim Argello. Mas nega ter pedido ou recebido propina. Diz o texto: “O assessor não pediu nem recebeu qualquer pagamento referente a essas pessoas”.
Sou capaz de apostar que sairão com aquela história de sempre: partido da imprensa golpista, intriga da oposição, mentira...
Até o cara ser demitido (mais frequentemente se afastar "voluntariamente").
Asco...
Paulo Roberto de Almeida
'Fui extorquido na Casa Civil'
Diego Escosteguy
Veja, 16.10.2010
Deputado revela que assessor de Dilma Rousseff exigiu 100 000 reais de propina para agilizar processo que dependia de autorização do presidente Lula
O advogado Vladimir Muskatirovic, conhecido em Brasília como “Vlad”, ocupa a poderosa chefia-de-gabinete da Casa Civil da Presidência da República. Assim como a ex-ministra Erenice Guerra fez carreira no governo à sombra da candidata petista Dilma Rousseff, Vlad fez carreira no governo à sombra de Erenice Guerra. Ele era subordinado de Erenice quando esta ocupava a chefia da assessoria jurídica do Ministério de Minas e Energia. Quando Dilma assumiu a Casa Civil e Erenice levou sua turma junto, Vlad foi o primeiro a acompanhá-las.
Apesar de a ex-ministra ter sido apeada do Palácio após vir a público a existência de uma central de corrupção na Casa Civil, Vlad permanece no cargo. Não é por acaso. Além da amizade com Erenice, Vlad mantém relações fraternas com o senador Gim Argello, figura secundária dos subterrâneos de Brasília, que, sabe-se lá por qual razão, caiu nas boas graças de Dilma nos últimos anos.
Nos ambientes em que o senador Gim brilha, Vlad é uma celebridade. VEJA descobriu um dos casos que fazem a fama do chefe-de-gabinete. Em 2007, Vlad, já como assessor de Dilma na Casa Civil, cobrou 100 000 reais de propina – e recebeu parte do dinheiro – para resolver uma pendência de um deputado junto à Presidência da República.
O deputado chama-se Roberto Rocha, do PSDB do Maranhão. Ele é sócio da TV Cidade, retransmissora da Record no estado, e de duas rádios. O pedágio foi exigido para que a Casa Civil autorizasse uma mudança societária nessa TV. O que a Casa Civil tem a ver com isso? Tudo. A concentração de poder na Presidência da República é de tal ordem que cabe à Casa Civil ratificar qualquer compra ou venda envolvendo rádios e TVs do país, que são concessões públicas.
Pode ser coisa grande ou miudeza: tem que passar pela Casa Civil. Depois de passar por lá, o presidente é obrigado a assinar esses atos, como se fosse chefe de um cartório. Diante do fato de que o Ministério das Comunicações analisa previamente todos esses casos, trata-se de um simples carimbo. Um carimbo, no entanto, que vale ouro: pode custar caro obte-lo, evita-lo ou agilizar seu uso. Um carimbo é moeda líquida na cleptocracia federal.
Vlad pôde vender tão caro uma facilidade porque o governo havia criado uma enorme dificuldade – uma que parecia não ter solução. A epopeia começa em 2003, no início do governo Lula, quando o sócio de Roberto Rocha na TV aceitou vender a participação dele no negócio. Esse sócio era aliado de José Sarney. Rocha é adversário do senador. Fez-se a transação, e a papelada seguiu para o Ministério das Comunicações, de modo que os rituais burocráticos fossem cumpridos.
Deveria demorar algumas semanas. Demorou um ano. Demorou em razão do lobby contrário promovido por aliados de Sarney. É fácil entender os motivos disso. Sarney é dono da retransmissora da Globo no Maranhão. Seu principal aliado, o senador Edson Lobão, controla a retransmissora do SBT no estado. Caso o governo autorizasse o negócio do deputado Rocha, portanto, haveria no Maranhão uma TV não-alinhada com os interesses da família – e uma TV num estado pobre é uma poderosa arma política. No final de 2003, apesar das pressões contrárias, o então ministro das Comunicações, deputado Miro Teixeira, finalmente aprovou a transação e encaminhou o papelório para a Casa Civil.
No dia 7 de janeiro de 2004, o Diário Oficial publicou a autorização concedida pelo presidente Lula. Tudo parecia resolvido. Mais eis que sobreveio um episódio insólito, daqueles que só se explicam pela força irresistível de certos interesses políticos. Houve uma reforma ministerial, e o deputado peemedebista Eunício Oliveira, do mesmo partido de Sarney, assumiu a pasta das Comunicações. Tentou-se reverter ali, de todos os modos, a tal autorização já assinada por Lula.
A pressão de Sarney aumentou e, no dia 11 de março, dois meses depois de publicada a autorização, o mesmo Diário Oficial trouxe um ato do mesmo presidente Lula revogando a decisão anterior. Sem justificativa, sem devido processo legal. Pode-se apenas supor as razões políticas para essa aberração jurídica – e todas elas passam pelos interesses do senador Sarney. Inconformado, o deputado Roberto Rocha contratou bons advogados e recorreu ao Supremo Tribunal Federal. O deputado ingressou com um mandado de segurança, que, por sua natureza, deveria ser julgado em pouco tempo, mas que acabou morrendo nas gavetas do Supremo.
Rocha, contudo, não estava sozinho em sua cruzada para assegurar o comando da TV. Todos os políticos anti-Sarney do Maranhão lhe ajudaram O deputado petista Domingos Dutra – que chegou a fazer greve de fome recentemente para impedir que seu partido apoiasse a candidatura de Roseana Sarney ao governo do estado – foi um deles. Diz Dutra: “Falei com as lideranças do PT, falei no governo. Mas eles preferem o Sarney. Rocha chegou a me contar o que aconteceu na Casa Civil da Erenice”.
Parece estranho ver um petista e um tucano atuando harmoniosamente. No Maranhão, entretanto, os políticos dividem-se entre os que são adversários ou aliados de Sarney. Rocha e Dutra pertencem ao primeiro grupo. E os esforços deram algum resultado.
Em 2007, o deputado conseguiu ser recebido na Casa Civil. Esteve com Erenice Guerra, então secretária-executiva, e o assessor Vlad. Ambos confirmaram a teratologia do ato presidencial e prometeram resolver o assunto. Localizado por VEJA, que soubera do caso por intermédio uma fonte na Casa Civil e outra no PT, o deputado relutou em admitir o episódio – mas acabou por narrar o que havia acontecido. Disse Rocha: “Esse assessor Vladimir cobrou para resolver. Fiquei enojado com tudo aquilo. Ter que pagar para que eles fizessem o que era certo? Fui extorquido pela Casa Civil”.
Depois da reunião, Vlad procurou um funcionário do deputado para acertar o pagamento. Os dois encontraram-se no restaurante que funciona no 10º andar da Câmara dos Deputados. “Vladimir deu a garantia de que resolveria tudo, desde que pagássemos 100.000 reais”, narra Ivo Icó Filho, o funcionário. “Ele disse que o valor era alto porque envolvia o trabalho de outras pessoas”.
O deputado conta que ponderou e, apesar de “revoltado”, resolveu pagar: “Autorizei meu assessor a providenciar um sinal: 20.000 reais”. Rocha não quis fornecer detalhes do pagamento. Completa o deputado: “E o pior é que não deu certo. Esse Vladimir nunca mais retornou as ligações ou respondeu emails. Foi um golpe”
Procurado pela reportagem, o chefe-de-gabinete da Casa Civil respondeu por meio de nota. Vlad admitiu frequentar o restaurante da Câmara e manter “reuniões políticas” com o senador Gim Argello. Mas nega ter pedido ou recebido propina. Diz o texto: “O assessor não pediu nem recebeu qualquer pagamento referente a essas pessoas”.
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Retrato da campanha eleitoral (3): como destruir uma empresa pública
E-mail da Petrobras é usado para a campanha de Dilma
Flávio Freire
O Globo, 15/10/2010
SÃO PAULO - Mecanismos de comunicação da Petrobras continuam sendo usados em apoio à candidatura de Dilma Rousseff (PT) à Presidência. Segundo e-mail enviado da caixa postal do coordenador de Patrocínio à Música e Patrimônio da estatal, Claudio Jorge Oliveira, ao qual O GLOBO teve acesso, fornecedores estão sendo convocados para participar de ato político a favor da campanha petista marcado para acontecer no Rio, na próxima segunda-feira.
Com título em letras maiúsculas, o funcionário convida os "caros amigos" a participar do evento. No corpo do documento, destaca a participação de artistas e intelectuais , liderados pelo cantor e compositor Chico Buarque, além dos escritores Leonardo Boff, Eric Nepomuceno e Fernando Morais e do sociólogo Emir Sader. Na ocasião, como destacado em negrito no e-mail, será entregue à candidata um manifesto de artistas e intelectuais pró-Dilma.
No e-mail, o funcionário pede a adesão à campanha do PT e faz um apelo: "Se você puder, divulgue o evento junto a seus amigos do Rio de Janeiro".
Petrobras diz que prática é proibida
A Petrobras informou que essa prática não é autorizada pela empresa: "O uso do correio eletrônico corporativo da Petrobras em atividades de caráter político-partidário é proibido por norma interna. O correio encaminhado pelo jornal foi repassado à área competente, que vai apurar o caso".
O advogado Ricardo Penteado, que representa a candidatura presidencial do tucano José Serra, pretende entrar na Justiça contra o uso da estatal "para objetivos eleitorais". Em relação à Petrobras, a guerra entre tucanos e petistas foi acentuada depois que Dilma acusou publicamente dirigentes do PSDB de quererem privatizar a empresa.
O presidente da estatal, José Sérgio Gabrielli, também usando o sistema interno de comunicação, entrou na campanha pró-Dilma para dizer que, se dependesse da gestão do presidente Fernando Henrique Cardoso, a companhia "morreria de inanição".
Um dos coordenadores de campanha do PSDB, senador Álvaro Dias (PR), disse que a estatal está sendo usada como "patrimônio dos petistas".
Flávio Freire
O Globo, 15/10/2010
SÃO PAULO - Mecanismos de comunicação da Petrobras continuam sendo usados em apoio à candidatura de Dilma Rousseff (PT) à Presidência. Segundo e-mail enviado da caixa postal do coordenador de Patrocínio à Música e Patrimônio da estatal, Claudio Jorge Oliveira, ao qual O GLOBO teve acesso, fornecedores estão sendo convocados para participar de ato político a favor da campanha petista marcado para acontecer no Rio, na próxima segunda-feira.
Com título em letras maiúsculas, o funcionário convida os "caros amigos" a participar do evento. No corpo do documento, destaca a participação de artistas e intelectuais , liderados pelo cantor e compositor Chico Buarque, além dos escritores Leonardo Boff, Eric Nepomuceno e Fernando Morais e do sociólogo Emir Sader. Na ocasião, como destacado em negrito no e-mail, será entregue à candidata um manifesto de artistas e intelectuais pró-Dilma.
No e-mail, o funcionário pede a adesão à campanha do PT e faz um apelo: "Se você puder, divulgue o evento junto a seus amigos do Rio de Janeiro".
Petrobras diz que prática é proibida
A Petrobras informou que essa prática não é autorizada pela empresa: "O uso do correio eletrônico corporativo da Petrobras em atividades de caráter político-partidário é proibido por norma interna. O correio encaminhado pelo jornal foi repassado à área competente, que vai apurar o caso".
O advogado Ricardo Penteado, que representa a candidatura presidencial do tucano José Serra, pretende entrar na Justiça contra o uso da estatal "para objetivos eleitorais". Em relação à Petrobras, a guerra entre tucanos e petistas foi acentuada depois que Dilma acusou publicamente dirigentes do PSDB de quererem privatizar a empresa.
O presidente da estatal, José Sérgio Gabrielli, também usando o sistema interno de comunicação, entrou na campanha pró-Dilma para dizer que, se dependesse da gestão do presidente Fernando Henrique Cardoso, a companhia "morreria de inanição".
Um dos coordenadores de campanha do PSDB, senador Álvaro Dias (PR), disse que a estatal está sendo usada como "patrimônio dos petistas".
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Retrato da campanha eleitoral (3): teoria conspiratoria (Merval Pereira)
Conspirações
Merval Pereira
O Globo, 16.10.2010
A possibilidade de perder uma eleição que já estava vencida no primeiro turno antes de as urnas se abrirem está levando a uma campanha extremamente agressiva por parte da candidata oficial Dilma Rousseff, e a que lideranças importantes do PT, como o governador eleito do Rio Grande do Sul Tarso Genro, já comecem a insinuar golpismos e a classificar uma eventual vitória tucana de “ilegítima”.
Com todas as pesquisas de opinião convergindo para o estreitamento da diferença entre os candidatos – a mais recente, do Datafolha, mantém a redução da diferença do primeiro para o segundo turno de 14 para 8 pontos – o comando da campanha petista sofreu uma intervenção branca, determinada pelo presidente Lula, que deu ao deputado federal Ciro Gomes, do PSB, e ao candidato petista derrotado para o governo, Aluizio Mercadante, plenos poderes para elevar o tom da campanha no rádio e televisão.
Também José Dirceu ampliou seu grau de influência nas decisões da campanha, e segundo informações é dele a orientação para que Dilma escolha com maior seletividade os debates de que participará nesse segundo turno.
Ontem o SBT anunciou o cancelamento do debate programado por “dificuldades de agenda dos candidatos”. O debate de amanhã na Rede TV/Folha está confirmado, mas ainda há dúvidas quanto ao da TV Record. Em 2006, o debate da Record no segundo turno não foi realizado, e a campanha tucana atribuiu o cancelamento a uma interferência da campanha petista.
A teoria da conspiração, que já surgira no primeiro turno quando começou a se consolidar a idéia de que a eleição poderia não ser resolvida no dia 3 de outubro, ressurgiu com a queda da diferença entre os dois candidatos, indicando que a dianteira de Dilma pode estar dentro do empate técnico.
Como as pesquisas erraram no primeiro turno, dando para Dilma uma votação maior do que as urnas revelaram, o empate parece ser o resultado que melhor espelha a situação atual.
O governador eleito do Rio Grande do Sul pintou com tintas fortes o quadro político atual, ao falar na noite de quinta-feira em uma reunião partidária em Porto Alegre.
Segundo ele, está havendo "uma campanha de golpismo político só semelhante aos eventos que ocorreram em 1964 para preparar as ofensivas" contra o governo estabelecido.
Sem esquecer-se de culpar a imprensa pelo clima de golpismo que denunciava, Tarso Genro não deixou por menos: avaliou que a situação pode "redundar em uma eleição ilegítima", na qual um candidato quer se eleger "com base na mentira, na inverdade, na calúnia e na difamação".
Esse Tarso Genro eleito governador que fala de golpismo nesses termos é o mesmo que, dias depois da reeleieção de Fernando Henrique em 1998, publicou um artigo pedindo seu "impeachment".
Ontem, depois que a pesquisa Datafolha mostrou uma estabilidade em relação ao primeiro levantamento do segundo turno, a direção petista comentou que seus levantamentos internos demonstram uma recuperação de Dilma.
O que significa uma admissão de que a candidatura petista esteve em queda em algum momento deste segundo turno.
Levantamentos internos da campanha de Serra indicam uma situação oposta, mais favorável ao candidato tucano, e apontam a agressividade dos programas eleitorais da adversária como a maior prova de que a tendência de estreitamento da diferença está se mantendo.
A campanha tucana decidiu também entrar no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com vários pedidos de direito de resposta aos programas de rádio e televisão dos petistas.
A análise feita na campanha tucana é que a propaganda petista está arriscando muito nas acusações, o que seria mais uma demonstração de que eles estão flertando com os limites da legislação eleitoral.
Um dos direitos de resposta será para o programa de ontem à noite, que acusa o então governador José Serra de ter mandado a polícia invadir a Universidade de São Paulo (USP) durante uma greve de professores.
Na verdade, foi a reitora da USP quem pediu na Justiça a reintegração de posse, e a polícia foi enviada para executar a ordem.
Também a insistência na acusação de que o ex-presidente da Agência Nacional do Petróleo (ANP) David Zilberstein quer privatizar o pré-sal é alvo de um pedido de resposta.
Zilberstein é identificado pela propaganda petista como “principal assessor da área energética” da campanha de Serra, quando na verdade ele não exerce nenhuma função.
Zilbertein já divulgou uma nota desmentindo Dilma e esclarecendo que ele apenas defende o sistema de concessão na exploração do petróleo, que foi implantado pelo governo Fernando Henrique, em vez da partilha que o governo Lula quer adotar na exploração do pré-sal.
Se concessão fosse igual a privatização, como acusam os petistas, então o governo Lula já “privatizou” várias áreas do pré-sal, que foram licitadas pelo sistema que estava em vigor até a mudança da legislação.
Há também a acusação de que Serra privatizou a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), quando a empresa foi privatizada no governo Itamar Franco, onde Serra não exerceu função.
Ao mesmo tempo, Dilma tentar se livrar do impasse em que está desde que o tema “descriminação do aborto” surgiu na campanha, tomando conta do debate político.
Ontem, depois de muito relutar, ela divulgou uma carta em que se diz “contra o aborto”, mas não nega diretamente que seja contra a “descriminação do aborto”, e deixa para o Congresso decisões sobre esse e outros temas polêmicos, apenas prometendo que, eleita presidente, não enviará nenhuma lei que seja “contra a família”.
É uma tentativa de encerrar uma discussão que tem prejudicado muito seu desempenho. O tom mais agressivo, a crítica de que o debate sobre o aborto foi provocado por setores atrasados da oposição, e a campanha centrada na acusação de que os tucanos entregam o patrimônio público para investidores privados, tudo isso faz parte de uma estratégia para recuperar a parte dos votos da esquerda partidária que foi para Marina Silva no primeiro turno.
Em 2006 deu certo.
Merval Pereira
O Globo, 16.10.2010
A possibilidade de perder uma eleição que já estava vencida no primeiro turno antes de as urnas se abrirem está levando a uma campanha extremamente agressiva por parte da candidata oficial Dilma Rousseff, e a que lideranças importantes do PT, como o governador eleito do Rio Grande do Sul Tarso Genro, já comecem a insinuar golpismos e a classificar uma eventual vitória tucana de “ilegítima”.
Com todas as pesquisas de opinião convergindo para o estreitamento da diferença entre os candidatos – a mais recente, do Datafolha, mantém a redução da diferença do primeiro para o segundo turno de 14 para 8 pontos – o comando da campanha petista sofreu uma intervenção branca, determinada pelo presidente Lula, que deu ao deputado federal Ciro Gomes, do PSB, e ao candidato petista derrotado para o governo, Aluizio Mercadante, plenos poderes para elevar o tom da campanha no rádio e televisão.
Também José Dirceu ampliou seu grau de influência nas decisões da campanha, e segundo informações é dele a orientação para que Dilma escolha com maior seletividade os debates de que participará nesse segundo turno.
Ontem o SBT anunciou o cancelamento do debate programado por “dificuldades de agenda dos candidatos”. O debate de amanhã na Rede TV/Folha está confirmado, mas ainda há dúvidas quanto ao da TV Record. Em 2006, o debate da Record no segundo turno não foi realizado, e a campanha tucana atribuiu o cancelamento a uma interferência da campanha petista.
A teoria da conspiração, que já surgira no primeiro turno quando começou a se consolidar a idéia de que a eleição poderia não ser resolvida no dia 3 de outubro, ressurgiu com a queda da diferença entre os dois candidatos, indicando que a dianteira de Dilma pode estar dentro do empate técnico.
Como as pesquisas erraram no primeiro turno, dando para Dilma uma votação maior do que as urnas revelaram, o empate parece ser o resultado que melhor espelha a situação atual.
O governador eleito do Rio Grande do Sul pintou com tintas fortes o quadro político atual, ao falar na noite de quinta-feira em uma reunião partidária em Porto Alegre.
Segundo ele, está havendo "uma campanha de golpismo político só semelhante aos eventos que ocorreram em 1964 para preparar as ofensivas" contra o governo estabelecido.
Sem esquecer-se de culpar a imprensa pelo clima de golpismo que denunciava, Tarso Genro não deixou por menos: avaliou que a situação pode "redundar em uma eleição ilegítima", na qual um candidato quer se eleger "com base na mentira, na inverdade, na calúnia e na difamação".
Esse Tarso Genro eleito governador que fala de golpismo nesses termos é o mesmo que, dias depois da reeleieção de Fernando Henrique em 1998, publicou um artigo pedindo seu "impeachment".
Ontem, depois que a pesquisa Datafolha mostrou uma estabilidade em relação ao primeiro levantamento do segundo turno, a direção petista comentou que seus levantamentos internos demonstram uma recuperação de Dilma.
O que significa uma admissão de que a candidatura petista esteve em queda em algum momento deste segundo turno.
Levantamentos internos da campanha de Serra indicam uma situação oposta, mais favorável ao candidato tucano, e apontam a agressividade dos programas eleitorais da adversária como a maior prova de que a tendência de estreitamento da diferença está se mantendo.
A campanha tucana decidiu também entrar no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com vários pedidos de direito de resposta aos programas de rádio e televisão dos petistas.
A análise feita na campanha tucana é que a propaganda petista está arriscando muito nas acusações, o que seria mais uma demonstração de que eles estão flertando com os limites da legislação eleitoral.
Um dos direitos de resposta será para o programa de ontem à noite, que acusa o então governador José Serra de ter mandado a polícia invadir a Universidade de São Paulo (USP) durante uma greve de professores.
Na verdade, foi a reitora da USP quem pediu na Justiça a reintegração de posse, e a polícia foi enviada para executar a ordem.
Também a insistência na acusação de que o ex-presidente da Agência Nacional do Petróleo (ANP) David Zilberstein quer privatizar o pré-sal é alvo de um pedido de resposta.
Zilberstein é identificado pela propaganda petista como “principal assessor da área energética” da campanha de Serra, quando na verdade ele não exerce nenhuma função.
Zilbertein já divulgou uma nota desmentindo Dilma e esclarecendo que ele apenas defende o sistema de concessão na exploração do petróleo, que foi implantado pelo governo Fernando Henrique, em vez da partilha que o governo Lula quer adotar na exploração do pré-sal.
Se concessão fosse igual a privatização, como acusam os petistas, então o governo Lula já “privatizou” várias áreas do pré-sal, que foram licitadas pelo sistema que estava em vigor até a mudança da legislação.
Há também a acusação de que Serra privatizou a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), quando a empresa foi privatizada no governo Itamar Franco, onde Serra não exerceu função.
Ao mesmo tempo, Dilma tentar se livrar do impasse em que está desde que o tema “descriminação do aborto” surgiu na campanha, tomando conta do debate político.
Ontem, depois de muito relutar, ela divulgou uma carta em que se diz “contra o aborto”, mas não nega diretamente que seja contra a “descriminação do aborto”, e deixa para o Congresso decisões sobre esse e outros temas polêmicos, apenas prometendo que, eleita presidente, não enviará nenhuma lei que seja “contra a família”.
É uma tentativa de encerrar uma discussão que tem prejudicado muito seu desempenho. O tom mais agressivo, a crítica de que o debate sobre o aborto foi provocado por setores atrasados da oposição, e a campanha centrada na acusação de que os tucanos entregam o patrimônio público para investidores privados, tudo isso faz parte de uma estratégia para recuperar a parte dos votos da esquerda partidária que foi para Marina Silva no primeiro turno.
Em 2006 deu certo.
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Merval Pereira
Retrato da campanha eleitoral
Em matéria de mentira e de mistificação, tem gente que, mesmo sem diploma nenhum, é PhD. O teor da matéria é o exato contrário do seu título.
Paulo Roberto de Almeida
Lula diz que campanha de Serra é ‘uma vergonha’
por Jair Stangler
Agencia Estado, 15.outubro.2010 20:20:34
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva classificou nesta sexta-feira, 15, a campanha de José Serra como “uma vergonha”. Lula participou de um comício com a candidata do PT à Presidência da República, Dilma Rousseff, na Praça do Forró, em São Miguel Paulista, zona leste de São Paulo.
“É uma vergonha a campanha do nosso adversário (José Serra, do PSDB), é uma vergonha o que estão fazendo na internet. Não é a primeira vez em que somos atacados e que vemos preconceito contra a mulher. Isso é histórico e crônico aqui em São Paulo. São ataques inclusive do submundo religioso”, afirmou o presidente. “É falta de caráter e hombridade das pessoas que tentam se aproveitar das outras”, afirmou.
Lula lembrou que, em 1982, panfletaram que sua mãe morava em uma favela de Santos e que ele não cuidava dela. “Vivi isso em 1989, 1994 e 1998. Em 2002, o povo resolveu dizer ‘chega’. E foi contra o Serra”, completou. E ainda fez graça: “Nós passamos tantos anos levando o Brasil ladeira acima e não podemos permitir que na eleição o Brasil siga Serra abaixo.”
Ainda de acordo com Lula, “a gente conhece o outro (Serra) faz 30 anos. Eu conheço essa mulher há 8 anos. E posso dizer que ela é muito mais competente que o outro”.
O presidente criticou ainda a proposta do tucano de pagar 13º salário para os beneficiários do Bolsa-Família. “Falaram 8 anos contra o Bolsa-Família, agora prometem 13º para o Bolsa Família”, declarou.
Lula afirmou ainda que Netinho de Paula (PCdoB), candidato derrotado ao Senado, não foi eleito senador por causa do preconceito contra o negro no Brasil.
Lula x FHC
Já Dilma concentrou sua fala na comparação entre os governos Lula e Fernando Henrique Cardoso. A candidata disse que a população terá de escolher entre dois caminhos. “O nosso caminho vocês conhecem, é o caminho que permitiu comprar fogão, geladeira, que criou 14 milhões de empregos com carteira assinada. Tem de comparar com o Brasil que eles [PSDB] governaram, do desemprego e da desigualdade. Nós não podemos permitir que se dê um passo para trás”, declarou.
Dilma voltou a acusar o ex-presidente da Agência Nacional de Petróleo (ANP), David Zylbersztajn, de planejar privatizar o petróleo das camadas do pré-sal, caso José Serra seja eleito.
Dilma, assim como outros oradores da noite, atribuiu ataques que vem sofrendo a “preconceito contra a mulher”. “Sempre apostaram que o governo Lula não ia dar certo, diziam que trabalhador não sabe governar. A mesma coisa comigo agora, acham que mulher não pode governar”, disse. “Mas 67% dos eleitores mostraram que querem uma mulher presidente. Vamos ter, no dia 31, o embate entre o País do amor e da esperança e o País do ódio e do medo. Com a força de vocês eu serei a primeira presidenta da República do Brasil, preciso do voto de vocês”, concluiu.
Religiosos presentes
O evento teve grande participação de religiosos católicos e evangélicos, ainda em uma tentativa para debelar a crise originada a partir da polêmica sobre o aborto. Um dos primeiros oradores da noite foi o padre Júlio Lancelotti. Em sua fala, ele afirmou que a presença dos religiosos era para “afastar o demônio da calúnia e da mentira”. Declarou, ainda, esperar que o “nosso povo seja tratado como quem tem a consciência livre”. O padre encerrou sua participação chamando a população do local para rezar o Pai Nosso.
A ex-prefeita de São Paulo e deputada federal Luiza Erundina (PSB) também discursou. Ela começou afirmando que “aqui é tudo cabeça chata, tudo gente de pescoço curto, tudo nordestino, tudo presidente Lula”. A deputada lembrou de sua campanha para a Prefeitura em 1988. Segundo Erundina, “foi nesta praça que a gente consagrou a nossa vitória. E adivinha quem eu derrotei? O Maluf. E sabe quem mais? Eu derrotei José Serra”.
Também subiram ao palanque o candidato derrotado pelo PCdoB ao Senado, Netinho de Paula, a senadora eleita pelo PT paulista, Marta Suplicy, o candidato derrotado ao governo de São Paulo, senador Aloizio Mercadante (PT), e o candidato a vice na chapa de Dilma, deputado Michel Temer (PMDB), além de representantes das centrais sindicais e do MST.
Paulo Roberto de Almeida
Lula diz que campanha de Serra é ‘uma vergonha’
por Jair Stangler
Agencia Estado, 15.outubro.2010 20:20:34
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva classificou nesta sexta-feira, 15, a campanha de José Serra como “uma vergonha”. Lula participou de um comício com a candidata do PT à Presidência da República, Dilma Rousseff, na Praça do Forró, em São Miguel Paulista, zona leste de São Paulo.
“É uma vergonha a campanha do nosso adversário (José Serra, do PSDB), é uma vergonha o que estão fazendo na internet. Não é a primeira vez em que somos atacados e que vemos preconceito contra a mulher. Isso é histórico e crônico aqui em São Paulo. São ataques inclusive do submundo religioso”, afirmou o presidente. “É falta de caráter e hombridade das pessoas que tentam se aproveitar das outras”, afirmou.
Lula lembrou que, em 1982, panfletaram que sua mãe morava em uma favela de Santos e que ele não cuidava dela. “Vivi isso em 1989, 1994 e 1998. Em 2002, o povo resolveu dizer ‘chega’. E foi contra o Serra”, completou. E ainda fez graça: “Nós passamos tantos anos levando o Brasil ladeira acima e não podemos permitir que na eleição o Brasil siga Serra abaixo.”
Ainda de acordo com Lula, “a gente conhece o outro (Serra) faz 30 anos. Eu conheço essa mulher há 8 anos. E posso dizer que ela é muito mais competente que o outro”.
O presidente criticou ainda a proposta do tucano de pagar 13º salário para os beneficiários do Bolsa-Família. “Falaram 8 anos contra o Bolsa-Família, agora prometem 13º para o Bolsa Família”, declarou.
Lula afirmou ainda que Netinho de Paula (PCdoB), candidato derrotado ao Senado, não foi eleito senador por causa do preconceito contra o negro no Brasil.
Lula x FHC
Já Dilma concentrou sua fala na comparação entre os governos Lula e Fernando Henrique Cardoso. A candidata disse que a população terá de escolher entre dois caminhos. “O nosso caminho vocês conhecem, é o caminho que permitiu comprar fogão, geladeira, que criou 14 milhões de empregos com carteira assinada. Tem de comparar com o Brasil que eles [PSDB] governaram, do desemprego e da desigualdade. Nós não podemos permitir que se dê um passo para trás”, declarou.
Dilma voltou a acusar o ex-presidente da Agência Nacional de Petróleo (ANP), David Zylbersztajn, de planejar privatizar o petróleo das camadas do pré-sal, caso José Serra seja eleito.
Dilma, assim como outros oradores da noite, atribuiu ataques que vem sofrendo a “preconceito contra a mulher”. “Sempre apostaram que o governo Lula não ia dar certo, diziam que trabalhador não sabe governar. A mesma coisa comigo agora, acham que mulher não pode governar”, disse. “Mas 67% dos eleitores mostraram que querem uma mulher presidente. Vamos ter, no dia 31, o embate entre o País do amor e da esperança e o País do ódio e do medo. Com a força de vocês eu serei a primeira presidenta da República do Brasil, preciso do voto de vocês”, concluiu.
Religiosos presentes
O evento teve grande participação de religiosos católicos e evangélicos, ainda em uma tentativa para debelar a crise originada a partir da polêmica sobre o aborto. Um dos primeiros oradores da noite foi o padre Júlio Lancelotti. Em sua fala, ele afirmou que a presença dos religiosos era para “afastar o demônio da calúnia e da mentira”. Declarou, ainda, esperar que o “nosso povo seja tratado como quem tem a consciência livre”. O padre encerrou sua participação chamando a população do local para rezar o Pai Nosso.
A ex-prefeita de São Paulo e deputada federal Luiza Erundina (PSB) também discursou. Ela começou afirmando que “aqui é tudo cabeça chata, tudo gente de pescoço curto, tudo nordestino, tudo presidente Lula”. A deputada lembrou de sua campanha para a Prefeitura em 1988. Segundo Erundina, “foi nesta praça que a gente consagrou a nossa vitória. E adivinha quem eu derrotei? O Maluf. E sabe quem mais? Eu derrotei José Serra”.
Também subiram ao palanque o candidato derrotado pelo PCdoB ao Senado, Netinho de Paula, a senadora eleita pelo PT paulista, Marta Suplicy, o candidato derrotado ao governo de São Paulo, senador Aloizio Mercadante (PT), e o candidato a vice na chapa de Dilma, deputado Michel Temer (PMDB), além de representantes das centrais sindicais e do MST.
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sábado, 25 de setembro de 2010
Cotas raciais na campanha presidencial
Especialistas criticam silêncio dos presidenciáveis sobre questão racial
Agência Brasil, 22/09/2010 17:22
Posted Blog Contra a Racializaçao do Brasil, 24 Sep 2010
A menos de 15 dias das eleições, o tema desigualdade racial não está entre os mais citados nos programas políticos dos candidatos à Presidência da República. Para o professor de antropologia e coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Inclusão no Ensino Superior e na Pesquisa – INCT, da Universidade de Brasília (UnB), José Jorge de Carvalho, o silêncio é sintomático e demonstra o desinteresse dos candidatos. “É preocupante o silêncio dos candidatos. O poder no Brasil não quer que o Estado assuma a herança de desigualdade racial como algo que deve ser priorizado”, disse.
Dados da Síntese de Indicadores Sociais 2010, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram um crescimento da população que se declara preta ou parda nos últimos dez anos. Enquanto em 1999 5,4% se considerava preta e 40% parda, em 2009 este percentual passou para 6,9% e 44,2% respectivamente.
Outros indicadores, entretanto, como analfabetismo, analfabetismo funcional, acesso à educação e a diferença de rendimentos demonstram que a desigualdade persiste. Na categoria ocupação profissional, por exemplo, os brancos representam 69,6% dos empregadores, enquanto os pretos são 3,0% e os pardos 27,4%. Entre os sem carteira assinada e os empregados domésticos, os pretos e pardos são maioria, representando juntos 57,8% e 61,8% respectivamente.
Após mais de dez anos de tramitação no Congresso Nacional, o Estatuto de Igualdade Racial (Lei 12.288) foi aprovado este ano, com a supressão do sistema de cotas raciais nas universidades, um dos principais pleitos da comunidade negra.
Ainda este semestre o tema deverá voltar ao debate público, quando será julgada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a legalidade de cotas nas universidades. A Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) foi a primeira, em 2002, a adotar um programa de reserva de vagas para alunos negros.
Apesar da inexistência de uma lei federal, segundo a pesquisa do Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (Gemaa), do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (Iesp), ligado à UERJ, este ano as ações afirmativas, incluindo as cotas raciais e sociais, já são realidade em 71,4% das 98 universidades estaduais e federais do país.
Para o professor Carvalho, o país avançou muito nos últimos anos no acesso de alunos negros nas universidades. “Apesar do número de professores negros nas universidades não chegar a 1%, conseguimos incluir mais estudantes negros nos últimos oito anos do que em todo o século 20. Era de se esperar que isso fosse pauta imprescindível da disputa eleitoral”, afirmou.
A superação da violência e da discriminação étnico-racial são outros desafios para o próximo presidente. Segundo Carvalho, a juventude negra de 16 a 24 anos tem três vezes mais chance de ser assassinada do que os jovens brancos. “Hoje se fala no genocídio da juventude negra. As ações afirmativas são políticas pacificadoras, quando se transmite mais cidadania se evita que jovens negros entrem na delinquência e combate-se a intolerância e o racismo”, disse.
A Educafro, uma rede de 200 pré-vestibulares para pobres e negros, enviou aos candidatos à Presidência da República uma carta de comprometimento às reivindicações da comunidade negra. O diretor executivo da entidade, Frei David, destacou três pontos principais do documento.
“Queremos que os políticos assumam as orientações definidas pelo Estatuto da Igualdade Racial e ponham em prática todos os compromissos previstos no Plano Nacional de Políticas de Igualdade Racial, entre eles, que seja feito um trabalho de treinamento e conscientização das polícias. É preciso reduzir a matança de negros devido ao racismo institucional”, afirmou.
Por fim ressaltou a necessidade de fiscalização do cumprimento da Lei 11.645 que torna obrigatório o ensino da história e da cultura afro-brasileira e indígena nas escolas e universidades.
As assessorias de imprensa dos candidatos à Presidência da República Marina Silva (PV), José Serra (PSDB) e Dilma Rousseff (PT) foram procuradas pela reportagem da Agência Brasil. A assessoria da candidata Dilma Rousseff informou que não poderia se manifestar, pois o programa de governo da candidata não estava concluído. O comitê do candidato José Serra não respondeu. A candidata Marina Silva disse que é favorável às cotas raciais para que seja reparado um erro histórico cometido contra os negros.
Agência Brasil, 22/09/2010 17:22
Posted Blog Contra a Racializaçao do Brasil, 24 Sep 2010
A menos de 15 dias das eleições, o tema desigualdade racial não está entre os mais citados nos programas políticos dos candidatos à Presidência da República. Para o professor de antropologia e coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Inclusão no Ensino Superior e na Pesquisa – INCT, da Universidade de Brasília (UnB), José Jorge de Carvalho, o silêncio é sintomático e demonstra o desinteresse dos candidatos. “É preocupante o silêncio dos candidatos. O poder no Brasil não quer que o Estado assuma a herança de desigualdade racial como algo que deve ser priorizado”, disse.
Dados da Síntese de Indicadores Sociais 2010, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram um crescimento da população que se declara preta ou parda nos últimos dez anos. Enquanto em 1999 5,4% se considerava preta e 40% parda, em 2009 este percentual passou para 6,9% e 44,2% respectivamente.
Outros indicadores, entretanto, como analfabetismo, analfabetismo funcional, acesso à educação e a diferença de rendimentos demonstram que a desigualdade persiste. Na categoria ocupação profissional, por exemplo, os brancos representam 69,6% dos empregadores, enquanto os pretos são 3,0% e os pardos 27,4%. Entre os sem carteira assinada e os empregados domésticos, os pretos e pardos são maioria, representando juntos 57,8% e 61,8% respectivamente.
Após mais de dez anos de tramitação no Congresso Nacional, o Estatuto de Igualdade Racial (Lei 12.288) foi aprovado este ano, com a supressão do sistema de cotas raciais nas universidades, um dos principais pleitos da comunidade negra.
Ainda este semestre o tema deverá voltar ao debate público, quando será julgada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a legalidade de cotas nas universidades. A Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) foi a primeira, em 2002, a adotar um programa de reserva de vagas para alunos negros.
Apesar da inexistência de uma lei federal, segundo a pesquisa do Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (Gemaa), do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (Iesp), ligado à UERJ, este ano as ações afirmativas, incluindo as cotas raciais e sociais, já são realidade em 71,4% das 98 universidades estaduais e federais do país.
Para o professor Carvalho, o país avançou muito nos últimos anos no acesso de alunos negros nas universidades. “Apesar do número de professores negros nas universidades não chegar a 1%, conseguimos incluir mais estudantes negros nos últimos oito anos do que em todo o século 20. Era de se esperar que isso fosse pauta imprescindível da disputa eleitoral”, afirmou.
A superação da violência e da discriminação étnico-racial são outros desafios para o próximo presidente. Segundo Carvalho, a juventude negra de 16 a 24 anos tem três vezes mais chance de ser assassinada do que os jovens brancos. “Hoje se fala no genocídio da juventude negra. As ações afirmativas são políticas pacificadoras, quando se transmite mais cidadania se evita que jovens negros entrem na delinquência e combate-se a intolerância e o racismo”, disse.
A Educafro, uma rede de 200 pré-vestibulares para pobres e negros, enviou aos candidatos à Presidência da República uma carta de comprometimento às reivindicações da comunidade negra. O diretor executivo da entidade, Frei David, destacou três pontos principais do documento.
“Queremos que os políticos assumam as orientações definidas pelo Estatuto da Igualdade Racial e ponham em prática todos os compromissos previstos no Plano Nacional de Políticas de Igualdade Racial, entre eles, que seja feito um trabalho de treinamento e conscientização das polícias. É preciso reduzir a matança de negros devido ao racismo institucional”, afirmou.
Por fim ressaltou a necessidade de fiscalização do cumprimento da Lei 11.645 que torna obrigatório o ensino da história e da cultura afro-brasileira e indígena nas escolas e universidades.
As assessorias de imprensa dos candidatos à Presidência da República Marina Silva (PV), José Serra (PSDB) e Dilma Rousseff (PT) foram procuradas pela reportagem da Agência Brasil. A assessoria da candidata Dilma Rousseff informou que não poderia se manifestar, pois o programa de governo da candidata não estava concluído. O comitê do candidato José Serra não respondeu. A candidata Marina Silva disse que é favorável às cotas raciais para que seja reparado um erro histórico cometido contra os negros.
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terça-feira, 14 de setembro de 2010
Fazendo campanha com odio
'Precisamos extirpar o DEM da política brasileira', afirma Lula
G1, São Paulo, 13.09.2010
Em comício da candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, na noite desta segunda-feira (13), em Joinville (SC), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu que o partido de oposição DEM seja "extirpado" da política brasileira.
Em discurso marcado por críticas à sigla opositora e aos adversários do PT em Santa Catarina, Lula disse que o Democratas "alimenta ódio".
"Eu não quero crer que esse povo extraordinário de Santa Catarina vá pensar em colocar no governo alguém de um partido que alimenta ódio, que entrou na Justiça para acabar com o ProUni [programa federal de concessão de bolsas universitárias], como o DEM entrou", disse Lula.
Segundo última pesquisa do Ibope, o candidato do DEM ao governo de SC, Raimundo Colombo, assumiu a liderança na disputa. Colombo tem o apoio do PSDB e do PMDB do ex-governador Luiz Henrique, apoiado por Lula em 2006 e que hoje disputa vaga no Senado.
"Quando Luiz Henrique foi eleito pensei que ele ia mudar, mas ele trouxe de volta o DEM, que nós precisamos extirpar da política brasileira", disse o presidente.
Em discurso, o presidente também centrou fogo na família Bornhausen, tradicional na política catarinense, do deputado federal Paulo Bornhausen (DEM-SC) e do ex-presidente nacional do partido Jorge Bornhausen.
"Nós já aprendemos demais e sabemos que os Bornhausen não podem vir disfarçados de carneiros, porque já sabemos quem são os Bornhausen, já conhecemos as histórias deles", disse Lula.
Lula critica 'direita raivosa'
Em referência ao escândalo do mensalão, Lula disse ter sido alvo da "direita raivosa" que "levou Getúlio Vargas a dar um tiro no coração" e também impulsionou a ditadura militar no país.
"Essa mesma direita tentou fazer o mesmo comigo em 2005, e não fez. Porque eu tinha um ingrediente a mais, eu tinha vocês, e eles nunca tinham lidado com um presidente da República que tinha nascido no berço da classe operaria desse pais", afirmou.
O presidente citou números de repasses federais a Santa Catarina e disse ter atitude "republicana" em relação a governantes de oposição. Fez menção ao candidato do PSDB à Presidência, José Serra, ao afirmar que não distribui verbas por critérios partidários.
"O adversário dessa mulher aqui [Dilma] recebeu mais dinheiro no meu governo do que o Mário Covas [ex-governador de SP] recebeu em oito anos quando o Fernando Henrique Cardoso era do mesmo partido e presidia esse país", disse.
Dilma diz que adversários representam 'passado'
Usando um banco para se apoiar no palco, em razão de uma torção de tornzelo que a levou a usar bota ortopédica, Dilma associou seus adversários ao "passado".
"Queremos o futuro que apresenta para nós a possibilidade desse pais acabar de vez com a miséria, de contnuar se transformando em uma das maiores nações do mundo [...], ou nós queremos a volta da paralisia, do desemprego e da desigualdade?", questionou.
Dilma disse que o Brasil vive um "processo de transformação" que "começou pela mão do nosso presidente Lula". Repetiu discurso estratégico da campanha ao dizer ter recebido do presidente a tarefa de "cuidar da coisa que ele mais ama no mundo, que é o povo brasileiro".
Nos discursos, presidente e candidata não fizeram menção aos episódios de quebras de sigilo na Receita Federal e à denúncia de tráfico de influência na Casa Civil.
Presidente do DEM vê 'desequilíbrio' de Lula
O presidente nacional do DEM, Rodrigo Maia, disse que as declarações de Lula denotam "desequilíbrio" do presidente. Afirmou que Lula "se aproveita de sua popularidade para agredir, tentar pisar em seus adversários", e que o presidente "deve estar com algum problema em relação aos últimos episódios [denúncias de irregularidades na Receita e na Casa Civil]".
Maia afirmou ainda que o presidente busca um "Congresso submisso ao PT" e que o discurso em Santa Catarina reflete "ódio pessoal que não sabe em um estadista, um homem que chegou onde ele chegou".
Presidente completa 15 comícios com Dilma
O comício em Joinville foi o 15º com participação de Dilma e Lula desde o início oficial da corrida presidencial, em julho, e o primeiro em Santa Catarina, estado em que a candidata do PT ao governo, Ideli Salvatti, está em terceiro lugar nas pesquisas.
Lula também já subiu em palanques com Dilma nesta campanha no Rio de Janeiro (RJ), Garanhuns (PE), Porto Alegre (RS), Curitiba (PR), Belo Horizonte (MG), Osasco (SP), Mauá (SP), São Bernardo do Campo (SP), Campo Grande (MS), Salvador (BA), Recife (PE), Foz do Iguaçu (PR), Valparaíso (GO) e Betim (MG).
G1, São Paulo, 13.09.2010
Em comício da candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, na noite desta segunda-feira (13), em Joinville (SC), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu que o partido de oposição DEM seja "extirpado" da política brasileira.
Em discurso marcado por críticas à sigla opositora e aos adversários do PT em Santa Catarina, Lula disse que o Democratas "alimenta ódio".
"Eu não quero crer que esse povo extraordinário de Santa Catarina vá pensar em colocar no governo alguém de um partido que alimenta ódio, que entrou na Justiça para acabar com o ProUni [programa federal de concessão de bolsas universitárias], como o DEM entrou", disse Lula.
Segundo última pesquisa do Ibope, o candidato do DEM ao governo de SC, Raimundo Colombo, assumiu a liderança na disputa. Colombo tem o apoio do PSDB e do PMDB do ex-governador Luiz Henrique, apoiado por Lula em 2006 e que hoje disputa vaga no Senado.
"Quando Luiz Henrique foi eleito pensei que ele ia mudar, mas ele trouxe de volta o DEM, que nós precisamos extirpar da política brasileira", disse o presidente.
Em discurso, o presidente também centrou fogo na família Bornhausen, tradicional na política catarinense, do deputado federal Paulo Bornhausen (DEM-SC) e do ex-presidente nacional do partido Jorge Bornhausen.
"Nós já aprendemos demais e sabemos que os Bornhausen não podem vir disfarçados de carneiros, porque já sabemos quem são os Bornhausen, já conhecemos as histórias deles", disse Lula.
Lula critica 'direita raivosa'
Em referência ao escândalo do mensalão, Lula disse ter sido alvo da "direita raivosa" que "levou Getúlio Vargas a dar um tiro no coração" e também impulsionou a ditadura militar no país.
"Essa mesma direita tentou fazer o mesmo comigo em 2005, e não fez. Porque eu tinha um ingrediente a mais, eu tinha vocês, e eles nunca tinham lidado com um presidente da República que tinha nascido no berço da classe operaria desse pais", afirmou.
O presidente citou números de repasses federais a Santa Catarina e disse ter atitude "republicana" em relação a governantes de oposição. Fez menção ao candidato do PSDB à Presidência, José Serra, ao afirmar que não distribui verbas por critérios partidários.
"O adversário dessa mulher aqui [Dilma] recebeu mais dinheiro no meu governo do que o Mário Covas [ex-governador de SP] recebeu em oito anos quando o Fernando Henrique Cardoso era do mesmo partido e presidia esse país", disse.
Dilma diz que adversários representam 'passado'
Usando um banco para se apoiar no palco, em razão de uma torção de tornzelo que a levou a usar bota ortopédica, Dilma associou seus adversários ao "passado".
"Queremos o futuro que apresenta para nós a possibilidade desse pais acabar de vez com a miséria, de contnuar se transformando em uma das maiores nações do mundo [...], ou nós queremos a volta da paralisia, do desemprego e da desigualdade?", questionou.
Dilma disse que o Brasil vive um "processo de transformação" que "começou pela mão do nosso presidente Lula". Repetiu discurso estratégico da campanha ao dizer ter recebido do presidente a tarefa de "cuidar da coisa que ele mais ama no mundo, que é o povo brasileiro".
Nos discursos, presidente e candidata não fizeram menção aos episódios de quebras de sigilo na Receita Federal e à denúncia de tráfico de influência na Casa Civil.
Presidente do DEM vê 'desequilíbrio' de Lula
O presidente nacional do DEM, Rodrigo Maia, disse que as declarações de Lula denotam "desequilíbrio" do presidente. Afirmou que Lula "se aproveita de sua popularidade para agredir, tentar pisar em seus adversários", e que o presidente "deve estar com algum problema em relação aos últimos episódios [denúncias de irregularidades na Receita e na Casa Civil]".
Maia afirmou ainda que o presidente busca um "Congresso submisso ao PT" e que o discurso em Santa Catarina reflete "ódio pessoal que não sabe em um estadista, um homem que chegou onde ele chegou".
Presidente completa 15 comícios com Dilma
O comício em Joinville foi o 15º com participação de Dilma e Lula desde o início oficial da corrida presidencial, em julho, e o primeiro em Santa Catarina, estado em que a candidata do PT ao governo, Ideli Salvatti, está em terceiro lugar nas pesquisas.
Lula também já subiu em palanques com Dilma nesta campanha no Rio de Janeiro (RJ), Garanhuns (PE), Porto Alegre (RS), Curitiba (PR), Belo Horizonte (MG), Osasco (SP), Mauá (SP), São Bernardo do Campo (SP), Campo Grande (MS), Salvador (BA), Recife (PE), Foz do Iguaçu (PR), Valparaíso (GO) e Betim (MG).
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Lula
quarta-feira, 25 de agosto de 2010
Eleicao sem campanha, sem politica, sem debate...
Inacreditável! É tudo o que eu posso dizer, ao concordar com esse professor em suas constatações. A oposição se auto-anulou. Como se costuma dizer, governo só perde eleições se for muito incompetente. A oposição só ganha eleição se for competente. Parece que não é o caso, agora...
Paulo Roberto de Almeida
Eleição sem política
MARCO ANTONIO VILLA
Folha de S.Paulo, 25.08.2010
Como um aluno relapso, a oposição faltou justo na hora da prova, a eleição
GANHAR ELEIÇÃO é uma possibilidade, fazer política é um imperativo. O Brasil poderá com esta campanha inaugurar uma nova forma de pleito presidencial: sem debate, sem polêmica, sem divergência e sem oposição.
Nas últimas cinco eleições tivemos disputa em três delas. Mas disputa mesmo, só em 1989. Em 1994 e 1998, FHC venceu Lula facilmente, as duas no primeiro turno.
Em 2002 e 2006, Lula foi como franco favorito para o segundo turno. Eu esperava que teríamos uma eleição diferente em 2010: sem Lula e com oposição que transformasse o pleito em um momento de amplo debate nacional.
Rotundo equívoco. Lula é candidatíssimo, aparece mais que Dilma. E pior: a oposição não apareceu ao encontro marcado. Como um aluno relapso, faltou justamente no momento da avaliação, a eleição.
Na República Velha, a oposição concorria sabendo que o resultado seria fraudado. Era o momento de, ao menos, marcar posição e acumular forças para um novo embate. Agora -e de forma surpreendente- nem isso está ocorrendo. Confesso que a cada dia que assisto ao horário eleitoral fico mais estarrecido.
Este triste panorama terá efeito direto sobre o Legislativo. Tudo indica que o futuro Congresso será muito mais governista que o atual. E também com um número expressivo de "deputados cacarecos", o maior da história recente, produto direto da inexistência do debate político.
A despolitização abre campo para que ex-jogadores de futebol, comediantes, cantores e celebridades instantâneas sejam considerados puxadores de votos para partidos de todos os matizes.
Outro efeito nefasto da despolitização é a permanência (e até ampliação) dos representantes dos oligarcas. Quase todos os sobrenomes que simbolizam o que há de pior na política brasileira estão apoiando a candidata oficial. São espertos. Tratam Lula como se fosse um dos seus. E, por incrível que pareça, ele acabou se transformando em uma espécie de "capo" dessas famílias.
Parodiando Sílvio Romero, no célebre discurso de recepção a Euclides da Cunha na ABL, Lula chegou "à suprema degradação de retrogradar, dando, de novo, um sentido histórico às oligarquias locais e outorgando-lhes nova função política e social".
A apatia política tem preço. E muito alto para o país. A fuga da oposição do debate, o medo do enfrentamento, a recusa de se opor, pode abrir caminho para um longo domínio do Estado por parte de um bloco conservador, sem espírito republicano, com tinturas caudilhistas e desejos de impor sua vontade à força.
MARCO ANTONIO VILLA é professor do Departamento de Ciências Sociais da UFSCar.
Paulo Roberto de Almeida
Eleição sem política
MARCO ANTONIO VILLA
Folha de S.Paulo, 25.08.2010
Como um aluno relapso, a oposição faltou justo na hora da prova, a eleição
GANHAR ELEIÇÃO é uma possibilidade, fazer política é um imperativo. O Brasil poderá com esta campanha inaugurar uma nova forma de pleito presidencial: sem debate, sem polêmica, sem divergência e sem oposição.
Nas últimas cinco eleições tivemos disputa em três delas. Mas disputa mesmo, só em 1989. Em 1994 e 1998, FHC venceu Lula facilmente, as duas no primeiro turno.
Em 2002 e 2006, Lula foi como franco favorito para o segundo turno. Eu esperava que teríamos uma eleição diferente em 2010: sem Lula e com oposição que transformasse o pleito em um momento de amplo debate nacional.
Rotundo equívoco. Lula é candidatíssimo, aparece mais que Dilma. E pior: a oposição não apareceu ao encontro marcado. Como um aluno relapso, faltou justamente no momento da avaliação, a eleição.
Na República Velha, a oposição concorria sabendo que o resultado seria fraudado. Era o momento de, ao menos, marcar posição e acumular forças para um novo embate. Agora -e de forma surpreendente- nem isso está ocorrendo. Confesso que a cada dia que assisto ao horário eleitoral fico mais estarrecido.
Este triste panorama terá efeito direto sobre o Legislativo. Tudo indica que o futuro Congresso será muito mais governista que o atual. E também com um número expressivo de "deputados cacarecos", o maior da história recente, produto direto da inexistência do debate político.
A despolitização abre campo para que ex-jogadores de futebol, comediantes, cantores e celebridades instantâneas sejam considerados puxadores de votos para partidos de todos os matizes.
Outro efeito nefasto da despolitização é a permanência (e até ampliação) dos representantes dos oligarcas. Quase todos os sobrenomes que simbolizam o que há de pior na política brasileira estão apoiando a candidata oficial. São espertos. Tratam Lula como se fosse um dos seus. E, por incrível que pareça, ele acabou se transformando em uma espécie de "capo" dessas famílias.
Parodiando Sílvio Romero, no célebre discurso de recepção a Euclides da Cunha na ABL, Lula chegou "à suprema degradação de retrogradar, dando, de novo, um sentido histórico às oligarquias locais e outorgando-lhes nova função política e social".
A apatia política tem preço. E muito alto para o país. A fuga da oposição do debate, o medo do enfrentamento, a recusa de se opor, pode abrir caminho para um longo domínio do Estado por parte de um bloco conservador, sem espírito republicano, com tinturas caudilhistas e desejos de impor sua vontade à força.
MARCO ANTONIO VILLA é professor do Departamento de Ciências Sociais da UFSCar.
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sexta-feira, 20 de agosto de 2010
A visao do lado oficialista - por um jornalista oficioso
O raio X da campanha eleitoral
Luis Nassif
Coluna Econômica, 20/08/2010
Como se analisa o governo Lula, por dentro? A visão abaixo é de Marco Aurélio Garcia, assessor especial de Lula e encarregado de montar o programa da candidata Dilma Rousseff.
Garcia considera difícil a campanha da oposição atual, mais ainda do que a campanha de Lula em 1994, enfrentando Fernando Henrique Cardoso ancorado no Plano Real.
O plano Real representou uma mudança econômica, diz ele, percebida por jornalistas, economistas e intelectuais. Já as mudanças atuais são de ordem social, percebida, portanto, pela sociedade (na verdade, o fim da inflação em 1994 significou bem estar para toda a população).
***
Garcia considera que a nova classe social, que nasceu nos últimos anos, será cada vez mais exigente. Hoje se contenta com Prouni ( o programa de bolsas em universidades privadas para estudantes carentes) ou adquirir a casa própria. No futuro, exigirá muito mais, uma abertura maior de horizontes.
***
Esse movimento inaugurou um novo ciclo na sociedade brasileira, que não foi percebido pela oposição, diz ele. Passou os primeiros anos apostando no fracasso do governo. Quando se deram conta de que não estava funcionando, houve a aposta na crise política deflagrada pelo “mensalão”.
Garcia compara com a crise de Vargas, em 1954. Entre o atentado da rua Toneleros, contra Carlos Lacerda, e o suicídio de Getúlio Vargas passaram apenas 19 dias. Foi um rastilho.
No caso do “mensalão”, Lula reagiu em uma maratona que começou em Garanhuns e prosseguiu por todo o Brasil.
***
Ai predominou ideia do sangramento, que começou a fazer água em fins de 2005. Em janeiro e fevereiro de 2006, pesquisas de opinião começaram a mostrar uma reversão do desgaste do governo Lula. Foi quando Serra desistiu de concorrrer à presidência e passou o cálice para Geraldo Alckmin.
Não se esperava uma inflexão no segundo governo Lula. O primeiro se caracterizou por uma ortodoxia pesada no Banco Central e por políticas sociais na outra ponta.
Com a crise do mensalão, percebeu-se a necessidade de um projeto nacional, explica Garcia.
***
Além disso, se insistiu no discurso mais à esquerda que, segundo Garcia, teria sido responsável pelo episódio insólito de Alckmin receber, no segundo turno, uma votação 3 milhões de votos inferior à do primeiro turno.
Mas estavam lançadas aí as sementes de um programa de desenvolvimento, cujas expressões iniciais foram o PAC1 e o Minha Casa, Minha Vida, mantendo a política conservadora do Banco Central.
***
Esse movimento, ainda segundo Garcia, teria desorientado a oposição, que passou a brandir um discurso bastante agressivo. Em 2009, Aécio Neves descobriu o tom correto, ao se apresentar como o pós-Lula. Só que, àquela altura, o PSDB estava profundamente identificado com o anti-lulismo dos períodos anteriores.
***
Todo esse movimento se refletiu nas constantes mudanças da campanha de Serra. No início, apresentava-se como o candidato que iria unir ricos e pobres, esquerda e direita. À medida que Dilma subia, passou a espelhar uma direita centro-sul. Segundo Garcia, há uma direita composta de coronéis nordestinos. E outra, mais de centro-sul, bom ingredientes fortes de preconceito.
O caminho à direita
Serra acabou abrindo mão de sua formação de centro-esquerda e enveredando decididamente pela direita mais radical. E aí a intolerância acabou afastando os eleitores. Pela definição de Garcia, o governo Lula seria um governo social democrata, de esquerda-centro – isto é, de centro mas com viés de esquerda branda. E o PSDB teria ficado sem espaço para esse perfil de eleitor.
O governo Dilma
Em sua opinião, o governo Dilma terá algumas características ainda não percebidas nem pela oposição. Quem a conhece sabe que tem personalidade forte, embora sempre vá se aconselhar com Lula. Para certo conjunto de questões, Dilma tem posição firmada. Como, por exemplo, a questão do desenvolvimento, temas econômicos e sociais.E Lula tem consciência de que não interferirá no governo.
O papel de Lula
Segundo Garcia, a tarefa que Lula se incumbirá será a de empurrar partidos, dando-lhes uma densidade política maior. O próprio PMDB tenderá a ser mais homogêneo, diz ele, à medida em que, ao contrário do governo Lula, agorá terá um papel institucional no novo governo. Vai ser obrigado a buscar uma identidade político-ideológica maior.
Luis Nassif
Coluna Econômica, 20/08/2010
Como se analisa o governo Lula, por dentro? A visão abaixo é de Marco Aurélio Garcia, assessor especial de Lula e encarregado de montar o programa da candidata Dilma Rousseff.
Garcia considera difícil a campanha da oposição atual, mais ainda do que a campanha de Lula em 1994, enfrentando Fernando Henrique Cardoso ancorado no Plano Real.
O plano Real representou uma mudança econômica, diz ele, percebida por jornalistas, economistas e intelectuais. Já as mudanças atuais são de ordem social, percebida, portanto, pela sociedade (na verdade, o fim da inflação em 1994 significou bem estar para toda a população).
***
Garcia considera que a nova classe social, que nasceu nos últimos anos, será cada vez mais exigente. Hoje se contenta com Prouni ( o programa de bolsas em universidades privadas para estudantes carentes) ou adquirir a casa própria. No futuro, exigirá muito mais, uma abertura maior de horizontes.
***
Esse movimento inaugurou um novo ciclo na sociedade brasileira, que não foi percebido pela oposição, diz ele. Passou os primeiros anos apostando no fracasso do governo. Quando se deram conta de que não estava funcionando, houve a aposta na crise política deflagrada pelo “mensalão”.
Garcia compara com a crise de Vargas, em 1954. Entre o atentado da rua Toneleros, contra Carlos Lacerda, e o suicídio de Getúlio Vargas passaram apenas 19 dias. Foi um rastilho.
No caso do “mensalão”, Lula reagiu em uma maratona que começou em Garanhuns e prosseguiu por todo o Brasil.
***
Ai predominou ideia do sangramento, que começou a fazer água em fins de 2005. Em janeiro e fevereiro de 2006, pesquisas de opinião começaram a mostrar uma reversão do desgaste do governo Lula. Foi quando Serra desistiu de concorrrer à presidência e passou o cálice para Geraldo Alckmin.
Não se esperava uma inflexão no segundo governo Lula. O primeiro se caracterizou por uma ortodoxia pesada no Banco Central e por políticas sociais na outra ponta.
Com a crise do mensalão, percebeu-se a necessidade de um projeto nacional, explica Garcia.
***
Além disso, se insistiu no discurso mais à esquerda que, segundo Garcia, teria sido responsável pelo episódio insólito de Alckmin receber, no segundo turno, uma votação 3 milhões de votos inferior à do primeiro turno.
Mas estavam lançadas aí as sementes de um programa de desenvolvimento, cujas expressões iniciais foram o PAC1 e o Minha Casa, Minha Vida, mantendo a política conservadora do Banco Central.
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Esse movimento, ainda segundo Garcia, teria desorientado a oposição, que passou a brandir um discurso bastante agressivo. Em 2009, Aécio Neves descobriu o tom correto, ao se apresentar como o pós-Lula. Só que, àquela altura, o PSDB estava profundamente identificado com o anti-lulismo dos períodos anteriores.
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Todo esse movimento se refletiu nas constantes mudanças da campanha de Serra. No início, apresentava-se como o candidato que iria unir ricos e pobres, esquerda e direita. À medida que Dilma subia, passou a espelhar uma direita centro-sul. Segundo Garcia, há uma direita composta de coronéis nordestinos. E outra, mais de centro-sul, bom ingredientes fortes de preconceito.
O caminho à direita
Serra acabou abrindo mão de sua formação de centro-esquerda e enveredando decididamente pela direita mais radical. E aí a intolerância acabou afastando os eleitores. Pela definição de Garcia, o governo Lula seria um governo social democrata, de esquerda-centro – isto é, de centro mas com viés de esquerda branda. E o PSDB teria ficado sem espaço para esse perfil de eleitor.
O governo Dilma
Em sua opinião, o governo Dilma terá algumas características ainda não percebidas nem pela oposição. Quem a conhece sabe que tem personalidade forte, embora sempre vá se aconselhar com Lula. Para certo conjunto de questões, Dilma tem posição firmada. Como, por exemplo, a questão do desenvolvimento, temas econômicos e sociais.E Lula tem consciência de que não interferirá no governo.
O papel de Lula
Segundo Garcia, a tarefa que Lula se incumbirá será a de empurrar partidos, dando-lhes uma densidade política maior. O próprio PMDB tenderá a ser mais homogêneo, diz ele, à medida em que, ao contrário do governo Lula, agorá terá um papel institucional no novo governo. Vai ser obrigado a buscar uma identidade político-ideológica maior.
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segunda-feira, 2 de agosto de 2010
Artigo de opiniao - Fernando Henrique Cardoso
Emite opiniões, quem tem opiniões para dar, se possível inteligentes. Emite conceitos disparatados, se o termo conceito se aplica, quem não tem nada de muito inteligente a agregar, apenas demagogia a disseminar, em linguagem próxima da vulgaridade...
Cara ou coroa?
Fernando Henrique Cardoso
Espaço Aberto - O Estado de S.Paulo
31 de julho de 2010 | 23h 01
Em pouco mais de dois meses escolheremos o próximo presidente. Tempo mais do que suficiente para um balanço da situação e, sobretudo, para assumirmos a responsabilidade pela escolha que faremos. É inegável que a popularidade de Lula e a sensação de "dinheiro no bolso", materializada no aumento do consumo, podem dar aos eleitores a sensação de que é melhor ficar com o conhecido do que mudar para o incerto.
Mas o que realmente se conhece? Que nos últimos 20 anos melhorou a vida das pessoas no Brasil, com a abertura da economia, com a estabilidade da moeda trazida pelo Plano Real, com o fim dos monopólios estatais e com as políticas de distribuição de renda simbolizadas pelas bolsas. Foi nessa moldura que Lula pregou sua imagem.
Arengador de méritos, independentemente do que diga (quase nada diz, mas toca em almas ansiosas por atenção), vem conseguindo confundir a opinião, como se antes dele nada houvesse e depois dele, se não houver a continuidade presumida com a eleição de sua candidata, haverá retrocesso.
Terá êxito a estratégia? Por enquanto o que chama a atenção é a disposição de bem menos da metade do eleitorado de votar no governo, enquanto a votação oposicionista se mantém consistente próxima da metade. Essa obstinação, a despeito da pressão governamental, impressiona mais do que o fato de Lula ter transferido para sua candidata 35% a 40% dos votos. Assim como impressiona que o apoio aos candidatos não esteja dividido por classes de renda, mas por regiões: pobres do Sul e do Sudeste tendem a votar mais em Serra, assim como ricos do Norte e do Nordeste, em Dilma. O empate, depois de praticamente dois anos de campanha oficial em favor da candidata governista, tem sabor de vitória para a oposição. É como se a lábia presidencial tivesse alcançado um teto. De agora para a frente, a voz deverá ser a de quem o País nunca ouviu, a da candidata. Pode surpreender? Sempre é possível. Mas pelos balbucios escutados falta muito para convencer: falta história nacional, falta clareza nas posições; dá a impressão de que a palavra saiu de um manequim que não tem opiniões fortes sobre os temas e diz, meio desajeitadamente, o que os auditórios querem ouvir.
Não terá sido essa também a técnica de Lula? Até certo ponto, pois este, quando esbraveja ou quando se aferra pouco à verdade, o faz "autenticamente": sente-se que pode assumir qualquer posição porque em princípio nunca teve posição alguma. Dito em suas próprias palavras: "Sou uma metamorfose ambulante." Ora, o caso da candidata do PT é o oposto (essa é, aliás, sua virtude). Tem opiniões firmes, com as quais podemos ou não concordar, mas ela luta pelo que crê. Este é também seu dilema: ou diz o que crê e possivelmente perde eleitores por seu compromisso com uma visão centralizadora e burocrática da economia e da sociedade ou se metamorfoseia e vira personagem de marqueteiro, pouco convincente.
Não obstante, muitos comentaristas, como recentemente um punhado de brasilianistas, quando perguntados sobre as diferenças entre as duas candidaturas, pensam que há mais convergências do que discrepâncias entre os candidatos. Será? As comparações feitas, fundadas ou não, apontam mais para o lado psicológico. O que está em jogo, entretanto, é muito mais do que a diferença ou semelhança de personalidades. O quadro fica confundido com a discussão deslocada do plano político para o pessoal e, pior, quando se aceita a confusão a que me referi inicialmente entre a situação de desafogo e bem-estar que o País vive e Lula, que dela se apossou como se fosse obra exclusiva sua. Se tudo converge nos objetivos e se estamos vivendo um bom momento na economia, podem pensar alguns, melhor não trocar o certo pelo duvidoso. Só que o certo foi uma situação herdada, que, embora aperfeiçoada, tem a marca original do fabricante, e o duvidoso é a disposição da herdeira eleitoral de continuar a se inspirar na matriz originária. O candidato da oposição, esse, sim, traz consigo a marca de origem: ajudou a construir a estabilidade, a melhorar as políticas sociais e a promover o progresso econômico.
Não nos iludamos. O voto decidirá entre dois modelos de sociedade. Um mais centralizador e burocrático, outro mais competitivo e meritocrático. No geral, ambos os oponentes levarão adiante o capitalismo. Estamos longe dos dias em que o PT e sua candidata sonhavam com o que Lula nunca sonhou: o controle social dos meios de produção e uma sociedade socialista. Mas estamos mais perto do que parece de concretizar o que vem sendo esboçado neste segundo mandato petista: mais controle do Estado pelo partido, mais burocratização e corporativismo na economia, mais apostas em controles não democráticos, além de maior aproximação com governos autoritários, revestidos de retórica popular.
A escolha a ser feita é, portanto, decisiva. Como tudo indica, o teatro eleitoral está-se organizando para esconder o que verdadeiramente está em discussão. Há muita gente nas elites (vilipendiadas pelo lulismo nos comícios, mas amada pelos governantes e beneficiada por suas decisões econômico-financeiras) aceitando confortavelmente a tese de que tanto dá como tanto deu. Dê cara ou dê coroa, sempre haverá "um cara" para desapertar os sapatos. Ledo engano. Há diferenças essenciais entre as duas candidaturas polares. Feitas as apostas e jogado o jogo, será tarde para choramingar: "Ah, eu nunca imaginei isso." Melhor que cada um trate de aprofundar as razões e consequências de seu voto e escolha um ou outro lado.
Há argumentos para defender qualquer dos dois. Mas que não são a mesma coisa, não são. E não porque num governo haverá fartura e noutro, escassez, para pobres ou ricos. E sim porque num haverá mais transparência e liberdade que no outro. Menos controle policialesco, menos ingerência de forças partidário-sindicais. E menos corrupção, que mais do que um propósito é uma consequência.
SOCIÓLOGO, FOI PRESIDENTE DA REPÚBLICA
Cara ou coroa?
Fernando Henrique Cardoso
Espaço Aberto - O Estado de S.Paulo
31 de julho de 2010 | 23h 01
Em pouco mais de dois meses escolheremos o próximo presidente. Tempo mais do que suficiente para um balanço da situação e, sobretudo, para assumirmos a responsabilidade pela escolha que faremos. É inegável que a popularidade de Lula e a sensação de "dinheiro no bolso", materializada no aumento do consumo, podem dar aos eleitores a sensação de que é melhor ficar com o conhecido do que mudar para o incerto.
Mas o que realmente se conhece? Que nos últimos 20 anos melhorou a vida das pessoas no Brasil, com a abertura da economia, com a estabilidade da moeda trazida pelo Plano Real, com o fim dos monopólios estatais e com as políticas de distribuição de renda simbolizadas pelas bolsas. Foi nessa moldura que Lula pregou sua imagem.
Arengador de méritos, independentemente do que diga (quase nada diz, mas toca em almas ansiosas por atenção), vem conseguindo confundir a opinião, como se antes dele nada houvesse e depois dele, se não houver a continuidade presumida com a eleição de sua candidata, haverá retrocesso.
Terá êxito a estratégia? Por enquanto o que chama a atenção é a disposição de bem menos da metade do eleitorado de votar no governo, enquanto a votação oposicionista se mantém consistente próxima da metade. Essa obstinação, a despeito da pressão governamental, impressiona mais do que o fato de Lula ter transferido para sua candidata 35% a 40% dos votos. Assim como impressiona que o apoio aos candidatos não esteja dividido por classes de renda, mas por regiões: pobres do Sul e do Sudeste tendem a votar mais em Serra, assim como ricos do Norte e do Nordeste, em Dilma. O empate, depois de praticamente dois anos de campanha oficial em favor da candidata governista, tem sabor de vitória para a oposição. É como se a lábia presidencial tivesse alcançado um teto. De agora para a frente, a voz deverá ser a de quem o País nunca ouviu, a da candidata. Pode surpreender? Sempre é possível. Mas pelos balbucios escutados falta muito para convencer: falta história nacional, falta clareza nas posições; dá a impressão de que a palavra saiu de um manequim que não tem opiniões fortes sobre os temas e diz, meio desajeitadamente, o que os auditórios querem ouvir.
Não terá sido essa também a técnica de Lula? Até certo ponto, pois este, quando esbraveja ou quando se aferra pouco à verdade, o faz "autenticamente": sente-se que pode assumir qualquer posição porque em princípio nunca teve posição alguma. Dito em suas próprias palavras: "Sou uma metamorfose ambulante." Ora, o caso da candidata do PT é o oposto (essa é, aliás, sua virtude). Tem opiniões firmes, com as quais podemos ou não concordar, mas ela luta pelo que crê. Este é também seu dilema: ou diz o que crê e possivelmente perde eleitores por seu compromisso com uma visão centralizadora e burocrática da economia e da sociedade ou se metamorfoseia e vira personagem de marqueteiro, pouco convincente.
Não obstante, muitos comentaristas, como recentemente um punhado de brasilianistas, quando perguntados sobre as diferenças entre as duas candidaturas, pensam que há mais convergências do que discrepâncias entre os candidatos. Será? As comparações feitas, fundadas ou não, apontam mais para o lado psicológico. O que está em jogo, entretanto, é muito mais do que a diferença ou semelhança de personalidades. O quadro fica confundido com a discussão deslocada do plano político para o pessoal e, pior, quando se aceita a confusão a que me referi inicialmente entre a situação de desafogo e bem-estar que o País vive e Lula, que dela se apossou como se fosse obra exclusiva sua. Se tudo converge nos objetivos e se estamos vivendo um bom momento na economia, podem pensar alguns, melhor não trocar o certo pelo duvidoso. Só que o certo foi uma situação herdada, que, embora aperfeiçoada, tem a marca original do fabricante, e o duvidoso é a disposição da herdeira eleitoral de continuar a se inspirar na matriz originária. O candidato da oposição, esse, sim, traz consigo a marca de origem: ajudou a construir a estabilidade, a melhorar as políticas sociais e a promover o progresso econômico.
Não nos iludamos. O voto decidirá entre dois modelos de sociedade. Um mais centralizador e burocrático, outro mais competitivo e meritocrático. No geral, ambos os oponentes levarão adiante o capitalismo. Estamos longe dos dias em que o PT e sua candidata sonhavam com o que Lula nunca sonhou: o controle social dos meios de produção e uma sociedade socialista. Mas estamos mais perto do que parece de concretizar o que vem sendo esboçado neste segundo mandato petista: mais controle do Estado pelo partido, mais burocratização e corporativismo na economia, mais apostas em controles não democráticos, além de maior aproximação com governos autoritários, revestidos de retórica popular.
A escolha a ser feita é, portanto, decisiva. Como tudo indica, o teatro eleitoral está-se organizando para esconder o que verdadeiramente está em discussão. Há muita gente nas elites (vilipendiadas pelo lulismo nos comícios, mas amada pelos governantes e beneficiada por suas decisões econômico-financeiras) aceitando confortavelmente a tese de que tanto dá como tanto deu. Dê cara ou dê coroa, sempre haverá "um cara" para desapertar os sapatos. Ledo engano. Há diferenças essenciais entre as duas candidaturas polares. Feitas as apostas e jogado o jogo, será tarde para choramingar: "Ah, eu nunca imaginei isso." Melhor que cada um trate de aprofundar as razões e consequências de seu voto e escolha um ou outro lado.
Há argumentos para defender qualquer dos dois. Mas que não são a mesma coisa, não são. E não porque num governo haverá fartura e noutro, escassez, para pobres ou ricos. E sim porque num haverá mais transparência e liberdade que no outro. Menos controle policialesco, menos ingerência de forças partidário-sindicais. E menos corrupção, que mais do que um propósito é uma consequência.
SOCIÓLOGO, FOI PRESIDENTE DA REPÚBLICA
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Fernando Henrique Cardoso
segunda-feira, 12 de julho de 2010
Le Temps (Suisse) voit la campagne electorale au Bresil
Lula reste l’icône de la campagne électorale pour sa succession
Par Chantal Rayes
Le Temps, Dimanche, 11 juillet 2010
São Paulo - La candidate de gauche Dilma Rousseff profite de l’extraordinaire popularité du président brésilien. A droite, le leader de l’opposition José Serra n’ose s’attaquer au bilan du chef d’Etat
La bataille a commencé entre les deux principaux candidats à la succession du président brésilien, Luiz Inacio Lula da Silva. Le leader de l’opposition de centre droit, José Serra, et la dauphine de Lula, Dilma Rousseff, sont au coude à coude dans les sondages pour la présidentielle d’octobre. Les dernières enquêtes d’opinion les placent à égalité avec 39% des intentions de vote pour chacun. Les deux précédentes concédaient une courte avance de cinq points à l’ex-cheffe de cabinet de Lula (40% des intentions de vote contre 35% pour son rival).
Adoubée par Lula malgré son Parti des travailleurs (PT, gauche), Dilma Rousseff n’a jamais disputé la moindre élection. Il n’y a pas si longtemps, cette économiste, autrefois engagée dans la guérilla contre la dictature (1964-1985), était encore quasiment inconnue du grand public. L’inverse de José Serra, ex-gouverneur de l’Etat de São Paulo et candidat malheureux – il avait été battu par Lula lui-même – à la présidentielle de 2002.
La performance de la candidate du PT est donc remarquable et elle la doit exclusivement à l’époustouflante popularité du président: 78% d’opinions favorables, après bientôt huit ans au pouvoir, grâce au recul de la pauvreté et à la forte croissance de l’économie. Dans un contexte aussi favorable, Rousseff aurait déjà dû être largement en tête, disent les sceptiques. Mais ce n’est peut-être qu’une question de temps. Lula compte peser de tout son poids dans la campagne. Il n’a d’ailleurs pas attendu son coup d’envoi officiel, le 6 juillet, pour promouvoir sa candidate. Cela lui a valu six amendes du tribunal électoral. Son influence sera déterminante: 41% des personnes interrogées lors d’une récente enquête affirment qu’elles voteraient «à coup sûr pour un candidat soutenu par le chef de l’Etat», tandis qu’un bon quart de l’électorat ne sait pas encore qu’il s’agit de Dilma Rousseff. Surtout, la «publicité électorale» à la télé et à la radio ne sera pas diffusée avant la mi-août. La durée des spots publicitaires de chaque candidat sera proportionnelle au nombre de députés des partis qui le soutiennent. Ceux de Dilma Rousseff, alliée à la plus grande formation, le Parti du mouvement démocratique brésilien, seront les plus longs, ce qui lui confère une longueur d’avance.
«Dilma», comme on l’appelle ici, prône la «poursuite du changement» et accuse Serra de «ne penser aux pauvres que pendant la campagne». Son rival, quant à lui, reconnaît les avancées de l’ère Lula mais martèle que «le Brésil peut mieux faire». Serra n’a pas la tâche facile: être d’opposition sans attaquer directement un président très populaire et convaincre les Brésiliens qu’il est le mieux placé pour lui succéder. Pour sa part, la candidate du Parti vert, Marina Silva (8 à 10% des intentions de vote), se pose en troisième voie. Ex-ministre de l’Environnement de Lula, elle a démissionné en 2008, accusant son gouvernement, et en particulier Dilma Rousseff, de ne pas se soucier de la protection de l’Amazonie. L’écologiste prône le développement durable et veut incarner «une nouvelle manière de faire de la politique».
Les électeurs n’en savent pas beaucoup plus pour l’instant sur le programme des candidats. Ceux-ci auraient dû déposer le leur auprès du tribunal électoral mais cette formalité a tourné au burlesque. José Serra s’est contenté d’envoyer deux de ses discours. Dilma Rousseff, elle, a présenté «par erreur» la résolution approuvée par le congrès du PT, en février. Elle aurait paraphé sans le lire ce texte inspiré par l’aile gauche du parti… Celui-ci prévoit des mesures que la candidate dit ne pas endosser, comme un contrôle des médias – officiellement au nom de leur «démocratisation» –, considéré comme une menace à la liberté d’expression. Le texte a été retiré, mais le mal est fait. Le doute pèse désormais, tant sur les intentions réelles de Dilma Rousseff que sur sa capacité, si elle est élue, à dompter la gauche de son parti. «Lula y est parvenu, mais, écrit le magazine Veja, Dilma n’a pas son autorité».
Par Chantal Rayes
Le Temps, Dimanche, 11 juillet 2010
São Paulo - La candidate de gauche Dilma Rousseff profite de l’extraordinaire popularité du président brésilien. A droite, le leader de l’opposition José Serra n’ose s’attaquer au bilan du chef d’Etat
La bataille a commencé entre les deux principaux candidats à la succession du président brésilien, Luiz Inacio Lula da Silva. Le leader de l’opposition de centre droit, José Serra, et la dauphine de Lula, Dilma Rousseff, sont au coude à coude dans les sondages pour la présidentielle d’octobre. Les dernières enquêtes d’opinion les placent à égalité avec 39% des intentions de vote pour chacun. Les deux précédentes concédaient une courte avance de cinq points à l’ex-cheffe de cabinet de Lula (40% des intentions de vote contre 35% pour son rival).
Adoubée par Lula malgré son Parti des travailleurs (PT, gauche), Dilma Rousseff n’a jamais disputé la moindre élection. Il n’y a pas si longtemps, cette économiste, autrefois engagée dans la guérilla contre la dictature (1964-1985), était encore quasiment inconnue du grand public. L’inverse de José Serra, ex-gouverneur de l’Etat de São Paulo et candidat malheureux – il avait été battu par Lula lui-même – à la présidentielle de 2002.
La performance de la candidate du PT est donc remarquable et elle la doit exclusivement à l’époustouflante popularité du président: 78% d’opinions favorables, après bientôt huit ans au pouvoir, grâce au recul de la pauvreté et à la forte croissance de l’économie. Dans un contexte aussi favorable, Rousseff aurait déjà dû être largement en tête, disent les sceptiques. Mais ce n’est peut-être qu’une question de temps. Lula compte peser de tout son poids dans la campagne. Il n’a d’ailleurs pas attendu son coup d’envoi officiel, le 6 juillet, pour promouvoir sa candidate. Cela lui a valu six amendes du tribunal électoral. Son influence sera déterminante: 41% des personnes interrogées lors d’une récente enquête affirment qu’elles voteraient «à coup sûr pour un candidat soutenu par le chef de l’Etat», tandis qu’un bon quart de l’électorat ne sait pas encore qu’il s’agit de Dilma Rousseff. Surtout, la «publicité électorale» à la télé et à la radio ne sera pas diffusée avant la mi-août. La durée des spots publicitaires de chaque candidat sera proportionnelle au nombre de députés des partis qui le soutiennent. Ceux de Dilma Rousseff, alliée à la plus grande formation, le Parti du mouvement démocratique brésilien, seront les plus longs, ce qui lui confère une longueur d’avance.
«Dilma», comme on l’appelle ici, prône la «poursuite du changement» et accuse Serra de «ne penser aux pauvres que pendant la campagne». Son rival, quant à lui, reconnaît les avancées de l’ère Lula mais martèle que «le Brésil peut mieux faire». Serra n’a pas la tâche facile: être d’opposition sans attaquer directement un président très populaire et convaincre les Brésiliens qu’il est le mieux placé pour lui succéder. Pour sa part, la candidate du Parti vert, Marina Silva (8 à 10% des intentions de vote), se pose en troisième voie. Ex-ministre de l’Environnement de Lula, elle a démissionné en 2008, accusant son gouvernement, et en particulier Dilma Rousseff, de ne pas se soucier de la protection de l’Amazonie. L’écologiste prône le développement durable et veut incarner «une nouvelle manière de faire de la politique».
Les électeurs n’en savent pas beaucoup plus pour l’instant sur le programme des candidats. Ceux-ci auraient dû déposer le leur auprès du tribunal électoral mais cette formalité a tourné au burlesque. José Serra s’est contenté d’envoyer deux de ses discours. Dilma Rousseff, elle, a présenté «par erreur» la résolution approuvée par le congrès du PT, en février. Elle aurait paraphé sans le lire ce texte inspiré par l’aile gauche du parti… Celui-ci prévoit des mesures que la candidate dit ne pas endosser, comme un contrôle des médias – officiellement au nom de leur «démocratisation» –, considéré comme une menace à la liberté d’expression. Le texte a été retiré, mais le mal est fait. Le doute pèse désormais, tant sur les intentions réelles de Dilma Rousseff que sur sa capacité, si elle est élue, à dompter la gauche de son parti. «Lula y est parvenu, mais, écrit le magazine Veja, Dilma n’a pas son autorité».
sábado, 26 de junho de 2010
Peculiaridades do processo eleitoral
Entre o céu e o inferno
Ruy Fabiano - jornalista
O Globo, 26.06.2010
A presente eleição exibe uma singularidade: o candidato principal não está na disputa. É o presidente Lula. Ele mesmo não fez cerimônia quanto a isso. Disse que o “vazio da cédula” será preenchido com o nome de Dilma Roussef, mas o candidato é ele.
Nenhum antecessor, em qualquer época, portou-se assim. Os paradigmas mais próximos são as eleições chilenas e as colombianas. Mas nenhum dos dois presidentes – Michele Bachelet e Alvaro Uribe -, embora ostentassem índices de popularidade até superiores aos de Lula (Bachelet deixou o governo com 84% e Uribe com 82%, enquanto Lula tem 76%), agiram com a mesma contundência.
Nenhum disse que ele próprio era o candidato, e o sucessor um poste. Dilma resigna-se ao papel, pois sabe que, em outras circunstâncias, não teria chances. O que não se sabe – e as pesquisas estão longe de esclarecer – é a consistência dessa estratégia.
No Chile, não funcionou; o candidato de Michelet perdeu. Na Colômbia, funcionou; o de Uribe ganhou. Em ambos, a população estava, como aqui, satisfeita com o governo.
Mas no Chile, com instituições estáveis e economia sólida, o eleitor não viu perigo na mudança. Na Colômbia, atormentada pelo narcotráfico, viu. E elegeu o personagem da continuidade, exatamente o encarregado de combater as Farcs, o ministro da Defesa, general Juan Manuel Santos.
O quadro brasileiro mistura um pouco as duas coisas: tem instituições razoavelmente estáveis e economia em alta, como o Chile; mas vive os tormentos da criminalidade, como a Colômbia. O narcotráfico mata 50 mil pessoas por ano, a maioria jovens e pobres.
É o equivalente a cem vezes o total de mortos nos 21 anos de ditadura militar – e isso por ano. O eleitor convive com um cenário paradoxal: de um lado o cenário de prosperidade que a máquina de propaganda do governo lhe exibe diariamente na mídia; de outro, o noticiário policial da mesma mídia. Entre o céu e o inferno.
O governo ancora seu discurso na prosperidade e, a partir dela, fala dos outros temas: saúde, educação, emprego, desenvolvimento. A oposição, sem êxito, diz que pode mais. Prefere disputar votos no que está dando certo, avalizando o cenário de bem-estar que o governo proclama. Despreza, até aqui, o potencial do mal-estar social que convive nessa conjuntura.
O máximo que fez foi propor a criação de um Ministério da Segurança, sem aprofundar as deficiências que o justificam e como se propõe a supri-las. E há reflexos contundentes da ação da rede criminosa continental, que tem nas Farcs um de seus pilares, em segmentos como saúde pública e educação.
As relações do governo brasileiro com aquela entidade, que vive do roubo de gado, venda de drogas (sobretudo para o Brasil) e sequestro de pessoas (com campos de concentração na selva amazônica) são ainda nebulosas, para dizer o mínimo.
Jamais houve uma condenação explícita. Ao contrário, Lula sugeriu que se transformassem em partido político e Marco Aurélio Garcia recusa-lhe o rótulo de organização terrorista, atribuído por Estados Unidos e União Europeia.
É um flanco em aberto que explica a porosidade da fronteira boliviana, mencionada de passagem por Serra, de onde procedem 90% da cocaína vendida ao Brasil, aqui processada e revendida pelo tráfico. Por aí, chega-se aos 50 mil brasileiros assassinados anualmente, o que caracteriza uma guerra civil silenciosa – ou nem tanto.
Ruy Fabiano - jornalista
O Globo, 26.06.2010
A presente eleição exibe uma singularidade: o candidato principal não está na disputa. É o presidente Lula. Ele mesmo não fez cerimônia quanto a isso. Disse que o “vazio da cédula” será preenchido com o nome de Dilma Roussef, mas o candidato é ele.
Nenhum antecessor, em qualquer época, portou-se assim. Os paradigmas mais próximos são as eleições chilenas e as colombianas. Mas nenhum dos dois presidentes – Michele Bachelet e Alvaro Uribe -, embora ostentassem índices de popularidade até superiores aos de Lula (Bachelet deixou o governo com 84% e Uribe com 82%, enquanto Lula tem 76%), agiram com a mesma contundência.
Nenhum disse que ele próprio era o candidato, e o sucessor um poste. Dilma resigna-se ao papel, pois sabe que, em outras circunstâncias, não teria chances. O que não se sabe – e as pesquisas estão longe de esclarecer – é a consistência dessa estratégia.
No Chile, não funcionou; o candidato de Michelet perdeu. Na Colômbia, funcionou; o de Uribe ganhou. Em ambos, a população estava, como aqui, satisfeita com o governo.
Mas no Chile, com instituições estáveis e economia sólida, o eleitor não viu perigo na mudança. Na Colômbia, atormentada pelo narcotráfico, viu. E elegeu o personagem da continuidade, exatamente o encarregado de combater as Farcs, o ministro da Defesa, general Juan Manuel Santos.
O quadro brasileiro mistura um pouco as duas coisas: tem instituições razoavelmente estáveis e economia em alta, como o Chile; mas vive os tormentos da criminalidade, como a Colômbia. O narcotráfico mata 50 mil pessoas por ano, a maioria jovens e pobres.
É o equivalente a cem vezes o total de mortos nos 21 anos de ditadura militar – e isso por ano. O eleitor convive com um cenário paradoxal: de um lado o cenário de prosperidade que a máquina de propaganda do governo lhe exibe diariamente na mídia; de outro, o noticiário policial da mesma mídia. Entre o céu e o inferno.
O governo ancora seu discurso na prosperidade e, a partir dela, fala dos outros temas: saúde, educação, emprego, desenvolvimento. A oposição, sem êxito, diz que pode mais. Prefere disputar votos no que está dando certo, avalizando o cenário de bem-estar que o governo proclama. Despreza, até aqui, o potencial do mal-estar social que convive nessa conjuntura.
O máximo que fez foi propor a criação de um Ministério da Segurança, sem aprofundar as deficiências que o justificam e como se propõe a supri-las. E há reflexos contundentes da ação da rede criminosa continental, que tem nas Farcs um de seus pilares, em segmentos como saúde pública e educação.
As relações do governo brasileiro com aquela entidade, que vive do roubo de gado, venda de drogas (sobretudo para o Brasil) e sequestro de pessoas (com campos de concentração na selva amazônica) são ainda nebulosas, para dizer o mínimo.
Jamais houve uma condenação explícita. Ao contrário, Lula sugeriu que se transformassem em partido político e Marco Aurélio Garcia recusa-lhe o rótulo de organização terrorista, atribuído por Estados Unidos e União Europeia.
É um flanco em aberto que explica a porosidade da fronteira boliviana, mencionada de passagem por Serra, de onde procedem 90% da cocaína vendida ao Brasil, aqui processada e revendida pelo tráfico. Por aí, chega-se aos 50 mil brasileiros assassinados anualmente, o que caracteriza uma guerra civil silenciosa – ou nem tanto.
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domingo, 23 de maio de 2010
Pesquisas eleitorais (23/05): Dilma sobe e empata com Serra
Dilma sobe e empata com Serra
Fernando Rodrigues
FOLHA DE S. PAULO, domingo, 23 de maio de 2010
A pré-candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, atingiu sua melhor marca até hoje numa pesquisa Datafolha e está empatada com seu concorrente direto, José Serra (PSDB). Ambos têm 37%, segundo levantamento nacional realizado ontem e anteontem. Na pesquisa anterior, feita em 15 e 16 de abril, Dilma tinha 30% - ou seja, a intenção de voto na petista subiu sete pontos.
Dilma sobe 7 pontos e empata com Serra, aponta Datafolha
Tucano cai 5 pontos desde levantamento de abril e ambos aparecem com 37%
Petista atinge melhor marca na série do instituto, lidera na espontânea e também registra empate no 2" turno; Marina se mantém com 12
BRASÍLIA - A pré-candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, atingiu sua melhor marca até hoje numa pesquisa Datafolha e está empatada com José Serra (PSDB). Ambos estão com 37%.
O levantamento foi realizado ontem e anteontem com 2.660 entrevistas.
A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos. Marina Silva (PV) aparece com 12%. Os que votam em branco, nulo ou em nenhum somam 5%. Indecisos são 9%. Na comparação com a última pesquisa Datafolha, realizada em 15 e 16 de abril, Dilma teve uma alta de sete pontos percentuais -de 30% para 37%. Já Serra caiu cinco pontos, saindo de 42% para os mesmos 37%.
Essa é a primeira vez que ambos aparecem empatados no Datafolha, que traz outros números positivos para a petista.
TV e Lula
"O principal fato que pode ser apontado como responsável por essa alta da candidata é o programa partidário de TV que o PT apresentou recentemente", diz Mauro Paulino, diretor-geral do Datafolha. Na semana passada, o PT foi à TV com vários comerciais de 30 segundos e com seu programa mais longo, de dez minutos. A estrela dessa investida de marketing foi Dilma Rousseff, com Lula como cabo eleitoral. Na pesquisa espontânea, quando os entrevistados não são apresentados a uma lista com os nomes dos candidatos, a curva da intenção de voto de Dilma continuou a descrever uma sólida curva ascendente. Ela tinha 8% em dezembro.
Em abril, estava com 13%. Agora, foi a 19% e está isolada em primeiro lugar. José Serra pontuou 14% -ele também vem subindo nesse quesito, mas em ritmo mais lento. Ainda na pesquisa espontânea, há também 5% que dizem ter intenção de votar em Lula , que não pode ser candidato. Outros 3% declarar querer votar no "candidato do Lula".
E 1% respondem "no PT" ou no "candidato do PT". Em tese, portanto, o potencial de voto espontâneo em Dilma pode ser de 28% -os seus 19% e mais outros 9% dos que desejam votar em Lula, em quem ele indicar ou em um nome apresentado pelo PT.
2º turno e rejeição
Quando são colocados na lista de candidatos os concorrentes de partidos pequenos, o cenário não se altera muito. Dilma e Serra continuam empatados, cada um com 36%. Marina tem 10%.
E só dois nanicos pontuam: José Maria Eymael (PSDC) e Zé Maria (PSTU). Dilma também colheu bom resultado na rejeição: seu índice caiu de 24% para 20% enquanto o de Serra subiu de 24% para 27%.
Marina também teve um resultado positivo, pois sua rejeição caiu de 20% para 14%. Na projeção de segundo turno, os dois estão tecnicamente empatados: a petista tem 46% contra 45% do tucano. Em abril, Serra aparecia dez pontos à frente da petista nesse quesito, com 50% a 40%.
Fernando Rodrigues
FOLHA DE S. PAULO, domingo, 23 de maio de 2010
A pré-candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, atingiu sua melhor marca até hoje numa pesquisa Datafolha e está empatada com seu concorrente direto, José Serra (PSDB). Ambos têm 37%, segundo levantamento nacional realizado ontem e anteontem. Na pesquisa anterior, feita em 15 e 16 de abril, Dilma tinha 30% - ou seja, a intenção de voto na petista subiu sete pontos.
Dilma sobe 7 pontos e empata com Serra, aponta Datafolha
Tucano cai 5 pontos desde levantamento de abril e ambos aparecem com 37%
Petista atinge melhor marca na série do instituto, lidera na espontânea e também registra empate no 2" turno; Marina se mantém com 12
BRASÍLIA - A pré-candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, atingiu sua melhor marca até hoje numa pesquisa Datafolha e está empatada com José Serra (PSDB). Ambos estão com 37%.
O levantamento foi realizado ontem e anteontem com 2.660 entrevistas.
A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos. Marina Silva (PV) aparece com 12%. Os que votam em branco, nulo ou em nenhum somam 5%. Indecisos são 9%. Na comparação com a última pesquisa Datafolha, realizada em 15 e 16 de abril, Dilma teve uma alta de sete pontos percentuais -de 30% para 37%. Já Serra caiu cinco pontos, saindo de 42% para os mesmos 37%.
Essa é a primeira vez que ambos aparecem empatados no Datafolha, que traz outros números positivos para a petista.
TV e Lula
"O principal fato que pode ser apontado como responsável por essa alta da candidata é o programa partidário de TV que o PT apresentou recentemente", diz Mauro Paulino, diretor-geral do Datafolha. Na semana passada, o PT foi à TV com vários comerciais de 30 segundos e com seu programa mais longo, de dez minutos. A estrela dessa investida de marketing foi Dilma Rousseff, com Lula como cabo eleitoral. Na pesquisa espontânea, quando os entrevistados não são apresentados a uma lista com os nomes dos candidatos, a curva da intenção de voto de Dilma continuou a descrever uma sólida curva ascendente. Ela tinha 8% em dezembro.
Em abril, estava com 13%. Agora, foi a 19% e está isolada em primeiro lugar. José Serra pontuou 14% -ele também vem subindo nesse quesito, mas em ritmo mais lento. Ainda na pesquisa espontânea, há também 5% que dizem ter intenção de votar em Lula , que não pode ser candidato. Outros 3% declarar querer votar no "candidato do Lula".
E 1% respondem "no PT" ou no "candidato do PT". Em tese, portanto, o potencial de voto espontâneo em Dilma pode ser de 28% -os seus 19% e mais outros 9% dos que desejam votar em Lula, em quem ele indicar ou em um nome apresentado pelo PT.
2º turno e rejeição
Quando são colocados na lista de candidatos os concorrentes de partidos pequenos, o cenário não se altera muito. Dilma e Serra continuam empatados, cada um com 36%. Marina tem 10%.
E só dois nanicos pontuam: José Maria Eymael (PSDC) e Zé Maria (PSTU). Dilma também colheu bom resultado na rejeição: seu índice caiu de 24% para 20% enquanto o de Serra subiu de 24% para 27%.
Marina também teve um resultado positivo, pois sua rejeição caiu de 20% para 14%. Na projeção de segundo turno, os dois estão tecnicamente empatados: a petista tem 46% contra 45% do tucano. Em abril, Serra aparecia dez pontos à frente da petista nesse quesito, com 50% a 40%.
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segunda-feira, 10 de maio de 2010
Entrevista de Dilma Rousseff a IstoE
"Nós fizemos e sabemos como continuar a fazer''
Entrevista de Dilma Rousseff
Revista IstoÉ, 8 de maio de 2010
Em entrevista exclusiva, a candidata à Presidência Dilma Rousseff fala sobre o que considera a diferença básica entre a sua proposta de governo e a da oposição
Candidata do PT à Presidência da República fala sobre o Banco Central e os cenários atual e futuro da economia
Ex-ministra dá a sua opinião aos editores e colunistas de IstoÉ sobre aborto e relata experiência pessoal
QUATRO HORAS DE DEBATE
A equipe que entrevistou Dilma, da esquerda para a direita: Carlos
José Marques, diretor editorial; Luiz Fernando Sá, diretor editorial-adjunto; Leonardo Attuch, redator-chefe da revista DINHEIRO; Delmo Moreira, editor executivo de ISTOÉ; Gisele Vitória, diretora de redação da revista GENTE; Ricardo Boechat, colunista de ISTOÉ, Yan Boechat, editor de política; Ricardo Amorim, colunista de ISTOÉ; Octávio Costa, diretor da sucursal de Brasília; Mário Simas Filho, diretor de redação de ISTOÉ, e Caco Alzugaray, presidente executivo da Editora Três
Com um calhamaço de fichas repletas de dados sobre realizações do governo Lula sempre ao alcance das mãos, a candidata petista à Presidência da República, Dilma Rousseff, falou por quase quatro horas sobre seus planos para o Brasil, numa entrevista exclusiva a editores e articulistas de ISTOÉ. Em poucos momentos ela consultou a papelada. Mas seguidamente procurou com os olhos um contato com sua equipe de assessores que lhe passava, sempre, sinais de aprovação. Dilma não refugou assuntos. Falou sobre questões pessoais e afetivas com a mesma naturalidade com que abordou temas da política e da economia. Emocionou-se quando relembrou seus dias de luta contra o câncer.
Vestida com um terninho clássico, de tecido leve e claro, penteada e maquiada com discrição, Dilma Rousseff parece à vontade na condição de candidata. Já suavizou a postura de gerente técnica que ostentava como ministra do governo Lula. Mesmo que jamais tenha buscado votos em sua vida pública, faz promessas de candidata e demonstra apetite para contrapor-se ao candidato da oposição, José Serra. Diz que a missão de seu governo é erradicar a pobreza, mas não estabelece prazos. Anuncia ainda mudanças na condução do Banco Central e a intenção de criar um fundo federal para compensar perdas regionais na reforma tributária que se compromete a implementar. A seguir, os principais trechos de sua entrevista:
ISTOÉ – Por que a sra. acha que o presidente Lula a escolheu para sucedê-lo e quando exatamente se deu isso?
Dilma Rousseff – O presidente Lula me escolheu quatro vezes. A primeira foi na transição do governo de Fernando Henrique para o governo Lula, em 2002. O presidente me chamou para fazer a coordenação da área de infraestrutura porque me conhecia das reuniões do Instituto de Cidadania. Depois ele me escolheu para ser ministra de Minas e Energia. E, em 2005, para ser ministra da Casa Civil. Por último, me escolheu para ser pré-candidata para levar à frente o projeto de governo. Acho que me escolheu porque acompanhei com ele a construção de todos os grandes projetos. O presidente sabe que nós conseguimos, juntos, fazer estes projetos.
ISTOÉ – Ser presidente era uma ambição pessoal da sra.?
Dilma – É um momento alto da minha vida, talvez o maior. Tem gente que passou uma vida inteira querendo ser presidente da República. Eu era mais modesta. Fui para a atividade pública porque queria servir. Pode parecer uma coisa falsa, mas acho que se pode servir à população brasileira no setor público. Sempre acreditei que o Brasil podia mudar, mas isto era uma questão longínqua. Quando o Lula me chamou para a chefia da Casa Civil, ele pretendia que o governo entrasse na trilha do crescimento e da distribuição de renda para que o Brasil desse um salto, e vi nisso uma grande oportunidade.
ISTOÉ – A sra. se considera preparada para o cargo?
Dilma – Tenho clareza, hoje, de que conheço bem o Brasil e os escaninhos do governo federal. Então, sem falsa modéstia, me acho extremamente capacitada para o exercício desse cargo. E acredito que o fato de não ser uma política tradicional pode incutir um pouco de novidade na gestão da coisa pública. Uma novidade bem-vinda. Na minha opinião, critérios técnicos se combinam com políticos. Escolher onde aplicar é sempre um ato político. Por exemplo, eu acho que a grande missão nossa é erradicar a pobreza e que é possível erradicá-la nos próximos anos. Isto é um ato político. Outra pessoa pode escolher outra coisa.
ISTOÉ – No horizonte de um governo, é possível erradicar a pobreza?
Dilma – Tem um estudo do Ipea mostrando que até 2016 é possível erradicar a pobreza extrema, a miséria. Mas o empresário Jorge Gerdau costuma dizer que “meta que se cumpre é meta errada”. Metas não são feitas para cumprir, mas para estabelecer um objetivo, criar uma força. Assim, acredito que o prazo de 2016 é viável, mantido o padrão do governo Lula. Nossa meta pode ser ainda mais ousada. Só não vou dizer qual porque, se passar dois dias sem cumpri-la, vão dizer: “Não cumpriu a meta”, como fazem com o PAC. Atrasar uma obra de engenharia em seis meses é a catástrofe no Brasil.
ISTOÉ – O presidente Lula também trabalhou com metas quando foi candidato. Ele falava em dez milhões de empregos...
Dilma – Acho que a gente fecha em 14 milhões. Falei com a área econômica de dois bancos e ambos consideram que o crescimento do PIB será de 6,4%, podendo chegar a 7%, o que dá condições para se chegar a estes 14 milhões de empregos. Os dados da produção industrial que fechamos em março apontam um crescimento muito robusto e sustentável porque são os bens de capital que estão puxando esse desempenho.
ISTOÉ – O Banco Central está preocupado com este crescimento...
Dilma – Não, o Banco Central está preocupado com outra coisa. Ele não pode estar preocupado com a expansão dos bens de capital porque isso é virtuoso.
ISTOÉ – Parece que há uma visão dissonante entre o Banco Central e a Fazenda sobre o desempenho da economia. Como a sra. vê essa questão?
Dilma – Os dois trabalham em registros diferentes. O BC faz uma análise necessariamente de curto prazo, porque ele trabalha com questões inflacionárias conjunturais, mais imediatas. Ele olha a pressão na hora que ela acontece. Já a Fazenda tem uma visão de mais médio e longo prazo. É outro registro. A Fazenda tem consciência de que o Brasil está em uma trajetória de estabilidade e de sustentabilidade. Agora, isso não é incompatível com o fato de você ter pressões inflacionárias imediatas. Acho que foi importante o aumento dos juros na última reunião do Copom.
ISTOÉ – Isso não dá munição para os seus adversários?
Dilma – Nós já tivemos duas experiências muito ruins de, durante a eleição, fingir que é uma coisa e, depois, virar outra. Uma na virada do primeiro para o segundo mandato do Fernando Henrique Cardoso e outra no Plano Cruzado. Hoje somos perfeitamente capazes de elevar a taxa de juros e assumirmos as consequências, sem que isso signifique uma perda. Temos integral compromisso com a estabilidade.
ISTOÉ – A sra. concorda com a política de juros do BC?
Dilma – Concordo. Acho que, da ótica do BC, ele fez o que precisava fazer. Nos Estados Unidos, onde há um histórico maior de estabilidade, o Federal Reserve tem dois olhos: um que olha a inflação e outro o emprego.
ISTOÉ – O nosso só olha a inflação.
Dilma – No meu governo acho que, mais para o final, teremos condições de olhar as duas coisas: inflação e emprego.
ISTOÉ – Teremos um BC diferente?
Dilma – Teremos uma política e uma realidade diferentes. Porque, para o BC fazer isto, é preciso uma redução da dívida líquida em relação ao PIB. O Brasil converge para condições monetárias de estabilidade que permitirão a combinação de outras variáveis. Criamos robustez econômica suficiente para fazer isso.
ISTOÉ – A sra. vai enfrentar um candidato que também se apresenta como um pós-Lula. O que a diferencia dele?
Dilma – Só se acredita em propostas para o futuro de quem cumpriu suas propostas no presente. O que nos distingue é que nós fizemos, nós sabemos o que fazer e como fazer. Mais do que isso, os projetos dos quais eu participei – 24 horas por dia nos últimos cinco anos – são prova cabal de que somos diferentes.
ISTOÉ – A sra. não acha importante o fato de o PT ter assumido o governo com um quadro de estabilidade da moeda?
Dilma – Eu não queria fazer isso, mas, se vocês insistem, vamos lá: recordar é viver. Nós assumimos o governo com fragilidades em todas as áreas. Taxas de inflação acima de dois dígitos, déficit fiscal significativo e, sobretudo, uma fragilidade externa monstruosa. Tínhamos um empréstimo com o FMI de US$ 14 bilhões. A margem de manobra nessa situação é zero. Você se coloca de joelhos junto aos credores internacionais. Quem fala com você é o sub do sub do sub. Isso não foi momentâneo. Foi uma década de estagnação, de desemprego e desigualdade. Nós tivemos, claro, coisas boas. Uma delas é a Lei de Responsabilidade Fiscal.
ISTOÉ – Mas já cogitam mudá-la. A sra. é favorável a isto?
Dilma – Depende. Acho que para mexer em coisas que têm dado certo é recomendável caldo de galinha e muita calma. Mas, voltando ao recordar é viver, o Plano Real também teve mérito. Já em outros pontos fomos salvos pelo gongo. O País deve dar graças a Deus por não terem partido a Petrobras em pedaços, não terem privatizado o setor elétrico, Furnas, Eletronorte, Eletrosul. A privatização da telefonia foi correta, mas não acho hoje muito relevante. Hoje a banda larga é mais importante que a telefonia.
ISTOÉ – A sra. acha que Serra seria a continuidade de FHC?
Dilma – Não tenho nenhum comentário a fazer sobre a pessoa José Serra. Tenho respeito por ele. Mas nós representamos projetos políticos distintos. Nós temos uma forma diferente de olhar o Estado.
ISTOÉ – Ele também se apresenta como um economista da linha desenvolvimentista.
Dilma – Acho muito significativa essa tentativa de borrar diferenças. Duvido que estariam borrando diferenças se o governo do presidente Lula tivesse menos que 76% de aprovação. Duvido. Há, neste processo, a tentativa de esconder o fato de que somos dois projetos. Tenho orgulho de ter sido ministra do presidente Lula. Devemos comparar as experiências de cada um. Eles diziam que não sabíamos governar, que só tivemos sorte. A gente gosta muito de ter sorte. Graças a Deus não somos um governo pé-frio. Mas quando chegou essa crise, muito maior que a de 1929, mostramos enorme competência de gestão, capacidade de reação e ousadia.
ISTOÉ – O governo FHC foi incompetente?
Dilma – O governo FHC representa um processo em que não acredito. Não acredito num projeto de privatização de rodovias que aumenta o custo Brasil por causa dos pedágios, que embute taxas de retorno de 26% ao ano. Em estradas federais, a qualidade melhorou muito com pedágios bem menores por uma razão muito simples: nós não cobramos concessão onerosa. Logística é igual a competitividade na veia.
ISTOÉ – O que a sr. faria diferente do atual governo?
Dilma – Nós tivemos que trocar o pneu do carro com ele andando. Algumas coisas concluímos, em outras não conseguimos avançar. Acho imprescindível, para o patamar de crescimento atingido, fazer a reforma tributária. Não é proposta, é uma exigência. Se quisermos aumentar nossa produtividade e, consequentemente, nossa competitividade, precisamos acabar com coisas absurdas como a tributação em cascata.
ISTOÉ – O governo atual também diz que tentou fazer isto.
Dilma – Não deu agora porque reforma tributária significa conflito federativo. Aprendemos que é inviável fazer reforma tributária sem compensações porque ela tem tempos diferentes. Para neutralizar o efeito negativo da perda de arrecadação, vamos criar um fundo de compensação. Este é o único mecanismo negociável.
ISTOÉ – Os acordos políticos resultarão ainda em loteamento de cargos?
Dilma – Não. O apoio político é totalmente legítimo. Em todos os países há uma composição política que governa. O que você tem que exigir é padrões técnicos. Lutei muito para implantar isso no governo.
ISTOÉ – Está satisfeita com o que foi feito?
Dilma – Acho que podemos melhorar.
ISTOÉ – A sra. será avó, em breve. E provavelmente seu neto nascerá num hospital privado e se educará numa escola particular. Em que momento a sra. acha que o Brasil estará pronto para mudar isso?
Dilma – Quero muito que isso aconteça porque me esforcei muito para estudar numa excepcional escola pública, que era o Colégio Estadual de Minas Gerais. A gente fazia um vestibularzinho para passar ali. Era difícil. Este é o grande desafio do Brasil. Para a educação ser de qualidade, não é só prédio, laboratório, banda larga nas escolas. É, sobretudo, professor bem remunerado e com formação adequada.
ISTOÉ – Seu neto vai ter uma superavó, moderna, talvez presidente da República. Essa avó moderna também namora?
Dilma – Olha, eu não namoro atualmente, apesar de recomendar para todo mundo. Acho que faz bem para a pele, para a alma, faz todo o bem do mundo.
ISTOÉ – Uma vez eleita, a sra. assumiria um relacionamento? A sra. casaria no meio do mandato?
Dilma – A vida não é assim, tem que se confluírem os astros...Eu não sou uma pessoa carente propriamente dita, tive uma vida afetiva muito boa, muito rica. Mas nos relacionamentos há uma variável que é estratégica, que é com quem eu vou casar. Essa variável estratégica eu tenho que saber, porque assim, no genérico, isso não existe. Agora, vamos supor que a pessoa seja maravilhosa e eu esteja apaixonadíssima...
ISTOÉ – A sra. está fechada para isso?
Dilma – Não, ninguém pode estar na vida. Mas para mim é uma coisa muito distante. E depende dessa variável: que noivo é esse?
ISTOÉ – Qual a sua posição em relação ao aborto? A sra. passou pela experiência de fazer um aborto?
Dilma – Eu duvido que alguma mulher defenda e ache o aborto uma maravilha. O aborto é uma agressão ao corpo. Além de ser uma agressão, dói. Imagino que a pessoa saia de lá baqueada. Eu não tive que fazer aborto. Depois que minha filha nasceu, tive uma gravidez tubária, eu não podia mais ter filho. E antes disso só engravidei uma vez, quando perdi o filho por razões normais. Tive uma hemorragia, logo no início da gravidez, sem maiores efeitos físicos.
ISTOÉ – Isso foi antes de sua filha nascer?
Dilma – Foi antes. Tanto é que eu fiquei com muito medo de perder minha filha, quando fiquei grávida. Mas todas as minhas amigas que vi passarem por experiências de aborto entraram chorando e saíram chorando. Eu acho que, do ponto de vista de um governo, o aborto não é uma questão de foro íntimo, mas de saúde pública. Você não pode hoje segregar mulheres. Deixar para a população de baixa renda os métodos terríveis, como aquelas agulhas de tricô compridas, o uso de chás absurdos, de métodos absolutamente medievais, enquanto as mulheres de renda mais alta recorrem a clínicas privadas para fazer aborto. Há muita falsidade nisto.
ISTOÉ – A sra. defende uma legislação que descriminalize o aborto?
Dilma – Que obrigue a ter tratamento para as pessoas, para não haver risco de vida. Como nos países desenvolvidos do mundo inteiro. Atendimento público para quem estiver em condições de fazer o aborto ou querendo fazer o aborto.
ISTOÉ – A Igreja Católica se opõe a isto.
Dilma – Entendo perfeitamente. Numa democracia, a Igreja tem absoluto direito de externar sua posição.
ISTOÉ – A sra. é católica?
Dilma – Sou. Quer dizer, sou antes de tudo cristã. Num segundo momento sou católica. Tive minha formação no Colégio Sion.
ISTOÉ – A sra. passou por um tratamento para curar um câncer e precisa submeter-se a revisões periódicas. O que deu sua revisão dos seis meses?
Dilma – Agora faço de seis em seis meses. Fiz há pouco, em abril, e deu tudo perfeito.Existe na sociedade e em cada um de nós uma visão ainda muito pesada sobre a questão do câncer. E isso provoca nas pessoas muita dificuldade em tratar a doença Eu tive a sorte de descobrir cedo. Estava fazendo um exame no estômago e resolveram ver como estavam minhas coronárias. Eu fui para fazer um exame de coronária e descobri um linfoma.
ISTOÉ – Como a sra. reagiu?
Dilma – A notícia é impactante. Na hora eu não acreditei, estava me sentindo tão bem. Há uma contradição entre o que você sente e o que te falam. Para combater o câncer você precisa encontrar forças em você mesma. Tem que se voltar para você, não pode, de jeito nenhum, se entregar. Depois, você combate porque conta com apoio. Eu tive uma sorte danada, recebi apoio popular. Chegavam perto de mim e falavam que estavam rezando. A gente se comove muito. E também tive apoio dos amigos, do presidente, de meus colegas no governo.
ISTOÉ – A sra. rezava?
Dilma – Ah, você reza, sim. E reza principalmente porque não é o câncer que é ruim, é o tratamento.
ISTOÉ – A sra. tem medo que o câncer volte?
Dilma – Hoje não.
ISTOÉ – Como a sra. encara a vida depois disso?
Dilma – A gente dá mais valor a coisas que costumam passar despercebidas. Você olha para o sol e fica pensando se você vai poder continuar vendo esta coisa bonita. Você fica mais alerta. Só combate isso se tiver força interna. Vou contar uma coisa. Eu não conhecia a Ana Maria Braga e um dia ela me ligou e conversou comigo explicando como tinha vencido o câncer dela, que o dela era mais difícil, diferente, e que superou. Vou ter sempre uma dívida com ela, porque, de forma absolutamente solidária e humana, ela me ligou naquele momento.
ISTOÉ – Mudando de assunto, o Lula é um bom chefe?
Dilma – Sim. O Lula é uma pessoa extremamente afetiva. Ele não te olha como se você fosse um instrumento dele. Te olha como uma pessoa, te leva em consideração, te valoriza, brinca. Ele tem uma imensa qualidade: ele ri, ri de si mesmo.
ISTOÉ – A sra. também será assim como chefe? Porque dizem que a senhora é o contrário disto, durona...
Dilma – Você não pense que o Lula não é duro não, hein. É fácil até para você cobrar, em função disto. Basta dizer: amanhã tem reunião com o Lula. Simples...
ISTOÉ – As reuniões são muito longas?
Dilma – A busca de um consenso é um jeito que criamos no governo. Algumas vezes o presidente chamava isto de toyotismo. Não é a linha de montagem da Ford, onde cada um vai olhando só uma parte. É aquele método de ilha da Toyota, porque você faz tudo em conjunto. Outra coisa é que a gente sempre discute com os setores interessados. Sabe como saiu o Minha Casa, Minha Vida? Porque nós sentamos com eles (empresários da construção civil) e conversamos. Eles criticando o que se fazia, os 13 grandes mais a Câmara Brasileira da Indústria da Construção Civil. Se você não fizer isso, se não for absolutamente exaustivo no debate do detalhe, o projeto não fica em pé. Na curva ele cai.
ISTOÉ – Hoje todo mundo comenta, inclusive dentro do partido, que, a partir da entrada do presidente na campanha, suas chances de vitória aumentam. A sra. traz essa expectativa também?
Dilma – Do nosso ponto de vista já é dado que o presidente participa. Nós nunca achamos que ele vai chegar um dia e participar depois. O presidente é a maior liderança do PT, a maior liderança da coligação do governo, uma das maiores lideranças do País, uma das maiores lideranças do mundo...
ISTOÉ – O fato de ter duas mulheres pela primeira vez concorrendo dará um tom diferente à campanha?
Dilma – Acho que as mulheres estão preparadas para pleitear as suas respectivas candidaturas e o Brasil está preparado para as mulheres agora. Penso que é muito importante que haja um olhar feminino sobre o Brasil. As mulheres são sensíveis e isso é uma grande qualidade. As mulheres são sensatas e objetivas até porque lidam na vida privada com condições que exigem isto. Ou você não conseguiria botar filho na escola, providenciar comida, mandar tomar banho, ir trabalhar... As mulheres também são corajosas: a gente segura dor, a gente encara.
ISTOÉ – A sra. é a favor ou contra a reeleição?
Dilma – Sou a favor. Acho muito importante.
ISTOÉ – A sra. cederia a possibilidade de uma reeleição para o presidente Lula, no caso de ele querer se candidatar em 2014?
Dilma – Ele já me disse para não responder a essa pergunta.
ISTOÉ – Até quando a sra. vai obedecer cegamente o que ele manda?
Dilma – Lula não exige obediências cegas.
ISTOÉ – A sra. acompanha futebol como o presidente Lula?
Dilma – Quero o Neymar e o Ganso na Seleção. Tenho muita simpatia pelo Ganso, aquele jeito meio desconcertado de falar. Mas gosto dos dois. Eles trouxeram alegria de volta para o futebol. Jogam de forma desconcertante e atrevida.
Entrevista de Dilma Rousseff
Revista IstoÉ, 8 de maio de 2010
Em entrevista exclusiva, a candidata à Presidência Dilma Rousseff fala sobre o que considera a diferença básica entre a sua proposta de governo e a da oposição
Candidata do PT à Presidência da República fala sobre o Banco Central e os cenários atual e futuro da economia
Ex-ministra dá a sua opinião aos editores e colunistas de IstoÉ sobre aborto e relata experiência pessoal
QUATRO HORAS DE DEBATE
A equipe que entrevistou Dilma, da esquerda para a direita: Carlos
José Marques, diretor editorial; Luiz Fernando Sá, diretor editorial-adjunto; Leonardo Attuch, redator-chefe da revista DINHEIRO; Delmo Moreira, editor executivo de ISTOÉ; Gisele Vitória, diretora de redação da revista GENTE; Ricardo Boechat, colunista de ISTOÉ, Yan Boechat, editor de política; Ricardo Amorim, colunista de ISTOÉ; Octávio Costa, diretor da sucursal de Brasília; Mário Simas Filho, diretor de redação de ISTOÉ, e Caco Alzugaray, presidente executivo da Editora Três
Com um calhamaço de fichas repletas de dados sobre realizações do governo Lula sempre ao alcance das mãos, a candidata petista à Presidência da República, Dilma Rousseff, falou por quase quatro horas sobre seus planos para o Brasil, numa entrevista exclusiva a editores e articulistas de ISTOÉ. Em poucos momentos ela consultou a papelada. Mas seguidamente procurou com os olhos um contato com sua equipe de assessores que lhe passava, sempre, sinais de aprovação. Dilma não refugou assuntos. Falou sobre questões pessoais e afetivas com a mesma naturalidade com que abordou temas da política e da economia. Emocionou-se quando relembrou seus dias de luta contra o câncer.
Vestida com um terninho clássico, de tecido leve e claro, penteada e maquiada com discrição, Dilma Rousseff parece à vontade na condição de candidata. Já suavizou a postura de gerente técnica que ostentava como ministra do governo Lula. Mesmo que jamais tenha buscado votos em sua vida pública, faz promessas de candidata e demonstra apetite para contrapor-se ao candidato da oposição, José Serra. Diz que a missão de seu governo é erradicar a pobreza, mas não estabelece prazos. Anuncia ainda mudanças na condução do Banco Central e a intenção de criar um fundo federal para compensar perdas regionais na reforma tributária que se compromete a implementar. A seguir, os principais trechos de sua entrevista:
ISTOÉ – Por que a sra. acha que o presidente Lula a escolheu para sucedê-lo e quando exatamente se deu isso?
Dilma Rousseff – O presidente Lula me escolheu quatro vezes. A primeira foi na transição do governo de Fernando Henrique para o governo Lula, em 2002. O presidente me chamou para fazer a coordenação da área de infraestrutura porque me conhecia das reuniões do Instituto de Cidadania. Depois ele me escolheu para ser ministra de Minas e Energia. E, em 2005, para ser ministra da Casa Civil. Por último, me escolheu para ser pré-candidata para levar à frente o projeto de governo. Acho que me escolheu porque acompanhei com ele a construção de todos os grandes projetos. O presidente sabe que nós conseguimos, juntos, fazer estes projetos.
ISTOÉ – Ser presidente era uma ambição pessoal da sra.?
Dilma – É um momento alto da minha vida, talvez o maior. Tem gente que passou uma vida inteira querendo ser presidente da República. Eu era mais modesta. Fui para a atividade pública porque queria servir. Pode parecer uma coisa falsa, mas acho que se pode servir à população brasileira no setor público. Sempre acreditei que o Brasil podia mudar, mas isto era uma questão longínqua. Quando o Lula me chamou para a chefia da Casa Civil, ele pretendia que o governo entrasse na trilha do crescimento e da distribuição de renda para que o Brasil desse um salto, e vi nisso uma grande oportunidade.
ISTOÉ – A sra. se considera preparada para o cargo?
Dilma – Tenho clareza, hoje, de que conheço bem o Brasil e os escaninhos do governo federal. Então, sem falsa modéstia, me acho extremamente capacitada para o exercício desse cargo. E acredito que o fato de não ser uma política tradicional pode incutir um pouco de novidade na gestão da coisa pública. Uma novidade bem-vinda. Na minha opinião, critérios técnicos se combinam com políticos. Escolher onde aplicar é sempre um ato político. Por exemplo, eu acho que a grande missão nossa é erradicar a pobreza e que é possível erradicá-la nos próximos anos. Isto é um ato político. Outra pessoa pode escolher outra coisa.
ISTOÉ – No horizonte de um governo, é possível erradicar a pobreza?
Dilma – Tem um estudo do Ipea mostrando que até 2016 é possível erradicar a pobreza extrema, a miséria. Mas o empresário Jorge Gerdau costuma dizer que “meta que se cumpre é meta errada”. Metas não são feitas para cumprir, mas para estabelecer um objetivo, criar uma força. Assim, acredito que o prazo de 2016 é viável, mantido o padrão do governo Lula. Nossa meta pode ser ainda mais ousada. Só não vou dizer qual porque, se passar dois dias sem cumpri-la, vão dizer: “Não cumpriu a meta”, como fazem com o PAC. Atrasar uma obra de engenharia em seis meses é a catástrofe no Brasil.
ISTOÉ – O presidente Lula também trabalhou com metas quando foi candidato. Ele falava em dez milhões de empregos...
Dilma – Acho que a gente fecha em 14 milhões. Falei com a área econômica de dois bancos e ambos consideram que o crescimento do PIB será de 6,4%, podendo chegar a 7%, o que dá condições para se chegar a estes 14 milhões de empregos. Os dados da produção industrial que fechamos em março apontam um crescimento muito robusto e sustentável porque são os bens de capital que estão puxando esse desempenho.
ISTOÉ – O Banco Central está preocupado com este crescimento...
Dilma – Não, o Banco Central está preocupado com outra coisa. Ele não pode estar preocupado com a expansão dos bens de capital porque isso é virtuoso.
ISTOÉ – Parece que há uma visão dissonante entre o Banco Central e a Fazenda sobre o desempenho da economia. Como a sra. vê essa questão?
Dilma – Os dois trabalham em registros diferentes. O BC faz uma análise necessariamente de curto prazo, porque ele trabalha com questões inflacionárias conjunturais, mais imediatas. Ele olha a pressão na hora que ela acontece. Já a Fazenda tem uma visão de mais médio e longo prazo. É outro registro. A Fazenda tem consciência de que o Brasil está em uma trajetória de estabilidade e de sustentabilidade. Agora, isso não é incompatível com o fato de você ter pressões inflacionárias imediatas. Acho que foi importante o aumento dos juros na última reunião do Copom.
ISTOÉ – Isso não dá munição para os seus adversários?
Dilma – Nós já tivemos duas experiências muito ruins de, durante a eleição, fingir que é uma coisa e, depois, virar outra. Uma na virada do primeiro para o segundo mandato do Fernando Henrique Cardoso e outra no Plano Cruzado. Hoje somos perfeitamente capazes de elevar a taxa de juros e assumirmos as consequências, sem que isso signifique uma perda. Temos integral compromisso com a estabilidade.
ISTOÉ – A sra. concorda com a política de juros do BC?
Dilma – Concordo. Acho que, da ótica do BC, ele fez o que precisava fazer. Nos Estados Unidos, onde há um histórico maior de estabilidade, o Federal Reserve tem dois olhos: um que olha a inflação e outro o emprego.
ISTOÉ – O nosso só olha a inflação.
Dilma – No meu governo acho que, mais para o final, teremos condições de olhar as duas coisas: inflação e emprego.
ISTOÉ – Teremos um BC diferente?
Dilma – Teremos uma política e uma realidade diferentes. Porque, para o BC fazer isto, é preciso uma redução da dívida líquida em relação ao PIB. O Brasil converge para condições monetárias de estabilidade que permitirão a combinação de outras variáveis. Criamos robustez econômica suficiente para fazer isso.
ISTOÉ – A sra. vai enfrentar um candidato que também se apresenta como um pós-Lula. O que a diferencia dele?
Dilma – Só se acredita em propostas para o futuro de quem cumpriu suas propostas no presente. O que nos distingue é que nós fizemos, nós sabemos o que fazer e como fazer. Mais do que isso, os projetos dos quais eu participei – 24 horas por dia nos últimos cinco anos – são prova cabal de que somos diferentes.
ISTOÉ – A sra. não acha importante o fato de o PT ter assumido o governo com um quadro de estabilidade da moeda?
Dilma – Eu não queria fazer isso, mas, se vocês insistem, vamos lá: recordar é viver. Nós assumimos o governo com fragilidades em todas as áreas. Taxas de inflação acima de dois dígitos, déficit fiscal significativo e, sobretudo, uma fragilidade externa monstruosa. Tínhamos um empréstimo com o FMI de US$ 14 bilhões. A margem de manobra nessa situação é zero. Você se coloca de joelhos junto aos credores internacionais. Quem fala com você é o sub do sub do sub. Isso não foi momentâneo. Foi uma década de estagnação, de desemprego e desigualdade. Nós tivemos, claro, coisas boas. Uma delas é a Lei de Responsabilidade Fiscal.
ISTOÉ – Mas já cogitam mudá-la. A sra. é favorável a isto?
Dilma – Depende. Acho que para mexer em coisas que têm dado certo é recomendável caldo de galinha e muita calma. Mas, voltando ao recordar é viver, o Plano Real também teve mérito. Já em outros pontos fomos salvos pelo gongo. O País deve dar graças a Deus por não terem partido a Petrobras em pedaços, não terem privatizado o setor elétrico, Furnas, Eletronorte, Eletrosul. A privatização da telefonia foi correta, mas não acho hoje muito relevante. Hoje a banda larga é mais importante que a telefonia.
ISTOÉ – A sra. acha que Serra seria a continuidade de FHC?
Dilma – Não tenho nenhum comentário a fazer sobre a pessoa José Serra. Tenho respeito por ele. Mas nós representamos projetos políticos distintos. Nós temos uma forma diferente de olhar o Estado.
ISTOÉ – Ele também se apresenta como um economista da linha desenvolvimentista.
Dilma – Acho muito significativa essa tentativa de borrar diferenças. Duvido que estariam borrando diferenças se o governo do presidente Lula tivesse menos que 76% de aprovação. Duvido. Há, neste processo, a tentativa de esconder o fato de que somos dois projetos. Tenho orgulho de ter sido ministra do presidente Lula. Devemos comparar as experiências de cada um. Eles diziam que não sabíamos governar, que só tivemos sorte. A gente gosta muito de ter sorte. Graças a Deus não somos um governo pé-frio. Mas quando chegou essa crise, muito maior que a de 1929, mostramos enorme competência de gestão, capacidade de reação e ousadia.
ISTOÉ – O governo FHC foi incompetente?
Dilma – O governo FHC representa um processo em que não acredito. Não acredito num projeto de privatização de rodovias que aumenta o custo Brasil por causa dos pedágios, que embute taxas de retorno de 26% ao ano. Em estradas federais, a qualidade melhorou muito com pedágios bem menores por uma razão muito simples: nós não cobramos concessão onerosa. Logística é igual a competitividade na veia.
ISTOÉ – O que a sr. faria diferente do atual governo?
Dilma – Nós tivemos que trocar o pneu do carro com ele andando. Algumas coisas concluímos, em outras não conseguimos avançar. Acho imprescindível, para o patamar de crescimento atingido, fazer a reforma tributária. Não é proposta, é uma exigência. Se quisermos aumentar nossa produtividade e, consequentemente, nossa competitividade, precisamos acabar com coisas absurdas como a tributação em cascata.
ISTOÉ – O governo atual também diz que tentou fazer isto.
Dilma – Não deu agora porque reforma tributária significa conflito federativo. Aprendemos que é inviável fazer reforma tributária sem compensações porque ela tem tempos diferentes. Para neutralizar o efeito negativo da perda de arrecadação, vamos criar um fundo de compensação. Este é o único mecanismo negociável.
ISTOÉ – Os acordos políticos resultarão ainda em loteamento de cargos?
Dilma – Não. O apoio político é totalmente legítimo. Em todos os países há uma composição política que governa. O que você tem que exigir é padrões técnicos. Lutei muito para implantar isso no governo.
ISTOÉ – Está satisfeita com o que foi feito?
Dilma – Acho que podemos melhorar.
ISTOÉ – A sra. será avó, em breve. E provavelmente seu neto nascerá num hospital privado e se educará numa escola particular. Em que momento a sra. acha que o Brasil estará pronto para mudar isso?
Dilma – Quero muito que isso aconteça porque me esforcei muito para estudar numa excepcional escola pública, que era o Colégio Estadual de Minas Gerais. A gente fazia um vestibularzinho para passar ali. Era difícil. Este é o grande desafio do Brasil. Para a educação ser de qualidade, não é só prédio, laboratório, banda larga nas escolas. É, sobretudo, professor bem remunerado e com formação adequada.
ISTOÉ – Seu neto vai ter uma superavó, moderna, talvez presidente da República. Essa avó moderna também namora?
Dilma – Olha, eu não namoro atualmente, apesar de recomendar para todo mundo. Acho que faz bem para a pele, para a alma, faz todo o bem do mundo.
ISTOÉ – Uma vez eleita, a sra. assumiria um relacionamento? A sra. casaria no meio do mandato?
Dilma – A vida não é assim, tem que se confluírem os astros...Eu não sou uma pessoa carente propriamente dita, tive uma vida afetiva muito boa, muito rica. Mas nos relacionamentos há uma variável que é estratégica, que é com quem eu vou casar. Essa variável estratégica eu tenho que saber, porque assim, no genérico, isso não existe. Agora, vamos supor que a pessoa seja maravilhosa e eu esteja apaixonadíssima...
ISTOÉ – A sra. está fechada para isso?
Dilma – Não, ninguém pode estar na vida. Mas para mim é uma coisa muito distante. E depende dessa variável: que noivo é esse?
ISTOÉ – Qual a sua posição em relação ao aborto? A sra. passou pela experiência de fazer um aborto?
Dilma – Eu duvido que alguma mulher defenda e ache o aborto uma maravilha. O aborto é uma agressão ao corpo. Além de ser uma agressão, dói. Imagino que a pessoa saia de lá baqueada. Eu não tive que fazer aborto. Depois que minha filha nasceu, tive uma gravidez tubária, eu não podia mais ter filho. E antes disso só engravidei uma vez, quando perdi o filho por razões normais. Tive uma hemorragia, logo no início da gravidez, sem maiores efeitos físicos.
ISTOÉ – Isso foi antes de sua filha nascer?
Dilma – Foi antes. Tanto é que eu fiquei com muito medo de perder minha filha, quando fiquei grávida. Mas todas as minhas amigas que vi passarem por experiências de aborto entraram chorando e saíram chorando. Eu acho que, do ponto de vista de um governo, o aborto não é uma questão de foro íntimo, mas de saúde pública. Você não pode hoje segregar mulheres. Deixar para a população de baixa renda os métodos terríveis, como aquelas agulhas de tricô compridas, o uso de chás absurdos, de métodos absolutamente medievais, enquanto as mulheres de renda mais alta recorrem a clínicas privadas para fazer aborto. Há muita falsidade nisto.
ISTOÉ – A sra. defende uma legislação que descriminalize o aborto?
Dilma – Que obrigue a ter tratamento para as pessoas, para não haver risco de vida. Como nos países desenvolvidos do mundo inteiro. Atendimento público para quem estiver em condições de fazer o aborto ou querendo fazer o aborto.
ISTOÉ – A Igreja Católica se opõe a isto.
Dilma – Entendo perfeitamente. Numa democracia, a Igreja tem absoluto direito de externar sua posição.
ISTOÉ – A sra. é católica?
Dilma – Sou. Quer dizer, sou antes de tudo cristã. Num segundo momento sou católica. Tive minha formação no Colégio Sion.
ISTOÉ – A sra. passou por um tratamento para curar um câncer e precisa submeter-se a revisões periódicas. O que deu sua revisão dos seis meses?
Dilma – Agora faço de seis em seis meses. Fiz há pouco, em abril, e deu tudo perfeito.Existe na sociedade e em cada um de nós uma visão ainda muito pesada sobre a questão do câncer. E isso provoca nas pessoas muita dificuldade em tratar a doença Eu tive a sorte de descobrir cedo. Estava fazendo um exame no estômago e resolveram ver como estavam minhas coronárias. Eu fui para fazer um exame de coronária e descobri um linfoma.
ISTOÉ – Como a sra. reagiu?
Dilma – A notícia é impactante. Na hora eu não acreditei, estava me sentindo tão bem. Há uma contradição entre o que você sente e o que te falam. Para combater o câncer você precisa encontrar forças em você mesma. Tem que se voltar para você, não pode, de jeito nenhum, se entregar. Depois, você combate porque conta com apoio. Eu tive uma sorte danada, recebi apoio popular. Chegavam perto de mim e falavam que estavam rezando. A gente se comove muito. E também tive apoio dos amigos, do presidente, de meus colegas no governo.
ISTOÉ – A sra. rezava?
Dilma – Ah, você reza, sim. E reza principalmente porque não é o câncer que é ruim, é o tratamento.
ISTOÉ – A sra. tem medo que o câncer volte?
Dilma – Hoje não.
ISTOÉ – Como a sra. encara a vida depois disso?
Dilma – A gente dá mais valor a coisas que costumam passar despercebidas. Você olha para o sol e fica pensando se você vai poder continuar vendo esta coisa bonita. Você fica mais alerta. Só combate isso se tiver força interna. Vou contar uma coisa. Eu não conhecia a Ana Maria Braga e um dia ela me ligou e conversou comigo explicando como tinha vencido o câncer dela, que o dela era mais difícil, diferente, e que superou. Vou ter sempre uma dívida com ela, porque, de forma absolutamente solidária e humana, ela me ligou naquele momento.
ISTOÉ – Mudando de assunto, o Lula é um bom chefe?
Dilma – Sim. O Lula é uma pessoa extremamente afetiva. Ele não te olha como se você fosse um instrumento dele. Te olha como uma pessoa, te leva em consideração, te valoriza, brinca. Ele tem uma imensa qualidade: ele ri, ri de si mesmo.
ISTOÉ – A sra. também será assim como chefe? Porque dizem que a senhora é o contrário disto, durona...
Dilma – Você não pense que o Lula não é duro não, hein. É fácil até para você cobrar, em função disto. Basta dizer: amanhã tem reunião com o Lula. Simples...
ISTOÉ – As reuniões são muito longas?
Dilma – A busca de um consenso é um jeito que criamos no governo. Algumas vezes o presidente chamava isto de toyotismo. Não é a linha de montagem da Ford, onde cada um vai olhando só uma parte. É aquele método de ilha da Toyota, porque você faz tudo em conjunto. Outra coisa é que a gente sempre discute com os setores interessados. Sabe como saiu o Minha Casa, Minha Vida? Porque nós sentamos com eles (empresários da construção civil) e conversamos. Eles criticando o que se fazia, os 13 grandes mais a Câmara Brasileira da Indústria da Construção Civil. Se você não fizer isso, se não for absolutamente exaustivo no debate do detalhe, o projeto não fica em pé. Na curva ele cai.
ISTOÉ – Hoje todo mundo comenta, inclusive dentro do partido, que, a partir da entrada do presidente na campanha, suas chances de vitória aumentam. A sra. traz essa expectativa também?
Dilma – Do nosso ponto de vista já é dado que o presidente participa. Nós nunca achamos que ele vai chegar um dia e participar depois. O presidente é a maior liderança do PT, a maior liderança da coligação do governo, uma das maiores lideranças do País, uma das maiores lideranças do mundo...
ISTOÉ – O fato de ter duas mulheres pela primeira vez concorrendo dará um tom diferente à campanha?
Dilma – Acho que as mulheres estão preparadas para pleitear as suas respectivas candidaturas e o Brasil está preparado para as mulheres agora. Penso que é muito importante que haja um olhar feminino sobre o Brasil. As mulheres são sensíveis e isso é uma grande qualidade. As mulheres são sensatas e objetivas até porque lidam na vida privada com condições que exigem isto. Ou você não conseguiria botar filho na escola, providenciar comida, mandar tomar banho, ir trabalhar... As mulheres também são corajosas: a gente segura dor, a gente encara.
ISTOÉ – A sra. é a favor ou contra a reeleição?
Dilma – Sou a favor. Acho muito importante.
ISTOÉ – A sra. cederia a possibilidade de uma reeleição para o presidente Lula, no caso de ele querer se candidatar em 2014?
Dilma – Ele já me disse para não responder a essa pergunta.
ISTOÉ – Até quando a sra. vai obedecer cegamente o que ele manda?
Dilma – Lula não exige obediências cegas.
ISTOÉ – A sra. acompanha futebol como o presidente Lula?
Dilma – Quero o Neymar e o Ganso na Seleção. Tenho muita simpatia pelo Ganso, aquele jeito meio desconcertado de falar. Mas gosto dos dois. Eles trouxeram alegria de volta para o futebol. Jogam de forma desconcertante e atrevida.
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Dilma Rousseff
domingo, 9 de maio de 2010
Uma declaracao de principios, preventiva - Paulo R Almeida
Declaração preventiva sobre as eleições
Paulo Roberto de Almeida
Como faço sempre em períodos pré-eleitorais, começo a reunir materiais sobre os candidatos, os programas (estes bem mais tardios), sobre os próprios processos eleitorais, enfim, o conjunto de elementos informativos e analíticos que me permita acompanhar o desenrolar das campanhas e as próprias eleições com pleno conhecimento de causa sobre quem são, o que representam cada um dos candidatos, quais suas idéias e intenções, quais as conseqüências para o Brasil da eleição de um ou outro, em especial quais são os impactos para a política externa do Brasil, de forma a me dar domínio completo sobre as eleições, tudo isso bem antes da votação propriamente dita.
Geralmente eu abria uma pastinha e começava a coletar os materiais pertinentes, classificando-os por tipo e data, para permitir recuperação e alguma redação de artigo ou ensaio analítico quando a necessidade se manifestar. Agora (e desde 2006) abri um blog especialmente dedicado ao tema: Eleições Presidenciais 2010 (http://eleicoespresidenciais2010.blogspot.com/). Ele está disponível para consultas, mas não para comentários, já que não pretendo entabular conversações sobre o assunto com quer que seja, uma vez que eleições sempre são controversas e se prestam a manifestações de paixões exacerbadas (como futebol e outras coisas).
Não tenho porque expressar minhas preferências eleitorais, já que isto não vem ao caso, mas também não tenho porque esconder minhas posições de princípio, que são públicas e notórias, cidadão brasileiro que sou moderadamente participante nos assuntos da nação. É com esse espírito que venho agora, antes que a campanha comece, expressar essas posições, como forma de deixar claro o que penso sobre o processo eleitoral em si, e o que penso ser melhor para o Brasil.
Vamos lá.
Não temos controle, os cidadãos comuns, sobre a escolha dos candidatos, pelo menos não diretamente. Eles são escolhidos pelas máquinas partidárias, com base numa aferição de suas chances de ganhar a competição eleitoral. Aí talvez entremos nós, os eleitores comuns, se por acaso somos escolhidos para responder a algum questionário de instituto de pesquisa. Eu nunca fui escolhido por um e não tenho idéia de como são formuladas as questões abertas e fechadas. Tampouco pertenço a qualquer partido e não tenho a intenção de me filiar a qualquer um, em qualquer tempo e lugar. Não se trata de uma posição absoluta, mas é um princípio compatível com meus outros valores, entre eles o de absoluta independência de julgamento, o livre arbítrio na escolha de minhas próprias posições: nunca aceitaria ter de acatar posições desenhadas por outros de cujo processo de elaboração eu mesmo não tenha participado. Nisso sou um anarquista radical: simplesmente não conseguiria deixar de pensar com minha própria cabeça para aceitar um menu pret-à-porter, ou seja, pré-configurado.
Por isso mesmo, eis aqui meu primeiro princípio eleitoral: eu nunca aceitaria um candidato que tenha sido imposto por outros, sem que ele mesmo tenha lutado por sua indicação, com empenho pessoal – intelectual e organizacional – na seleção, na disputa de posições, na exposição de suas qualidades, na manifestação aberta de seu pensamento. Candidato de bolso do colete, jamais seria algo aceitável do meu ponto de vista. Só quem pensa com sua própria cabeça, e encontra-se preparado para debater e defender suas próprias posições. Fica o aviso...
Com relação a posições, vou logo dizendo o que sou a favor e objetivamente contrário. Sou a favor da democracia mais aberta possível, com total liberdade dos meios de comunicação e a menor participação desejável de publicidade governamental. Sou contrário a governos gastando dinheiro público com propaganda em seu próprio favor. Sou contrário ao envolvimento do poder com as eleições, de qualquer forma e em qualquer grau. Governo é governo, e eleições são eleições: aceito o princípio de uma re-candidatura (a contragosto), mas creio que o candidato deve se separar do governante, ou vice-versa. Sempre existem abusos de poder. Acho que os juízes (sou contra juízes eleitorais, apenas juízes “normais” que julguem com base em leis claras) devem ser muito severos com as confusões eventuais, mas no plano da imprensa, sou pela total liberdade de opinião. Meu segundo princípio é, então, a maior liberdade para todos, sem controles estatais. Tenho horror daqueles que dizem que é preciso “democratizar os meios de comunicação” e que a sociedade precisa se armar para “controlar a grande mídia”. A sociedade já controla a grande mídia, deixando de assistir ou comprar aquilo de que não gosta.
Também sou a favor de quem não coloca o Estado, ou o próprio governo, acima da sociedade, como fazem tantos políticos, eventualmente equivocados de boa-vontade, ao considerarem que só o Estado pode fazer “bondades” para a população de baixa renda, no pressuposto de que o capitalismo – que nem o PCdoB pensa em abolir no Brasil – é um sistema inerentemente injusto e desigual. Sou a favor da iniciativa privada e da privatização de alguns monstros estatais que foram criados ou vem sendo alimentados a golpes de subsídios públicos – ou seja, o meu, o seu, o nosso dinheiro – de maneira tão intensa quanto irracional nos últimos tempos. Por exemplo: que sentido tem transferir bilhões de dólares a uma empresa como a Petrobras, que conseguiria facilmente se abastecer no mercado de créditos privados? Só pode ser por uma concepção equivocada do que sejam prioridades em gastos públicos. Pois bem: tenho horror de gente que se equivoca com o meu dinheiro. Este é, portanto, o meu terceiro princípio: o Estado não deve fazer aquilo que pode ser feito pela própria sociedade, pela iniciativa privada, que arrisca o dinheiro do empresário, não o meu.
Transparência e honestidade pessoal no trato da coisa pública me parecem, mas isso é o mínimo, essenciais para qualquer pessoa que pretenda cargos elevados na hierarquia política. É muito fácil perceber a sinceridade ou a hipocrisia nas falas de um político: basta olhar nos olhos. Quem não consegue olhar para os telespectadores, sem desviar os olhos para algum teleprompter, que possa lhe guiar as idéias (quando as tem) parece ter um grave problema de credibilidade e de articulação de frases simples, sinceras, diretas, falando diretamente ao eleitor. Pode ser um quarto princípio, mas prefiro colocar como requerimento básico...
Existem vários outros elementos que poderiam integrar esta lista, como posicionamentos sobre diferentes assuntos da vida econômica, política e social. Mas creio que não devo moldar os candidatos de acordo com minhas preferências pessoais. Prefiro esperar as primeiras declarações para depois então me manifestar a respeito.
Paulo Roberto de Almeida (Shanghai, 9 de maio de 2010)
Paulo Roberto de Almeida
Como faço sempre em períodos pré-eleitorais, começo a reunir materiais sobre os candidatos, os programas (estes bem mais tardios), sobre os próprios processos eleitorais, enfim, o conjunto de elementos informativos e analíticos que me permita acompanhar o desenrolar das campanhas e as próprias eleições com pleno conhecimento de causa sobre quem são, o que representam cada um dos candidatos, quais suas idéias e intenções, quais as conseqüências para o Brasil da eleição de um ou outro, em especial quais são os impactos para a política externa do Brasil, de forma a me dar domínio completo sobre as eleições, tudo isso bem antes da votação propriamente dita.
Geralmente eu abria uma pastinha e começava a coletar os materiais pertinentes, classificando-os por tipo e data, para permitir recuperação e alguma redação de artigo ou ensaio analítico quando a necessidade se manifestar. Agora (e desde 2006) abri um blog especialmente dedicado ao tema: Eleições Presidenciais 2010 (http://eleicoespresidenciais2010.blogspot.com/). Ele está disponível para consultas, mas não para comentários, já que não pretendo entabular conversações sobre o assunto com quer que seja, uma vez que eleições sempre são controversas e se prestam a manifestações de paixões exacerbadas (como futebol e outras coisas).
Não tenho porque expressar minhas preferências eleitorais, já que isto não vem ao caso, mas também não tenho porque esconder minhas posições de princípio, que são públicas e notórias, cidadão brasileiro que sou moderadamente participante nos assuntos da nação. É com esse espírito que venho agora, antes que a campanha comece, expressar essas posições, como forma de deixar claro o que penso sobre o processo eleitoral em si, e o que penso ser melhor para o Brasil.
Vamos lá.
Não temos controle, os cidadãos comuns, sobre a escolha dos candidatos, pelo menos não diretamente. Eles são escolhidos pelas máquinas partidárias, com base numa aferição de suas chances de ganhar a competição eleitoral. Aí talvez entremos nós, os eleitores comuns, se por acaso somos escolhidos para responder a algum questionário de instituto de pesquisa. Eu nunca fui escolhido por um e não tenho idéia de como são formuladas as questões abertas e fechadas. Tampouco pertenço a qualquer partido e não tenho a intenção de me filiar a qualquer um, em qualquer tempo e lugar. Não se trata de uma posição absoluta, mas é um princípio compatível com meus outros valores, entre eles o de absoluta independência de julgamento, o livre arbítrio na escolha de minhas próprias posições: nunca aceitaria ter de acatar posições desenhadas por outros de cujo processo de elaboração eu mesmo não tenha participado. Nisso sou um anarquista radical: simplesmente não conseguiria deixar de pensar com minha própria cabeça para aceitar um menu pret-à-porter, ou seja, pré-configurado.
Por isso mesmo, eis aqui meu primeiro princípio eleitoral: eu nunca aceitaria um candidato que tenha sido imposto por outros, sem que ele mesmo tenha lutado por sua indicação, com empenho pessoal – intelectual e organizacional – na seleção, na disputa de posições, na exposição de suas qualidades, na manifestação aberta de seu pensamento. Candidato de bolso do colete, jamais seria algo aceitável do meu ponto de vista. Só quem pensa com sua própria cabeça, e encontra-se preparado para debater e defender suas próprias posições. Fica o aviso...
Com relação a posições, vou logo dizendo o que sou a favor e objetivamente contrário. Sou a favor da democracia mais aberta possível, com total liberdade dos meios de comunicação e a menor participação desejável de publicidade governamental. Sou contrário a governos gastando dinheiro público com propaganda em seu próprio favor. Sou contrário ao envolvimento do poder com as eleições, de qualquer forma e em qualquer grau. Governo é governo, e eleições são eleições: aceito o princípio de uma re-candidatura (a contragosto), mas creio que o candidato deve se separar do governante, ou vice-versa. Sempre existem abusos de poder. Acho que os juízes (sou contra juízes eleitorais, apenas juízes “normais” que julguem com base em leis claras) devem ser muito severos com as confusões eventuais, mas no plano da imprensa, sou pela total liberdade de opinião. Meu segundo princípio é, então, a maior liberdade para todos, sem controles estatais. Tenho horror daqueles que dizem que é preciso “democratizar os meios de comunicação” e que a sociedade precisa se armar para “controlar a grande mídia”. A sociedade já controla a grande mídia, deixando de assistir ou comprar aquilo de que não gosta.
Também sou a favor de quem não coloca o Estado, ou o próprio governo, acima da sociedade, como fazem tantos políticos, eventualmente equivocados de boa-vontade, ao considerarem que só o Estado pode fazer “bondades” para a população de baixa renda, no pressuposto de que o capitalismo – que nem o PCdoB pensa em abolir no Brasil – é um sistema inerentemente injusto e desigual. Sou a favor da iniciativa privada e da privatização de alguns monstros estatais que foram criados ou vem sendo alimentados a golpes de subsídios públicos – ou seja, o meu, o seu, o nosso dinheiro – de maneira tão intensa quanto irracional nos últimos tempos. Por exemplo: que sentido tem transferir bilhões de dólares a uma empresa como a Petrobras, que conseguiria facilmente se abastecer no mercado de créditos privados? Só pode ser por uma concepção equivocada do que sejam prioridades em gastos públicos. Pois bem: tenho horror de gente que se equivoca com o meu dinheiro. Este é, portanto, o meu terceiro princípio: o Estado não deve fazer aquilo que pode ser feito pela própria sociedade, pela iniciativa privada, que arrisca o dinheiro do empresário, não o meu.
Transparência e honestidade pessoal no trato da coisa pública me parecem, mas isso é o mínimo, essenciais para qualquer pessoa que pretenda cargos elevados na hierarquia política. É muito fácil perceber a sinceridade ou a hipocrisia nas falas de um político: basta olhar nos olhos. Quem não consegue olhar para os telespectadores, sem desviar os olhos para algum teleprompter, que possa lhe guiar as idéias (quando as tem) parece ter um grave problema de credibilidade e de articulação de frases simples, sinceras, diretas, falando diretamente ao eleitor. Pode ser um quarto princípio, mas prefiro colocar como requerimento básico...
Existem vários outros elementos que poderiam integrar esta lista, como posicionamentos sobre diferentes assuntos da vida econômica, política e social. Mas creio que não devo moldar os candidatos de acordo com minhas preferências pessoais. Prefiro esperar as primeiras declarações para depois então me manifestar a respeito.
Paulo Roberto de Almeida (Shanghai, 9 de maio de 2010)
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