Serra diz que Estado foi loteado entre partidos e acusa governo Lula de ter criado "república sindicalista"
15.07.2010
RIO - O candidato do PSDB à Presidência, José Serra, acusou, na noite de quarta-feira, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de promover uma "frenética" partidarização do Estado brasileiro e de criar uma "república sindicalista". Em encontro com artistas e intelectuais, em restaurante da Zona Sul do Rio, o tucano disse que existe hoje uma elite sindical amarrada ao governo que está privatizando toda a estrutura do Estado em benefício próprio.
- A partidarização (do Estado) é evidente. Você tem uma empresa boa, a de Correios e Telégrafos, hoje no chão justamente por causa do loteamento político. Isso prejudica a empresa, que tem bons funcionários,que tem que permanecer estatal. Isso porque foi entregue a um grupo que não tem nada a ver com a finalidade da empresa. Isso é geral, no Estado brasileiro inteiro. Tudo loteado, dividido, tudo privatizado. E privatizar aqui não é vender para uma área privada, é ver um órgão estatal ser apropriado por interesses privados, partidários.
O tucano comparou o aparelhamento do Estado às críticas feitas durante o governo do ex-presidente João Goulart, que ocupou o cargo entre 1961 e1964.
- O que vemos é uma partidarização frenética do Estado brasileiro. Está tudo aparelhado. Em 1964 falavam da República sindicalista do Jango. Brincadeira. Conheci todos no exílio. Eram anjinhos - disse Serra em discurso.
- Não tem nada a ver com o que acontece agora. Agora, tem uma República sindicalista. É uma elite sindical alinhada ao governo pelo dinheiro para fazer um trabalho político partidário - acrescentou o tucano.
O candidato reiterou que se for eleito vai "estatizar o Estado brasileiro".
- Isso é essencial para acabar com a corrupção - ressaltou.
Serra afirmou ainda que o governo Lula usa estatais para fins políticos na área cultural. Para ele, a Petrobras lidera a estratégia do presidente.
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quinta-feira, 15 de julho de 2010
Dilemas da oposicao: candidato Serra
Opinião
Ressentimento e onipotência
José A. Guilhon Albuquerque
O Estado de S.Paulo, 14 de julho de 2010
Demétrio Magnoli publicou nesta página (8/7) uma receita ideal para José Serra perder as eleições e delas sair engrandecido aos olhos de um setor da elite. Mas, como disse o técnico da brava seleção espanhola, "una final no es para jugar, es para ganar".
O autor apresentou um diagnóstico impecável sobre o governo Lula e o "lulismo". Para eleger-se um estadista, entretanto, não se trata de diagnosticar os atores, mas sim o processo eleitoral, que não é um concurso de simpatia, erudição ou correção política aos olhos de jornalistas, intelectuais ou ativistas: o que estará em jogo em outubro é a confiança do eleitor para escolher quem é mais capaz de manter as conquistas que o povo valoriza e evitar as mudanças que o povo teme.
Se Lula tivesse apoiado uma candidatura claramente confiável aos olhos do eleitor comum, comprometida em mudar o que o povo espera, sem pôr em risco os avanços econômicos, políticos e sociais da reconquista da democracia e da estabilidade da economia, o lugar para uma candidatura alternativa não seria o de um estadista, mas o de um profeta que clama no deserto.
Movido pelo ressentimento de ter galgado os píncaros do poder e ter-se recoberto da glória dos palcos internacionais, sem nunca ter conseguido derrotar Fernando Henrique Cardoso, e ofuscado pela onipotência que lhe é atribuída pelos beneficiários das benesses e migalhas que distribui à esquerda e à direita ? e com desenvoltura senhorial ?, Lula optou pela escolha maniqueísta entre o bem e o mal, lá onde o povo espera um compromisso entre continuidade e mudança.
Um pressuposto comum às análises do atual processo sucessório é o de que, uma vez decidido por Lula, um plebiscito seria inescapável e, porque Lula é imbatível, a vitória de Dilma é inevitável, cabendo a Serra mimetizar o papel de estadista e "perder as eleições falando de política", como diz Magnoli. Inescapável é o fato de que Lula, não o tendo feito no momento oportuno, já não conseguirá derrotar Fernando Henrique nas urnas. Para realizar esse sonho, ainda que sob a forma de delírio, Lula precisaria criar uma Dilma Rousseff à sua imagem e semelhança e levar José Serra a se comportar como um fantoche de Fernando Henrique. Não conseguiu uma coisa nem outra.
Partindo do pressuposto da invencibilidade de Lula e de sua pretensão a cabo eleitoral imbatível, a maioria das análises se ocupou em comprovar ? contra as evidências estatísticas disponíveis ? como, ao fim e ao cabo, a inevitabilidade de Dilma prevaleceria. Assim, quando Lula, do alto de seus 80% de aprovação, dissesse as palavras mágicas ? "meu nome é Dilma" ?, os jogos estariam feitos. E ele disse, mas ela não teve os inimigos por escabelo de seus pés.
Alguns aspectos desprezados reiteradamente nas análises eleitorais explicam essa discrepância entre os anseios de Lula e a realidade política. É verdade que Lula foi surpreendentemente hábil em decretar quem iria suceder-lhe e quem ele iria derrotar, como já foi seguidamente comentado na imprensa. Mas, ao fazê-lo, esqueceu ? se é que soube um dia ? que a realidade política não é uma tabula rasa na qual ele imprime um diktat a seu bel-prazer.
Lula mostrou que não era imbatível quando resolveu antecipar a luta sucessória para as eleições municipais de 2008 e escolheu Serra para ser derrotado de uma vez por todas. Com isso mandaria uma mensagem à oposição, ao seu próprio partido, à elite política e, enfim, ao mundo inteiro. Contudo sofreu uma derrota pouco dignificante e, ademais, escolheu o adversário errado, pois praticamente oficializou o então governador paulista como sua real alternativa de poder.
Como se não bastasse escolher o adversário errado, no momento errado e em inferioridade de armas, não foi capaz de reconhecer a derrota nem de aprender com ela, e promoveu uma polarização que, longe de opor sua imensa popularidade à imaginária rejeição a Fernando Henrique, força a uma comparação que só convém a Serra. Imaginando que seu imenso sucesso tudo lhe permite, não foi capaz de ver ? ou, se viu, não levou em conta ? que uma maioria significativa dos que aprovam o seu governo também rejeita a corrupção, não aprova o seu apoio às elites oligárquicas, nem a sua amizade com ditadores sangrentos, nem a sua leniência para com movimentos radicais e violentos, nem os atentados à liberdade. E tampouco está satisfeita com a condução de algumas das políticas que mais a atinge em sua própria vida.
Levada para o centro do palco sem nenhum preparo, sua candidata nunca teve o cuidado de se distanciar da corrupção, das oligarquias carcomidas, dos atentados à liberdade, dos governos "amigos" que tratam como inimigos os nossos compatriotas que lá vivem e as nossas empresas que lá produzem. Mas, quod licet Iove non licet bove, ou seja, em latim boi pode rimar com Júpiter, mas em nenhuma língua tem iguais poderes. Os que apoiam Lula o fazem apesar de não aprovarem seus erros, e não por causa deles.
Confiança não se transfere e uma campanha maniqueísta, quando o eleitorado quer continuidade com mudança, não ajuda a vencer uma dúvida que as pesquisas mostram ser persistente: o quanto de Lula ? e o quê ? pode ter contagiado Dilma, e o quanto de Lula persistiria em Dilma caso eleita. Caso aderisse a um script incendiário anti-Lula, Serra iria realizar o sonho plebiscitário do presidente, dando novo fôlego a uma candidatura com escassa margem para progredir, além de se desqualificar como aquele capaz de estabelecer um equilíbrio produtivo entre a segurança da continuidade e o temor da mudança.
PROFESSOR TITULAR DE CIÊNCIA POLÍTICA E RELAÇÕES
INTERNACIONAIS DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO
Ressentimento e onipotência
José A. Guilhon Albuquerque
O Estado de S.Paulo, 14 de julho de 2010
Demétrio Magnoli publicou nesta página (8/7) uma receita ideal para José Serra perder as eleições e delas sair engrandecido aos olhos de um setor da elite. Mas, como disse o técnico da brava seleção espanhola, "una final no es para jugar, es para ganar".
O autor apresentou um diagnóstico impecável sobre o governo Lula e o "lulismo". Para eleger-se um estadista, entretanto, não se trata de diagnosticar os atores, mas sim o processo eleitoral, que não é um concurso de simpatia, erudição ou correção política aos olhos de jornalistas, intelectuais ou ativistas: o que estará em jogo em outubro é a confiança do eleitor para escolher quem é mais capaz de manter as conquistas que o povo valoriza e evitar as mudanças que o povo teme.
Se Lula tivesse apoiado uma candidatura claramente confiável aos olhos do eleitor comum, comprometida em mudar o que o povo espera, sem pôr em risco os avanços econômicos, políticos e sociais da reconquista da democracia e da estabilidade da economia, o lugar para uma candidatura alternativa não seria o de um estadista, mas o de um profeta que clama no deserto.
Movido pelo ressentimento de ter galgado os píncaros do poder e ter-se recoberto da glória dos palcos internacionais, sem nunca ter conseguido derrotar Fernando Henrique Cardoso, e ofuscado pela onipotência que lhe é atribuída pelos beneficiários das benesses e migalhas que distribui à esquerda e à direita ? e com desenvoltura senhorial ?, Lula optou pela escolha maniqueísta entre o bem e o mal, lá onde o povo espera um compromisso entre continuidade e mudança.
Um pressuposto comum às análises do atual processo sucessório é o de que, uma vez decidido por Lula, um plebiscito seria inescapável e, porque Lula é imbatível, a vitória de Dilma é inevitável, cabendo a Serra mimetizar o papel de estadista e "perder as eleições falando de política", como diz Magnoli. Inescapável é o fato de que Lula, não o tendo feito no momento oportuno, já não conseguirá derrotar Fernando Henrique nas urnas. Para realizar esse sonho, ainda que sob a forma de delírio, Lula precisaria criar uma Dilma Rousseff à sua imagem e semelhança e levar José Serra a se comportar como um fantoche de Fernando Henrique. Não conseguiu uma coisa nem outra.
Partindo do pressuposto da invencibilidade de Lula e de sua pretensão a cabo eleitoral imbatível, a maioria das análises se ocupou em comprovar ? contra as evidências estatísticas disponíveis ? como, ao fim e ao cabo, a inevitabilidade de Dilma prevaleceria. Assim, quando Lula, do alto de seus 80% de aprovação, dissesse as palavras mágicas ? "meu nome é Dilma" ?, os jogos estariam feitos. E ele disse, mas ela não teve os inimigos por escabelo de seus pés.
Alguns aspectos desprezados reiteradamente nas análises eleitorais explicam essa discrepância entre os anseios de Lula e a realidade política. É verdade que Lula foi surpreendentemente hábil em decretar quem iria suceder-lhe e quem ele iria derrotar, como já foi seguidamente comentado na imprensa. Mas, ao fazê-lo, esqueceu ? se é que soube um dia ? que a realidade política não é uma tabula rasa na qual ele imprime um diktat a seu bel-prazer.
Lula mostrou que não era imbatível quando resolveu antecipar a luta sucessória para as eleições municipais de 2008 e escolheu Serra para ser derrotado de uma vez por todas. Com isso mandaria uma mensagem à oposição, ao seu próprio partido, à elite política e, enfim, ao mundo inteiro. Contudo sofreu uma derrota pouco dignificante e, ademais, escolheu o adversário errado, pois praticamente oficializou o então governador paulista como sua real alternativa de poder.
Como se não bastasse escolher o adversário errado, no momento errado e em inferioridade de armas, não foi capaz de reconhecer a derrota nem de aprender com ela, e promoveu uma polarização que, longe de opor sua imensa popularidade à imaginária rejeição a Fernando Henrique, força a uma comparação que só convém a Serra. Imaginando que seu imenso sucesso tudo lhe permite, não foi capaz de ver ? ou, se viu, não levou em conta ? que uma maioria significativa dos que aprovam o seu governo também rejeita a corrupção, não aprova o seu apoio às elites oligárquicas, nem a sua amizade com ditadores sangrentos, nem a sua leniência para com movimentos radicais e violentos, nem os atentados à liberdade. E tampouco está satisfeita com a condução de algumas das políticas que mais a atinge em sua própria vida.
Levada para o centro do palco sem nenhum preparo, sua candidata nunca teve o cuidado de se distanciar da corrupção, das oligarquias carcomidas, dos atentados à liberdade, dos governos "amigos" que tratam como inimigos os nossos compatriotas que lá vivem e as nossas empresas que lá produzem. Mas, quod licet Iove non licet bove, ou seja, em latim boi pode rimar com Júpiter, mas em nenhuma língua tem iguais poderes. Os que apoiam Lula o fazem apesar de não aprovarem seus erros, e não por causa deles.
Confiança não se transfere e uma campanha maniqueísta, quando o eleitorado quer continuidade com mudança, não ajuda a vencer uma dúvida que as pesquisas mostram ser persistente: o quanto de Lula ? e o quê ? pode ter contagiado Dilma, e o quanto de Lula persistiria em Dilma caso eleita. Caso aderisse a um script incendiário anti-Lula, Serra iria realizar o sonho plebiscitário do presidente, dando novo fôlego a uma candidatura com escassa margem para progredir, além de se desqualificar como aquele capaz de estabelecer um equilíbrio produtivo entre a segurança da continuidade e o temor da mudança.
PROFESSOR TITULAR DE CIÊNCIA POLÍTICA E RELAÇÕES
INTERNACIONAIS DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO
sexta-feira, 9 de julho de 2010
Programas de campanha dos candidatos: apresentacao
Os (des)compromissos dos presidenciáveis
Edson Sardinha
Congresso em Foco, 09/07/2010
Confira a íntegra das diretrizes de governo apresentadas ao TSE pelos nove candidatos à Presidência. Cientista político diz que descuido com propostas mostra que a principal preocupação deles é mesmo ganhar a eleição
Leia aqui as propostas apresentadas pelos candidatos
TSE
Para cientista político, descaso dos presidenciáveis com programa de governo mostra que eles só têm compromisso com ganhar eleição
Um candidato junta dois discursos e os encaminha à Justiça eleitoral como “resumo” de suas principais “linhas de ação” de governo. Sua principal adversária manda registrar uma proposta “por equívoco”, pede para trocar o documento e admite, por fim, que sequer leu o texto enviado. Na primeira vez em que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) exigiu dos candidatos a presidente o registro de suas diretrizes de campanha, a falta de cuidado com as propostas chamou mais a atenção do que o próprio conteúdo das cartas de intenção.
Para o cientista político Leonardo Barreto, a falta de compromisso dos presidenciáveis com o registro de suas ideias revela que a principal preocupação deles é com a própria eleição, e não com a melhoria das condições de vida da população.
“Muita gente acredita que os políticos buscam se eleger para executar projetos que eles constroem previamente. Mas isso é falso. O que acontece é que você cria projetos para ser eleito. O foco é sempre a eleição, nunca a política pública ou a administração”, avalia o professor da Universidade de Brasília (UnB).
Segundo Leonardo, as propostas serão definidas no andamento do processo eleitoral, a partir das pesquisas qualitativas, aquelas que mostram quais são as áreas mais sensíveis do governo, que problemas ou ações de governo chamam mais a atenção do eleitor, quais questões têm maior demanda e o eleitor gostaria de ver resolvidas. "Em vez de definirem o que consideram, de fato, prioritário, eles vão direcionar seus discursos atrás daquilo que rende voto", observa o cientista político.
“Hoje, Serra pega uma pesquisa sobre o governo Lula e vê que ele está sendo mal avaliado em segurança pública e saúde. Ele, então, vai apoiar seu discurso nesses dois pontos. Todos vão construindo de acordo com as pesquisas, porque a preocupação é sempre com a eleição”, exemplifica.
Na falta de propostas confiáveis, o eleitor tem de investigar o passado dos candidatos e a forma de atuação do partido, afirma Leonardo Barreto. “O passado é a única coisa concreta que você tem. O resto é só intenção”, afirma Leonardo Barreto. “Mais importante que a carta de intenções é olhar para a história do partido, que tipo de linha vem desenvolvendo, comparar a linha dele com as demais”, acrescenta.
Comparações
O cientista político acredita que as eleições presidenciais deste ano serão pautadas pela comparação entre os governos Lula e Fernando Henrique Cardoso, o que deixa a discussão sobre as propostas de um candidato e outro em segundo plano. “Por mais que o Serra não queira, isso é uma realidade. Teve oito anos de governo Lula, oito de FHC. A maior parte dos eleitores vivenciou os dois momentos. Existe um convite para avaliação desses dois governos. Mais que acusações, existe uma comparação sensorial, o que as pessoas sentiram e se lembram do governo FHC e do governo Lula.”
Na última segunda-feira (5), prazo final para o pedido de registro das candidaturas, o candidato do PSDB, José Serra, enviou dois discursos – um feito em Brasília, e outro em Salvador – como resumo de suas propostas. A coordenação da campanha de Serra promete apresentar na semana que vem as 40 diretrizes de seu programa de governo.
No mesmo dia, a candidata do PT, Dilma Rousseff mandou trocar o documento que havia entregado horas antes. Alegou que a primeira versão se restringia às diretrizes do PT e não traduzia os anseios da coligação. Tirou pontos considerados polêmicos, como a taxação de grandes fortunas e a defesa da desapropriação para reforma agrária de qualquer propriedade que tenha sido invadida, para agradar aos aliados. Como as críticas não cessaram, disse ter enviado os documentos sem ler.
Terceira colocada nas pesquisas, a candidata do PV, Marina Silva, apresentou as diretrizes para o programa de governo, que havia divulgado no dia da convenção do partido à Presidência. Assim como a maioria dos presidenciáveis, entregou um texto marcado pela superficialidade e com poucas ações concretas. Entre os demais candidatos à esquerda, o tom impresso foi de manifesto.
Recall de políticos
O professor da UnB Leonardo Barreto explica que a natureza do sistema representativo, pelo qual o eleitor escolhe seus representantes, dá grande liberdade de ação para os políticos eleitos. O cientista político defende a instituição de mecanismos de controle que garantam ao cidadão, inclusive, abreviar o mandato de seu representante quando ele muda radicalmente de postura ou abandona suas propostas iniciais.
O cientista política cita como exemplo o instrumento do “recall” político, que existe nos Estados Unidos, a exemplo das trocas de peças que ocorrem com veículos que vêm com defeitos graves. “Lá, a partir de determinado período, você pode chamar determinado político para destituí-lo”, afirma. O ator Arnold Schwarzenegger, por exemplo, foi eleito em 2003 governador da Califórnia a partir de um processo de recall que destituiu do cargo Gray Davis.
No ano passado, por iniciativa da Ordem dos Advogados do Brasil, o senador Eduardo Suplicy (PT-SP) apresentou uma proposta de emenda à Constituição que institui o “recall”. De acordo com o texto, ainda em análise no Senado, até 2% dos eleitores poderão solicitar ao TSE a convocação de uma eleição para que a população diga se o eleito deve ou não permanecer no mandato. O referendo valeria para prefeitos, governadores e presidente da República.
A obrigatoriedade de os candidatos a cargo no Executivo registrarem, a partir deste ano, suas propostas de campanha foi introduzida pela Lei 12.034/09, a chamada minirreforma eleitoral. A partir destas eleições, todos os candidatos a presidente da República e a governador de estado ou do Distrito Federal deverão entregar suas propostas no momento de pedir o registro da candidatura. A documentação ficará disponível no Sistema de Divulgação de Candidaturas, na página do TSE na internet. A exigência foi incluída na lei por emenda do deputado Otávio Leite (PSDB-RJ). Segundo o deputado, a intenção é exigir mais coerência entre as promessas de campanha e as realizações no exercício do mandato.
Leia ainda:
Leia aqui os compromissos de campanha de cada candidato
Edson Sardinha
Congresso em Foco, 09/07/2010
Confira a íntegra das diretrizes de governo apresentadas ao TSE pelos nove candidatos à Presidência. Cientista político diz que descuido com propostas mostra que a principal preocupação deles é mesmo ganhar a eleição
Leia aqui as propostas apresentadas pelos candidatos
TSE
Para cientista político, descaso dos presidenciáveis com programa de governo mostra que eles só têm compromisso com ganhar eleição
Um candidato junta dois discursos e os encaminha à Justiça eleitoral como “resumo” de suas principais “linhas de ação” de governo. Sua principal adversária manda registrar uma proposta “por equívoco”, pede para trocar o documento e admite, por fim, que sequer leu o texto enviado. Na primeira vez em que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) exigiu dos candidatos a presidente o registro de suas diretrizes de campanha, a falta de cuidado com as propostas chamou mais a atenção do que o próprio conteúdo das cartas de intenção.
Para o cientista político Leonardo Barreto, a falta de compromisso dos presidenciáveis com o registro de suas ideias revela que a principal preocupação deles é com a própria eleição, e não com a melhoria das condições de vida da população.
“Muita gente acredita que os políticos buscam se eleger para executar projetos que eles constroem previamente. Mas isso é falso. O que acontece é que você cria projetos para ser eleito. O foco é sempre a eleição, nunca a política pública ou a administração”, avalia o professor da Universidade de Brasília (UnB).
Segundo Leonardo, as propostas serão definidas no andamento do processo eleitoral, a partir das pesquisas qualitativas, aquelas que mostram quais são as áreas mais sensíveis do governo, que problemas ou ações de governo chamam mais a atenção do eleitor, quais questões têm maior demanda e o eleitor gostaria de ver resolvidas. "Em vez de definirem o que consideram, de fato, prioritário, eles vão direcionar seus discursos atrás daquilo que rende voto", observa o cientista político.
“Hoje, Serra pega uma pesquisa sobre o governo Lula e vê que ele está sendo mal avaliado em segurança pública e saúde. Ele, então, vai apoiar seu discurso nesses dois pontos. Todos vão construindo de acordo com as pesquisas, porque a preocupação é sempre com a eleição”, exemplifica.
Na falta de propostas confiáveis, o eleitor tem de investigar o passado dos candidatos e a forma de atuação do partido, afirma Leonardo Barreto. “O passado é a única coisa concreta que você tem. O resto é só intenção”, afirma Leonardo Barreto. “Mais importante que a carta de intenções é olhar para a história do partido, que tipo de linha vem desenvolvendo, comparar a linha dele com as demais”, acrescenta.
Comparações
O cientista político acredita que as eleições presidenciais deste ano serão pautadas pela comparação entre os governos Lula e Fernando Henrique Cardoso, o que deixa a discussão sobre as propostas de um candidato e outro em segundo plano. “Por mais que o Serra não queira, isso é uma realidade. Teve oito anos de governo Lula, oito de FHC. A maior parte dos eleitores vivenciou os dois momentos. Existe um convite para avaliação desses dois governos. Mais que acusações, existe uma comparação sensorial, o que as pessoas sentiram e se lembram do governo FHC e do governo Lula.”
Na última segunda-feira (5), prazo final para o pedido de registro das candidaturas, o candidato do PSDB, José Serra, enviou dois discursos – um feito em Brasília, e outro em Salvador – como resumo de suas propostas. A coordenação da campanha de Serra promete apresentar na semana que vem as 40 diretrizes de seu programa de governo.
No mesmo dia, a candidata do PT, Dilma Rousseff mandou trocar o documento que havia entregado horas antes. Alegou que a primeira versão se restringia às diretrizes do PT e não traduzia os anseios da coligação. Tirou pontos considerados polêmicos, como a taxação de grandes fortunas e a defesa da desapropriação para reforma agrária de qualquer propriedade que tenha sido invadida, para agradar aos aliados. Como as críticas não cessaram, disse ter enviado os documentos sem ler.
Terceira colocada nas pesquisas, a candidata do PV, Marina Silva, apresentou as diretrizes para o programa de governo, que havia divulgado no dia da convenção do partido à Presidência. Assim como a maioria dos presidenciáveis, entregou um texto marcado pela superficialidade e com poucas ações concretas. Entre os demais candidatos à esquerda, o tom impresso foi de manifesto.
Recall de políticos
O professor da UnB Leonardo Barreto explica que a natureza do sistema representativo, pelo qual o eleitor escolhe seus representantes, dá grande liberdade de ação para os políticos eleitos. O cientista político defende a instituição de mecanismos de controle que garantam ao cidadão, inclusive, abreviar o mandato de seu representante quando ele muda radicalmente de postura ou abandona suas propostas iniciais.
O cientista política cita como exemplo o instrumento do “recall” político, que existe nos Estados Unidos, a exemplo das trocas de peças que ocorrem com veículos que vêm com defeitos graves. “Lá, a partir de determinado período, você pode chamar determinado político para destituí-lo”, afirma. O ator Arnold Schwarzenegger, por exemplo, foi eleito em 2003 governador da Califórnia a partir de um processo de recall que destituiu do cargo Gray Davis.
No ano passado, por iniciativa da Ordem dos Advogados do Brasil, o senador Eduardo Suplicy (PT-SP) apresentou uma proposta de emenda à Constituição que institui o “recall”. De acordo com o texto, ainda em análise no Senado, até 2% dos eleitores poderão solicitar ao TSE a convocação de uma eleição para que a população diga se o eleito deve ou não permanecer no mandato. O referendo valeria para prefeitos, governadores e presidente da República.
A obrigatoriedade de os candidatos a cargo no Executivo registrarem, a partir deste ano, suas propostas de campanha foi introduzida pela Lei 12.034/09, a chamada minirreforma eleitoral. A partir destas eleições, todos os candidatos a presidente da República e a governador de estado ou do Distrito Federal deverão entregar suas propostas no momento de pedir o registro da candidatura. A documentação ficará disponível no Sistema de Divulgação de Candidaturas, na página do TSE na internet. A exigência foi incluída na lei por emenda do deputado Otávio Leite (PSDB-RJ). Segundo o deputado, a intenção é exigir mais coerência entre as promessas de campanha e as realizações no exercício do mandato.
Leia ainda:
Leia aqui os compromissos de campanha de cada candidato
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quarta-feira, 7 de julho de 2010
Patrimonio dos candidatos (e candidatas)...
...alguns são bem pobrezinhos, outros parece que estão com problemas de declaração, outros ainda tem muito, e outros, talvez, não declararam tudo...
O patrimônio dos presidenciáveis e seus vices
TSE: 06/07/2010 - 18h47
Veja os valores declarados pelos candidatos a presidente e vice. Clique nos links para ver a descrição dos bens informados ao TSE
Dilma Rousseff (PT)
R$ 1.060.000,00
Vice – Michel Temer (PMDB)
R$ 6.052.779,19
Eymael (PSDC)
R$ 3.100.000,00
Vice – José Paulo da Silva Neto (PSDC)
R$ 119.000,00
Ivan Pinheiro (PCB)
R$ 355.800,00
Vice – Edmilson Silva Costa (PCB)
R$ 200.000,00
José Serra (PSDB)
R$ 1.420.000,00
Vice – Índio da Costa (DEM)
R$ 1.448.230,18
Levy Fidélix (PRTB)
R$ 150.724,54
Vice – Luiz Eduardo Ayres (PRTB)
R$ 219.390
Marina Silva (PV)
R$ 149.264,38
Vice – Guilherme Leal (PV)
R$ 1.197.000.000
Plínio de Arruda Sampaio (Psol)
R$ 2.100.000,00
Vice – Hamilton Moreira (Psol)
R$ 19.000,00
Rui Costa Pimenta (PCO)
R$ 80.000,00
Vice - Edson Dorta Silva (PCO)
Ainda não divulgado pelo TSE
Zé Maria (PSTU)
R$ 16.000,00
Vice – Cláudia Durans (PSTU)
R$ 0,00
Fonte: declaração de bens entregues ao TSE pelos candidatos.
O patrimônio dos presidenciáveis e seus vices
TSE: 06/07/2010 - 18h47
Veja os valores declarados pelos candidatos a presidente e vice. Clique nos links para ver a descrição dos bens informados ao TSE
Dilma Rousseff (PT)
R$ 1.060.000,00
Vice – Michel Temer (PMDB)
R$ 6.052.779,19
Eymael (PSDC)
R$ 3.100.000,00
Vice – José Paulo da Silva Neto (PSDC)
R$ 119.000,00
Ivan Pinheiro (PCB)
R$ 355.800,00
Vice – Edmilson Silva Costa (PCB)
R$ 200.000,00
José Serra (PSDB)
R$ 1.420.000,00
Vice – Índio da Costa (DEM)
R$ 1.448.230,18
Levy Fidélix (PRTB)
R$ 150.724,54
Vice – Luiz Eduardo Ayres (PRTB)
R$ 219.390
Marina Silva (PV)
R$ 149.264,38
Vice – Guilherme Leal (PV)
R$ 1.197.000.000
Plínio de Arruda Sampaio (Psol)
R$ 2.100.000,00
Vice – Hamilton Moreira (Psol)
R$ 19.000,00
Rui Costa Pimenta (PCO)
R$ 80.000,00
Vice - Edson Dorta Silva (PCO)
Ainda não divulgado pelo TSE
Zé Maria (PSTU)
R$ 16.000,00
Vice – Cláudia Durans (PSTU)
R$ 0,00
Fonte: declaração de bens entregues ao TSE pelos candidatos.
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segunda-feira, 5 de julho de 2010
Sem palavras, literalmente...

O jornal O Globo convidou os três principais presidenciáveis a responder à pergunta:
“Por que quero ser presidente Do Brasil?”
José Serra e Marina Silva aceitaram o desafio.
Vê-se ali uma grande interrogação onde deveria estar a resposta da petista Dilma Rousseff.
O Globo informa:
“Desde o dia 10 de junho, a campanha da candidata Dilma Rousseff foi procurada para que ela respondesse a apenas uma pergunta. O convite foi reiterado diversas vezes desde então, mas ela se recusou a responder à pergunta, que seria apenas: ‘Por que quero ser presidente do Brasil?’”
terça-feira, 25 de maio de 2010
Serra foi "adotado" pelo empresariado...
Resta saber o que pensa o povão disso tudo. O povão faz, pelo menos, 70% do eleitorado.
Serra empolga mais o empresariado no encontro da CNI
O Globo, 25/05/2010
BRASÍLIA - Muito à vontade e com bom humor, o presidenciável tucano José Serra fez uma apresentação que agradou mais à plateia de empresários. Com estocadas no governo atual e na presidenciável petista, o tucano fez uma defesa enfática da indústria nacional, da melhoria das condições para as exportações e fez críticas contundentes à carga tributária e taxas de juros.
Durante sua apresentação e ao responder as perguntas, Serra foi interrompido quatro ou cinco vezes com aplausos dos empresários e convidados, no auditório da CNI. Dilma, pelo contrário, não foi aplaudida durante sua fala, embora também tenha feito uma exposição bastante econômica e voltada para as principais demandas do empresariado.
Serra empolga mais o empresariado no encontro da CNI
O Globo, 25/05/2010
BRASÍLIA - Muito à vontade e com bom humor, o presidenciável tucano José Serra fez uma apresentação que agradou mais à plateia de empresários. Com estocadas no governo atual e na presidenciável petista, o tucano fez uma defesa enfática da indústria nacional, da melhoria das condições para as exportações e fez críticas contundentes à carga tributária e taxas de juros.
Durante sua apresentação e ao responder as perguntas, Serra foi interrompido quatro ou cinco vezes com aplausos dos empresários e convidados, no auditório da CNI. Dilma, pelo contrário, não foi aplaudida durante sua fala, embora também tenha feito uma exposição bastante econômica e voltada para as principais demandas do empresariado.
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José Serra
Arrependimento tardio - candidata Marina Silva
Eleições: Em entrevista à rádio, candidata do PV à Presidência da República busca cativar eleitor antipetista
Marina diz que PT a levou a erro na LRF e no Real
Ana Paula Grabois, de São Paulo
Valor Econômico, 25/05/2010
Na tentativa de se aproximar do eleitorado antipetista, a pré-candidata à Presidência da República do PV, Marina Silva, disse que errou ao votar contra a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) e o Plano Real quando era senadora, sob a orientação de seu antigo partido, o PT. "Eu digo que foi um erro nós não termos avaliado que havia um ganho com o Plano Real, ganho que o presidente Lula inclusive manteve com a Carta ao Povo Brasileiro, só que teve dificuldade de reconhecer isso", afirmou. Ela também foi favorável ao que chamou de "Estado profissional e competente", ao mencionar que é preciso dar importância à carreira no serviço público, com a abertura de concursos e valorização do mérito, sem aparelhamento da máquina pública.
Marina também se colocou a favor das reformas da Previdência e tributária. "O Brasil não aguenta mais o peso dos tributos e da ineficiência do Estado que cobra caro e oferece pouco em seus serviços", disse a pré-candidata do PV. A pré-candidata do PV se disse contrária ao fim do fator previdenciário, mas defendeu o aumento de 7,7% aos aposentados, pois acha "justo" recompor a renda desse grupo. Marina disse que para contrabalançar o maior peso de reajustes do INSS é preciso fazer a reforma na Previdência.
Por outro lado, Marina lembrou de sua ligação com a Central Única dos Trabalhadores (CUT), ao se dizer favorável à redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais. A candidata, contudo, condicionou o apoio à a redução de horas de trabalho ao aumento do emprego com carteira assinada sem levar ao aumento de horas extras. Segundo Marina, o próprio empresariado tem dificuldade para assimilar tal modificação em razão do "alto custo de produção" e do "custo elevado dos tributos.
Marina minimizou o episódio no qual seu nome foi coberto por adesivos em faixas estendidas durante o lançamento da pré-candidatura de Fernando Gabeira (PV) ao governo do Rio, no domingo. A coligação estadual que tem Gabeira à frente, formada por PV, PSDB, DEM e PPS, dará palanque a Marina e a seu concorrente do PSDB, José Serra.
Durante entrevista à rádio CBN, Marina, ausente no evento de domingo, justificou ter havido preocupação da organização da campanha de Gabeira para evitar problemas com a Justiça Eleitoral, depois que o PV foi notificado pelo Ministério Público Eleitoral em Natal porque um grupo colocou uma faixa com seu nome na frente da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte. "Com base nessa notificação, o pessoal da campanha do Gabeira orientou que colocasse o ocultamento do nome, mas não tem nada a ver com política", disse. Para Marina, os concorrentes Serra e Dilma Rousseff (PT) "extrapolaram" porque fizeram campanha eleitoral antecipada. "Foi uma orientação de quem não quer extrapolar como estão extrapolando aí a torto e a direito", disse.
Após a entrevista à rádio, Marina disse que nem ela nem Serra não foram ao lançamento de Gabeira ao governo do Rio pois já havia acerto prévio. "Além disso, eu já tinha um impedimento neste domingo. Fiquei tentando melhorar (a voz), para dar esta entrevista", disse. o comentar a coligação fluminense, a pré-candidata disse que Gabeira tem dito estar com o projeto nacional do PV, mas que a coligação está sendo construída de uma forma "muito delicada". "O governador Serra está apoiando. Isso é muito bom, significa que o Gabeira é o melhor para o Rio de Janeiro e o projeto do PV é o melhor para o Brasil", afirmou.
Sobre a recente intermediação do Brasil com o Irã, Marina destacou que o Irã não respeita os Direitos Humanos. "O Brasil acabou dando uma audiência excessiva que nenhuma democracia ocidental deu ao Irã", afirmou. Na sua avaliação, é recomendável que o governo brasileiro fique em "compasso de espera" sobre o desenrolar das decisões do Irã e que mantenha a pressão sobre o país.
Marina diz que PT a levou a erro na LRF e no Real
Ana Paula Grabois, de São Paulo
Valor Econômico, 25/05/2010
Na tentativa de se aproximar do eleitorado antipetista, a pré-candidata à Presidência da República do PV, Marina Silva, disse que errou ao votar contra a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) e o Plano Real quando era senadora, sob a orientação de seu antigo partido, o PT. "Eu digo que foi um erro nós não termos avaliado que havia um ganho com o Plano Real, ganho que o presidente Lula inclusive manteve com a Carta ao Povo Brasileiro, só que teve dificuldade de reconhecer isso", afirmou. Ela também foi favorável ao que chamou de "Estado profissional e competente", ao mencionar que é preciso dar importância à carreira no serviço público, com a abertura de concursos e valorização do mérito, sem aparelhamento da máquina pública.
Marina também se colocou a favor das reformas da Previdência e tributária. "O Brasil não aguenta mais o peso dos tributos e da ineficiência do Estado que cobra caro e oferece pouco em seus serviços", disse a pré-candidata do PV. A pré-candidata do PV se disse contrária ao fim do fator previdenciário, mas defendeu o aumento de 7,7% aos aposentados, pois acha "justo" recompor a renda desse grupo. Marina disse que para contrabalançar o maior peso de reajustes do INSS é preciso fazer a reforma na Previdência.
Por outro lado, Marina lembrou de sua ligação com a Central Única dos Trabalhadores (CUT), ao se dizer favorável à redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais. A candidata, contudo, condicionou o apoio à a redução de horas de trabalho ao aumento do emprego com carteira assinada sem levar ao aumento de horas extras. Segundo Marina, o próprio empresariado tem dificuldade para assimilar tal modificação em razão do "alto custo de produção" e do "custo elevado dos tributos.
Marina minimizou o episódio no qual seu nome foi coberto por adesivos em faixas estendidas durante o lançamento da pré-candidatura de Fernando Gabeira (PV) ao governo do Rio, no domingo. A coligação estadual que tem Gabeira à frente, formada por PV, PSDB, DEM e PPS, dará palanque a Marina e a seu concorrente do PSDB, José Serra.
Durante entrevista à rádio CBN, Marina, ausente no evento de domingo, justificou ter havido preocupação da organização da campanha de Gabeira para evitar problemas com a Justiça Eleitoral, depois que o PV foi notificado pelo Ministério Público Eleitoral em Natal porque um grupo colocou uma faixa com seu nome na frente da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte. "Com base nessa notificação, o pessoal da campanha do Gabeira orientou que colocasse o ocultamento do nome, mas não tem nada a ver com política", disse. Para Marina, os concorrentes Serra e Dilma Rousseff (PT) "extrapolaram" porque fizeram campanha eleitoral antecipada. "Foi uma orientação de quem não quer extrapolar como estão extrapolando aí a torto e a direito", disse.
Após a entrevista à rádio, Marina disse que nem ela nem Serra não foram ao lançamento de Gabeira ao governo do Rio pois já havia acerto prévio. "Além disso, eu já tinha um impedimento neste domingo. Fiquei tentando melhorar (a voz), para dar esta entrevista", disse. o comentar a coligação fluminense, a pré-candidata disse que Gabeira tem dito estar com o projeto nacional do PV, mas que a coligação está sendo construída de uma forma "muito delicada". "O governador Serra está apoiando. Isso é muito bom, significa que o Gabeira é o melhor para o Rio de Janeiro e o projeto do PV é o melhor para o Brasil", afirmou.
Sobre a recente intermediação do Brasil com o Irã, Marina destacou que o Irã não respeita os Direitos Humanos. "O Brasil acabou dando uma audiência excessiva que nenhuma democracia ocidental deu ao Irã", afirmou. Na sua avaliação, é recomendável que o governo brasileiro fique em "compasso de espera" sobre o desenrolar das decisões do Irã e que mantenha a pressão sobre o país.
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segunda-feira, 24 de maio de 2010
Os desafios dos candidatos - Gaudencio Torquato
Os três faróis do voto
Gaudêncio Torquato
O Estado de S.Paulo, 23 de maio de 2010
O que o eleitor leva mais em consideração na hora de votar: benefícios sociais e econômicos proporcionados por governos ou a trajetória de vida dos candidatos? Essa é a mais instigante questão no fórum de análises que se abre na presente quadra político-eleitoral. A interrogação acirra a polêmica que, a esta altura, se espraia por alas simpatizantes de candidatos, tendo como cerne os principais atores do pleito presidencial de outubro: José Serra, com densa experiência política e administrativa nas esferas federal, estadual e municipal; Dilma Rousseff, cuja identidade ganhou força na era Lula, mas sem nunca ter obtido um voto; e Marina Silva, com trajeto no Executivo e no Legislativo, encarnando a simbologia em defesa do meio ambiente. A última pesquisa Sensus traz uma pista para desvendar a dúvida, com as alternativas apresentadas aos eleitores: na hora de votar, 44% levarão em conta benefícios econômicos e sociais concedidos no governo Lula, enquanto 35% se deterão sobre o currículo dos candidatos.
A pequena diferença entre as porcentagens denota que os dois fatores serão fundamentais. A primeira leitura é a de que o eleitor tende a escolher ora degustando o menu econômico posto na mesa social, ora avaliando capacidades dos candidatos. Há, porém, uma teia que sugere bifurcações na tomada de decisão do eleitor. Os simpatizantes do fator econômico não votarão necessariamente na candidata situacionista, como se poderia aduzir, e parcela dos conjuntos que apontam como fator mais importante atributos do candidato poderá recusar o sufrágio no candidato oposicionista. Aliás, a pesquisa Sensus confirma a hipótese ao mostrar que 46% dos assistidos com o Bolsa-Família e o Primeiro Emprego (programas do governo) pretendem votar em Dilma e 33%, em Serra. As opções contidas na questão mexem com outros componentes do processo decisório, como condições do votante, geografia eleitoral, patronos e clima ambiental. Essas variáveis favorecem o voto à moda Frankenstein, mistura de uns com outros. Em muitos Estados, a esta altura, já se serve salada mista. Além disso, cada pleito tem seu caráter, uma identidade que o difere de outros. Não é razoável comparar o pleito deste ano com o de 2002. Naquele tempo, Fernando Henrique Cardoso tinha baixa avaliação. A cota de votos do Plano Real fora esgotada. Já as eleições deste ano, mesmo tirando Lula do cartaz, não afetam seu prestígio.
O prato econômico será o mais disputado na mesa eleitoral. Numa escala até 100, é razoável supor que lidere a medição com cerca de 40%. O empuxo gerado pela economia tem que ver com o instinto de sobrevivência do indivíduo. Para efeitos eleitorais, ele se apresenta na forma de vantagens econômicas e satisfações materiais, superação de dificuldades, ascensão de pessoas na escada social, conforto, harmonia doméstica e bem-estar geral. O voto que sai dessa equação recebe um selo de origem. É provável que habitantes do andar de baixo sejam mais generosos com perfis ligados aos benefícios econômicos, enquanto habitantes dos andares de cima, mais exigentes, podem puxar o voto do bolso para a cabeça. E esse voto consciente se expande pelos estratos médios das metrópoles e dos polos mais desenvolvidos. Distingue-se, portanto, a escolha racional da opção emotiva, sendo esta última comum no Nordeste. Aí, outro condicionante se soma à força do fator econômico: os senhores da política.
É bom lembrar que o voto, mesmo se afastando do grilhão dos caciques, ainda é influenciado por ele. Grandes bolsões eleitorais seguem o cabresto curto de chefões. Outro grupo frequenta a fila dos donos de fatias na administração pública, enquanto parcela ponderável, no pleito deste ano, seguirá o comando do mestre Lula. Essa parcela de votação colada ao mando é de aproximadamente 30% do eleitorado. Nessa área, o poder se reparte entre situação e oposição. E é nessa divisão que emerge a influência do maior senhor da política hoje, o cabo eleitoral Luiz Inácio. Desempenhará, seguramente, papel importante. Basta anotar a atual intenção de voto em Dilma, que vem por atração do ímã presidencial.
Definido o poderio exógeno, resta aos candidatos a força endógena, simbolizada por seu currículo. Na escala de pontuação, as qualidades individuais somam algo como 30%. Mas o acervo pessoal não terá força, quando considerado isoladamente, fora do contexto que o cerca. Daí por que os candidatos precisam inscrever seus relatos no livro de compromissos para o Brasil. Currículo espetacular precisa ser acompanhado de escopos interessantes. Da mesma forma, boas ideias só convencem quando a fonte é crível. Portanto, a química de resultados parte da relação intrínseca entre os elementos da composição. O que e como dizer uma proposta? Tecnicismo demais ou simplicidade de menos podem zerar o jogo. Arrumar uma semântica capaz de entrar na cachola do eleitor, sem se tornar demagogia, é um exercício que pode ser testado no intervalo que o País concederá aos candidatos por ocasião da Copa. Grande porção de ideias se perde. Pesquisas europeias mostram que apenas 7% do impacto do discurso depende do conteúdo, enquanto as comunicações não verbais são responsáveis por 93% da eficácia. Destas, 55% provêm de expressões faciais e 38%, de elementos paralinguísticos - voz, entonação, gestos e postura. Não por acaso, os candidatos começam a caprichar no aspecto visual.
Portanto, há desafios de monta a serem enfrentados pelos três principais atores. Dilma precisa demonstrar que, sem histórico eleitoral, tem competência para governar o Brasil. Serra deve convencer de que é o melhor para substituir Lula. Marina tem de sair da redoma ambiental e frequentar o fórum nacional de questões. A tentativa de cada um passará pelo túnel onde se encontram os três faróis que orientarão o voto: economia, patrocinadores e qualidades pessoais.
Da solução desta equação sairá o vencedor.
JORNALISTA, É PROFESSOR TITULAR DA USP E CONSULTOR POLÍTICO
Gaudêncio Torquato
O Estado de S.Paulo, 23 de maio de 2010
O que o eleitor leva mais em consideração na hora de votar: benefícios sociais e econômicos proporcionados por governos ou a trajetória de vida dos candidatos? Essa é a mais instigante questão no fórum de análises que se abre na presente quadra político-eleitoral. A interrogação acirra a polêmica que, a esta altura, se espraia por alas simpatizantes de candidatos, tendo como cerne os principais atores do pleito presidencial de outubro: José Serra, com densa experiência política e administrativa nas esferas federal, estadual e municipal; Dilma Rousseff, cuja identidade ganhou força na era Lula, mas sem nunca ter obtido um voto; e Marina Silva, com trajeto no Executivo e no Legislativo, encarnando a simbologia em defesa do meio ambiente. A última pesquisa Sensus traz uma pista para desvendar a dúvida, com as alternativas apresentadas aos eleitores: na hora de votar, 44% levarão em conta benefícios econômicos e sociais concedidos no governo Lula, enquanto 35% se deterão sobre o currículo dos candidatos.
A pequena diferença entre as porcentagens denota que os dois fatores serão fundamentais. A primeira leitura é a de que o eleitor tende a escolher ora degustando o menu econômico posto na mesa social, ora avaliando capacidades dos candidatos. Há, porém, uma teia que sugere bifurcações na tomada de decisão do eleitor. Os simpatizantes do fator econômico não votarão necessariamente na candidata situacionista, como se poderia aduzir, e parcela dos conjuntos que apontam como fator mais importante atributos do candidato poderá recusar o sufrágio no candidato oposicionista. Aliás, a pesquisa Sensus confirma a hipótese ao mostrar que 46% dos assistidos com o Bolsa-Família e o Primeiro Emprego (programas do governo) pretendem votar em Dilma e 33%, em Serra. As opções contidas na questão mexem com outros componentes do processo decisório, como condições do votante, geografia eleitoral, patronos e clima ambiental. Essas variáveis favorecem o voto à moda Frankenstein, mistura de uns com outros. Em muitos Estados, a esta altura, já se serve salada mista. Além disso, cada pleito tem seu caráter, uma identidade que o difere de outros. Não é razoável comparar o pleito deste ano com o de 2002. Naquele tempo, Fernando Henrique Cardoso tinha baixa avaliação. A cota de votos do Plano Real fora esgotada. Já as eleições deste ano, mesmo tirando Lula do cartaz, não afetam seu prestígio.
O prato econômico será o mais disputado na mesa eleitoral. Numa escala até 100, é razoável supor que lidere a medição com cerca de 40%. O empuxo gerado pela economia tem que ver com o instinto de sobrevivência do indivíduo. Para efeitos eleitorais, ele se apresenta na forma de vantagens econômicas e satisfações materiais, superação de dificuldades, ascensão de pessoas na escada social, conforto, harmonia doméstica e bem-estar geral. O voto que sai dessa equação recebe um selo de origem. É provável que habitantes do andar de baixo sejam mais generosos com perfis ligados aos benefícios econômicos, enquanto habitantes dos andares de cima, mais exigentes, podem puxar o voto do bolso para a cabeça. E esse voto consciente se expande pelos estratos médios das metrópoles e dos polos mais desenvolvidos. Distingue-se, portanto, a escolha racional da opção emotiva, sendo esta última comum no Nordeste. Aí, outro condicionante se soma à força do fator econômico: os senhores da política.
É bom lembrar que o voto, mesmo se afastando do grilhão dos caciques, ainda é influenciado por ele. Grandes bolsões eleitorais seguem o cabresto curto de chefões. Outro grupo frequenta a fila dos donos de fatias na administração pública, enquanto parcela ponderável, no pleito deste ano, seguirá o comando do mestre Lula. Essa parcela de votação colada ao mando é de aproximadamente 30% do eleitorado. Nessa área, o poder se reparte entre situação e oposição. E é nessa divisão que emerge a influência do maior senhor da política hoje, o cabo eleitoral Luiz Inácio. Desempenhará, seguramente, papel importante. Basta anotar a atual intenção de voto em Dilma, que vem por atração do ímã presidencial.
Definido o poderio exógeno, resta aos candidatos a força endógena, simbolizada por seu currículo. Na escala de pontuação, as qualidades individuais somam algo como 30%. Mas o acervo pessoal não terá força, quando considerado isoladamente, fora do contexto que o cerca. Daí por que os candidatos precisam inscrever seus relatos no livro de compromissos para o Brasil. Currículo espetacular precisa ser acompanhado de escopos interessantes. Da mesma forma, boas ideias só convencem quando a fonte é crível. Portanto, a química de resultados parte da relação intrínseca entre os elementos da composição. O que e como dizer uma proposta? Tecnicismo demais ou simplicidade de menos podem zerar o jogo. Arrumar uma semântica capaz de entrar na cachola do eleitor, sem se tornar demagogia, é um exercício que pode ser testado no intervalo que o País concederá aos candidatos por ocasião da Copa. Grande porção de ideias se perde. Pesquisas europeias mostram que apenas 7% do impacto do discurso depende do conteúdo, enquanto as comunicações não verbais são responsáveis por 93% da eficácia. Destas, 55% provêm de expressões faciais e 38%, de elementos paralinguísticos - voz, entonação, gestos e postura. Não por acaso, os candidatos começam a caprichar no aspecto visual.
Portanto, há desafios de monta a serem enfrentados pelos três principais atores. Dilma precisa demonstrar que, sem histórico eleitoral, tem competência para governar o Brasil. Serra deve convencer de que é o melhor para substituir Lula. Marina tem de sair da redoma ambiental e frequentar o fórum nacional de questões. A tentativa de cada um passará pelo túnel onde se encontram os três faróis que orientarão o voto: economia, patrocinadores e qualidades pessoais.
Da solução desta equação sairá o vencedor.
JORNALISTA, É PROFESSOR TITULAR DA USP E CONSULTOR POLÍTICO
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domingo, 23 de maio de 2010
Pesquisas eleitorais (23/05): Dilma sobe e empata com Serra
Dilma sobe e empata com Serra
Fernando Rodrigues
FOLHA DE S. PAULO, domingo, 23 de maio de 2010
A pré-candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, atingiu sua melhor marca até hoje numa pesquisa Datafolha e está empatada com seu concorrente direto, José Serra (PSDB). Ambos têm 37%, segundo levantamento nacional realizado ontem e anteontem. Na pesquisa anterior, feita em 15 e 16 de abril, Dilma tinha 30% - ou seja, a intenção de voto na petista subiu sete pontos.
Dilma sobe 7 pontos e empata com Serra, aponta Datafolha
Tucano cai 5 pontos desde levantamento de abril e ambos aparecem com 37%
Petista atinge melhor marca na série do instituto, lidera na espontânea e também registra empate no 2" turno; Marina se mantém com 12
BRASÍLIA - A pré-candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, atingiu sua melhor marca até hoje numa pesquisa Datafolha e está empatada com José Serra (PSDB). Ambos estão com 37%.
O levantamento foi realizado ontem e anteontem com 2.660 entrevistas.
A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos. Marina Silva (PV) aparece com 12%. Os que votam em branco, nulo ou em nenhum somam 5%. Indecisos são 9%. Na comparação com a última pesquisa Datafolha, realizada em 15 e 16 de abril, Dilma teve uma alta de sete pontos percentuais -de 30% para 37%. Já Serra caiu cinco pontos, saindo de 42% para os mesmos 37%.
Essa é a primeira vez que ambos aparecem empatados no Datafolha, que traz outros números positivos para a petista.
TV e Lula
"O principal fato que pode ser apontado como responsável por essa alta da candidata é o programa partidário de TV que o PT apresentou recentemente", diz Mauro Paulino, diretor-geral do Datafolha. Na semana passada, o PT foi à TV com vários comerciais de 30 segundos e com seu programa mais longo, de dez minutos. A estrela dessa investida de marketing foi Dilma Rousseff, com Lula como cabo eleitoral. Na pesquisa espontânea, quando os entrevistados não são apresentados a uma lista com os nomes dos candidatos, a curva da intenção de voto de Dilma continuou a descrever uma sólida curva ascendente. Ela tinha 8% em dezembro.
Em abril, estava com 13%. Agora, foi a 19% e está isolada em primeiro lugar. José Serra pontuou 14% -ele também vem subindo nesse quesito, mas em ritmo mais lento. Ainda na pesquisa espontânea, há também 5% que dizem ter intenção de votar em Lula , que não pode ser candidato. Outros 3% declarar querer votar no "candidato do Lula".
E 1% respondem "no PT" ou no "candidato do PT". Em tese, portanto, o potencial de voto espontâneo em Dilma pode ser de 28% -os seus 19% e mais outros 9% dos que desejam votar em Lula, em quem ele indicar ou em um nome apresentado pelo PT.
2º turno e rejeição
Quando são colocados na lista de candidatos os concorrentes de partidos pequenos, o cenário não se altera muito. Dilma e Serra continuam empatados, cada um com 36%. Marina tem 10%.
E só dois nanicos pontuam: José Maria Eymael (PSDC) e Zé Maria (PSTU). Dilma também colheu bom resultado na rejeição: seu índice caiu de 24% para 20% enquanto o de Serra subiu de 24% para 27%.
Marina também teve um resultado positivo, pois sua rejeição caiu de 20% para 14%. Na projeção de segundo turno, os dois estão tecnicamente empatados: a petista tem 46% contra 45% do tucano. Em abril, Serra aparecia dez pontos à frente da petista nesse quesito, com 50% a 40%.
Fernando Rodrigues
FOLHA DE S. PAULO, domingo, 23 de maio de 2010
A pré-candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, atingiu sua melhor marca até hoje numa pesquisa Datafolha e está empatada com seu concorrente direto, José Serra (PSDB). Ambos têm 37%, segundo levantamento nacional realizado ontem e anteontem. Na pesquisa anterior, feita em 15 e 16 de abril, Dilma tinha 30% - ou seja, a intenção de voto na petista subiu sete pontos.
Dilma sobe 7 pontos e empata com Serra, aponta Datafolha
Tucano cai 5 pontos desde levantamento de abril e ambos aparecem com 37%
Petista atinge melhor marca na série do instituto, lidera na espontânea e também registra empate no 2" turno; Marina se mantém com 12
BRASÍLIA - A pré-candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, atingiu sua melhor marca até hoje numa pesquisa Datafolha e está empatada com José Serra (PSDB). Ambos estão com 37%.
O levantamento foi realizado ontem e anteontem com 2.660 entrevistas.
A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos. Marina Silva (PV) aparece com 12%. Os que votam em branco, nulo ou em nenhum somam 5%. Indecisos são 9%. Na comparação com a última pesquisa Datafolha, realizada em 15 e 16 de abril, Dilma teve uma alta de sete pontos percentuais -de 30% para 37%. Já Serra caiu cinco pontos, saindo de 42% para os mesmos 37%.
Essa é a primeira vez que ambos aparecem empatados no Datafolha, que traz outros números positivos para a petista.
TV e Lula
"O principal fato que pode ser apontado como responsável por essa alta da candidata é o programa partidário de TV que o PT apresentou recentemente", diz Mauro Paulino, diretor-geral do Datafolha. Na semana passada, o PT foi à TV com vários comerciais de 30 segundos e com seu programa mais longo, de dez minutos. A estrela dessa investida de marketing foi Dilma Rousseff, com Lula como cabo eleitoral. Na pesquisa espontânea, quando os entrevistados não são apresentados a uma lista com os nomes dos candidatos, a curva da intenção de voto de Dilma continuou a descrever uma sólida curva ascendente. Ela tinha 8% em dezembro.
Em abril, estava com 13%. Agora, foi a 19% e está isolada em primeiro lugar. José Serra pontuou 14% -ele também vem subindo nesse quesito, mas em ritmo mais lento. Ainda na pesquisa espontânea, há também 5% que dizem ter intenção de votar em Lula , que não pode ser candidato. Outros 3% declarar querer votar no "candidato do Lula".
E 1% respondem "no PT" ou no "candidato do PT". Em tese, portanto, o potencial de voto espontâneo em Dilma pode ser de 28% -os seus 19% e mais outros 9% dos que desejam votar em Lula, em quem ele indicar ou em um nome apresentado pelo PT.
2º turno e rejeição
Quando são colocados na lista de candidatos os concorrentes de partidos pequenos, o cenário não se altera muito. Dilma e Serra continuam empatados, cada um com 36%. Marina tem 10%.
E só dois nanicos pontuam: José Maria Eymael (PSDC) e Zé Maria (PSTU). Dilma também colheu bom resultado na rejeição: seu índice caiu de 24% para 20% enquanto o de Serra subiu de 24% para 27%.
Marina também teve um resultado positivo, pois sua rejeição caiu de 20% para 14%. Na projeção de segundo turno, os dois estão tecnicamente empatados: a petista tem 46% contra 45% do tucano. Em abril, Serra aparecia dez pontos à frente da petista nesse quesito, com 50% a 40%.
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segunda-feira, 3 de maio de 2010
Saída de Ciro favorece Serra, mas só no início
Uma opinião provavelmente suspeita, pois que emanando de uma entidade sindical, notoriamente vinculada à CUT e ao PT, e portanto irremediavelmente simpática à candidatura oficial.
PRA.
Fórum - Eleições 2010
Saída de Ciro favorece Serra, mas só no início
Antônio Augusto de Queiroz *
Congresso em Foco, Segunda-Feira, 3 de Maio de 2010
“Eleitores de Ciro, por não saberem que Serra é do PSDB nem que Dilma é a candidata de Lula, optarão pelo nome mais conhecido, nas pesquisas de maio e talvez de junho. O PT terá de controlar a ansiedade e o salto alto”
O PT e o presidente Lula irão precisar de nervos de aço nos próximos meses, especialmente em maio, quando a tendência é que José Serra, beneficiado pela saída de Ciro, alargue sua vantagem nas pesquisas sobre Dilma. Será um período de transição de um a dois meses, mas logo a candidata do PT voltará a crescer.
O eventual crescimento do candidato do PSDB, com a transferência de votos num primeiro momento da maioria dos eleitores de Ciro, decorrerá, de um lado, da desinformação do eleitor sobre a candidata oficial, e, de outro, do fato de o nome de Serra ser mais familiar ao eleitor. Ou seja, boa parte dos eleitores de Ciro, por não saberem que Serra é do PSDB nem que Dilma é a candidata de Lula, optará pelo nome mais conhecido.
De fato, José Serra tem o nome mais conhecido e exposição positiva na mídia. Ele disputou a eleição presidencial em 2002, foi prefeito, governador, deputado federal e senador, enquanto Dilma só ganhou visibilidade no governo Lula e, com mais exposição, quando assumiu a chefia da Casa Civil, após a saída de José Dirceu em junho de 2005.
Nesse período, o fundamental para os aliados de Dilma será segurar a ansiedade, gerenciar expectativas, e controlar o salto alto do presidente, que precisa ser mais humilde, inclusive para que seu partido, o PT, também o seja. Se não forem prudentes, poderão colocar a eleição de Dilma em risco, porque a pressão psicológica será grande, com o crescimento do principal adversário nas pesquisas em maio e talvez em junho.
A explicação para o provável crescimento de Serra é razoavelmente simples. Segundo a última pesquisa Ibope, quando o nome de Ciro era excluído da lista de candidatos, a migração de seus votos para Dilma era de apenas 33%, enquanto para Serra era de 44%. Pela pesquisa Sensus, a migração era de somente 16% para Dilma e 41% para Serra.
Aqui cabe um parêntese para uma explicação. Como o PSDB acusou a pesquisa Sensus de manipular dados, vai voltar à carga nas próximas pesquisas dizendo que tinha razão, já que a diferença entre a última e a próxima pesquisa Sensus será grande. Mas isso será explicado pela transferência de voto do eleitor de Ciro para Serra, que, pela pesquisa Sensus, previa 41% contra apenas 16% para Dilma.
O segundo aspecto, da desinformação do eleitor, possui dupla dimensão. A primeira diz respeito ao eleitor de Ciro, que, segundo o Datafolha, está concentrado em mais de um terço no Nordeste, sendo 16% do total só no estado do Ceará, que é governado pelo irmão dele, Cid Gomes (PSB).
Ora, se Cid e Ciro apóiam Dilma, e Dilma é candidata de Lula, que é recordista de apoio no estado, como explicar que o eleitor dos dois primeiros vote em Serra, adversário político deles e do presidente Lula? Só a desinformação justifica. E isso pode ser e, certamente, será corrigido ao longo da campanha.
Uma informação relevante da última pesquisa Vox Populi, feita considerando a hipótese de Ciro fora da disputa, é que quando os eleitores sabem que Dilma é a candidata de Lula, ela ganha de Serra por 47% a 34% entre os eleitores do sexo masculino e de 42% a 33% entre as mulheres.
Como sem essa informação (Dilma candidata de Lula) Serra está à frente em todas as pesquisas, considerando ou não a candidatura Ciro, a conclusão a que se chega é que o problema é de desinformação. Estima-se que mais de 40% do eleitorado não sabe que Dilma é a candidata de Lula.
Eventuais oscilações favoráveis a Serra nas próximas pesquisas não podem ser vistas como algo definitivo. Portanto, não devem ser motivo de euforia do PSDB nem de desespero do PT. Os resultados dessas pesquisas podem, e tendem a ser, provisórios, já que poderão ser alterados quando corrigida a assimetria de informação entre os eleitores, o que será feito ao longo da campanha.
Assim, é preciso administrar as expectativas e ansiedades. O momento é de transição. E, nesses momentos, a prudência, o equilíbrio, e a humildade são os melhores conselheiros. A eleição só será decidida em outubro. Até lá, nervos de aço!
* Jornalista, analista político e diretor de documentação do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap).
PRA.
Fórum - Eleições 2010
Saída de Ciro favorece Serra, mas só no início
Antônio Augusto de Queiroz *
Congresso em Foco, Segunda-Feira, 3 de Maio de 2010
“Eleitores de Ciro, por não saberem que Serra é do PSDB nem que Dilma é a candidata de Lula, optarão pelo nome mais conhecido, nas pesquisas de maio e talvez de junho. O PT terá de controlar a ansiedade e o salto alto”
O PT e o presidente Lula irão precisar de nervos de aço nos próximos meses, especialmente em maio, quando a tendência é que José Serra, beneficiado pela saída de Ciro, alargue sua vantagem nas pesquisas sobre Dilma. Será um período de transição de um a dois meses, mas logo a candidata do PT voltará a crescer.
O eventual crescimento do candidato do PSDB, com a transferência de votos num primeiro momento da maioria dos eleitores de Ciro, decorrerá, de um lado, da desinformação do eleitor sobre a candidata oficial, e, de outro, do fato de o nome de Serra ser mais familiar ao eleitor. Ou seja, boa parte dos eleitores de Ciro, por não saberem que Serra é do PSDB nem que Dilma é a candidata de Lula, optará pelo nome mais conhecido.
De fato, José Serra tem o nome mais conhecido e exposição positiva na mídia. Ele disputou a eleição presidencial em 2002, foi prefeito, governador, deputado federal e senador, enquanto Dilma só ganhou visibilidade no governo Lula e, com mais exposição, quando assumiu a chefia da Casa Civil, após a saída de José Dirceu em junho de 2005.
Nesse período, o fundamental para os aliados de Dilma será segurar a ansiedade, gerenciar expectativas, e controlar o salto alto do presidente, que precisa ser mais humilde, inclusive para que seu partido, o PT, também o seja. Se não forem prudentes, poderão colocar a eleição de Dilma em risco, porque a pressão psicológica será grande, com o crescimento do principal adversário nas pesquisas em maio e talvez em junho.
A explicação para o provável crescimento de Serra é razoavelmente simples. Segundo a última pesquisa Ibope, quando o nome de Ciro era excluído da lista de candidatos, a migração de seus votos para Dilma era de apenas 33%, enquanto para Serra era de 44%. Pela pesquisa Sensus, a migração era de somente 16% para Dilma e 41% para Serra.
Aqui cabe um parêntese para uma explicação. Como o PSDB acusou a pesquisa Sensus de manipular dados, vai voltar à carga nas próximas pesquisas dizendo que tinha razão, já que a diferença entre a última e a próxima pesquisa Sensus será grande. Mas isso será explicado pela transferência de voto do eleitor de Ciro para Serra, que, pela pesquisa Sensus, previa 41% contra apenas 16% para Dilma.
O segundo aspecto, da desinformação do eleitor, possui dupla dimensão. A primeira diz respeito ao eleitor de Ciro, que, segundo o Datafolha, está concentrado em mais de um terço no Nordeste, sendo 16% do total só no estado do Ceará, que é governado pelo irmão dele, Cid Gomes (PSB).
Ora, se Cid e Ciro apóiam Dilma, e Dilma é candidata de Lula, que é recordista de apoio no estado, como explicar que o eleitor dos dois primeiros vote em Serra, adversário político deles e do presidente Lula? Só a desinformação justifica. E isso pode ser e, certamente, será corrigido ao longo da campanha.
Uma informação relevante da última pesquisa Vox Populi, feita considerando a hipótese de Ciro fora da disputa, é que quando os eleitores sabem que Dilma é a candidata de Lula, ela ganha de Serra por 47% a 34% entre os eleitores do sexo masculino e de 42% a 33% entre as mulheres.
Como sem essa informação (Dilma candidata de Lula) Serra está à frente em todas as pesquisas, considerando ou não a candidatura Ciro, a conclusão a que se chega é que o problema é de desinformação. Estima-se que mais de 40% do eleitorado não sabe que Dilma é a candidata de Lula.
Eventuais oscilações favoráveis a Serra nas próximas pesquisas não podem ser vistas como algo definitivo. Portanto, não devem ser motivo de euforia do PSDB nem de desespero do PT. Os resultados dessas pesquisas podem, e tendem a ser, provisórios, já que poderão ser alterados quando corrigida a assimetria de informação entre os eleitores, o que será feito ao longo da campanha.
Assim, é preciso administrar as expectativas e ansiedades. O momento é de transição. E, nesses momentos, a prudência, o equilíbrio, e a humildade são os melhores conselheiros. A eleição só será decidida em outubro. Até lá, nervos de aço!
* Jornalista, analista político e diretor de documentação do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap).
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sexta-feira, 30 de abril de 2010
433) Ops, interrompemos momentaneamente a programacao,...
Desastres na estratégia de marketing da candidatura oficial. Ou os meios são totalmente inadequados, ou o produto é muito ruim...
Da coluna diária do ex-prefeito Cesar Maia (30.04.2010):
MUDA TUDO NA CAMPANHA DO PT!
(Radar Online - Veja) João Santana, o marqueteiro do PT, teve seu papel reduzido a produtor dos programas de televisão no horário político que começa em agosto. O comando da comunicação foi entregue ao deputado estadual e jornalista Rui Falcão (PT-SP), que está montando uma superestrutura em Brasília e São Paulo, com dezenas de profissionais renomados já contratados nas diferentes áreas. - O comando político da campanha está dividido entre o presidente nacional do PT, José Eduardo Dutra, o ex-prefeito mineiro Fernando Pimentel, e os deputados federais paulistas Antonio Palocci e José Eduardo Cardoso, que nem sempre falam a mesma língua. Kotscho é rigoroso: - Dilma ainda não conseguiu se livrar do figurino e da linguagem de tecnocrata, (está) pouco à vontade no papel de candidata.
Da coluna diária do ex-prefeito Cesar Maia (30.04.2010):
MUDA TUDO NA CAMPANHA DO PT!
(Radar Online - Veja) João Santana, o marqueteiro do PT, teve seu papel reduzido a produtor dos programas de televisão no horário político que começa em agosto. O comando da comunicação foi entregue ao deputado estadual e jornalista Rui Falcão (PT-SP), que está montando uma superestrutura em Brasília e São Paulo, com dezenas de profissionais renomados já contratados nas diferentes áreas. - O comando político da campanha está dividido entre o presidente nacional do PT, José Eduardo Dutra, o ex-prefeito mineiro Fernando Pimentel, e os deputados federais paulistas Antonio Palocci e José Eduardo Cardoso, que nem sempre falam a mesma língua. Kotscho é rigoroso: - Dilma ainda não conseguiu se livrar do figurino e da linguagem de tecnocrata, (está) pouco à vontade no papel de candidata.
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quarta-feira, 21 de abril de 2010
414) Estrategias eleitorais: a de Dilma e a de Serra
O jogo bruto da candidata
Editorial O Estado de São Paulo
Quarta-feira, 21 de abril de 2010
Bastaram uns poucos dias do que à legislação eleitoral brasileira apraz qualificar como “pré-campanha” para que a “pré-candidata” Dilma Rousseff deixasse claro como pretende tratar o seu adversário José Serra. Por razões de formação, temperamento e interesse, ela precisa fazer dele um inimigo inconfundivelmente identificado, contra quem, em consequência, possa mover uma guerra sem quartel. As reações agressivas da petista aos primeiros comentários do tucano sobre o governo Lula vêm de uma concepção de combate político fundada na ideia de que os argumentos do outro, não podendo ser ignorados, devem ser convertidos em armas para silenciá-lo e, no limite, aniquilá-lo.
O rombudo estilo pessoal da ex-ministra combina com a tática de terra arrasada que vem adotando. E essa é inseparável da estratégia ditada por Lula de confinar a competição pelo Planalto a um plebiscito ou, como se diz em dialeto petista, a um enfrentamento entre “nós e eles”. O Serra de verdade se apresenta como candidato do que se pode chamar “continuança” - um híbrido da continuidade com a mudança. Por isso fala em “fazer mais”, não em “fazer o oposto”. O mote não deriva apenas da avaliação realista de que investir contra um presidente que flutua nas nuvens da popularidade é suicídio político. Resulta também da convicção de que o Brasil avançou em muitos aspectos por ter Lula sabido usar e expandir a “herança maldita” que lhe tocou.
Mas este Serra - tão à vontade ao elogiar o Bolsa-Família quanto ao criticar o PAC como “uma lista de obras”, a maioria das quais “não foi feita” - não se encaixa no papel que o outro lado gostaria que ele desempenhasse. É muito equilíbrio e maturidade para o populismo plebiscitário de Lula, e desconcertante demais para o raciocínio binário da sua escolhida. Eleitoralmente pode ser um perigo: quando, além disso, o ex-governador ainda contrapuser ao “nós e eles” do presidente uma espécie de “eu e ela”, jogando a cartada de sua experiência contra o noviciado da rival, isso decerto afetará a transposição de votos do patrono para a apadrinhada.
Se é esperado que uma parcela do eleitorado votará em Dilma apenas por ela ser “a mulher do Lula”, outra poderá preferir Serra por ver nele o continuador mais capaz da obra do presidente. Eis por que não é de excluir que a mão pesada da candidata se volte contra si mesma. Não está escrito nas estrelas que o povo responderá amém sempre que ela estigmatizar o oponente como “lobo em pele de cordeiro”, cercado de “exterminadores do futuro”, para neutralizar o seu reconhecimento do que ele entende ser as conquistas da era Lula. Ou quando o chamar, depreciativamente, “biruta de aeroporto”, por ele não fazer o que o PT necessita que faça: atacar em bloco o desempenho do primeiro-companheiro, em vez de separar o joio do trigo.
Já se disse que Serra perdeu para Lula em 2002 porque o tucano representava a continuidade quando o povo queria a mudança. Agora, quando povo quer a continuidade, Lula pretende a todo custo pespegar em Serra a falsa imagem do carbonário que ele próprio foi outrora: contra “tudo isso que está aí”. O problema petista é fazer o rótulo colar. (O de Serra, vender a sua continuança.) É um engano preconceituoso achar que a maioria dos eleitores quer ver sangue na campanha. Quer, isso sim, saber quem é quem, em quem pode confiar mais e quem está mais preparado para fazer o que todos prometem - porque não há, no Brasil de hoje, roteiros antagônicos dos caminhos para o desenvolvimento econômico e o progresso social.
Os políticos que entendem de voto sabem que ataques como os que Dilma tem desferido contra Serra podem ricochetear na candidata que irá às urnas pela primeira vez na vida. Não terá sido por outro motivo que Michel Temer, seu provável companheiro de chapa, apressou-se a defender “um grande debate em torno dos problemas do País, não no nível das questões pessoais”. Ora, o jogo bruto de Dilma é precisamente interditar esse debate, apelando para estocadas pessoais e a invencionice de que Serra é o anti-Lula.
Editorial O Estado de São Paulo
Quarta-feira, 21 de abril de 2010
Bastaram uns poucos dias do que à legislação eleitoral brasileira apraz qualificar como “pré-campanha” para que a “pré-candidata” Dilma Rousseff deixasse claro como pretende tratar o seu adversário José Serra. Por razões de formação, temperamento e interesse, ela precisa fazer dele um inimigo inconfundivelmente identificado, contra quem, em consequência, possa mover uma guerra sem quartel. As reações agressivas da petista aos primeiros comentários do tucano sobre o governo Lula vêm de uma concepção de combate político fundada na ideia de que os argumentos do outro, não podendo ser ignorados, devem ser convertidos em armas para silenciá-lo e, no limite, aniquilá-lo.
O rombudo estilo pessoal da ex-ministra combina com a tática de terra arrasada que vem adotando. E essa é inseparável da estratégia ditada por Lula de confinar a competição pelo Planalto a um plebiscito ou, como se diz em dialeto petista, a um enfrentamento entre “nós e eles”. O Serra de verdade se apresenta como candidato do que se pode chamar “continuança” - um híbrido da continuidade com a mudança. Por isso fala em “fazer mais”, não em “fazer o oposto”. O mote não deriva apenas da avaliação realista de que investir contra um presidente que flutua nas nuvens da popularidade é suicídio político. Resulta também da convicção de que o Brasil avançou em muitos aspectos por ter Lula sabido usar e expandir a “herança maldita” que lhe tocou.
Mas este Serra - tão à vontade ao elogiar o Bolsa-Família quanto ao criticar o PAC como “uma lista de obras”, a maioria das quais “não foi feita” - não se encaixa no papel que o outro lado gostaria que ele desempenhasse. É muito equilíbrio e maturidade para o populismo plebiscitário de Lula, e desconcertante demais para o raciocínio binário da sua escolhida. Eleitoralmente pode ser um perigo: quando, além disso, o ex-governador ainda contrapuser ao “nós e eles” do presidente uma espécie de “eu e ela”, jogando a cartada de sua experiência contra o noviciado da rival, isso decerto afetará a transposição de votos do patrono para a apadrinhada.
Se é esperado que uma parcela do eleitorado votará em Dilma apenas por ela ser “a mulher do Lula”, outra poderá preferir Serra por ver nele o continuador mais capaz da obra do presidente. Eis por que não é de excluir que a mão pesada da candidata se volte contra si mesma. Não está escrito nas estrelas que o povo responderá amém sempre que ela estigmatizar o oponente como “lobo em pele de cordeiro”, cercado de “exterminadores do futuro”, para neutralizar o seu reconhecimento do que ele entende ser as conquistas da era Lula. Ou quando o chamar, depreciativamente, “biruta de aeroporto”, por ele não fazer o que o PT necessita que faça: atacar em bloco o desempenho do primeiro-companheiro, em vez de separar o joio do trigo.
Já se disse que Serra perdeu para Lula em 2002 porque o tucano representava a continuidade quando o povo queria a mudança. Agora, quando povo quer a continuidade, Lula pretende a todo custo pespegar em Serra a falsa imagem do carbonário que ele próprio foi outrora: contra “tudo isso que está aí”. O problema petista é fazer o rótulo colar. (O de Serra, vender a sua continuança.) É um engano preconceituoso achar que a maioria dos eleitores quer ver sangue na campanha. Quer, isso sim, saber quem é quem, em quem pode confiar mais e quem está mais preparado para fazer o que todos prometem - porque não há, no Brasil de hoje, roteiros antagônicos dos caminhos para o desenvolvimento econômico e o progresso social.
Os políticos que entendem de voto sabem que ataques como os que Dilma tem desferido contra Serra podem ricochetear na candidata que irá às urnas pela primeira vez na vida. Não terá sido por outro motivo que Michel Temer, seu provável companheiro de chapa, apressou-se a defender “um grande debate em torno dos problemas do País, não no nível das questões pessoais”. Ora, o jogo bruto de Dilma é precisamente interditar esse debate, apelando para estocadas pessoais e a invencionice de que Serra é o anti-Lula.
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segunda-feira, 19 de abril de 2010
408) Um artigo da candidata oficial - Veja
Artigo • Dilma Rousseff
Compromisso com o futuro
Revista Veja, edição 2161 - 21 de abril de 2010
"Se você acha que a educação é cara, tenha a coragem de experimentar a ignorância."
Derek Bok
"A revolução na educação brasileira não está marcada para começar no ano que vem. Começou com Lula, a partir de tudo o que havia sido construído antes dele"
Dilma Rousseff é candidata do PT à Presidência da República
Protagonista de um extraordinário enredo de progresso e amadurecimento, o Brasil está diante de um desafio imposto a poucos países. Manter a rota virtuosa traçada nos últimos anos ou pôr um freio às recentes conquistas sociais e econômicas? Promover o salto ainda maior, esperado por uma população que voltou a sonhar alto, ou retroceder aos passos lentos e sofríveis das duas décadas anteriores? Os que me conhecem sabem que, diante dessas indagações, eu fico com as primeiras respostas.
Não se trata de ver o país como uma escala binária entre o certo e o errado, entre o bom e o mau, entre o bonito e o feio. Trata-se de reconhecer a vitalidade de um momento definidor dos rumos do Brasil. Há vinte anos batendo às portas do clube dos países desenvolvidos, estamos a um passo de atravessar o seu umbral. Com estabilidade. Sem sobressaltos.
Poucas nações tiveram a oportunidade posta à disposição do Brasil. Estamos diante de uma versão nacional do Tratado de Kanagawa, firmado entre Japão e Estados Unidos, em 1854, que permitiu aos japoneses iniciar a grande virada em sua industrialização. Ou algo como a etapa seguinte à Guerra da Secessão nos Estados Unidos, quando norte-americanos se viram sob o acúmulo crescente de capital, expansão territorial e revolução nos transportes, a ponto de ultrapassarem os britânicos como a maior economia mundial. Talvez haja semelhança com o passo fundamental das reformas chinesas, iniciadas ao fim da década de 1970 por Deng Xiaoping, que impulsionaram a arrancada capaz de trazer à China a marca do gigante.
"Estamos diante de uma versão nacional do Tratado de Kanagawa, de 1854, que permitiu aos japoneses iniciar a grande virada em sua industrialização. Ou algo como a etapa seguinte à Guerra da Secessão nos Estados Unidos, quando norte-americanos se viram sob o acúmulo crescente de capital, expansão territorial e revolução nos transportes"
Resguardadas as circunstâncias históricas específicas de cada trajetória de desenvolvimento, o Brasil vive o seu momento. Sem se resignar à condição de cópia melhorada, mera reprodução de modelos importados, está construindo sua própria história, a partir das suas necessidades, singularidades e esperanças. Buscamos enterrar, de uma vez por todas, uma marca que se repetia de maneira exasperante: a enorme distância entre o falar e o fazer, entre o discurso e a realidade.
A gigantesca incorporação de grandes contingentes do povo ao mercado de consumo, por via do controle da inflação, das políticas sociais agressivas e da distribuição de renda, mostra que é hora de deixar o passado onde ele deve estar: para trás. Do mesmo modo, pode-se citar o fato de que, no governo Lula, do qual fiz parte, com muito orgulho, o Brasil rompeu a rotina histórica segundo a qual os países subdesenvolvidos e em desenvolvimento crescerão quando crescerem os países ricos, e entrarão em crise junto com eles. Fomos os últimos a trafegar pelo terreno pantanoso da crise financeira internacional, e os primeiros a atravessá-lo. Repita-se: com estabilidade e sem sobressaltos. E sempre sob a proteção visível da democracia.
Não é boa política ignorar o passado. É preciso coragem para voltar os olhos aos erros cometidos, a fim de evitá-los no futuro. É assim que se constrói algo novo. Políticos que têm legítima ambição de chegar ao poder não podem fingir que caíram de paraquedas no meio da refrega. Como se não tivessem pisado em outros tapetes. Devem, contudo, uma vez esclarecido o que fizeram ou deixaram de fazer em suas trajetórias, voltar-se para o futuro e oferecer propostas ao julgamento do eleitor.
O Brasil é um país sedento de novas ideias, ávido por políticas públicas inovadoras que atendam às suas maiores carências. Quem aspira ao poder deve exibi-las, desde já, em vez de se preocupar apenas em depreciar o que está sendo feito. O salto para o futuro, em construção no presente, exige que se desatem alguns nós que nos prendem ao passado. Não há exemplo mais importante dessa imposição do que o caráter indispensável, fundamental, de uma educação de qualidade.
A educação é um dos gargalos para o desenvolvimento sustentado e para a elevação definitiva do padrão de vida dos brasileiros. O Brasil tem pressa. Enfrentará em breve – e nesse assunto não medimos o tempo por décadas ou anos, mas por meses – os desafios da sociedade do conhecimento. Precisa superar um atraso de raiz secular e, ao mesmo tempo, saltar para um futuro de acesso pleno, democrático, popular, à educação, ao ensino, à informação. Com rapidez. Sem pestanejar.
O governo Lula lançou as bases para essa nova etapa do desenvolvimento brasileiro. Retirou a política educacional de um estado de lassidão e a levou a uma mudança de paradigma. Ainda que se deva reconhecer que no governo anterior houve significativo investimento no aumento da escolaridade, no incremento do número de matrículas e na efetiva implantação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação, na virada do milênio esses acertos se mostraram escassos para a exigência da nação. Houve negligência em relação ao ensino médio, estagnação do ensino técnico, paralisia das universidades públicas – com a duvidosa contrapartida de uma concepção privatista da educação, estimulando a criação desenfreada de escolas e faculdades particulares.
Lula reconstruiu a gestão da educação brasileira. Corrigiu a política da indiferença e estabeleceu novas prioridades – menos teóricas do que práticas, realizadas de fato ao longo de seu governo: uma política integrada de ensino, da creche à universidade; universalização da educação básica de qualidade; democratização do acesso ao ensino; garantia de permanência dos alunos na escola; superação da exclusão por classe social, etnia ou gênero; fortalecimento da relação do ensino com o trabalho; e, por último, mas, no entanto, mais importante, valorização dos profissionais da educação.
"A gigantesca incorporação de grandes contingentes do povo ao mercado de consumo, por via do controle da inflação, das políticas sociais agressivas e da distribuição de renda, mostra que é hora de deixar o passado onde ele deve estar: para trás"
A revolução na educação brasileira não está marcada para começar no ano que vem. Começou com Lula, a partir de tudo o que havia sido construído antes dele, e a despeito de tudo o que se deixou de fazer antes que ele chegasse à Presidência. Política educacional – boa ou má – demora a mostrar resultados, e não pode ser feita aos soluços, mas como processo, caminhada constante. O espaço deste artigo, mesmo que generoso, não é suficiente para enumerar o que se fez nos últimos sete anos pela educação. A campanha eleitoral oferecerá o tempo necessário. O mais oportuno, aqui, é falar do próximo grande passo. O pulo do gato, talvez. O movimento que pode significar a diferença entre um salto para o futuro e uma volta à estagnação.
Assegurada a continuação das mudanças implantadas por Lula, a revolução evoluirá naturalmente para a ampla democracia no acesso à informação, à tecnologia, à cultura e, para usar a expressão mais contemporânea que resume tudo isso, ao conhecimento. O próximo grande passo é o pleno direito popular de acesso à internet em alta velocidade. Quanto maior a capacidade de um povo de processar informações complexas, mais conhecimento, riqueza e poder esse povo terá. A inclusão digital é uma exigência econômica, social e cultural, imprescindível para a competição entre os países e para as necessidades dos cidadãos.
Há enormes desigualdades a vencer nesse campo. Tão acentuadas ou até maiores que as que separam os brasileiros pobres e ricos em outros ramos de atividade. Mas nós temos um compromisso: superar a exclusão digital e, já numa primeira etapa, democratizar e universalizar o uso da internet de maneira massiva nas escolas públicas de todo o país. Nós temos os meios e os recursos para promover a revolução digital na educação. Teremos, inclusive, amparo legislativo, com uma lei, de autoria do senador do meu partido, Aloizio Mercadante, que prevê o uso intensivo de banda larga e a produção de material didático digitalizado em todas as escolas públicas.
Não vai demorar muito para que o Brasil seja, também, um país democrático quanto ao acesso pleno à informação. Essa revolução já começou nas escolas. E levará sua riqueza para todos os professores e estudantes do país.
Compromisso com o futuro
Revista Veja, edição 2161 - 21 de abril de 2010
"Se você acha que a educação é cara, tenha a coragem de experimentar a ignorância."
Derek Bok
"A revolução na educação brasileira não está marcada para começar no ano que vem. Começou com Lula, a partir de tudo o que havia sido construído antes dele"
Dilma Rousseff é candidata do PT à Presidência da República
Protagonista de um extraordinário enredo de progresso e amadurecimento, o Brasil está diante de um desafio imposto a poucos países. Manter a rota virtuosa traçada nos últimos anos ou pôr um freio às recentes conquistas sociais e econômicas? Promover o salto ainda maior, esperado por uma população que voltou a sonhar alto, ou retroceder aos passos lentos e sofríveis das duas décadas anteriores? Os que me conhecem sabem que, diante dessas indagações, eu fico com as primeiras respostas.
Não se trata de ver o país como uma escala binária entre o certo e o errado, entre o bom e o mau, entre o bonito e o feio. Trata-se de reconhecer a vitalidade de um momento definidor dos rumos do Brasil. Há vinte anos batendo às portas do clube dos países desenvolvidos, estamos a um passo de atravessar o seu umbral. Com estabilidade. Sem sobressaltos.
Poucas nações tiveram a oportunidade posta à disposição do Brasil. Estamos diante de uma versão nacional do Tratado de Kanagawa, firmado entre Japão e Estados Unidos, em 1854, que permitiu aos japoneses iniciar a grande virada em sua industrialização. Ou algo como a etapa seguinte à Guerra da Secessão nos Estados Unidos, quando norte-americanos se viram sob o acúmulo crescente de capital, expansão territorial e revolução nos transportes, a ponto de ultrapassarem os britânicos como a maior economia mundial. Talvez haja semelhança com o passo fundamental das reformas chinesas, iniciadas ao fim da década de 1970 por Deng Xiaoping, que impulsionaram a arrancada capaz de trazer à China a marca do gigante.
"Estamos diante de uma versão nacional do Tratado de Kanagawa, de 1854, que permitiu aos japoneses iniciar a grande virada em sua industrialização. Ou algo como a etapa seguinte à Guerra da Secessão nos Estados Unidos, quando norte-americanos se viram sob o acúmulo crescente de capital, expansão territorial e revolução nos transportes"
Resguardadas as circunstâncias históricas específicas de cada trajetória de desenvolvimento, o Brasil vive o seu momento. Sem se resignar à condição de cópia melhorada, mera reprodução de modelos importados, está construindo sua própria história, a partir das suas necessidades, singularidades e esperanças. Buscamos enterrar, de uma vez por todas, uma marca que se repetia de maneira exasperante: a enorme distância entre o falar e o fazer, entre o discurso e a realidade.
A gigantesca incorporação de grandes contingentes do povo ao mercado de consumo, por via do controle da inflação, das políticas sociais agressivas e da distribuição de renda, mostra que é hora de deixar o passado onde ele deve estar: para trás. Do mesmo modo, pode-se citar o fato de que, no governo Lula, do qual fiz parte, com muito orgulho, o Brasil rompeu a rotina histórica segundo a qual os países subdesenvolvidos e em desenvolvimento crescerão quando crescerem os países ricos, e entrarão em crise junto com eles. Fomos os últimos a trafegar pelo terreno pantanoso da crise financeira internacional, e os primeiros a atravessá-lo. Repita-se: com estabilidade e sem sobressaltos. E sempre sob a proteção visível da democracia.
Não é boa política ignorar o passado. É preciso coragem para voltar os olhos aos erros cometidos, a fim de evitá-los no futuro. É assim que se constrói algo novo. Políticos que têm legítima ambição de chegar ao poder não podem fingir que caíram de paraquedas no meio da refrega. Como se não tivessem pisado em outros tapetes. Devem, contudo, uma vez esclarecido o que fizeram ou deixaram de fazer em suas trajetórias, voltar-se para o futuro e oferecer propostas ao julgamento do eleitor.
O Brasil é um país sedento de novas ideias, ávido por políticas públicas inovadoras que atendam às suas maiores carências. Quem aspira ao poder deve exibi-las, desde já, em vez de se preocupar apenas em depreciar o que está sendo feito. O salto para o futuro, em construção no presente, exige que se desatem alguns nós que nos prendem ao passado. Não há exemplo mais importante dessa imposição do que o caráter indispensável, fundamental, de uma educação de qualidade.
A educação é um dos gargalos para o desenvolvimento sustentado e para a elevação definitiva do padrão de vida dos brasileiros. O Brasil tem pressa. Enfrentará em breve – e nesse assunto não medimos o tempo por décadas ou anos, mas por meses – os desafios da sociedade do conhecimento. Precisa superar um atraso de raiz secular e, ao mesmo tempo, saltar para um futuro de acesso pleno, democrático, popular, à educação, ao ensino, à informação. Com rapidez. Sem pestanejar.
O governo Lula lançou as bases para essa nova etapa do desenvolvimento brasileiro. Retirou a política educacional de um estado de lassidão e a levou a uma mudança de paradigma. Ainda que se deva reconhecer que no governo anterior houve significativo investimento no aumento da escolaridade, no incremento do número de matrículas e na efetiva implantação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação, na virada do milênio esses acertos se mostraram escassos para a exigência da nação. Houve negligência em relação ao ensino médio, estagnação do ensino técnico, paralisia das universidades públicas – com a duvidosa contrapartida de uma concepção privatista da educação, estimulando a criação desenfreada de escolas e faculdades particulares.
Lula reconstruiu a gestão da educação brasileira. Corrigiu a política da indiferença e estabeleceu novas prioridades – menos teóricas do que práticas, realizadas de fato ao longo de seu governo: uma política integrada de ensino, da creche à universidade; universalização da educação básica de qualidade; democratização do acesso ao ensino; garantia de permanência dos alunos na escola; superação da exclusão por classe social, etnia ou gênero; fortalecimento da relação do ensino com o trabalho; e, por último, mas, no entanto, mais importante, valorização dos profissionais da educação.
"A gigantesca incorporação de grandes contingentes do povo ao mercado de consumo, por via do controle da inflação, das políticas sociais agressivas e da distribuição de renda, mostra que é hora de deixar o passado onde ele deve estar: para trás"
A revolução na educação brasileira não está marcada para começar no ano que vem. Começou com Lula, a partir de tudo o que havia sido construído antes dele, e a despeito de tudo o que se deixou de fazer antes que ele chegasse à Presidência. Política educacional – boa ou má – demora a mostrar resultados, e não pode ser feita aos soluços, mas como processo, caminhada constante. O espaço deste artigo, mesmo que generoso, não é suficiente para enumerar o que se fez nos últimos sete anos pela educação. A campanha eleitoral oferecerá o tempo necessário. O mais oportuno, aqui, é falar do próximo grande passo. O pulo do gato, talvez. O movimento que pode significar a diferença entre um salto para o futuro e uma volta à estagnação.
Assegurada a continuação das mudanças implantadas por Lula, a revolução evoluirá naturalmente para a ampla democracia no acesso à informação, à tecnologia, à cultura e, para usar a expressão mais contemporânea que resume tudo isso, ao conhecimento. O próximo grande passo é o pleno direito popular de acesso à internet em alta velocidade. Quanto maior a capacidade de um povo de processar informações complexas, mais conhecimento, riqueza e poder esse povo terá. A inclusão digital é uma exigência econômica, social e cultural, imprescindível para a competição entre os países e para as necessidades dos cidadãos.
Há enormes desigualdades a vencer nesse campo. Tão acentuadas ou até maiores que as que separam os brasileiros pobres e ricos em outros ramos de atividade. Mas nós temos um compromisso: superar a exclusão digital e, já numa primeira etapa, democratizar e universalizar o uso da internet de maneira massiva nas escolas públicas de todo o país. Nós temos os meios e os recursos para promover a revolução digital na educação. Teremos, inclusive, amparo legislativo, com uma lei, de autoria do senador do meu partido, Aloizio Mercadante, que prevê o uso intensivo de banda larga e a produção de material didático digitalizado em todas as escolas públicas.
Não vai demorar muito para que o Brasil seja, também, um país democrático quanto ao acesso pleno à informação. Essa revolução já começou nas escolas. E levará sua riqueza para todos os professores e estudantes do país.
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domingo, 18 de abril de 2010
407) Triste Fim de Ciro Policarpo Gomes Quaresma: um ingenuo ou um trapalhao
CIRO EM SEU LABIRINTO
Reinaldo Azevedo, 18.04.2010
O deputado ex-cearense Ciro Gomes (PSB), agora com domicílio eleitoral em São Paulo, está magoado, sozinho e recluso, e quem faz a sua defesa púbica é a senadora Patrícia Saboya (PDT-CE), que já foi Gomes um dia. É sua ex-mulher. Acho que isso é um emblema do que Cecília Meireles chamou num poema “meu (dele) patético momento”. Antevi em detalhes o mico que ele pagaria. O arquivo está aí. Tem razões para estar chateado.
Ciro foi sempre tão fiel! Em vários momentos, comportou-se como um jagunço de Lula. Endossou o coro dos que afirmavam que acusar a existência do mensalão era coisa de golpistas e chegou a classificar de invenção da “imprensa paulista” o dossiê da Casa Civil, então chefiada por Dilma, contra FHC e Ruth Cardoso. Ciro queria ser o escolhido, o ungido. Foi esmagado. Está, tudo indica, à espera de um agrado de Lula. Triste desfecho para quem esperava ser seu sucessor.
Não tenho nenhuma simpatia por ele, como se nota. Mas nem por isso deixo de reconhecer que Lula não lhe dispensa um tratamento à altura da sua fidelidade. Ocorre que Lula não é fiel a ninguém. Já deixou companheiros de sindicato e de partido na chuva quando se provaram incômodos. Por que seria fiel a Ciro? Dilma Rousseff, como sabemos, não é exatamente jeitosa nesse negócio de política, é verdade. Ocorre que a sua viagem ao Ceará, por exemplo, não foi decisão pessoal, mas partidária.
Com um pouco mais de experiência, ela teria dito “não” à sugestão. Mas é quem é. E lá foi ela num ato de humilhação extrema ao aliado de todas as horas. O PT tripudiou de modo cruel sobre as pretensões de Ciro. Há coisa de dois anos, aparecia com cerca de 20% das intenções de voto. Ontem, o Datafolha lhe deu 9%.
Não tendo conseguido ser o candidato oficial — sua tola pretensão —, Ciro tentou provar a sua utilidade estratégica: entrar na disputa para “impedir a vitória da oposição”. Mas esse juízo se choca com a escolha tática de Lula: o plebiscito. Ficou sem lugar. E, se pensarmos um pouco nos motivos do presidente, não poderia ser diferente.
Se Lula cede a Ciro um pedaço da base para tornar viável a sua candidatura, haveria o risco de ele superar Dilma Rousseff no primeiro turno. Posso pensar o diabo a respeito do deputado do PSB, mas ele, como político, tem mais densidade do que ela. E partia de um patamar de votos muito superior. Fosse ele o “outro” candidato de Lula, estaria em segundo lugar. Neste ponto, o leitor pode perguntar: “Reinaldo, se é assim, então por que Lula não preferiu Ciro?”
Porque isso vai contra a natureza do PT. Há um bom tempo, ironizo aqui uma expressão de que Ciro vinha abusando: ele representaria uma “nova hegemonia política e intelectual” no país. Ele não deve saber o significado político da palavra “hegemonia”, que deve ter pescado num Gramsci mal lido. Ela não se estabelece por meio de homens, de indivíduos, de guerreiros, mas de um partido, de um ente que deve representar uma coletividade. Lula ser quem é, o demiurgo, não nos deve impedir de entender que ele representa um esquema gigantesco. Toda aquela bobajada autopromocional do presidente esconde uma máquina sindical e partidária infiltrada em todas as áreas do estado e da sociedade. “Hegemonia”, deputado Ciro Gomes, compreende uma guerra de valores, não de personalidades.
Ora, Ciro jamais seria um deles sem ser efetivamente um deles. O PT, já escrevi aqui, só aceita subordinados. Não quer nem mesmo parceiros. O PMDB tem conseguido alguns vitórias no embate direto. Mas quem fala é a máquina.
Tenho relatado aqui a longa biografia de “nãos” do PT, que Aécio Neves lembrou no dia 10, em Brasília, no lançamento da pré-candidatura de José Serra. Aquele “não” a Tancredo, por exemplo, era apenas mais um de muitos “nãos” ditos antes a outras forças que se opuseram ao regime militar. O partido não aceitou, é bom lembrar, compor com Leonel Brizola e Miguel Arraes. Em 1989, Lula rejeitou o apoio de Ulysses Guimarães — o Ulysses das Diretas e da Constituinte — no segundo turno das eleições presidenciais. Seus puxa-sacos na imprensa dizem que fez, depois, um mea-culpa. E daí?
São tantas as culpas do PT que ele poderia passar a vida se desdizendo. O partido não aceita participar de processos dos quais ele não possa ser a força — atenção, Ciro! — hegemônica. E só por isso tinha se negado a participar do Colégio Eleitoral. Não queria “endossar” Tancredo. E, por isso, não homologou a Constituição nem aceitou participar do governo Itamar Franco, declarando-se “na oposição”. ORA, OPOSIÇÃO A QUÊ? Nem governo havia! Tratava-se começar do zero. Por que o PT faria de Ciro um continuador de sua obra? Vênia máxima, deputado, é preciso ser meio bobo para acreditar nisso!
Ciro deveria fazer um exame de consciência e um mea culpa e voltar ao PSDB, sabendo, claro, que ele não poderá exterminar a seção paulista do partido. E também não conseguirá varrer São Paulo do mapa. Durante um bom tempo, o lulo-petismo abrigou a sua retórica preconceituosa contra os inimigos comuns. Ele só não percebeu que não era o PT que estava lhe sendo útil; ele é que estava sendo útil ao PT. O partido, nesses anos, só se fortaleceu. E ele foi ficando menor. Até chegar a este ponto: solitário e em silêncio humilhante.
Reinaldo Azevedo, 18.04.2010
O deputado ex-cearense Ciro Gomes (PSB), agora com domicílio eleitoral em São Paulo, está magoado, sozinho e recluso, e quem faz a sua defesa púbica é a senadora Patrícia Saboya (PDT-CE), que já foi Gomes um dia. É sua ex-mulher. Acho que isso é um emblema do que Cecília Meireles chamou num poema “meu (dele) patético momento”. Antevi em detalhes o mico que ele pagaria. O arquivo está aí. Tem razões para estar chateado.
Ciro foi sempre tão fiel! Em vários momentos, comportou-se como um jagunço de Lula. Endossou o coro dos que afirmavam que acusar a existência do mensalão era coisa de golpistas e chegou a classificar de invenção da “imprensa paulista” o dossiê da Casa Civil, então chefiada por Dilma, contra FHC e Ruth Cardoso. Ciro queria ser o escolhido, o ungido. Foi esmagado. Está, tudo indica, à espera de um agrado de Lula. Triste desfecho para quem esperava ser seu sucessor.
Não tenho nenhuma simpatia por ele, como se nota. Mas nem por isso deixo de reconhecer que Lula não lhe dispensa um tratamento à altura da sua fidelidade. Ocorre que Lula não é fiel a ninguém. Já deixou companheiros de sindicato e de partido na chuva quando se provaram incômodos. Por que seria fiel a Ciro? Dilma Rousseff, como sabemos, não é exatamente jeitosa nesse negócio de política, é verdade. Ocorre que a sua viagem ao Ceará, por exemplo, não foi decisão pessoal, mas partidária.
Com um pouco mais de experiência, ela teria dito “não” à sugestão. Mas é quem é. E lá foi ela num ato de humilhação extrema ao aliado de todas as horas. O PT tripudiou de modo cruel sobre as pretensões de Ciro. Há coisa de dois anos, aparecia com cerca de 20% das intenções de voto. Ontem, o Datafolha lhe deu 9%.
Não tendo conseguido ser o candidato oficial — sua tola pretensão —, Ciro tentou provar a sua utilidade estratégica: entrar na disputa para “impedir a vitória da oposição”. Mas esse juízo se choca com a escolha tática de Lula: o plebiscito. Ficou sem lugar. E, se pensarmos um pouco nos motivos do presidente, não poderia ser diferente.
Se Lula cede a Ciro um pedaço da base para tornar viável a sua candidatura, haveria o risco de ele superar Dilma Rousseff no primeiro turno. Posso pensar o diabo a respeito do deputado do PSB, mas ele, como político, tem mais densidade do que ela. E partia de um patamar de votos muito superior. Fosse ele o “outro” candidato de Lula, estaria em segundo lugar. Neste ponto, o leitor pode perguntar: “Reinaldo, se é assim, então por que Lula não preferiu Ciro?”
Porque isso vai contra a natureza do PT. Há um bom tempo, ironizo aqui uma expressão de que Ciro vinha abusando: ele representaria uma “nova hegemonia política e intelectual” no país. Ele não deve saber o significado político da palavra “hegemonia”, que deve ter pescado num Gramsci mal lido. Ela não se estabelece por meio de homens, de indivíduos, de guerreiros, mas de um partido, de um ente que deve representar uma coletividade. Lula ser quem é, o demiurgo, não nos deve impedir de entender que ele representa um esquema gigantesco. Toda aquela bobajada autopromocional do presidente esconde uma máquina sindical e partidária infiltrada em todas as áreas do estado e da sociedade. “Hegemonia”, deputado Ciro Gomes, compreende uma guerra de valores, não de personalidades.
Ora, Ciro jamais seria um deles sem ser efetivamente um deles. O PT, já escrevi aqui, só aceita subordinados. Não quer nem mesmo parceiros. O PMDB tem conseguido alguns vitórias no embate direto. Mas quem fala é a máquina.
Tenho relatado aqui a longa biografia de “nãos” do PT, que Aécio Neves lembrou no dia 10, em Brasília, no lançamento da pré-candidatura de José Serra. Aquele “não” a Tancredo, por exemplo, era apenas mais um de muitos “nãos” ditos antes a outras forças que se opuseram ao regime militar. O partido não aceitou, é bom lembrar, compor com Leonel Brizola e Miguel Arraes. Em 1989, Lula rejeitou o apoio de Ulysses Guimarães — o Ulysses das Diretas e da Constituinte — no segundo turno das eleições presidenciais. Seus puxa-sacos na imprensa dizem que fez, depois, um mea-culpa. E daí?
São tantas as culpas do PT que ele poderia passar a vida se desdizendo. O partido não aceita participar de processos dos quais ele não possa ser a força — atenção, Ciro! — hegemônica. E só por isso tinha se negado a participar do Colégio Eleitoral. Não queria “endossar” Tancredo. E, por isso, não homologou a Constituição nem aceitou participar do governo Itamar Franco, declarando-se “na oposição”. ORA, OPOSIÇÃO A QUÊ? Nem governo havia! Tratava-se começar do zero. Por que o PT faria de Ciro um continuador de sua obra? Vênia máxima, deputado, é preciso ser meio bobo para acreditar nisso!
Ciro deveria fazer um exame de consciência e um mea culpa e voltar ao PSDB, sabendo, claro, que ele não poderá exterminar a seção paulista do partido. E também não conseguirá varrer São Paulo do mapa. Durante um bom tempo, o lulo-petismo abrigou a sua retórica preconceituosa contra os inimigos comuns. Ele só não percebeu que não era o PT que estava lhe sendo útil; ele é que estava sendo útil ao PT. O partido, nesses anos, só se fortaleceu. E ele foi ficando menor. Até chegar a este ponto: solitário e em silêncio humilhante.
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quinta-feira, 8 de abril de 2010
376) Taticas eleitorais: o campo governista
SOBRE PETISTAS E LOBOS. OU: QUANDO DILMA TENTOU DERRUBAR PALOCCI, E ELE RECEBEU O APOIO DE TUCANOS E DEMOCRATAS
Reinaldo Azevedo
7 abril 2010
Dilma Rousseff, candidata do PT à Presidência, visitou ontem a cidade de Ouro Preto, em Minas, acompanhada de três pré-candidatos ao governo do Estado: os petistas Fernando Pimentel (que deve mesmo coordenar a sua campanha) e Patrus Ananias e o peemedebista Hélio Costa, que hoje lidera a bolsa de apostas para ser o nome do Planalto no estado. A candidata disse ser preferível um palanque único do governismo, mas que isso não se impõe etc e tal. E voltou com aquela sua metáfora de cordeiros e lobos: “Vou dizer quem são essas pessoas. Quem, da oposição, tentar agora passar como sucessor do presidente Lula, não sendo, é um lobo em pele de cordeiro. Aqueles que tentarem fingir que não divergiram do governo, que não têm projeto diferente, que não criticaram e não propuseram o fim de políticas de governo.” Sabem quem já “fingiu” no apoio ao governo? Dilma! Chego lá. Antes, outras coisinhas.
Essa é Dilma. Disse que iria dizer e não disse nada. Enrolou, com aquele seu português característico. Sua fala tem umas pausas muito particulares, como se o pensamento saísse perseguindo as palavras, de modo que há sempre uma espécie de descompasso rítmico nas suas sentenças. Mas, afinal, quem é que tenta “passar como sucessor do presidente Lula sem ser?”
Que se saiba, Lula ainda não tem sucessor. Será aquele que sair das urnas. Pode parecer bobagem, mas o ato falho é muito significativo. No fundo, Dilma acredita que Lula nomeia o seu continuador mais ou menos como um monarca absolutista poderia escolher quem vai ocupar o trono. A fala de Dilma só faria sentido se ela estivesse se referindo ao próprio PT — alguém que tomaria o lugar de Lula como comandante máximo do partido. Ali ele manda e desmanda. Mas isso está longe de acontecer.
Há algo até engraçado nisso tudo. O PT tem uma única estratégia: “Lula ou não-Lula”. Se os petistas forem malsucedidos em satanizar o candidato da oposição, as chances de Dilma diminuem drasticamente. Na dúvida entre uma de duas coisas contraditórias, ela escolhe as duas. E quais são elas?
1 - HIPÓTESE TERRORISTA - A oposição pretende acabar com tudo: PAC, Bolsa Família, ProUni, o Paraíso, a maçã, Adão e Eva…;
2 - HIPÓTESE DO FALSO CONTINUADOR - Nesse caso, o candidato de oposição, SEGUNDO DILMA, apresenta-se como seguidor de Lula.
Mas, afinal, Dilma pretende acusar José Serra de destruidor ou de continuador da obra de Lula? Ela ainda não sabe. Então fica nessa história de lobo em pele de cordeiro, que chamou de “imagem bíblica”. Dilma pertenceu a organizações terroristas no passado, mas jura que nunca participou de nenhuma ação armada nem matou ninguém. Agora sabemos o que fazia naquele tempo de Molipo, VPR, VAR-Palmares… Lia a Bíblia!
E foi no Livro, em Mateus 7,15, que aprendeu:”Guardai-vos dos falsos profetas, que vêm a vós com vestidos de ovelhas, e dentro são lobos roubadores”. Por isso ela resolveu dar atenção a um profeta verdadeiro: Carlos Lamarca! Lobo em pele de lobo!
Dilma é que tentou derrubar Palocci
Ora, investigue-se a fundo essa postura de Dilma. De fato, o que ela faz é criminalizar a política. A oposição estaria impedida de… se opor! E que se pergunte: quantas foram as vezes que os adversários de Lula inviabilizaram os seus projetos? A única derrota importante foi o fim da CPMF — garantido com votos da base governista. Durante um bom tempo, já tratei aqui do assunto, a verdadeira base de apoio de Lula-Palocci no Senado foi o… PSDB!!!
Políticos gostam de falar para desmemoriados. Mas eu não sou! Em 2005, Dilma Rousseff se alinhou com aqueles que queriam derrubar Antônio Palocci, então ministro da Fazenda - que, reitero, recebeu integral apoio de tucanos e pefelistas (hoje democratas). Leiam, se quiserem, reportagem da Folha intitulada Agora é Dilma quem combate Palocci, de 30 de outubro de 2005.
E a luta de Dilma foi longa. No dia 11 de novembro, a mesma Folha noticiava:
Em jantar com PMDB, Dilma “queima” rival
Na véspera de ouvir do presidente Luiz Inácio Lula da Silva que não desejava que divergências no governo se tornassem públicas, a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) voltou a criticar o colega da Fazenda, Antonio Palocci. Em jantar anteontem com a bancada do PMDB no Senado, disse que Palocci “só pensa em superávit primário” e não tem “criatividade e abertura” para discutir outra política econômica, segundo o relato de presentes ao encontro, no apartamento do líder do partido, Ney Suassuna (PB).
De acordo com Dilma, Palocci “sumiu das solenidades públicas” por causa das acusações de corrupção em sua gestão em Ribeirão Preto. “Não apareceu no encontro com o Bush [George W. Bush, presidente dos EUA que visitou Brasília no fim de semana]. Mais: Dilma afirmou ter “respaldo” do PT para “enfrentar” Palocci no debate sobre gastar mais (acelerar liberação de verbas) e pediu ajuda do PMDB para isso.
Disse ainda que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deveria se espelhar no antecessor Fernando Henrique Cardoso para se relacionar com o Congresso
(…)
No jantar, Dilma afirmou que pensou que, na Casa Civil, poderia debater economia com Palocci, mas ele “só fica com a avaliação do corpo técnico, fechado com a sua igrejinha”. Citou alguns auxiliares, como Jorge Rachid.
Dilma disse que, quando foi ministra das Minas e Energia, teve uma ousadia que Palocci não teria na Fazenda. Afirmou que enfrentou empresários, contrariou interesses e tentou “algo diferente”.
“Precisamos de mais encontros assim”, disse Dilma, que surpreendeu os peemedebistas pela franqueza. Dos 20 senadores do partido, apenas três não participaram do evento.
Voltei
Como se nota, essas histórias edificantes parecem ficar bem nas alegorias, bíblicas ou não, sobre lobos e cordeiros. O ambiente em que Dilma tentou dar uma rasteira em Palocci (o que só Francenildo conseguiria mais tarde, por “méritos” do então ministro) não se parecia muito com um convento, não é mesmo? Palocci é até hoje muito grato a senadores tucanos que lhe garantiram apoio integral.
Dilma diz que não está apostando no “bateu, levou” (até porque o outro lado está levando mesmo sem ter batido) e que insiste nas diferenças para distinguir “dois projetos”. Quais projetos? O dela talvez seja realizar os 89% do PAC que ficaram faltando, né? Essa história de “dois projetos” é só a volta ao monotema: a suposta disputa entre Lula e FHC - a disputa inexistente.
PS - O Palocci que ela tentou derrubar é agora um dos coordenadores de sua campanha. Qual é a função do ex-ministro? Sustentar que Dilma e “amiga” dos mercados, que não tem nada de radical, que é uma convertida e não faz mal! Ou seja: Palocci está aí para dar credibilidade à pele de cordeiro! Mas a patinha…
Reinaldo Azevedo
7 abril 2010
Dilma Rousseff, candidata do PT à Presidência, visitou ontem a cidade de Ouro Preto, em Minas, acompanhada de três pré-candidatos ao governo do Estado: os petistas Fernando Pimentel (que deve mesmo coordenar a sua campanha) e Patrus Ananias e o peemedebista Hélio Costa, que hoje lidera a bolsa de apostas para ser o nome do Planalto no estado. A candidata disse ser preferível um palanque único do governismo, mas que isso não se impõe etc e tal. E voltou com aquela sua metáfora de cordeiros e lobos: “Vou dizer quem são essas pessoas. Quem, da oposição, tentar agora passar como sucessor do presidente Lula, não sendo, é um lobo em pele de cordeiro. Aqueles que tentarem fingir que não divergiram do governo, que não têm projeto diferente, que não criticaram e não propuseram o fim de políticas de governo.” Sabem quem já “fingiu” no apoio ao governo? Dilma! Chego lá. Antes, outras coisinhas.
Essa é Dilma. Disse que iria dizer e não disse nada. Enrolou, com aquele seu português característico. Sua fala tem umas pausas muito particulares, como se o pensamento saísse perseguindo as palavras, de modo que há sempre uma espécie de descompasso rítmico nas suas sentenças. Mas, afinal, quem é que tenta “passar como sucessor do presidente Lula sem ser?”
Que se saiba, Lula ainda não tem sucessor. Será aquele que sair das urnas. Pode parecer bobagem, mas o ato falho é muito significativo. No fundo, Dilma acredita que Lula nomeia o seu continuador mais ou menos como um monarca absolutista poderia escolher quem vai ocupar o trono. A fala de Dilma só faria sentido se ela estivesse se referindo ao próprio PT — alguém que tomaria o lugar de Lula como comandante máximo do partido. Ali ele manda e desmanda. Mas isso está longe de acontecer.
Há algo até engraçado nisso tudo. O PT tem uma única estratégia: “Lula ou não-Lula”. Se os petistas forem malsucedidos em satanizar o candidato da oposição, as chances de Dilma diminuem drasticamente. Na dúvida entre uma de duas coisas contraditórias, ela escolhe as duas. E quais são elas?
1 - HIPÓTESE TERRORISTA - A oposição pretende acabar com tudo: PAC, Bolsa Família, ProUni, o Paraíso, a maçã, Adão e Eva…;
2 - HIPÓTESE DO FALSO CONTINUADOR - Nesse caso, o candidato de oposição, SEGUNDO DILMA, apresenta-se como seguidor de Lula.
Mas, afinal, Dilma pretende acusar José Serra de destruidor ou de continuador da obra de Lula? Ela ainda não sabe. Então fica nessa história de lobo em pele de cordeiro, que chamou de “imagem bíblica”. Dilma pertenceu a organizações terroristas no passado, mas jura que nunca participou de nenhuma ação armada nem matou ninguém. Agora sabemos o que fazia naquele tempo de Molipo, VPR, VAR-Palmares… Lia a Bíblia!
E foi no Livro, em Mateus 7,15, que aprendeu:”Guardai-vos dos falsos profetas, que vêm a vós com vestidos de ovelhas, e dentro são lobos roubadores”. Por isso ela resolveu dar atenção a um profeta verdadeiro: Carlos Lamarca! Lobo em pele de lobo!
Dilma é que tentou derrubar Palocci
Ora, investigue-se a fundo essa postura de Dilma. De fato, o que ela faz é criminalizar a política. A oposição estaria impedida de… se opor! E que se pergunte: quantas foram as vezes que os adversários de Lula inviabilizaram os seus projetos? A única derrota importante foi o fim da CPMF — garantido com votos da base governista. Durante um bom tempo, já tratei aqui do assunto, a verdadeira base de apoio de Lula-Palocci no Senado foi o… PSDB!!!
Políticos gostam de falar para desmemoriados. Mas eu não sou! Em 2005, Dilma Rousseff se alinhou com aqueles que queriam derrubar Antônio Palocci, então ministro da Fazenda - que, reitero, recebeu integral apoio de tucanos e pefelistas (hoje democratas). Leiam, se quiserem, reportagem da Folha intitulada Agora é Dilma quem combate Palocci, de 30 de outubro de 2005.
E a luta de Dilma foi longa. No dia 11 de novembro, a mesma Folha noticiava:
Em jantar com PMDB, Dilma “queima” rival
Na véspera de ouvir do presidente Luiz Inácio Lula da Silva que não desejava que divergências no governo se tornassem públicas, a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) voltou a criticar o colega da Fazenda, Antonio Palocci. Em jantar anteontem com a bancada do PMDB no Senado, disse que Palocci “só pensa em superávit primário” e não tem “criatividade e abertura” para discutir outra política econômica, segundo o relato de presentes ao encontro, no apartamento do líder do partido, Ney Suassuna (PB).
De acordo com Dilma, Palocci “sumiu das solenidades públicas” por causa das acusações de corrupção em sua gestão em Ribeirão Preto. “Não apareceu no encontro com o Bush [George W. Bush, presidente dos EUA que visitou Brasília no fim de semana]. Mais: Dilma afirmou ter “respaldo” do PT para “enfrentar” Palocci no debate sobre gastar mais (acelerar liberação de verbas) e pediu ajuda do PMDB para isso.
Disse ainda que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deveria se espelhar no antecessor Fernando Henrique Cardoso para se relacionar com o Congresso
(…)
No jantar, Dilma afirmou que pensou que, na Casa Civil, poderia debater economia com Palocci, mas ele “só fica com a avaliação do corpo técnico, fechado com a sua igrejinha”. Citou alguns auxiliares, como Jorge Rachid.
Dilma disse que, quando foi ministra das Minas e Energia, teve uma ousadia que Palocci não teria na Fazenda. Afirmou que enfrentou empresários, contrariou interesses e tentou “algo diferente”.
“Precisamos de mais encontros assim”, disse Dilma, que surpreendeu os peemedebistas pela franqueza. Dos 20 senadores do partido, apenas três não participaram do evento.
Voltei
Como se nota, essas histórias edificantes parecem ficar bem nas alegorias, bíblicas ou não, sobre lobos e cordeiros. O ambiente em que Dilma tentou dar uma rasteira em Palocci (o que só Francenildo conseguiria mais tarde, por “méritos” do então ministro) não se parecia muito com um convento, não é mesmo? Palocci é até hoje muito grato a senadores tucanos que lhe garantiram apoio integral.
Dilma diz que não está apostando no “bateu, levou” (até porque o outro lado está levando mesmo sem ter batido) e que insiste nas diferenças para distinguir “dois projetos”. Quais projetos? O dela talvez seja realizar os 89% do PAC que ficaram faltando, né? Essa história de “dois projetos” é só a volta ao monotema: a suposta disputa entre Lula e FHC - a disputa inexistente.
PS - O Palocci que ela tentou derrubar é agora um dos coordenadores de sua campanha. Qual é a função do ex-ministro? Sustentar que Dilma e “amiga” dos mercados, que não tem nada de radical, que é uma convertida e não faz mal! Ou seja: Palocci está aí para dar credibilidade à pele de cordeiro! Mas a patinha…
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quarta-feira, 31 de março de 2010
362) Campanha: dada a partida do lado do governo
Eleições 2010: Dilma no discurso de despedida: 'Não somos aqueles que estamos dizendo adeus. Estamos dizendo até breve'
Luiza Damé
O Globo, 31/03/2010
BRASÍLIA - No discurso de despedida do governo a ex-ministra da Casa Civil Dilma Rousseff, pré-candidata do PT à Presidência, disse que não estava dizendo "adeus", mas "até breve". Dilma e mais nove ministros estão deixando o governo nesta quarta-feira para disputar as eleições de outubro. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva dá posse coletiva aos dez substitutos.
Não somos aqueles que estamos dizendo adeus. Estamos dizendo até breve. Não vamos nos dispersar
- Não somos aqueles que estamos dizendo adeus. Estamos dizendo até breve. Não vamos nos dispersar. Quem fez tanto sobre a sua liderança está pronto a fazer mais e melhor - disse Dilma, que discursou em nome dos demais ministros.
Ao realizar um balanço do governo, ela disse que o presidente Lula mudou o país em sete anos e meio.
- O próximo período vai ser o das oportunidades - concluiu.
A ministra se emocionou durante o discurso. Em vários momentos sua voz falhou e teve que tomar água.
Saem cinco ministros do PT e quatro do PMDB
Os secretários-executivos vão ocupar a maior parte das pastas. Na disputa por espaço político, os partidos conseguiram manter seus domínios. Cinco dos titulares que saem são do PT, quatro do PMDB e um do PR. O prazo para a desincompatibilização se encerra no sábado, dia 3.
Novo ministro da Agricultura loteou cargos na Conab
Em pelo menos uma situação, a troca obedeceu a critérios políticos, em vez de técnicos. O Ministério da Agricultura será ocupado pelo ex-deputado Wagner Rossi , ex-presidente da Conab, acusado de loteamento de cargos, conforme informou o jornal O GLOBO nesta quarta-feira. Durante a cerimônia, a cerimônia, ele desconversou sobre as denúncias.
Luiza Damé
O Globo, 31/03/2010
BRASÍLIA - No discurso de despedida do governo a ex-ministra da Casa Civil Dilma Rousseff, pré-candidata do PT à Presidência, disse que não estava dizendo "adeus", mas "até breve". Dilma e mais nove ministros estão deixando o governo nesta quarta-feira para disputar as eleições de outubro. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva dá posse coletiva aos dez substitutos.
Não somos aqueles que estamos dizendo adeus. Estamos dizendo até breve. Não vamos nos dispersar
- Não somos aqueles que estamos dizendo adeus. Estamos dizendo até breve. Não vamos nos dispersar. Quem fez tanto sobre a sua liderança está pronto a fazer mais e melhor - disse Dilma, que discursou em nome dos demais ministros.
Ao realizar um balanço do governo, ela disse que o presidente Lula mudou o país em sete anos e meio.
- O próximo período vai ser o das oportunidades - concluiu.
A ministra se emocionou durante o discurso. Em vários momentos sua voz falhou e teve que tomar água.
Saem cinco ministros do PT e quatro do PMDB
Os secretários-executivos vão ocupar a maior parte das pastas. Na disputa por espaço político, os partidos conseguiram manter seus domínios. Cinco dos titulares que saem são do PT, quatro do PMDB e um do PR. O prazo para a desincompatibilização se encerra no sábado, dia 3.
Novo ministro da Agricultura loteou cargos na Conab
Em pelo menos uma situação, a troca obedeceu a critérios políticos, em vez de técnicos. O Ministério da Agricultura será ocupado pelo ex-deputado Wagner Rossi , ex-presidente da Conab, acusado de loteamento de cargos, conforme informou o jornal O GLOBO nesta quarta-feira. Durante a cerimônia, a cerimônia, ele desconversou sobre as denúncias.
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sexta-feira, 5 de março de 2010
332) Indecisoes tucanas podem colocar tudo a perder...
Serra ou não Serra
Edutorial Folha de S. Paulo - 05/03/2010
Candidatura tucana se desfaz num jogo de bastidores alheio ao que se espera de um debate democrático moderno
DE ONDE MENOS se espera, dizia o Barão de Itararé, daí é que não sai nada. A frase teria de passar por algumas modificações para aplicar-se à situação atual do governador José Serra, que num jantar com peessedebistas na última terça-feira declarou -para escassa comoção dos interlocutores- que é candidato à Presidência da República.
Ninguém qualificaria de inesperada a atitude de Serra; de há muito crescem as pressões da oposição para que sua candidatura se lance em campo aberto. No espírito do velho humorista, seria possível entretanto dizer que, quando muito se espera, daí é que ninguém sai do mesmo lugar -e o aguardado anúncio da candidatura tucana, feito entre
quatro paredes, guarnecido de ressalvas e precauções, politicamente acrescenta pouco ao que já estava colocado sobre a mesa, e coisa nenhuma ao que ainda se esconde debaixo do pano.
"Eu nunca afastei a possibilidade de ser candidato", declarou José Serra. E repetiu, caso restassem dúvidas: "Existe a possibilidade de eu ser candidato? Existe sim. Ela nunca foi afastada". Ao mesmo tempo, noticia-se que aliados do paulista não excluem a eventualidade de um recuo, caso o governador de Minas, Aécio Neves, continue recusando-se a ser vice na chapa tucana.
Em que ficamos? Qualquer que seja o desfecho desse aborrecido drama de bastidores, a cada dia se reduz a estatura dos personagens que o compõem. Se grandes reservas de astúcia e de cautela são necessárias a um bom político, é também verdade que não há liderança concebível numa atitude de permanente aversão ao risco e à clareza de compromissos.
Como é costumeiro no PSDB, prefere-se a intriga interna ao debate público, e acredita-se mais na própria infalibilidade do que na disputa franca de opiniões e de projetos.
Conforme diminui a distância entre Serra e a petista Dilma Rousseff, criam-se situações embaraçosas no cardinalato peessedebista. A anuência de Aécio Neves ao lugar de vice começa a ser tratada como questão crucial para a campanha; porém, se no governador mineiro se depositam tais esperanças de salvação, por que não seria ele próprio o candidato à Presidência?
Natural que Aécio se faça de rogado, enquanto os índices de Serra desinflam nas pesquisas. No megaevento em que se comemoraram os cem anos de nascimento de Tancredo Neves, o lema de "Aécio presidente", como não poderia deixar de ser, foi ouvido com insistência.
Serra ou não Serra, Aécio ou não Aécio, os nomes perdem em importância; o que ressalta, acima de tudo, é o modo com que a vida política no Brasil parece distante dos padrões de uma democracia moderna. De um lado, surge uma candidata inventada pelo cesarismo presidencial; de outro, ambições pessoais se desfazem em picuinhas e
sussurros, sem nada de significativo a apresentar para a população.
Edutorial Folha de S. Paulo - 05/03/2010
Candidatura tucana se desfaz num jogo de bastidores alheio ao que se espera de um debate democrático moderno
DE ONDE MENOS se espera, dizia o Barão de Itararé, daí é que não sai nada. A frase teria de passar por algumas modificações para aplicar-se à situação atual do governador José Serra, que num jantar com peessedebistas na última terça-feira declarou -para escassa comoção dos interlocutores- que é candidato à Presidência da República.
Ninguém qualificaria de inesperada a atitude de Serra; de há muito crescem as pressões da oposição para que sua candidatura se lance em campo aberto. No espírito do velho humorista, seria possível entretanto dizer que, quando muito se espera, daí é que ninguém sai do mesmo lugar -e o aguardado anúncio da candidatura tucana, feito entre
quatro paredes, guarnecido de ressalvas e precauções, politicamente acrescenta pouco ao que já estava colocado sobre a mesa, e coisa nenhuma ao que ainda se esconde debaixo do pano.
"Eu nunca afastei a possibilidade de ser candidato", declarou José Serra. E repetiu, caso restassem dúvidas: "Existe a possibilidade de eu ser candidato? Existe sim. Ela nunca foi afastada". Ao mesmo tempo, noticia-se que aliados do paulista não excluem a eventualidade de um recuo, caso o governador de Minas, Aécio Neves, continue recusando-se a ser vice na chapa tucana.
Em que ficamos? Qualquer que seja o desfecho desse aborrecido drama de bastidores, a cada dia se reduz a estatura dos personagens que o compõem. Se grandes reservas de astúcia e de cautela são necessárias a um bom político, é também verdade que não há liderança concebível numa atitude de permanente aversão ao risco e à clareza de compromissos.
Como é costumeiro no PSDB, prefere-se a intriga interna ao debate público, e acredita-se mais na própria infalibilidade do que na disputa franca de opiniões e de projetos.
Conforme diminui a distância entre Serra e a petista Dilma Rousseff, criam-se situações embaraçosas no cardinalato peessedebista. A anuência de Aécio Neves ao lugar de vice começa a ser tratada como questão crucial para a campanha; porém, se no governador mineiro se depositam tais esperanças de salvação, por que não seria ele próprio o candidato à Presidência?
Natural que Aécio se faça de rogado, enquanto os índices de Serra desinflam nas pesquisas. No megaevento em que se comemoraram os cem anos de nascimento de Tancredo Neves, o lema de "Aécio presidente", como não poderia deixar de ser, foi ouvido com insistência.
Serra ou não Serra, Aécio ou não Aécio, os nomes perdem em importância; o que ressalta, acima de tudo, é o modo com que a vida política no Brasil parece distante dos padrões de uma democracia moderna. De um lado, surge uma candidata inventada pelo cesarismo presidencial; de outro, ambições pessoais se desfazem em picuinhas e
sussurros, sem nada de significativo a apresentar para a população.
domingo, 7 de fevereiro de 2010
269) Parece que a campanha presidencial já comecou (1)
Claro, ela já começou há muito tempo para o atual presidente (que nunca, jamais, desceu do palanque, desde o primeiro dia de janeiro de 2003) e sua candidata oficiosa (mas totalmente acolhida como oficial nas hostes governamentais).
Como se viu no post imediatamente anterior, o presidente anterior, Fernando Henrique Cardoso, tentou responder ao saco de mentiras que vem sendo despejado no público a partir da máquina de propaganda governamental e dos comícios e palanques nos quais não se cansam de subir o atual presidente e sua candidata do colete, com a total cooperação da (in)Justiça Eleitoral (creio que o termo correto seria submissão).
Pois bem, eu fiz este blog para acompanhar as eleições presidenciais de 2010, como já tinha feito um para as eleições de 2006:
Blog Eleições Presidenciais (2006)
Talvez seja o caso de reproduzir aqui, alguns dos posts mais analíticos que coloquei no próprio mês de outubro, quando a campanha já estava reduzida aos dois candidatos principais, Lula e Alckmin. Aparentemente, é o que se vai ter novamente em outubro de 2010: Lula (com um boneco de ventriloquo como personagem de ficção) e um candidato do PSDB, possivelmente José Serra.
Vejamos o que eu escrevi então:
Domingo, Dezembro 03, 2006
87) Os programas economicos dos candidatos
Os programas econômicos dos candidatos
Comentários informais
Paulo Roberto de Almeida
A partir de respostas encaminhadas pelos comitês de campanha dos dois candidatos do segundo turno a perguntas de jornalista do jornal O Globo.
Comentários de Paulo Roberto de Almeida: (PRA: )
1 - Planeja manter o princípio da responsabilidade fiscal? Qual será a meta de superávit primário? Como alcançá-la?
Lula: Vamos manter a responsabilidade fiscal com crescimento e melhoria da distribuição de renda. Manteremos a meta de superávit primário de cerca de 4,25% do Produto Interno Bruto (PIB) nos próximos quatro anos e aproveitaremos o crescimento mais acelerado da economia para promover a melhoria da qualidade do gasto público. Com o crescimento maior, o peso desse gasto será diluído. Os aumentos reais do valor do salário mínimo e as transferências de renda por meio da Previdência, LOAS e Bolsa Família serão mantidos. É preciso destacar ainda que o ajuste fiscal não se dará em detrimento dos investimentos em infra-estrutura, necessários para o desenvolvimento do país.
(PRA: Promessas generosas, mas insustentáveis em vista do atual, e futuro, quadro fiscal, que aponta para uma deterioração rápida das contas públicas. Para reduzir os juros, o superávit primário deveria na verdade ser aumentado, não mantido tal qual. Não diz como se vai alcançar crescimento mais rápido, se ele já não foi alcançado agora, num quadro internacional extremamente favorável, que pode não se manter no futuro. Ou seja, promete coisas absolutamente contraditórias ao mesmo tempo, quando o problema real é justamente o aumento irresponsável dos gastos públicos.)
Alckmin: Vou manter. O tamanho do estado brasileiro é desproporcionalmente grande. Apropria cerca de 45% do PIB. No ano passado, a receita corrente própria do governo alcançou 41,4% do PIB, a carga tributária alcançou 37,4% do PIB e outras receitas 4% do PIB. Como seus gastos superaram este total, o governo ainda tomou empréstimos (déficit público) de 3,4% do PIB, o que totaliza 44,8% do PIB. Portanto, a responsabilidade fiscal precisa ser reforçada, não só para começar a reduzir o tamanho do estado, mas também melhorando a sua eficiência e qualidade dos serviços públicos priorizando as despesas de acordo com a demanda da população. A meta de superávit primário será mantida. O ajuste fiscal precisa começar acabando com o desperdício e a corrupção, aumentando a eficiência e a produtividade, racionalizando a utilização de recursos, estabelecendo transparentemente objetivos e metas de cada unidade da administração pública, cobrando resultados e responsabilizando os gestores. Tais medidas foram implantadas no Governo Mario Covas e aprofundadas no meu governo no Estado de São Paulo. Uma vez feito este ajuste e implantado o princípio "o governo só pode gastar aquilo que arrecada" cabe um debate nacional amplo sobre se o tamanho do Estado brasileiro deve ser reduzido adicionalmente ou não. Se a sociedade demandar redução adicional no tamanho do estado serão necessárias reformas institucionais e, isto num país democrático é definido pela vontade popular.
(PRA: Começa fazendo um diagnóstico mais correto da situação e do peso verdadeiro do setor público. Na verdade, contando com efeitos indiretos da alta tributação e baixo nível dos serviços, os efeitos cumulativos do peso do Estado são ainda maiores, aproximando-se, provavelmente, de 55 a 60% do PIB. Cálculos de tributaristas indicam, aliás, que se todos pagassem os impostos devidos, a carga fiscal seria maior do que 60% do PIB. O candidato é cauteloso e não diz que o tamanho do Estado brasileiro DEVE ser reduzido, pois sabe que a população ainda tem ilusões quanto a um papel positivo do Estado, quando este tornou-se, de fato, atualmente, o principal entrave ao desenvolvimento brasileiro.)
2 - O câmbio flutuante será mantido? Que mecanismos utilizará para reduzir a apreciação do real frente ao dólar?
Lula: O sistema de câmbio flutuante será mantido. O governo também continuará realizando operações de compra de reservas cambiais para garantir um estoque de reservas capaz de reduzir cada vez mais a vulnerabilidade externa. A queda dos juros e o aumento das importações, proporcionada pelo crescimento maior e pela abertura da economia, diminuirão a pressão pela valorização cambial.
(PRA: A política do câmbio flutuante veio para ficar, isso parece claro, mas a melhor defesa contra a valorização do real não é a compra infinita de dólares, pois isso custa caro ao Tesouro e também sai caro manter reservas muito altas, pois elas são pessimamente remuneradas, e sim a existência de grandes fluxos de comércio exterior, nos dois sentidos. O governo mantém, pelos seus principais conselheiros econômicos, um viés mercantilista declarado, preferindo apenas exportar, em lugar de manter grandes correntes nos dois sentidos. Uma importação maior contribuiria largamente para desvalorizar o real e aumentar o valor do dólar, que é mantido baixo pelos altos fluxos de entrada, e pouca saída. O governo precisa deixar de ser mercantilista.)
Alckmin: No meu governo o regime de taxa de câmbio será mantido, mas aprimorado. Deve ficar claro que o atual regime tem gerado enormes volatilidades, instabilidades e crises e que o Banco Central tem intervindo fortemente e freqüentemente, seja vendendo dólares como na crise do Méxido em 1995, crise da Ásia 1997, crise da Rússia em 1998, crise do Brasil em 1999, Turquia/Argentina/11 de setembro em 2001, crise do Brasil em 2002, para isto reduzindo as reservas cambiais, tomando empréstimos do FMI e outros órgãos ou emitindo títulos públicos em moeda estrangeira, mas sempre respondendo a choques e crises vindos do exterior. Ou, mais recentemente, o Banco Central tem feito intervenções comprando dólar em função do enorme fluxo respondendo à altíssima taxa de juros fixada pelo próprio Banco Central. O meu governo propõe uma flutuação administrada, mas com objetivos claros e para antecipadamente evitar as crises e estabilizar a taxa de câmbio. O que tem que ser evitado é a criação de expectativa de valorização da taxa de câmbio, pois isto aumenta o retorno do especulador e é uma expectativa que se auto-realiza. Num regime de câmbio flexível administrado, com objetivo de ter uma taxa câmbio de equilíbro fundamental, o equilíbrio ou pequeno superávit na conta de transações correntes poderá ser alcançado e a dívida externa será declinante ou contida num nível prudente, conseqüentemente não haverá razões para a criação de expectativa de depreciação cambial e ataques especulativos. Neste sentido, a livre flutuação para baixo da taxa de cambio é problema, mas para cima não é. Se houver episódios atípicos e passageiros que levam à depreciação, existem instrumentos convencionais para evitar a volatilidade excessiva. Desta forma, a política cambial deve sempre evitar a apreciação sinalizando para o mercado esta decisão, tanto com intervenções do Banco Central como do Tesouro Nacional. A compra de dólares e sua esterilização é o mecanismo típico utilizado. O acúmulo de reservas cambiais não será problema se a taxa de juros interna for igual ou próxima a internacional. E é bom lembrar que somente nesta condição só será possível ter uma boa política cambial.
(PRA: Politica muito clara de administracao da taxa de câmbio, ou seja flutuação suja, mas tampouco diz que o meio mais fácil de desvalorizar a moeda é reduzindo a oferta de dólar via aumento das importações. Todo político brasileiro parece ter vergonha de importações.)
3 - O sistema de metas de inflação será mantido? Há previsão de incluir metas de crescimento? Qual é o ponto de equilíbrio entre a inflação e a busca de um crescimento mais acelerado?
Lula: O contexto histórico agora é outro. O objetivo não é mais reduzir a inflação, mas mantê-la baixa. Recebemos um governo com a inflação alta, desequilíbrios orçamentários e nas contas externas, alto desemprego e crescimento muito baixo. Contrariando as expectativas da oposição, conseguimos colocar a economia brasileira na rota do desenvolvimento sustentado. Temos, hoje, um conjunto de fatores positivos: crescimento econômico com inflação baixa e geração de empregos, expansão das exportações com ampliação do mercado interno, aumento do crédito e do investimento com redução constante da taxa de juros e do risco país. Essa combinação de fatores é inédita na história do Brasil. E nós estamos provando que é possível crescer com uma inflação baixa. Não fixamos metas de crescimento no programa, mas é possível perseguir um crescimento médio de pelo menos 5% ao ano a partir de 2007. Para chegar a isso, buscaremos uma elevação da taxa de investimento da economia dos cerca de 21% do PIB esperados este ano para 25% do PIB até 2010.
(PRA: Começa com uma mentira: a inflação só foi alta em 2002 justamente por causa do “risco PT”, que provocou a maior valorização do dólar em tempos de flutuação de que se tem notícia na história econômica brasileira. O desemprego foi menor do que o existente nos dois anos seguintes. O crescimento baixo continua, aliás exatamente igual. O desequilíbrio nas contas externas já vinha sendo revertido e os saldos superavitários seriam alcançados de qualquer forma. Todas as afirmações são feitas de má-fé e não se sustentam na realidade. Agora se valoriza a inflação baixa, mas TODOS os economistas do PT recomendavam uma taxa de inflação um pouco mais alta para sustentar uma taxa maior de crescimento e uma menor de desemprego. Foram inconsequentes e provavelmente aloprados. A taxa de investimento não tem nada a ver com o regime de metas de inflação, e sim com a capacidade “extratora” do Estado, hoje convertido em despoupador líquido e sanguessuga da poupança privada. Não diz como vai conseguir aumentar a taxa de investimento, aparentemente por vontade divina.)
Alckmin: O sistema de metas de inflação foi desenvolvido na Nova Zelândia num contexto de profunda reforma do estado na qual o objetivo era estabelecer um sistema de gestão pública por resultado com total transparência. Assim, os diversos órgãos de governo têm que publicar seus objetivos e metas, após negociação com o Parlamento, e apresentar relatórios periódicos de prestação de contas a população. Estes relatórios são auditados, avaliados e publicados por um órgão do Parlamento. Desta forma, é um sistema flexível que, de acordo com as circunstâncias, o sistema de metas pode e deve conter outras metas que não só o de inflação. Como de fato aconteceu na Nova Zelândia. Neste conceito, o sistema deve ser mantido, pois é mecanismo sistemático de praticar a democracia. O que chegou ao Brasil é uma corruptela e portanto demanda aperfeiçoamento. De fato, não há razões para que o Brasil tenha uma meta de inflação acima da média mundial, que está em torno de 4% ao ano, e isto estabelece o parâmetro central a ser perseguido pelo Banco Central. Da mesma forma, não há razões que determinem que o Brasil não pode crescer a uma taxa semelhante à média dos países emergentes, que está em torno de 6,8% ao ano, e deverá prevalecer nos próximos anos. Assim, ao invés de extrapolar o passado para o futuro e determinar que o produto potencial não crescerá mais do que 3%, ao ano, e assim praticar uma política de juros em que o produto efetivo fica enquadrado dentro deste limite absurdo, o meu governo parte do pressuposto de que o futuro deverá ser a expressão da vontade e competência da nação brasileira e a materialização das decisões e políticas do novo governo.
Mais do que isso temos um empresariado ativo e competente, técnicos e engenheiros com boa formação, trabalhadores disciplinados e dedicados e uma agropecuária e industria manufatureira competitiva que pode perfeitamente alcançar uma meta de crescimento igual a media dos países emergentes. É preciso, sim liberar estas forças e competências que estão reprimidas pelas altas taxas de juros, sufocadas pela tributação excessiva, penalizadas pela taxa de câmbio apreciada e espremidas pela voracidade do estado.
(PRA: Dá uma lição de história do regime de metas de inflação e não era isso que tinha sido pedido. Afirma, de modo totalmente gratuito, que “não há razões que determinem que o Brasil não pode crescer a uma taxa semelhante à média dos países emergentes”, quando existem, sim, boas – e más – razões para que o crescimento do Brasil seja pífio. O Brasil simplesmente NÃO PODE crescer mais do que o faz, por insuficiência de poupança, por magreza de investimento, por um péssimo ambiente de negócios, por ser ainda muito fechado, por uma qualidade pavorosa dos recursos humanos, por uma regulação intrusiva e um tributarismo claramente excessivo e exagerado. Quando esses GRANDES problemas forem resolvidos, ai o Brasil voltará a crescer. Do contrário, está condenado ao baixo crescimento e à estagnação da renda.)
4 - Como acelerar a queda das taxas de juros? Que medidas serão adotadas nesse sentido?
Lula: A inflação abaixo da meta abre espaço para uma queda mais acelerada dos juros. A situação econômica do país é segura e estamos convencidos de que ela vai melhorar cada vez mais. A política econômica bem-sucedida vai continuar, só que agora em uma nova fase: superados os desequilíbrios e controlada a inflação, estamos em condições de caminhar para uma taxa de crescimento mais vigorosa, continuando a baixar os juros.
(PRA: Isso, como explicação, é insuficiente, pois a taxa de juros é claramente influenciada pelo nível da dívida pública, que por sua vez é determinada por gastos em excesso de arrecadação. Uma política fiscal irresponsável não pode garantir uma política econômica bem sucedida.)
Alckmin: Do lado externo, com superávit em transações correntes e redução da dívida externa já existem fortes pressões para a queda na taxa de juros com a queda no risco Brasil. É o governo, com sua atual política, que sustenta, internamente, elevadas taxas de juros. Para quebrar a "convenção" de que taxas de juros mais baixas podem trazer instabilidade financeira é preciso um forte ajuste fiscal e, simultaneamente, um novo mix de política fiscal, cambial e monetária, que simultaneamente traga conciliação de interesses, garantia de estabilidade e delineie trajetória de crescimento sustentável e geração de emprego. No meu governo vou trilhar o melhor e mais seguro caminho para reduzir a taxa de juros que começa com ajuste fiscal, reduzindo a despesa corrente e o compromisso de governo com metas fiscais claramente definidas. O ajuste fiscal com meta de déficit nominal zero, por exemplo, implica que a dívida pública permaneceria constante e, portanto, declinante em relação do PIB. Com isso, estará criada também uma trajetória firme de queda na taxa de juros dos títulos públicos.
(PRA: Correto. Só não disse que o ajuste fiscal tem de ser feito via redução dos gastos do Estado, não via aumento dos tributos, como tem ocorrido até aqui. Enquanto isso não for dito claramente, só se pode concluir que os políticos são todos covardes, ao não assumir que o Estado é, hoje, o grande problema da economia brasileira.)
5 - Como o candidato se posiciona em relação à independência legal do Banco Central? Pretende encaminhar projeto nesse sentido ao Congresso? Por quê?
Lula: A autonomia do Banco Central é uma discussão que a sociedade brasileira ainda está amadurecendo. É por isso que o Senado Federal iniciou o debate, colhendo posições a favor e contra, para que se possa fazer a melhor opção para o país. Acreditamos que o ideal é que o tema seja tratado da maneira mais técnica e menos ideologizada possível.
(PRA: O governo é o principal responsável de o tema não estar sendo debatido com a sociedade. Adota uma posição de fato contrária, quando diz que a sociedade precisa examinar o problema. Os economistas esquizofrênicos do PT são todos contra, mas eles não acertaram nenhum diagnóstico e não fizeram nenhuma prescrição correta para a economia brasileira até hoje, porque dar-lhes crédito nessa matéria?)
Alckmin: Conforme resposta a questão 3 num país democrático como a Nova Zelândia a questão relevante não é a independência operacional formal do Banco Central. Em qualquer sociedade que pretenda ser democrática, os órgãos públicos devem estar sempre à serviço da sociedade e esta é que deve estabelecer os suas funções e seus objetivos que devem sempre refletir as preferência da sociedade, isto é, da maioria. Uma vez estabelecidos os objetivos, se for um órgão que envolve conhecimentos técnicos deve ter autonomia operacional. Mas na medida que se dá autonomia operacional deve existir como contrapartida mecanismos de responsabilização, de "accountability" e de transparência.
(PRA: Resposta totalmente ambígua. Ficou tergiversando. Precisava dizer apenas se era contra ou a favor. Parece que tem medo do debate.)
6 - As agências reguladoras serão mais independentes ou terão maior subordinação aos ministérios?
Lula: As agências reguladoras não podem decidir as políticas públicas. Elas regulam as políticas decididas pelo governo.
(PRA: Claramente insuficiente e passa por cima do papel relevante que devem ter essas agências na criação de um ambiente estável e favorável ao investimento privado. De fato, como se sabe, esse governo é contrário às agências e fez tudo o que estava ao seu alcance para sabotá-las. Só não fechou porque não tinha condições, do contrário voltaria ao regime promíscuo anterior, quando os ministérios eram balcão de negócios dos serviços públicos para fins claramente políticos e politiqueiros. O registro da ação do governo nessa área é deplorável.)
Alckmin: As agências reguladoras atuam onde a eficiência e justiça não podem ser alcançadas pelos mecanismos de mercado. Desta forma, as agências reguladoras devem atuar com regras claras e estáveis sempre visando estabelecer um equilíbrio econômico entre os interesse dos produtores e dos consumidores. Preço justo para os consumidores e regras claras e estáveis que garantam remuneração e reduzam o risco dos investidores são fundamentais para a expansão de setores como de utilidade pública. Neste sentido deve ter independência dos ministérios correspondentes.
(PRA: Também ambíguo, com exceção da última frase, que visa garantir a independência das agências. Deveria ter dito que vai reforçá-las e ampliar o número de agências despolitizadas. )
7 - Em relação às reformas da Previdência, Administrativa, Tributária, Trabalhista e Sindical, qual será a ordem de prioridade?
Lula: A prioridade para 2007 é a reforma tributária. E não nos faltou vontade política para fazê-la neste governo. Ao contrário. Ninguém pode esquecer que, em abril de 2003, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi ao Congresso Nacional com 27 governadores para levar uma proposta de reforma tributária. A parte federal foi votada, mas a estadual, ainda não. No mês passado, fizemos novo esforço para tentar a aprovação - propusemos até a concessão de 1% a mais do Fundo de Participação dos Municípios. A oposição, porém, não quis votar. Acreditamos que, com a nova legislatura no Congresso Nacional e com os novos governadores, será possível aprovar essa reforma tão necessária para o país.
(PRA: Mentira, mais uma vez. Não foi só a oposição que não quis votar: todos os governadores, de situação ou de oposição, não quiseram perder a faculdade de fazer guerra fiscal. Tergiversa sobre o assunto e não expõe claramente que tipo e como pretende fazer com a reforma tributária. Tampouco aborda os outros assuntos, provavelmente porque não pretende mais fazer reforma nenhuma, por ser filosoficamente contrário às demais reformas.)
Alckmin: Com a sucessão de escândalos, inchaço e uso indevido da máquina administrativa, nós vamos herdar uma situação política, administrativa e orçamentária complicadas. Assim, as prioridades já foram definidas: reforma política e ações corretivas na área administrativa e orçamentária ganharam precedência. Com a casa minimamente em ordem será possível encaminhar as demais reformas.
(PRA: A reforma política é importante, mas não se conseguirá começar por ela, pois ela arrisca bloquear todas as demais reformas. Se deveria claramente colocar no mesmo pé de igualdade as reformas tributária e da previdência, e depois fazer a trabalhista e a administrativa, na suposição de que, no primeiro dia de governo, o novo presidente já terá enxugado a ministrança para não mais do 20 ministérios. Tem de dizer que sem reforma trabalhista, o desemprego não se reduzirá. Hoje o Brasil já é uma república sindical, inclusive patronal. Precisaria quebrar o sistema corporativo que engessa o Brasil.)
8 - O candidato planeja fazer ou não uma reforma da Previdência? Quais os principais pontos? Introduzirá a idade mínima para aposentadoria? Desvinculará o salário mínimo do piso previdenciário?
Lula: Não há proposta de reforma da Previdência. Desde o início do governo, estamos realizando uma profunda reforma na gestão da Previdência Social. Fizemos a Reforma Previdenciária para o setor público. Reduzimos gastos e criamos mecanismos - como o recadastramento - para evitar fraudes, desvios e pagamentos indevidos. Recuperamos créditos e modernizamos os sistemas de arrecadação e fiscalização. O resultado é que, no início deste ano, a previsão de déficit era de R$ 50 bilhões, mas já foi reduzida para R$ 41 bilhões. Destacamos o Censo Previdenciário que realizamos e o ajuste no sistema de concessão de auxílio-doença. É preciso também buscar a eficiência da gestão, cujo ponto central, em nosso governo, tem sido a melhoria do atendimento aos beneficiários - que buscamos por meio da ampliação do horário de atendimento de 6 para 10 horas e do fortalecimento do atendimento a distância, por telefone e internet. O crescimento econômico trouxe e trará maior receita ao sistema e apostamos na redução da informalidade, com o projeto de lei em tramitação no Congresso que reduz as alíquotas para contribuintes individuais, incentivando o acesso ao sistema. Agora, com o crescimento mais acelerado da economia, será possível estabilizar, a médio prazo, o valor dos pagamentos previdenciários - que hoje estão em torno de 7,8% do PIB - como proporção do PIB.
Além disso, o Governo Lula considera um equívoco o pensamento de que a desvinculação entre o salário mínimo e o piso seja a solução para o problema da Previdência. Não podemos submeter os nossos aposentados e pensionistas a uma renda menor que o salário mínimo.
(PRA: O governo simplesmente não reconhece que uma das fontes do enorme problema fiscal que enfrenta tem origem na previdência. Eficiência de gestão para um sistema deformado significa preservas as raízes das iniquidades previdenciárias e não enfrentar o problema de frente, que é o desequilíbrio atuarial das contas, sobretudo as da previdência pública. Confia no crescimento para preservar um sistema iníquo e insustentável. Não tem coragem para enfrentar o problema de frente.)
Alckmin: Está no Plano de Governo que será necessário fazer uma reforma e mencionamos os principais pontos. Sabemos que a idade mínima de aposentadoria e a desvinculação dos benefícios previdenciários do salário mínimo estão na agenda de todos que se debruçam sobre a questão da reforma da previdência. Mas não se retiram direitos já adquiridos. Nós faremos uma reforma sem atropelos e com normas resultantes de amplo debate com a sociedade para desobstruir o futuro. Tentar tirar direitos ou forçar reforma numa direção pode não só inviabilizá-la gerando uma reação política tão forte que pode resultar num tiro no pé.
É preciso um amplo debate nacional, esclarecimento de todas as partes envolvidas e garantias para aqueles que se sentem ameaçados para que a questão tenha um bom encaminhamento e cheguemos a uma reforma que resolva as questões fiscais, que seja satisfatória para os trabalhadores e seja duradoura para as próximas gerações.
(PRA: Tampouco tem coragem de dizer que é preciso enfrentar as “espertezas adquiridas”, sobretudo no setor público. Afirma, pelo menos, quais os pontos que precisam ser corrigidos, mas existem vários outros que não são tocados. Quando se fala de “amplo debate nacional” é porque se exime de apresentar propostas claras e politicamente difíceis.)
9 - Planeja uma reforma tributária? De onde virão os recursos para compensar perdas de arrecadação? Em que tributos vai mexer? Do que pode abrir mão? A CPMF será mantida? Encaminhará proposta de renovação da DRU?
Lula: Como dissemos, é a reforma prioritária. Será centrada na simplificação e racionalização dos impostos, para ganhar aumentos de eficiência na arrecadação. Defendemos desoneração das exportações e dos investimentos. As perdas serão compensadas pela maior formalização da economia (recolhimento de tributos sobre os salários dos empregados com carteira assinada e sobre a receita das empresas). Essa reforma envolve articulação com os governadores, principais afetados por propostas como a transformação do ICMS num imposto de valor agregado e na simplificação das alíquotas.
(PRA: Vaguidão nas respostas. Não diz, por exemplo, que é preciso enfrentar o peso da máquina do Estado sobre a economia, as inconsistências previdenciárias, políticas setoriais que transferem renda para quem já é rico, e várias outras coisas mais que obstaculizam a redução dos gastos públicos, hoje claramente o fator mais relevante, nos três níveis da federação, que impede uma reforma redutora de tributos e não simplesmente “racionalizadora”, que é um conceito vago.)
Alckmin: Da mesma forma que na reforma da previdência social, não é possível forçar a aprovação de uma proposta pré-definida. A reforma será resultado de uma grande negociação, pois passa por questões muito complexas e delicadas politicamente como o da federação. O que é possível é estabelecer princípios que o meu governo adotará. Em primeiro lugar, não será uma reforma para aumentar a carga tributária como tem sido as reformas anteriores. Ao contrário, para estimular o crescimento e ganhar eficiência econômica, temos que desonerar o investimento produtivo, a produção e a folha de salários. Durante do meu período no governo de São Paulo, não aumentamos nenhuma alíquota de imposto, ao contrário reduzimos a alíquota de vários produtos. Para termos maior justiça social é preciso reduzir a participação de impostos indiretos que são muito regressivos no Brasil e aumentar a participação de impostos diretos que incidem de acordo com a capacidade de pagamento de cada indivíduo e, portanto, são mais justos e transparentes. Para reduzir os custos administrativos das empresas é preciso simplificar o sistema tributário. Para evitar distorções alocativas na economia é preciso privilegiar impostos com maior neutralidade como o imposto direto e imposto sobre o valor agregado.
(PRA: Correto, mas seria preciso dizer também que o imposto indireto precisaria ser federalizado, ter aliquota única e tendencialmente reduzida e que a folha de pagamentos precisaria ser absolutamente aliviada, com o fnal do sistema corporativo que beneficia também os sindicatos patronais. Seria preciso terminar com o imposto sindical e dar autonomia e independência aos sindicatos, acabando com a unicidade.)
10 - Fará uma reforma trabalhista? Quais os principais pontos propostos?
Lula: Não há propostas específicas de reforma trabalhista por parte do nosso governo. Nosso compromisso é retomar o debate sobre a reforma trabalhista, por meio do diálogo tripartite, a exemplo do que foi feito no primeiro mandato com a Reforma Sindical. Mas para que se avance nessa questão, é preciso encorajar os trabalhadores com o encaminhamento da Reforma Sindical no Congresso Nacional, que deverá estimular a negociação coletiva e a solução de conflitos. Quanto ao suposto impacto da reforma trabalhista na geração de emprego, relatórios da OIT e da OCDE mostram que não há na experiência internacional evidências empíricas de aumento do emprego decorrente da flexibilização de direitos trabalhistas. Mas não há dúvida de que a atualização das leis do trabalho pode contribuir para criar um ambiente mais propício à geração de emprego e à distribuição de renda, que a rigor dependem do volume e do ritmo de investimento e crescimento da economia. Acreditamos, no entanto, que há espaço para modernizar as relações de trabalho no Brasil sem precarizar os contratos de trabalho ou comprometer os direitos dos trabalhadores.
(PRA: O governo Lula é claramente refém da máquina sindical, que sob alguns aspectos é uma verdadeira máfia sindical. Existem evidências, sim, de que regras laborais mais flexíveis aumentam a empregabilidade: basta comparar as taxas de desemprego dos EUA e Reino Unido, em torno de 4%, com as do resto da Europa, na faixa dos 9% ou mais. Seria preciso, tão simplesmente, desconstitucionalizar e retirar da legislação a maior parte das regras laborais, deixando o grosso das normas para as negociações diretas e o contratualismo coletivo. Seria preciso, por outro lado, extinguir a Justiça do Trabalho, ela mesma geradora de conflitos e fonte de deformações no mercado de trabalho, quando não de corrupção organizada. Países normais não dispõem de justiça do trabalho e sim de sistema arbitral, complementado por varas especializadas na justiça comum para os casos mais complicados. Arbitragem sempre foi a melhor forma de resolução de conflitos em quaisquer sistemas que exijam rapidez, transparência, clareza de propósitos e menor custo social.)
Alckmin: A reforma trabalhista deverá ter como foco a modernização da legislação trabalhista visando simplificar a contratação de trabalhadores. É preciso também uma legislação que incentive a formalização de 40 milhões de trabalhadores informais.
(PRA: Excessivamente vago e genérico. Tem medo de dizer que se trata de uma reforma essencial para aumentar o emprego. Sindicatos são feitos para garantir o emprego de quem já está incluído, não de quem precisa trabalhar.)
11 - Encaminhará projeto de reforma política? Defende as listas abertas, fechadas ou mistas?
Lula: O Brasil precisa fazer a reforma política com urgência. Ela é a mãe de todas as reformas. Nosso governo sempre teve consciência disso, embora a iniciativa e deliberação a respeito do assunto caibam ao Legislativo e não ao Executivo. De toda forma, tivemos que atender outras prioridades, como vocês sabem, porque recebemos um país praticamente quebrado. Agora, felizmente, já colocamos o Brasil nos eixos. Nossa democracia completou um ciclo muito importante, no qual todos os grandes partidos foram governo. Por isso, acreditamos que existam todas as possibilidades de aprovar uma reforma política e eleitoral. E temos certeza de que a grande maioria da sociedade sabe que é preciso mudar a estrutura política - com a fidelidade partidária, o financiamento público de campanhas e outras medidas - para corrigir desvios e combater ainda mais eficazmente a corrupção. A questão da forma de fazer é relevante, mas muito mais importante é não deixar passar essa oportunidade de realizar a reforma política e fortalecer a ética na política brasileira.
(PRA: Conversa mole, para não dizer o que prefere, e talvez não prefira nada, a não ser a preservação do sistema que aí está, que é um “presidencialismo de mensalão”. Trata-se, sem dúvida, da reforma mais importante, mas que pode paralisar todas as demais reformas se for lançado no início e na frente de todas as demais, Deveria ser deixada para os dois últimos anos do próximo governo e se começar pela tributária, previdenciária, trabalhista, administrativa, nessa ordem.
Alckmin: O meu compromisso é encaminhar ao Congresso Nacional uma proposta de reforma política já em janeiro, antes mesmo do início da nova legislatura. O ponto principal será a adoção da fidelidade partidária, que, somada à cláusula de barreira, que já começa a valer agora, vai garantir mais consistência à atuação dos partidos. Não defendo a adoção de listas. A nossa proposta prevê o sistema com voto distrital misto, que será um importante instrumento para reduzir os custos de campanha e aumentar a proximidade entre o povo e seus representantes. O sistema proporcional favorece a defesa de interesses corporativos, que, na maioria das vezes, são legítimos, mas, de modo geral, vão de encontro aos interesses coletivos.
(PRA: Pelo menos explicita suas propostas, mas erra ao arriscar comprometer todas as demais reformas pela reforma política, claramente a mais difícil de todas por envolver o interesse de parlamentares e regiões. Não diz absolutamente nada sobre a deformação da representação proporcional, do excesso de “representantes do povo”, que representam apenas a si mesmos, do excesso de gastos do Legislativo e não não fala tampouco a reforma do Judiciário que continua necessário pelo lado dos ritos e procedimentos.)
12- É a favor ou contra a reeleição presidencial? Planeja acabar com ela ou manter? Se for acabar, planeja ampliar o prazo do mandato?
Lula: A reeleição é um retrocesso político para o Brasil. O mandato de cinco anos, sem reeleição, seria uma solução adequada para o nosso país. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso vai carregar pelo resto da vida o gesto irresponsável de ter aprovado a reeleição em benefício próprio.
(PRA: Hipocrisia, ao não propor a sua extinção logo no primeiro mandato. Melhor seria ter introduzido regras mais claras para evitar abuso, como os que estão ocorrendo agora mesmo, com o uso da máquina pública pelo candidato no cargo.)
Alckmin: Sempre disse que essa não é uma questão programática, mas no que depender de mim, eu vou acabar com a reeleição. Hoje ela ocorre sem nenhum critério para quem disputa a eleição e permanece no cargo. Eu tive de deixar o governo de São Paulo seis meses antes das eleições, mas o meu adversário continuou no cargo. Veja o que foi feito esta semana, a primeira do segundo turno das eleições, o presidente Lula libera R$ 1,5 bilhão do Orçamento deste ano para beneficiar o candidato Lula. O valor é praticamente igual ao bloqueado pelo Ministério do Planejamento há menos de 15 dias. Isso é uso eleitoreiro de recursos públicos. Não dá mais para um país como o Brasil admitir que o governo federal adote práticas equivocadas com fins políticos. O presidente Lula transformou 17 ministros em cabos eleitorais do candidato Lula. O povo está cansado desse tipo de conduta, que apenas contribui para reduzir ainda mais o encanto do cidadão com a política. Atualmente, a reeleição não está regulamentada. Sem essa preocupação de reeleição, acho que poderei fazer um governo melhor que o atual, com uma equipe nova, com a legitimidade das urnas. O Brasil pode mais com um time novo.
(PRA: Correto.)
13 - Pretende avançar ou rever as privatizações? Em que setores há empresas que poderiam ser privatizadas? Em caso negativo, planeja criar novas estatais, em que áreas acha importante o Estado estar mais presente?
Lula: Não haverá nenhuma privatização. Nosso governo está mostrando, com práticas bem-sucedidas, que a privatização de estatais não é a única maneira de garantir investimentos privados em projetos de infra-estrutura. Fizemos, por exemplo, excelentes parcerias entre empresas estatais e o capital privado no setor de energia. Na área de transportes, há o programa de concessões em andamento para a execução da Ferrovia Norte-Sul e para rodovias. Além disso, há o modelo de Parceria Pública Privada (PPP), que se inicia com as BRs 116 e 324. Nesse modelo, grupos privados realizam parte dos investimentos e o Governo entra com outra parcela, que é uma forma de reduzir o impacto dos custos dos pedágios para os usuários. Entendemos que o Estado tem a função importante de atuar como indutor do desenvolvimento. E contamos, para isso, com a participação indispensável dos recursos privados, principalmente nos projetos de infra-estrutura, que são fundamentais para dar suporte ao crescimento sustentável da economia brasileira.
(PRA: Claramente contrário às privatizações, e as PPPs são uma forma de privatização envergonhada, com a desvantagem de deixar o governo com os custos e a responsabilidade de remunerar o investidor privado, que pode fraudar os seus números, para receber dinheiro do governo. Melhor seria privatizar de vez.)
Alckmin: O programa de privatizações já foi implementado por governos anteriores. Não há nenhuma intenção de criar novas empresas estatais.
(PRA: Tem medo, vergonha ou pratica oportunismo político ao anunciar que o programa de privatizações já foi implementado. Existem estatais claramente ineficientes e monopolistas que merecem e deveriam ser privatizadas.)
14 - Planeja uma reforma sindical? Quais os principais pontos? Contará com que apoios para realizá-las?
Lula: Nosso governo já encaminhou ao Congresso Nacional as propostas de Reforma Sindical aprovadas pelo Fórum Nacional do Trabalho. Cabe agora ao Legislativo definir e aprovar a nova legislação sindical brasileira.
(PRA: Se exime da responsabilidade, pois é claramente contrário quebrar o poder sindical que foi colocado sobre o Estado, como uma nova classe de prebendalistas, de rent-seekers, que sugam os recursos públicos. Se trata de um setor mafializado que mereceria ser totalmente revisto.)
Alckmin: No meu governo, todas as propostas de reformas terão um foco único: o desenvolvimento do país com garantia de manutenção de todos os direitos adquiridos. O Brasil precisa mudar para crescer e permitir que as empresas cresçam também e gerem empregos.
(PRA: Tergiversa sobre o assunto e não tem coragem de assumir o partido da sociedade contra as máfias sindicais, patronais e de trabalhadores, que assaltam o Estado e vivem às custas dee todos nós.)
15 - Quais os principais pontos de sua proposta para a área internacional? Manterá o foco na integração regional e diversificação de relações? Planeja insistir na vaga para o Brasil no Conselho de Segurança da ONU?
Lula: O Brasil continuará privilegiando o processo de integração sul-americana - o Mercosul e a Comunidade Sul-americana de Nações, em especial - e fortalecerá as relações Sul-Sul. Ao mesmo tempo, buscará ampliar seu acesso aos grandes mercados europeu, norte-americano e asiático e manterá com os países desenvolvidos um relacionamento positivo e soberano. A reforma do Conselho de Segurança é uma necessidade da democratização dos processos decisórios internacionais e dará maior legitimidade e eficácia à atuação daquele órgão. O Brasil, assim como a grande maioria dos membros das Nações Unidas, continuará empenhado nessa reforma.
(PRA: Nada a comentar: more of the same. Ou seja, continuará exatamente a mesma política externa, com todas as suas realizações. A reforma do CSNU, por exemplo, ao aumentar o número de vagas permanentes, não pode servir para democratizar o sistema e sim para dobrar o poder da oligarquia, apenas isso. Trata-se, de toda forma, de um tema que não foi debatido com a sociedade: não se sabe se ela aceita pagar mais para questões externas, quando os problemas internos são tão prementes.)
Alckmin: Vamos despolitizar as negociações comerciais e desideologizar a política externa. A estratégia de negociação comercial, sobretudo regional e bilateral, deverá ser modificada. Meu governo vai buscar a recomposição das relações do Brasil na América do Sul e a intensificação das relações com os centros mais dinâmicos da economia global, especialmente com a União Européia e os EUA, restabelecendo a prioridade das relações com os países desenvolvidos. Vamos criar iniciativas mais agressivas para melhor aproveitar as oportunidades de exportação para a China e defender, de forma mais eficiente, os setores industriais brasileiros ameaçados pela competição, nem sempre leal, das empresas chinesas. A assistência a brasileiros e a empresas brasileiras no exterior passará a ter efetiva prioridade nas atividades do Itamaraty.
A política externa deve ser vista como uma ação de Estado, dentro de uma perspectiva de médio e longo prazos, na qual o interesse nacional deve estar acima de visões conjunturais, ideológicas. A política externa do governo Lula se orienta por uma visão equivocada de mundo e se caracteriza por ser ideológica e partidária na sua execução, além de politizada nas negociações comercias. Pretendo restabelecer os princípios e valores tradicionais defendidos pelo Itamaraty ao longo de décadas.
É muito importante, também, que o Brasil se aproxime com passos medidos e seguros da OCDE ou ser acolhido num G-8, que poderia também incluir a China e a Índia.
(PRA: Poderia dizer, mais simplesmente, que voltaria para a política externa tradicional do Itamaraty, que nunca foi partidária ou ideológica)
16 - O governo brasileiro criou e liderou o G20 [comercial], que termina 2006 sem avanços. O que fazer diante deste fracasso?
Lula: Não houve fracasso. O G20 mudou completamente o perfil das negociações da rodada de Doha no âmbito da OMC. A partir do G20, os países emergentes passaram a ter papel fundamental nos debates da OMC. A prova disso é que na última reunião do G20, realizada no Rio de Janeiro, pediram para participar a União Européia, os Estados Unidos e o Japão, além do diretor da OMC, Pascal Lamy. O G20 colocou na ordem do dia o fim dos subsídios agrícolas dos países ricos. O termo "fracasso" para caracterizar a trajetória do G20 expressa uma atitude ideológica, marcada por uma visão submissa e conformista da ordem econômica mundial.
(PRA: Engano: o G20 não mudou o perfil das negociações, apenas impediu que naquele momento, em Cancun, em setembro de 2003, os americanos e europeus concertados fizessem uma grande maldade contra nós e os demais países exportadores não-subvencionistas. O papel do G20 está claramente exagerado, e sua ação só vale para uma parte pequena do dossiê agrícola, o protecionismo e o subvencionismo dos ricos, não os dos pobres. Nem todos os emergentes estão no G20, e no GATT-OMC as linhas de aliança são claramente ad hoc, não cabendo falar de blocos dos países emergentes e em desenvolvimento.)
Alckmin: O governo Lula errou ao basear toda sua estratégia de negociação comercial em ações multilaterais. Os entendimentos com a União Européia estão paralisados, o Mercosul em grave crise e o processo de integração hemisférico está praticamente morto. Em todos esses exemplos, o governo brasileiro ficou a reboque dos acontecimentos. Meu governo apoiará a retomada das negociações multilaterais da Rodada Doha. Vamos defender um acordo equilibrado, que represente um resultado satisfatório, tendo em mente a agenda para o desenvolvimento. A agricultura deve continuar a ser central nas deliberações. As concessões que forem eventualmente feitas devem ser avaliadas à luz das ofertas recebidas e dos nossos interesses ofensivos.
Vamos ampliar o relacionamento com os países de escala continental, como a China, a Rússia e a Índia, com base na reciprocidade de interesses, e não com a ilusão ideológica de que são aliados naturais em um eventual conflito de interesses com os EUA.
(PRA: Agricultura pode até ser central para o Brasil, mas não deveria ser o fator impeditivo de um acordo, pois se trata claramente do setor mais conflitivo e mais sujeito a regras especiais. Um coisa é certa: para voltar a crescer é preciso ter regras claras, inclusive para o investimento estrangeiro. Daí a necessidade de uma maior abertura econômico-financeira, e sobretudo comercial. )
17 - O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, anunciou um novo referendo em 2007 para acabar com o limite de prazo para a reeleição presidencial, o que possibilitaria a sua permanência no poder indefinidamente. Se isso acontecer, o candidato será contra ou a favor da manutenção do país no Mercosul (cláusula democrática diz que seus membros têm que ser democracias)?
Lula: O presidente Lula tem manifestado recorrentemente sua posição contra a reeleição, pelo menos consecutivamente, dos portadores de cargos executivos. A reeleição continuada de um governante, desde que respeitadas as normas do Estado de direito, não representa qualquer infração democrática. Esta hipótese existe em quase todas as democracias européias: na Alemanha ou no Reino Unido. Na França presidencialista também existe esta possibilidade de reeleição "indefinida". Quem pode, assim, decidir eleições ou reeleições são os eleitores. Por que esta fixação com a Venezuela?
(PRA: A fixação com a Venezuela está em que o presidente Lula manifestou, em diversas ocasiões, seu apreço pelo lider venezuelano: ele já esteve inúmeras vezes no Brasil e até decidiu onde deveria ser implementada uma nova refinaria da Petrobras. Isso é manifestação de poder, por parte da Venezuela, e renúncia à soberania, por parte do Brasil. Nosso Tribunal de Contas precisa aferir as contas de certas estatais, que estão sendo utilizadas partidariamente na política externa.)
Alckmin: A questão do referendo na Venezuela é um assunto interno, que deve ser discutido pela sociedade venezuelana. Agora, eu já me manifestei contrário à reeleição sem qualquer tipo de regulamentação. Parece não ser prudente. Como disse, vamos ampliar o relacionamento com todos os países da América do Sul, com base na reciprocidade de interesses e na defesa de nosso interesse. A Venezuela, o quarto maior exportador mundial de petróleo, acaba de entrar para o Mercosul. Isso será um grande desafio para o processo de integração. Sua entrada plena depende da ratificação do Protocolo de Adesão, que será examinado pelo Congresso Nacional somente no ano próximo. O fato de Hugo Chávez estar apoiando publicamente o presidente Lula - que claramente se mostra simpático a algumas das idéias que Chávez coloca em prática na Venezuela - não será obstáculo para tratarmos o relacionamento com esse país com base nos interesses da integração regional e dos interesses do Brasil.
(PRA: Contornou o problema e não respondeu à pergunta.)
18 - Vai manter o Bolsa Família? Com que formato?
Lula: Vamos manter e ampliar o Bolsa Família, que é um dos maiores e mais eficientes programas de transferência de renda do mundo e beneficia hoje mais de 11,1 milhões de famílias brasileiras. Em um segundo mandato, vamos aprofundar o papel do Bolsa Família como eixo integrador das ações de combate à pobreza e à desigualdade no Brasil. Ampliaremos a articulação do programa com ações de geração de trabalho e renda, de capacitação profissional, de alfabetização e aumento da escolaridade dos adultos beneficiários, de micro-crédito, entre outros. Assim, as famílias beneficiadas vão criando as condições para garantir o seu próprio sustento, deixando de depender do Bolsa Família. O governo buscará estratégias de acompanhamento individual das famílias beneficiadas que se encontram em situação de maior vulnerabilidade. Além disso, será aprofundada a relação com os programas do governo de apoio aos jovens, bem como com os estados e municípios que têm agenda de combate à fome e à pobreza que o Bolsa Família materializa em todo o país.
(PRA: O governo se orgulha do BF, quando na verdade deveria sentir vergonha pelo fato de tantas pessoas não conseguirem se inserir pelo emprego e pela renda e devam sua subsistência mínima ao governo, criando uma dependência que é nefasta.)
Alkmin: A minha decisão é de manter e melhorar o Bolsa Família, criado pelo PSDB no governo Fernando Henrique. O que o governo do PT fez foi mudar o nome de um programa que já existia. Temos que garantir transferência de renda, mas temos que oferecer condições especiais para a superação da pobreza. Estimular os mais pobres a viver de benefícios não é promover a inclusão, o que de fato queremos é dar dignidade, o que só pode ser feito com trabalho. O programa em curso tem muitos problemas, mas temos que superar um a um e melhorar para garantir a inclusão de fato dessa ampla fatia da população.
Quando falamos de aperfeiçoamento, estamos nos referindo, por exemplo, ao gerenciamento do programa. É preciso aprimorar o Cadastro Único Federal, integrá-lo aos cadastros dos programas de transferência de renda existentes nos estados e mesmo a outros programas existentes no âmbito federal, como o PETI (Programa de Erradicação do Trabalho Infantil), o BPC (Benefício de Prestação Continuada) e mesmo a Previdência Rural. Também é preciso criar um sistema de monitoramento efetivo das contrapartidas das famílias. A família não vai sair da sua situação de vulnerabilidade com menos de R$ 100 por mês, mas tem chances de sair com seus filhos formados no ensino fundamental e no médio.
Do ponto de vista de política social, o Bolsa Família deve ser integrado às políticas de educação, saúde, capacitação profissional e de geração de trabalho e renda. É preciso também estudar a possibilidade de acompanhamento e monitoramento das famílias serem realizados pelos agentes comunitários de saúde. Hoje são mais de 180 mil deles em todo o Brasil. Eles estão perto das famílias, têm a confiança das mães e podem ajudar as famílias a atender as condições previstas no programa. Repito; a Bolsa Família será mantida e melhorada.
(PRA: Correto, apenas isto, e deveria ter dito que o objetivo último seria acabar com BFs e outras assistências públicas. Governo decente promove investimentos e crescimento do emprego, não fica distribuindo esmola.)
19 - Reajustará o salário mínimo acima da inflação? Qual será o percentual no primeiro ano do seu governo?
Lula: Vamos aumentar o salário mínimo acima da inflação para acelerar a distribuição de renda e estimular o mercado interno. É importante destacar que o salário mínimo teve aumento real acumulado de 26% até abril de 2006, e tem hoje o maior poder de compra dos últimos 26 anos.
(PRA: Salário mínimo nem deveria existir, pois ele representa um impedimento ao crescimento do emprego e ao equilíbrio das contas públicas. Existindo, não deveria ser nacional, e sim regional, ou estadual.)
Alckmin: Em princípio, uma boa referência para reajustar o salário mínimo de acordo com o aumento do PIB per capita, que é um indicador ainda que não preciso do aumento médio da produtividade. Desta forma, como a prioridade do meu governo é o crescimento mais acelerado do PIB o salário mínimo deverá crescer em termos reais. Entretanto, é preciso lembrar que os benefícios previdenciários estão vinculados ao salário mínimo, da mesma forma, a folha de salários de muitos estados e prefeituras, o que torna o reajuste do salário mínimo uma questão fiscal que tem grandes restrições como todos sabemos.
(PRA: Contorna o assunto e faz um pouco de magia econômica.)
20 - O que planeja em relação ao crédito consignado e habitacional? Manter? Ampliar? Como?
Lula: Nós realizamos uma verdadeira revolução no crédito, ampliando o acesso a setores da população que nunca tiveram essa chance. E fizemos isto combinando inflação baixa e melhorando o poder aquisitivo das classes mais pobres. Concretizamos mais de 17 milhões de operações de microcrédito, com taxa de juros máxima de 2%, num total de R$ 3 bilhões emprestados. O crédito consignado foi parte importante dessa política porque ampliou o crédito direto ao consumidor. Entre 2002 e 2005, foram R$ 220 bilhões a mais de crédito ofertado, sendo que, desse total, R$ 40 bilhões são de crédito consignado. O total de crédito na economia brasileira saltou de 24,2% do PIB em dezembro de 2002 para 32,4% em junho de 2006. Num segundo mandato, vamos continuar ampliando ainda mais a oferta de crédito e criando novas modalidades, como fizemos para o setor habitacional. Nossa meta é aumentar o volume de crédito para algo em torno de 50% do PIB.
(PRA: O crédito e o nível de juros poderiam evoluir positivamente se o governo operasse uma deconcentração no setor, promovendo nova abertura do sistema financeiro e bancário, com entrada de novos parceiros externos. Cartelizado como é hoje, o sistema só pode oferecer juros altos.)
Alckmin: No meu governo o ajuste e a política fiscal sólidos permitirão a queda na taxa de juros e com isso, o crédito ao consumidor e o crédito habitacional, devidamente dosados, serão instrumentos importantes de estímulo a ampliação da demanda e portanto de geração de empregos. Hoje pode se dizer que o trabalhador "paga por duas mercadorias e leva uma" quando compra no crediário, já que a taxa de juros ao consumidor é elevada. Portanto, vamos fazer todo o esforço para reduzir a taxa básica da economia e do crédito ao consumidor, o que resultará num significativo aumento do poder real de compra dos salários dos trabalhadores e ampliação do mercado, particularmente de bens de consumo duráveis.
(PRA: O diagnóstico é correto, ao dizer que o crediário é um roubo e uma fraude, quando se anuncia que se está vendendo “seis vezes sem juros”. Isso deveria ser coibido como propaganda enganosa. Não diz que a solução é terminar com o cartel das financeiras, abrindo totalmente o sistema à concorrrência e ao ingresso de novos ofertantes externos.)
21 -Tem planos de fazer um choque de gestão? O que isso significa? Cortar quantos ministérios? Cortar quantos DAS? O que mais?
Lula: É importante destacar que, no nosso governo, houve aumento do número de ministérios sem elevação do gasto com pessoal. Prova disso é que, em 2002, o gasto com pessoal e encargos representava 5,3% do PIB. Em 2006, esta proporção ficará em 5,1%, um percentual, portanto, menor do que o verificado no último ano do governo anterior, mesmo com o aumento no número de funcionários na ativa. Estamos produzindo mais com menos gastos, o que significa uma gestão cada vez mais eficiente. Em relação aos ministérios, eventuais modificações serão implantadas no início de um próximo mandato.
(PRA: O governo não diz que o investimento caiu para níveis irrisórios e que os gastos com pessoal são de toda forma exagerados. Se a gestão é eficiente, então se trata de outro país, que não o Brasil. Sobre o número de ministérios, a pergunta mais simples é a seguinte: quantas vezes por semana o presidente despacha com cada ministro? Não deveria haver mais de 19 ministérios, o número exato de edifícios ministeriais na Esplanada.)
Alkmin: O meu governo vai valorizar o servidor público. Em lugar de fazer o que o presidente Lula fez, levando para o serviço público pessoas cuja única credencial era ser amigo dele, eu vou prestigiar o funcionário concursado. Vamos fazer todos os concursos necessários para garantir qualidade no serviço público. Hoje, temos 50 mil cargos comissionados. Dá pra reduzir sem demitir ninguém. Aproveitar servidores de carreira nesses cargos. Vou reduzir o número de ministérios ao mínimo necessário para fazer o governo funcionar.
(PRA: Pelo menos diz que vai reduzir o número de ministérios ao mínimo necessário. Deveria anunciar logo que vai reduzir a no máximo 20, e de preferência 12 ou 15. Deveria também dizer que vai acabar com a estabilidade, um convite à preguiça e à incompetência.)
Fontes: Comissão de Programa de Governo da Coligação Lula de Novo com a Força do Povo
Comentários de
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 7 de outubro de 2006.
posted by Paulo R. de Almeida at Domingo, Dezembro 03, 2006 | 1 comments links to this post
Como se viu no post imediatamente anterior, o presidente anterior, Fernando Henrique Cardoso, tentou responder ao saco de mentiras que vem sendo despejado no público a partir da máquina de propaganda governamental e dos comícios e palanques nos quais não se cansam de subir o atual presidente e sua candidata do colete, com a total cooperação da (in)Justiça Eleitoral (creio que o termo correto seria submissão).
Pois bem, eu fiz este blog para acompanhar as eleições presidenciais de 2010, como já tinha feito um para as eleições de 2006:
Blog Eleições Presidenciais (2006)
Talvez seja o caso de reproduzir aqui, alguns dos posts mais analíticos que coloquei no próprio mês de outubro, quando a campanha já estava reduzida aos dois candidatos principais, Lula e Alckmin. Aparentemente, é o que se vai ter novamente em outubro de 2010: Lula (com um boneco de ventriloquo como personagem de ficção) e um candidato do PSDB, possivelmente José Serra.
Vejamos o que eu escrevi então:
Domingo, Dezembro 03, 2006
87) Os programas economicos dos candidatos
Os programas econômicos dos candidatos
Comentários informais
Paulo Roberto de Almeida
A partir de respostas encaminhadas pelos comitês de campanha dos dois candidatos do segundo turno a perguntas de jornalista do jornal O Globo.
Comentários de Paulo Roberto de Almeida: (PRA: )
1 - Planeja manter o princípio da responsabilidade fiscal? Qual será a meta de superávit primário? Como alcançá-la?
Lula: Vamos manter a responsabilidade fiscal com crescimento e melhoria da distribuição de renda. Manteremos a meta de superávit primário de cerca de 4,25% do Produto Interno Bruto (PIB) nos próximos quatro anos e aproveitaremos o crescimento mais acelerado da economia para promover a melhoria da qualidade do gasto público. Com o crescimento maior, o peso desse gasto será diluído. Os aumentos reais do valor do salário mínimo e as transferências de renda por meio da Previdência, LOAS e Bolsa Família serão mantidos. É preciso destacar ainda que o ajuste fiscal não se dará em detrimento dos investimentos em infra-estrutura, necessários para o desenvolvimento do país.
(PRA: Promessas generosas, mas insustentáveis em vista do atual, e futuro, quadro fiscal, que aponta para uma deterioração rápida das contas públicas. Para reduzir os juros, o superávit primário deveria na verdade ser aumentado, não mantido tal qual. Não diz como se vai alcançar crescimento mais rápido, se ele já não foi alcançado agora, num quadro internacional extremamente favorável, que pode não se manter no futuro. Ou seja, promete coisas absolutamente contraditórias ao mesmo tempo, quando o problema real é justamente o aumento irresponsável dos gastos públicos.)
Alckmin: Vou manter. O tamanho do estado brasileiro é desproporcionalmente grande. Apropria cerca de 45% do PIB. No ano passado, a receita corrente própria do governo alcançou 41,4% do PIB, a carga tributária alcançou 37,4% do PIB e outras receitas 4% do PIB. Como seus gastos superaram este total, o governo ainda tomou empréstimos (déficit público) de 3,4% do PIB, o que totaliza 44,8% do PIB. Portanto, a responsabilidade fiscal precisa ser reforçada, não só para começar a reduzir o tamanho do estado, mas também melhorando a sua eficiência e qualidade dos serviços públicos priorizando as despesas de acordo com a demanda da população. A meta de superávit primário será mantida. O ajuste fiscal precisa começar acabando com o desperdício e a corrupção, aumentando a eficiência e a produtividade, racionalizando a utilização de recursos, estabelecendo transparentemente objetivos e metas de cada unidade da administração pública, cobrando resultados e responsabilizando os gestores. Tais medidas foram implantadas no Governo Mario Covas e aprofundadas no meu governo no Estado de São Paulo. Uma vez feito este ajuste e implantado o princípio "o governo só pode gastar aquilo que arrecada" cabe um debate nacional amplo sobre se o tamanho do Estado brasileiro deve ser reduzido adicionalmente ou não. Se a sociedade demandar redução adicional no tamanho do estado serão necessárias reformas institucionais e, isto num país democrático é definido pela vontade popular.
(PRA: Começa fazendo um diagnóstico mais correto da situação e do peso verdadeiro do setor público. Na verdade, contando com efeitos indiretos da alta tributação e baixo nível dos serviços, os efeitos cumulativos do peso do Estado são ainda maiores, aproximando-se, provavelmente, de 55 a 60% do PIB. Cálculos de tributaristas indicam, aliás, que se todos pagassem os impostos devidos, a carga fiscal seria maior do que 60% do PIB. O candidato é cauteloso e não diz que o tamanho do Estado brasileiro DEVE ser reduzido, pois sabe que a população ainda tem ilusões quanto a um papel positivo do Estado, quando este tornou-se, de fato, atualmente, o principal entrave ao desenvolvimento brasileiro.)
2 - O câmbio flutuante será mantido? Que mecanismos utilizará para reduzir a apreciação do real frente ao dólar?
Lula: O sistema de câmbio flutuante será mantido. O governo também continuará realizando operações de compra de reservas cambiais para garantir um estoque de reservas capaz de reduzir cada vez mais a vulnerabilidade externa. A queda dos juros e o aumento das importações, proporcionada pelo crescimento maior e pela abertura da economia, diminuirão a pressão pela valorização cambial.
(PRA: A política do câmbio flutuante veio para ficar, isso parece claro, mas a melhor defesa contra a valorização do real não é a compra infinita de dólares, pois isso custa caro ao Tesouro e também sai caro manter reservas muito altas, pois elas são pessimamente remuneradas, e sim a existência de grandes fluxos de comércio exterior, nos dois sentidos. O governo mantém, pelos seus principais conselheiros econômicos, um viés mercantilista declarado, preferindo apenas exportar, em lugar de manter grandes correntes nos dois sentidos. Uma importação maior contribuiria largamente para desvalorizar o real e aumentar o valor do dólar, que é mantido baixo pelos altos fluxos de entrada, e pouca saída. O governo precisa deixar de ser mercantilista.)
Alckmin: No meu governo o regime de taxa de câmbio será mantido, mas aprimorado. Deve ficar claro que o atual regime tem gerado enormes volatilidades, instabilidades e crises e que o Banco Central tem intervindo fortemente e freqüentemente, seja vendendo dólares como na crise do Méxido em 1995, crise da Ásia 1997, crise da Rússia em 1998, crise do Brasil em 1999, Turquia/Argentina/11 de setembro em 2001, crise do Brasil em 2002, para isto reduzindo as reservas cambiais, tomando empréstimos do FMI e outros órgãos ou emitindo títulos públicos em moeda estrangeira, mas sempre respondendo a choques e crises vindos do exterior. Ou, mais recentemente, o Banco Central tem feito intervenções comprando dólar em função do enorme fluxo respondendo à altíssima taxa de juros fixada pelo próprio Banco Central. O meu governo propõe uma flutuação administrada, mas com objetivos claros e para antecipadamente evitar as crises e estabilizar a taxa de câmbio. O que tem que ser evitado é a criação de expectativa de valorização da taxa de câmbio, pois isto aumenta o retorno do especulador e é uma expectativa que se auto-realiza. Num regime de câmbio flexível administrado, com objetivo de ter uma taxa câmbio de equilíbro fundamental, o equilíbrio ou pequeno superávit na conta de transações correntes poderá ser alcançado e a dívida externa será declinante ou contida num nível prudente, conseqüentemente não haverá razões para a criação de expectativa de depreciação cambial e ataques especulativos. Neste sentido, a livre flutuação para baixo da taxa de cambio é problema, mas para cima não é. Se houver episódios atípicos e passageiros que levam à depreciação, existem instrumentos convencionais para evitar a volatilidade excessiva. Desta forma, a política cambial deve sempre evitar a apreciação sinalizando para o mercado esta decisão, tanto com intervenções do Banco Central como do Tesouro Nacional. A compra de dólares e sua esterilização é o mecanismo típico utilizado. O acúmulo de reservas cambiais não será problema se a taxa de juros interna for igual ou próxima a internacional. E é bom lembrar que somente nesta condição só será possível ter uma boa política cambial.
(PRA: Politica muito clara de administracao da taxa de câmbio, ou seja flutuação suja, mas tampouco diz que o meio mais fácil de desvalorizar a moeda é reduzindo a oferta de dólar via aumento das importações. Todo político brasileiro parece ter vergonha de importações.)
3 - O sistema de metas de inflação será mantido? Há previsão de incluir metas de crescimento? Qual é o ponto de equilíbrio entre a inflação e a busca de um crescimento mais acelerado?
Lula: O contexto histórico agora é outro. O objetivo não é mais reduzir a inflação, mas mantê-la baixa. Recebemos um governo com a inflação alta, desequilíbrios orçamentários e nas contas externas, alto desemprego e crescimento muito baixo. Contrariando as expectativas da oposição, conseguimos colocar a economia brasileira na rota do desenvolvimento sustentado. Temos, hoje, um conjunto de fatores positivos: crescimento econômico com inflação baixa e geração de empregos, expansão das exportações com ampliação do mercado interno, aumento do crédito e do investimento com redução constante da taxa de juros e do risco país. Essa combinação de fatores é inédita na história do Brasil. E nós estamos provando que é possível crescer com uma inflação baixa. Não fixamos metas de crescimento no programa, mas é possível perseguir um crescimento médio de pelo menos 5% ao ano a partir de 2007. Para chegar a isso, buscaremos uma elevação da taxa de investimento da economia dos cerca de 21% do PIB esperados este ano para 25% do PIB até 2010.
(PRA: Começa com uma mentira: a inflação só foi alta em 2002 justamente por causa do “risco PT”, que provocou a maior valorização do dólar em tempos de flutuação de que se tem notícia na história econômica brasileira. O desemprego foi menor do que o existente nos dois anos seguintes. O crescimento baixo continua, aliás exatamente igual. O desequilíbrio nas contas externas já vinha sendo revertido e os saldos superavitários seriam alcançados de qualquer forma. Todas as afirmações são feitas de má-fé e não se sustentam na realidade. Agora se valoriza a inflação baixa, mas TODOS os economistas do PT recomendavam uma taxa de inflação um pouco mais alta para sustentar uma taxa maior de crescimento e uma menor de desemprego. Foram inconsequentes e provavelmente aloprados. A taxa de investimento não tem nada a ver com o regime de metas de inflação, e sim com a capacidade “extratora” do Estado, hoje convertido em despoupador líquido e sanguessuga da poupança privada. Não diz como vai conseguir aumentar a taxa de investimento, aparentemente por vontade divina.)
Alckmin: O sistema de metas de inflação foi desenvolvido na Nova Zelândia num contexto de profunda reforma do estado na qual o objetivo era estabelecer um sistema de gestão pública por resultado com total transparência. Assim, os diversos órgãos de governo têm que publicar seus objetivos e metas, após negociação com o Parlamento, e apresentar relatórios periódicos de prestação de contas a população. Estes relatórios são auditados, avaliados e publicados por um órgão do Parlamento. Desta forma, é um sistema flexível que, de acordo com as circunstâncias, o sistema de metas pode e deve conter outras metas que não só o de inflação. Como de fato aconteceu na Nova Zelândia. Neste conceito, o sistema deve ser mantido, pois é mecanismo sistemático de praticar a democracia. O que chegou ao Brasil é uma corruptela e portanto demanda aperfeiçoamento. De fato, não há razões para que o Brasil tenha uma meta de inflação acima da média mundial, que está em torno de 4% ao ano, e isto estabelece o parâmetro central a ser perseguido pelo Banco Central. Da mesma forma, não há razões que determinem que o Brasil não pode crescer a uma taxa semelhante à média dos países emergentes, que está em torno de 6,8% ao ano, e deverá prevalecer nos próximos anos. Assim, ao invés de extrapolar o passado para o futuro e determinar que o produto potencial não crescerá mais do que 3%, ao ano, e assim praticar uma política de juros em que o produto efetivo fica enquadrado dentro deste limite absurdo, o meu governo parte do pressuposto de que o futuro deverá ser a expressão da vontade e competência da nação brasileira e a materialização das decisões e políticas do novo governo.
Mais do que isso temos um empresariado ativo e competente, técnicos e engenheiros com boa formação, trabalhadores disciplinados e dedicados e uma agropecuária e industria manufatureira competitiva que pode perfeitamente alcançar uma meta de crescimento igual a media dos países emergentes. É preciso, sim liberar estas forças e competências que estão reprimidas pelas altas taxas de juros, sufocadas pela tributação excessiva, penalizadas pela taxa de câmbio apreciada e espremidas pela voracidade do estado.
(PRA: Dá uma lição de história do regime de metas de inflação e não era isso que tinha sido pedido. Afirma, de modo totalmente gratuito, que “não há razões que determinem que o Brasil não pode crescer a uma taxa semelhante à média dos países emergentes”, quando existem, sim, boas – e más – razões para que o crescimento do Brasil seja pífio. O Brasil simplesmente NÃO PODE crescer mais do que o faz, por insuficiência de poupança, por magreza de investimento, por um péssimo ambiente de negócios, por ser ainda muito fechado, por uma qualidade pavorosa dos recursos humanos, por uma regulação intrusiva e um tributarismo claramente excessivo e exagerado. Quando esses GRANDES problemas forem resolvidos, ai o Brasil voltará a crescer. Do contrário, está condenado ao baixo crescimento e à estagnação da renda.)
4 - Como acelerar a queda das taxas de juros? Que medidas serão adotadas nesse sentido?
Lula: A inflação abaixo da meta abre espaço para uma queda mais acelerada dos juros. A situação econômica do país é segura e estamos convencidos de que ela vai melhorar cada vez mais. A política econômica bem-sucedida vai continuar, só que agora em uma nova fase: superados os desequilíbrios e controlada a inflação, estamos em condições de caminhar para uma taxa de crescimento mais vigorosa, continuando a baixar os juros.
(PRA: Isso, como explicação, é insuficiente, pois a taxa de juros é claramente influenciada pelo nível da dívida pública, que por sua vez é determinada por gastos em excesso de arrecadação. Uma política fiscal irresponsável não pode garantir uma política econômica bem sucedida.)
Alckmin: Do lado externo, com superávit em transações correntes e redução da dívida externa já existem fortes pressões para a queda na taxa de juros com a queda no risco Brasil. É o governo, com sua atual política, que sustenta, internamente, elevadas taxas de juros. Para quebrar a "convenção" de que taxas de juros mais baixas podem trazer instabilidade financeira é preciso um forte ajuste fiscal e, simultaneamente, um novo mix de política fiscal, cambial e monetária, que simultaneamente traga conciliação de interesses, garantia de estabilidade e delineie trajetória de crescimento sustentável e geração de emprego. No meu governo vou trilhar o melhor e mais seguro caminho para reduzir a taxa de juros que começa com ajuste fiscal, reduzindo a despesa corrente e o compromisso de governo com metas fiscais claramente definidas. O ajuste fiscal com meta de déficit nominal zero, por exemplo, implica que a dívida pública permaneceria constante e, portanto, declinante em relação do PIB. Com isso, estará criada também uma trajetória firme de queda na taxa de juros dos títulos públicos.
(PRA: Correto. Só não disse que o ajuste fiscal tem de ser feito via redução dos gastos do Estado, não via aumento dos tributos, como tem ocorrido até aqui. Enquanto isso não for dito claramente, só se pode concluir que os políticos são todos covardes, ao não assumir que o Estado é, hoje, o grande problema da economia brasileira.)
5 - Como o candidato se posiciona em relação à independência legal do Banco Central? Pretende encaminhar projeto nesse sentido ao Congresso? Por quê?
Lula: A autonomia do Banco Central é uma discussão que a sociedade brasileira ainda está amadurecendo. É por isso que o Senado Federal iniciou o debate, colhendo posições a favor e contra, para que se possa fazer a melhor opção para o país. Acreditamos que o ideal é que o tema seja tratado da maneira mais técnica e menos ideologizada possível.
(PRA: O governo é o principal responsável de o tema não estar sendo debatido com a sociedade. Adota uma posição de fato contrária, quando diz que a sociedade precisa examinar o problema. Os economistas esquizofrênicos do PT são todos contra, mas eles não acertaram nenhum diagnóstico e não fizeram nenhuma prescrição correta para a economia brasileira até hoje, porque dar-lhes crédito nessa matéria?)
Alckmin: Conforme resposta a questão 3 num país democrático como a Nova Zelândia a questão relevante não é a independência operacional formal do Banco Central. Em qualquer sociedade que pretenda ser democrática, os órgãos públicos devem estar sempre à serviço da sociedade e esta é que deve estabelecer os suas funções e seus objetivos que devem sempre refletir as preferência da sociedade, isto é, da maioria. Uma vez estabelecidos os objetivos, se for um órgão que envolve conhecimentos técnicos deve ter autonomia operacional. Mas na medida que se dá autonomia operacional deve existir como contrapartida mecanismos de responsabilização, de "accountability" e de transparência.
(PRA: Resposta totalmente ambígua. Ficou tergiversando. Precisava dizer apenas se era contra ou a favor. Parece que tem medo do debate.)
6 - As agências reguladoras serão mais independentes ou terão maior subordinação aos ministérios?
Lula: As agências reguladoras não podem decidir as políticas públicas. Elas regulam as políticas decididas pelo governo.
(PRA: Claramente insuficiente e passa por cima do papel relevante que devem ter essas agências na criação de um ambiente estável e favorável ao investimento privado. De fato, como se sabe, esse governo é contrário às agências e fez tudo o que estava ao seu alcance para sabotá-las. Só não fechou porque não tinha condições, do contrário voltaria ao regime promíscuo anterior, quando os ministérios eram balcão de negócios dos serviços públicos para fins claramente políticos e politiqueiros. O registro da ação do governo nessa área é deplorável.)
Alckmin: As agências reguladoras atuam onde a eficiência e justiça não podem ser alcançadas pelos mecanismos de mercado. Desta forma, as agências reguladoras devem atuar com regras claras e estáveis sempre visando estabelecer um equilíbrio econômico entre os interesse dos produtores e dos consumidores. Preço justo para os consumidores e regras claras e estáveis que garantam remuneração e reduzam o risco dos investidores são fundamentais para a expansão de setores como de utilidade pública. Neste sentido deve ter independência dos ministérios correspondentes.
(PRA: Também ambíguo, com exceção da última frase, que visa garantir a independência das agências. Deveria ter dito que vai reforçá-las e ampliar o número de agências despolitizadas. )
7 - Em relação às reformas da Previdência, Administrativa, Tributária, Trabalhista e Sindical, qual será a ordem de prioridade?
Lula: A prioridade para 2007 é a reforma tributária. E não nos faltou vontade política para fazê-la neste governo. Ao contrário. Ninguém pode esquecer que, em abril de 2003, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi ao Congresso Nacional com 27 governadores para levar uma proposta de reforma tributária. A parte federal foi votada, mas a estadual, ainda não. No mês passado, fizemos novo esforço para tentar a aprovação - propusemos até a concessão de 1% a mais do Fundo de Participação dos Municípios. A oposição, porém, não quis votar. Acreditamos que, com a nova legislatura no Congresso Nacional e com os novos governadores, será possível aprovar essa reforma tão necessária para o país.
(PRA: Mentira, mais uma vez. Não foi só a oposição que não quis votar: todos os governadores, de situação ou de oposição, não quiseram perder a faculdade de fazer guerra fiscal. Tergiversa sobre o assunto e não expõe claramente que tipo e como pretende fazer com a reforma tributária. Tampouco aborda os outros assuntos, provavelmente porque não pretende mais fazer reforma nenhuma, por ser filosoficamente contrário às demais reformas.)
Alckmin: Com a sucessão de escândalos, inchaço e uso indevido da máquina administrativa, nós vamos herdar uma situação política, administrativa e orçamentária complicadas. Assim, as prioridades já foram definidas: reforma política e ações corretivas na área administrativa e orçamentária ganharam precedência. Com a casa minimamente em ordem será possível encaminhar as demais reformas.
(PRA: A reforma política é importante, mas não se conseguirá começar por ela, pois ela arrisca bloquear todas as demais reformas. Se deveria claramente colocar no mesmo pé de igualdade as reformas tributária e da previdência, e depois fazer a trabalhista e a administrativa, na suposição de que, no primeiro dia de governo, o novo presidente já terá enxugado a ministrança para não mais do 20 ministérios. Tem de dizer que sem reforma trabalhista, o desemprego não se reduzirá. Hoje o Brasil já é uma república sindical, inclusive patronal. Precisaria quebrar o sistema corporativo que engessa o Brasil.)
8 - O candidato planeja fazer ou não uma reforma da Previdência? Quais os principais pontos? Introduzirá a idade mínima para aposentadoria? Desvinculará o salário mínimo do piso previdenciário?
Lula: Não há proposta de reforma da Previdência. Desde o início do governo, estamos realizando uma profunda reforma na gestão da Previdência Social. Fizemos a Reforma Previdenciária para o setor público. Reduzimos gastos e criamos mecanismos - como o recadastramento - para evitar fraudes, desvios e pagamentos indevidos. Recuperamos créditos e modernizamos os sistemas de arrecadação e fiscalização. O resultado é que, no início deste ano, a previsão de déficit era de R$ 50 bilhões, mas já foi reduzida para R$ 41 bilhões. Destacamos o Censo Previdenciário que realizamos e o ajuste no sistema de concessão de auxílio-doença. É preciso também buscar a eficiência da gestão, cujo ponto central, em nosso governo, tem sido a melhoria do atendimento aos beneficiários - que buscamos por meio da ampliação do horário de atendimento de 6 para 10 horas e do fortalecimento do atendimento a distância, por telefone e internet. O crescimento econômico trouxe e trará maior receita ao sistema e apostamos na redução da informalidade, com o projeto de lei em tramitação no Congresso que reduz as alíquotas para contribuintes individuais, incentivando o acesso ao sistema. Agora, com o crescimento mais acelerado da economia, será possível estabilizar, a médio prazo, o valor dos pagamentos previdenciários - que hoje estão em torno de 7,8% do PIB - como proporção do PIB.
Além disso, o Governo Lula considera um equívoco o pensamento de que a desvinculação entre o salário mínimo e o piso seja a solução para o problema da Previdência. Não podemos submeter os nossos aposentados e pensionistas a uma renda menor que o salário mínimo.
(PRA: O governo simplesmente não reconhece que uma das fontes do enorme problema fiscal que enfrenta tem origem na previdência. Eficiência de gestão para um sistema deformado significa preservas as raízes das iniquidades previdenciárias e não enfrentar o problema de frente, que é o desequilíbrio atuarial das contas, sobretudo as da previdência pública. Confia no crescimento para preservar um sistema iníquo e insustentável. Não tem coragem para enfrentar o problema de frente.)
Alckmin: Está no Plano de Governo que será necessário fazer uma reforma e mencionamos os principais pontos. Sabemos que a idade mínima de aposentadoria e a desvinculação dos benefícios previdenciários do salário mínimo estão na agenda de todos que se debruçam sobre a questão da reforma da previdência. Mas não se retiram direitos já adquiridos. Nós faremos uma reforma sem atropelos e com normas resultantes de amplo debate com a sociedade para desobstruir o futuro. Tentar tirar direitos ou forçar reforma numa direção pode não só inviabilizá-la gerando uma reação política tão forte que pode resultar num tiro no pé.
É preciso um amplo debate nacional, esclarecimento de todas as partes envolvidas e garantias para aqueles que se sentem ameaçados para que a questão tenha um bom encaminhamento e cheguemos a uma reforma que resolva as questões fiscais, que seja satisfatória para os trabalhadores e seja duradoura para as próximas gerações.
(PRA: Tampouco tem coragem de dizer que é preciso enfrentar as “espertezas adquiridas”, sobretudo no setor público. Afirma, pelo menos, quais os pontos que precisam ser corrigidos, mas existem vários outros que não são tocados. Quando se fala de “amplo debate nacional” é porque se exime de apresentar propostas claras e politicamente difíceis.)
9 - Planeja uma reforma tributária? De onde virão os recursos para compensar perdas de arrecadação? Em que tributos vai mexer? Do que pode abrir mão? A CPMF será mantida? Encaminhará proposta de renovação da DRU?
Lula: Como dissemos, é a reforma prioritária. Será centrada na simplificação e racionalização dos impostos, para ganhar aumentos de eficiência na arrecadação. Defendemos desoneração das exportações e dos investimentos. As perdas serão compensadas pela maior formalização da economia (recolhimento de tributos sobre os salários dos empregados com carteira assinada e sobre a receita das empresas). Essa reforma envolve articulação com os governadores, principais afetados por propostas como a transformação do ICMS num imposto de valor agregado e na simplificação das alíquotas.
(PRA: Vaguidão nas respostas. Não diz, por exemplo, que é preciso enfrentar o peso da máquina do Estado sobre a economia, as inconsistências previdenciárias, políticas setoriais que transferem renda para quem já é rico, e várias outras coisas mais que obstaculizam a redução dos gastos públicos, hoje claramente o fator mais relevante, nos três níveis da federação, que impede uma reforma redutora de tributos e não simplesmente “racionalizadora”, que é um conceito vago.)
Alckmin: Da mesma forma que na reforma da previdência social, não é possível forçar a aprovação de uma proposta pré-definida. A reforma será resultado de uma grande negociação, pois passa por questões muito complexas e delicadas politicamente como o da federação. O que é possível é estabelecer princípios que o meu governo adotará. Em primeiro lugar, não será uma reforma para aumentar a carga tributária como tem sido as reformas anteriores. Ao contrário, para estimular o crescimento e ganhar eficiência econômica, temos que desonerar o investimento produtivo, a produção e a folha de salários. Durante do meu período no governo de São Paulo, não aumentamos nenhuma alíquota de imposto, ao contrário reduzimos a alíquota de vários produtos. Para termos maior justiça social é preciso reduzir a participação de impostos indiretos que são muito regressivos no Brasil e aumentar a participação de impostos diretos que incidem de acordo com a capacidade de pagamento de cada indivíduo e, portanto, são mais justos e transparentes. Para reduzir os custos administrativos das empresas é preciso simplificar o sistema tributário. Para evitar distorções alocativas na economia é preciso privilegiar impostos com maior neutralidade como o imposto direto e imposto sobre o valor agregado.
(PRA: Correto, mas seria preciso dizer também que o imposto indireto precisaria ser federalizado, ter aliquota única e tendencialmente reduzida e que a folha de pagamentos precisaria ser absolutamente aliviada, com o fnal do sistema corporativo que beneficia também os sindicatos patronais. Seria preciso terminar com o imposto sindical e dar autonomia e independência aos sindicatos, acabando com a unicidade.)
10 - Fará uma reforma trabalhista? Quais os principais pontos propostos?
Lula: Não há propostas específicas de reforma trabalhista por parte do nosso governo. Nosso compromisso é retomar o debate sobre a reforma trabalhista, por meio do diálogo tripartite, a exemplo do que foi feito no primeiro mandato com a Reforma Sindical. Mas para que se avance nessa questão, é preciso encorajar os trabalhadores com o encaminhamento da Reforma Sindical no Congresso Nacional, que deverá estimular a negociação coletiva e a solução de conflitos. Quanto ao suposto impacto da reforma trabalhista na geração de emprego, relatórios da OIT e da OCDE mostram que não há na experiência internacional evidências empíricas de aumento do emprego decorrente da flexibilização de direitos trabalhistas. Mas não há dúvida de que a atualização das leis do trabalho pode contribuir para criar um ambiente mais propício à geração de emprego e à distribuição de renda, que a rigor dependem do volume e do ritmo de investimento e crescimento da economia. Acreditamos, no entanto, que há espaço para modernizar as relações de trabalho no Brasil sem precarizar os contratos de trabalho ou comprometer os direitos dos trabalhadores.
(PRA: O governo Lula é claramente refém da máquina sindical, que sob alguns aspectos é uma verdadeira máfia sindical. Existem evidências, sim, de que regras laborais mais flexíveis aumentam a empregabilidade: basta comparar as taxas de desemprego dos EUA e Reino Unido, em torno de 4%, com as do resto da Europa, na faixa dos 9% ou mais. Seria preciso, tão simplesmente, desconstitucionalizar e retirar da legislação a maior parte das regras laborais, deixando o grosso das normas para as negociações diretas e o contratualismo coletivo. Seria preciso, por outro lado, extinguir a Justiça do Trabalho, ela mesma geradora de conflitos e fonte de deformações no mercado de trabalho, quando não de corrupção organizada. Países normais não dispõem de justiça do trabalho e sim de sistema arbitral, complementado por varas especializadas na justiça comum para os casos mais complicados. Arbitragem sempre foi a melhor forma de resolução de conflitos em quaisquer sistemas que exijam rapidez, transparência, clareza de propósitos e menor custo social.)
Alckmin: A reforma trabalhista deverá ter como foco a modernização da legislação trabalhista visando simplificar a contratação de trabalhadores. É preciso também uma legislação que incentive a formalização de 40 milhões de trabalhadores informais.
(PRA: Excessivamente vago e genérico. Tem medo de dizer que se trata de uma reforma essencial para aumentar o emprego. Sindicatos são feitos para garantir o emprego de quem já está incluído, não de quem precisa trabalhar.)
11 - Encaminhará projeto de reforma política? Defende as listas abertas, fechadas ou mistas?
Lula: O Brasil precisa fazer a reforma política com urgência. Ela é a mãe de todas as reformas. Nosso governo sempre teve consciência disso, embora a iniciativa e deliberação a respeito do assunto caibam ao Legislativo e não ao Executivo. De toda forma, tivemos que atender outras prioridades, como vocês sabem, porque recebemos um país praticamente quebrado. Agora, felizmente, já colocamos o Brasil nos eixos. Nossa democracia completou um ciclo muito importante, no qual todos os grandes partidos foram governo. Por isso, acreditamos que existam todas as possibilidades de aprovar uma reforma política e eleitoral. E temos certeza de que a grande maioria da sociedade sabe que é preciso mudar a estrutura política - com a fidelidade partidária, o financiamento público de campanhas e outras medidas - para corrigir desvios e combater ainda mais eficazmente a corrupção. A questão da forma de fazer é relevante, mas muito mais importante é não deixar passar essa oportunidade de realizar a reforma política e fortalecer a ética na política brasileira.
(PRA: Conversa mole, para não dizer o que prefere, e talvez não prefira nada, a não ser a preservação do sistema que aí está, que é um “presidencialismo de mensalão”. Trata-se, sem dúvida, da reforma mais importante, mas que pode paralisar todas as demais reformas se for lançado no início e na frente de todas as demais, Deveria ser deixada para os dois últimos anos do próximo governo e se começar pela tributária, previdenciária, trabalhista, administrativa, nessa ordem.
Alckmin: O meu compromisso é encaminhar ao Congresso Nacional uma proposta de reforma política já em janeiro, antes mesmo do início da nova legislatura. O ponto principal será a adoção da fidelidade partidária, que, somada à cláusula de barreira, que já começa a valer agora, vai garantir mais consistência à atuação dos partidos. Não defendo a adoção de listas. A nossa proposta prevê o sistema com voto distrital misto, que será um importante instrumento para reduzir os custos de campanha e aumentar a proximidade entre o povo e seus representantes. O sistema proporcional favorece a defesa de interesses corporativos, que, na maioria das vezes, são legítimos, mas, de modo geral, vão de encontro aos interesses coletivos.
(PRA: Pelo menos explicita suas propostas, mas erra ao arriscar comprometer todas as demais reformas pela reforma política, claramente a mais difícil de todas por envolver o interesse de parlamentares e regiões. Não diz absolutamente nada sobre a deformação da representação proporcional, do excesso de “representantes do povo”, que representam apenas a si mesmos, do excesso de gastos do Legislativo e não não fala tampouco a reforma do Judiciário que continua necessário pelo lado dos ritos e procedimentos.)
12- É a favor ou contra a reeleição presidencial? Planeja acabar com ela ou manter? Se for acabar, planeja ampliar o prazo do mandato?
Lula: A reeleição é um retrocesso político para o Brasil. O mandato de cinco anos, sem reeleição, seria uma solução adequada para o nosso país. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso vai carregar pelo resto da vida o gesto irresponsável de ter aprovado a reeleição em benefício próprio.
(PRA: Hipocrisia, ao não propor a sua extinção logo no primeiro mandato. Melhor seria ter introduzido regras mais claras para evitar abuso, como os que estão ocorrendo agora mesmo, com o uso da máquina pública pelo candidato no cargo.)
Alckmin: Sempre disse que essa não é uma questão programática, mas no que depender de mim, eu vou acabar com a reeleição. Hoje ela ocorre sem nenhum critério para quem disputa a eleição e permanece no cargo. Eu tive de deixar o governo de São Paulo seis meses antes das eleições, mas o meu adversário continuou no cargo. Veja o que foi feito esta semana, a primeira do segundo turno das eleições, o presidente Lula libera R$ 1,5 bilhão do Orçamento deste ano para beneficiar o candidato Lula. O valor é praticamente igual ao bloqueado pelo Ministério do Planejamento há menos de 15 dias. Isso é uso eleitoreiro de recursos públicos. Não dá mais para um país como o Brasil admitir que o governo federal adote práticas equivocadas com fins políticos. O presidente Lula transformou 17 ministros em cabos eleitorais do candidato Lula. O povo está cansado desse tipo de conduta, que apenas contribui para reduzir ainda mais o encanto do cidadão com a política. Atualmente, a reeleição não está regulamentada. Sem essa preocupação de reeleição, acho que poderei fazer um governo melhor que o atual, com uma equipe nova, com a legitimidade das urnas. O Brasil pode mais com um time novo.
(PRA: Correto.)
13 - Pretende avançar ou rever as privatizações? Em que setores há empresas que poderiam ser privatizadas? Em caso negativo, planeja criar novas estatais, em que áreas acha importante o Estado estar mais presente?
Lula: Não haverá nenhuma privatização. Nosso governo está mostrando, com práticas bem-sucedidas, que a privatização de estatais não é a única maneira de garantir investimentos privados em projetos de infra-estrutura. Fizemos, por exemplo, excelentes parcerias entre empresas estatais e o capital privado no setor de energia. Na área de transportes, há o programa de concessões em andamento para a execução da Ferrovia Norte-Sul e para rodovias. Além disso, há o modelo de Parceria Pública Privada (PPP), que se inicia com as BRs 116 e 324. Nesse modelo, grupos privados realizam parte dos investimentos e o Governo entra com outra parcela, que é uma forma de reduzir o impacto dos custos dos pedágios para os usuários. Entendemos que o Estado tem a função importante de atuar como indutor do desenvolvimento. E contamos, para isso, com a participação indispensável dos recursos privados, principalmente nos projetos de infra-estrutura, que são fundamentais para dar suporte ao crescimento sustentável da economia brasileira.
(PRA: Claramente contrário às privatizações, e as PPPs são uma forma de privatização envergonhada, com a desvantagem de deixar o governo com os custos e a responsabilidade de remunerar o investidor privado, que pode fraudar os seus números, para receber dinheiro do governo. Melhor seria privatizar de vez.)
Alckmin: O programa de privatizações já foi implementado por governos anteriores. Não há nenhuma intenção de criar novas empresas estatais.
(PRA: Tem medo, vergonha ou pratica oportunismo político ao anunciar que o programa de privatizações já foi implementado. Existem estatais claramente ineficientes e monopolistas que merecem e deveriam ser privatizadas.)
14 - Planeja uma reforma sindical? Quais os principais pontos? Contará com que apoios para realizá-las?
Lula: Nosso governo já encaminhou ao Congresso Nacional as propostas de Reforma Sindical aprovadas pelo Fórum Nacional do Trabalho. Cabe agora ao Legislativo definir e aprovar a nova legislação sindical brasileira.
(PRA: Se exime da responsabilidade, pois é claramente contrário quebrar o poder sindical que foi colocado sobre o Estado, como uma nova classe de prebendalistas, de rent-seekers, que sugam os recursos públicos. Se trata de um setor mafializado que mereceria ser totalmente revisto.)
Alckmin: No meu governo, todas as propostas de reformas terão um foco único: o desenvolvimento do país com garantia de manutenção de todos os direitos adquiridos. O Brasil precisa mudar para crescer e permitir que as empresas cresçam também e gerem empregos.
(PRA: Tergiversa sobre o assunto e não tem coragem de assumir o partido da sociedade contra as máfias sindicais, patronais e de trabalhadores, que assaltam o Estado e vivem às custas dee todos nós.)
15 - Quais os principais pontos de sua proposta para a área internacional? Manterá o foco na integração regional e diversificação de relações? Planeja insistir na vaga para o Brasil no Conselho de Segurança da ONU?
Lula: O Brasil continuará privilegiando o processo de integração sul-americana - o Mercosul e a Comunidade Sul-americana de Nações, em especial - e fortalecerá as relações Sul-Sul. Ao mesmo tempo, buscará ampliar seu acesso aos grandes mercados europeu, norte-americano e asiático e manterá com os países desenvolvidos um relacionamento positivo e soberano. A reforma do Conselho de Segurança é uma necessidade da democratização dos processos decisórios internacionais e dará maior legitimidade e eficácia à atuação daquele órgão. O Brasil, assim como a grande maioria dos membros das Nações Unidas, continuará empenhado nessa reforma.
(PRA: Nada a comentar: more of the same. Ou seja, continuará exatamente a mesma política externa, com todas as suas realizações. A reforma do CSNU, por exemplo, ao aumentar o número de vagas permanentes, não pode servir para democratizar o sistema e sim para dobrar o poder da oligarquia, apenas isso. Trata-se, de toda forma, de um tema que não foi debatido com a sociedade: não se sabe se ela aceita pagar mais para questões externas, quando os problemas internos são tão prementes.)
Alckmin: Vamos despolitizar as negociações comerciais e desideologizar a política externa. A estratégia de negociação comercial, sobretudo regional e bilateral, deverá ser modificada. Meu governo vai buscar a recomposição das relações do Brasil na América do Sul e a intensificação das relações com os centros mais dinâmicos da economia global, especialmente com a União Européia e os EUA, restabelecendo a prioridade das relações com os países desenvolvidos. Vamos criar iniciativas mais agressivas para melhor aproveitar as oportunidades de exportação para a China e defender, de forma mais eficiente, os setores industriais brasileiros ameaçados pela competição, nem sempre leal, das empresas chinesas. A assistência a brasileiros e a empresas brasileiras no exterior passará a ter efetiva prioridade nas atividades do Itamaraty.
A política externa deve ser vista como uma ação de Estado, dentro de uma perspectiva de médio e longo prazos, na qual o interesse nacional deve estar acima de visões conjunturais, ideológicas. A política externa do governo Lula se orienta por uma visão equivocada de mundo e se caracteriza por ser ideológica e partidária na sua execução, além de politizada nas negociações comercias. Pretendo restabelecer os princípios e valores tradicionais defendidos pelo Itamaraty ao longo de décadas.
É muito importante, também, que o Brasil se aproxime com passos medidos e seguros da OCDE ou ser acolhido num G-8, que poderia também incluir a China e a Índia.
(PRA: Poderia dizer, mais simplesmente, que voltaria para a política externa tradicional do Itamaraty, que nunca foi partidária ou ideológica)
16 - O governo brasileiro criou e liderou o G20 [comercial], que termina 2006 sem avanços. O que fazer diante deste fracasso?
Lula: Não houve fracasso. O G20 mudou completamente o perfil das negociações da rodada de Doha no âmbito da OMC. A partir do G20, os países emergentes passaram a ter papel fundamental nos debates da OMC. A prova disso é que na última reunião do G20, realizada no Rio de Janeiro, pediram para participar a União Européia, os Estados Unidos e o Japão, além do diretor da OMC, Pascal Lamy. O G20 colocou na ordem do dia o fim dos subsídios agrícolas dos países ricos. O termo "fracasso" para caracterizar a trajetória do G20 expressa uma atitude ideológica, marcada por uma visão submissa e conformista da ordem econômica mundial.
(PRA: Engano: o G20 não mudou o perfil das negociações, apenas impediu que naquele momento, em Cancun, em setembro de 2003, os americanos e europeus concertados fizessem uma grande maldade contra nós e os demais países exportadores não-subvencionistas. O papel do G20 está claramente exagerado, e sua ação só vale para uma parte pequena do dossiê agrícola, o protecionismo e o subvencionismo dos ricos, não os dos pobres. Nem todos os emergentes estão no G20, e no GATT-OMC as linhas de aliança são claramente ad hoc, não cabendo falar de blocos dos países emergentes e em desenvolvimento.)
Alckmin: O governo Lula errou ao basear toda sua estratégia de negociação comercial em ações multilaterais. Os entendimentos com a União Européia estão paralisados, o Mercosul em grave crise e o processo de integração hemisférico está praticamente morto. Em todos esses exemplos, o governo brasileiro ficou a reboque dos acontecimentos. Meu governo apoiará a retomada das negociações multilaterais da Rodada Doha. Vamos defender um acordo equilibrado, que represente um resultado satisfatório, tendo em mente a agenda para o desenvolvimento. A agricultura deve continuar a ser central nas deliberações. As concessões que forem eventualmente feitas devem ser avaliadas à luz das ofertas recebidas e dos nossos interesses ofensivos.
Vamos ampliar o relacionamento com os países de escala continental, como a China, a Rússia e a Índia, com base na reciprocidade de interesses, e não com a ilusão ideológica de que são aliados naturais em um eventual conflito de interesses com os EUA.
(PRA: Agricultura pode até ser central para o Brasil, mas não deveria ser o fator impeditivo de um acordo, pois se trata claramente do setor mais conflitivo e mais sujeito a regras especiais. Um coisa é certa: para voltar a crescer é preciso ter regras claras, inclusive para o investimento estrangeiro. Daí a necessidade de uma maior abertura econômico-financeira, e sobretudo comercial. )
17 - O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, anunciou um novo referendo em 2007 para acabar com o limite de prazo para a reeleição presidencial, o que possibilitaria a sua permanência no poder indefinidamente. Se isso acontecer, o candidato será contra ou a favor da manutenção do país no Mercosul (cláusula democrática diz que seus membros têm que ser democracias)?
Lula: O presidente Lula tem manifestado recorrentemente sua posição contra a reeleição, pelo menos consecutivamente, dos portadores de cargos executivos. A reeleição continuada de um governante, desde que respeitadas as normas do Estado de direito, não representa qualquer infração democrática. Esta hipótese existe em quase todas as democracias européias: na Alemanha ou no Reino Unido. Na França presidencialista também existe esta possibilidade de reeleição "indefinida". Quem pode, assim, decidir eleições ou reeleições são os eleitores. Por que esta fixação com a Venezuela?
(PRA: A fixação com a Venezuela está em que o presidente Lula manifestou, em diversas ocasiões, seu apreço pelo lider venezuelano: ele já esteve inúmeras vezes no Brasil e até decidiu onde deveria ser implementada uma nova refinaria da Petrobras. Isso é manifestação de poder, por parte da Venezuela, e renúncia à soberania, por parte do Brasil. Nosso Tribunal de Contas precisa aferir as contas de certas estatais, que estão sendo utilizadas partidariamente na política externa.)
Alckmin: A questão do referendo na Venezuela é um assunto interno, que deve ser discutido pela sociedade venezuelana. Agora, eu já me manifestei contrário à reeleição sem qualquer tipo de regulamentação. Parece não ser prudente. Como disse, vamos ampliar o relacionamento com todos os países da América do Sul, com base na reciprocidade de interesses e na defesa de nosso interesse. A Venezuela, o quarto maior exportador mundial de petróleo, acaba de entrar para o Mercosul. Isso será um grande desafio para o processo de integração. Sua entrada plena depende da ratificação do Protocolo de Adesão, que será examinado pelo Congresso Nacional somente no ano próximo. O fato de Hugo Chávez estar apoiando publicamente o presidente Lula - que claramente se mostra simpático a algumas das idéias que Chávez coloca em prática na Venezuela - não será obstáculo para tratarmos o relacionamento com esse país com base nos interesses da integração regional e dos interesses do Brasil.
(PRA: Contornou o problema e não respondeu à pergunta.)
18 - Vai manter o Bolsa Família? Com que formato?
Lula: Vamos manter e ampliar o Bolsa Família, que é um dos maiores e mais eficientes programas de transferência de renda do mundo e beneficia hoje mais de 11,1 milhões de famílias brasileiras. Em um segundo mandato, vamos aprofundar o papel do Bolsa Família como eixo integrador das ações de combate à pobreza e à desigualdade no Brasil. Ampliaremos a articulação do programa com ações de geração de trabalho e renda, de capacitação profissional, de alfabetização e aumento da escolaridade dos adultos beneficiários, de micro-crédito, entre outros. Assim, as famílias beneficiadas vão criando as condições para garantir o seu próprio sustento, deixando de depender do Bolsa Família. O governo buscará estratégias de acompanhamento individual das famílias beneficiadas que se encontram em situação de maior vulnerabilidade. Além disso, será aprofundada a relação com os programas do governo de apoio aos jovens, bem como com os estados e municípios que têm agenda de combate à fome e à pobreza que o Bolsa Família materializa em todo o país.
(PRA: O governo se orgulha do BF, quando na verdade deveria sentir vergonha pelo fato de tantas pessoas não conseguirem se inserir pelo emprego e pela renda e devam sua subsistência mínima ao governo, criando uma dependência que é nefasta.)
Alkmin: A minha decisão é de manter e melhorar o Bolsa Família, criado pelo PSDB no governo Fernando Henrique. O que o governo do PT fez foi mudar o nome de um programa que já existia. Temos que garantir transferência de renda, mas temos que oferecer condições especiais para a superação da pobreza. Estimular os mais pobres a viver de benefícios não é promover a inclusão, o que de fato queremos é dar dignidade, o que só pode ser feito com trabalho. O programa em curso tem muitos problemas, mas temos que superar um a um e melhorar para garantir a inclusão de fato dessa ampla fatia da população.
Quando falamos de aperfeiçoamento, estamos nos referindo, por exemplo, ao gerenciamento do programa. É preciso aprimorar o Cadastro Único Federal, integrá-lo aos cadastros dos programas de transferência de renda existentes nos estados e mesmo a outros programas existentes no âmbito federal, como o PETI (Programa de Erradicação do Trabalho Infantil), o BPC (Benefício de Prestação Continuada) e mesmo a Previdência Rural. Também é preciso criar um sistema de monitoramento efetivo das contrapartidas das famílias. A família não vai sair da sua situação de vulnerabilidade com menos de R$ 100 por mês, mas tem chances de sair com seus filhos formados no ensino fundamental e no médio.
Do ponto de vista de política social, o Bolsa Família deve ser integrado às políticas de educação, saúde, capacitação profissional e de geração de trabalho e renda. É preciso também estudar a possibilidade de acompanhamento e monitoramento das famílias serem realizados pelos agentes comunitários de saúde. Hoje são mais de 180 mil deles em todo o Brasil. Eles estão perto das famílias, têm a confiança das mães e podem ajudar as famílias a atender as condições previstas no programa. Repito; a Bolsa Família será mantida e melhorada.
(PRA: Correto, apenas isto, e deveria ter dito que o objetivo último seria acabar com BFs e outras assistências públicas. Governo decente promove investimentos e crescimento do emprego, não fica distribuindo esmola.)
19 - Reajustará o salário mínimo acima da inflação? Qual será o percentual no primeiro ano do seu governo?
Lula: Vamos aumentar o salário mínimo acima da inflação para acelerar a distribuição de renda e estimular o mercado interno. É importante destacar que o salário mínimo teve aumento real acumulado de 26% até abril de 2006, e tem hoje o maior poder de compra dos últimos 26 anos.
(PRA: Salário mínimo nem deveria existir, pois ele representa um impedimento ao crescimento do emprego e ao equilíbrio das contas públicas. Existindo, não deveria ser nacional, e sim regional, ou estadual.)
Alckmin: Em princípio, uma boa referência para reajustar o salário mínimo de acordo com o aumento do PIB per capita, que é um indicador ainda que não preciso do aumento médio da produtividade. Desta forma, como a prioridade do meu governo é o crescimento mais acelerado do PIB o salário mínimo deverá crescer em termos reais. Entretanto, é preciso lembrar que os benefícios previdenciários estão vinculados ao salário mínimo, da mesma forma, a folha de salários de muitos estados e prefeituras, o que torna o reajuste do salário mínimo uma questão fiscal que tem grandes restrições como todos sabemos.
(PRA: Contorna o assunto e faz um pouco de magia econômica.)
20 - O que planeja em relação ao crédito consignado e habitacional? Manter? Ampliar? Como?
Lula: Nós realizamos uma verdadeira revolução no crédito, ampliando o acesso a setores da população que nunca tiveram essa chance. E fizemos isto combinando inflação baixa e melhorando o poder aquisitivo das classes mais pobres. Concretizamos mais de 17 milhões de operações de microcrédito, com taxa de juros máxima de 2%, num total de R$ 3 bilhões emprestados. O crédito consignado foi parte importante dessa política porque ampliou o crédito direto ao consumidor. Entre 2002 e 2005, foram R$ 220 bilhões a mais de crédito ofertado, sendo que, desse total, R$ 40 bilhões são de crédito consignado. O total de crédito na economia brasileira saltou de 24,2% do PIB em dezembro de 2002 para 32,4% em junho de 2006. Num segundo mandato, vamos continuar ampliando ainda mais a oferta de crédito e criando novas modalidades, como fizemos para o setor habitacional. Nossa meta é aumentar o volume de crédito para algo em torno de 50% do PIB.
(PRA: O crédito e o nível de juros poderiam evoluir positivamente se o governo operasse uma deconcentração no setor, promovendo nova abertura do sistema financeiro e bancário, com entrada de novos parceiros externos. Cartelizado como é hoje, o sistema só pode oferecer juros altos.)
Alckmin: No meu governo o ajuste e a política fiscal sólidos permitirão a queda na taxa de juros e com isso, o crédito ao consumidor e o crédito habitacional, devidamente dosados, serão instrumentos importantes de estímulo a ampliação da demanda e portanto de geração de empregos. Hoje pode se dizer que o trabalhador "paga por duas mercadorias e leva uma" quando compra no crediário, já que a taxa de juros ao consumidor é elevada. Portanto, vamos fazer todo o esforço para reduzir a taxa básica da economia e do crédito ao consumidor, o que resultará num significativo aumento do poder real de compra dos salários dos trabalhadores e ampliação do mercado, particularmente de bens de consumo duráveis.
(PRA: O diagnóstico é correto, ao dizer que o crediário é um roubo e uma fraude, quando se anuncia que se está vendendo “seis vezes sem juros”. Isso deveria ser coibido como propaganda enganosa. Não diz que a solução é terminar com o cartel das financeiras, abrindo totalmente o sistema à concorrrência e ao ingresso de novos ofertantes externos.)
21 -Tem planos de fazer um choque de gestão? O que isso significa? Cortar quantos ministérios? Cortar quantos DAS? O que mais?
Lula: É importante destacar que, no nosso governo, houve aumento do número de ministérios sem elevação do gasto com pessoal. Prova disso é que, em 2002, o gasto com pessoal e encargos representava 5,3% do PIB. Em 2006, esta proporção ficará em 5,1%, um percentual, portanto, menor do que o verificado no último ano do governo anterior, mesmo com o aumento no número de funcionários na ativa. Estamos produzindo mais com menos gastos, o que significa uma gestão cada vez mais eficiente. Em relação aos ministérios, eventuais modificações serão implantadas no início de um próximo mandato.
(PRA: O governo não diz que o investimento caiu para níveis irrisórios e que os gastos com pessoal são de toda forma exagerados. Se a gestão é eficiente, então se trata de outro país, que não o Brasil. Sobre o número de ministérios, a pergunta mais simples é a seguinte: quantas vezes por semana o presidente despacha com cada ministro? Não deveria haver mais de 19 ministérios, o número exato de edifícios ministeriais na Esplanada.)
Alkmin: O meu governo vai valorizar o servidor público. Em lugar de fazer o que o presidente Lula fez, levando para o serviço público pessoas cuja única credencial era ser amigo dele, eu vou prestigiar o funcionário concursado. Vamos fazer todos os concursos necessários para garantir qualidade no serviço público. Hoje, temos 50 mil cargos comissionados. Dá pra reduzir sem demitir ninguém. Aproveitar servidores de carreira nesses cargos. Vou reduzir o número de ministérios ao mínimo necessário para fazer o governo funcionar.
(PRA: Pelo menos diz que vai reduzir o número de ministérios ao mínimo necessário. Deveria anunciar logo que vai reduzir a no máximo 20, e de preferência 12 ou 15. Deveria também dizer que vai acabar com a estabilidade, um convite à preguiça e à incompetência.)
Fontes: Comissão de Programa de Governo da Coligação Lula de Novo com a Força do Povo
Comentários de
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 7 de outubro de 2006.
posted by Paulo R. de Almeida at Domingo, Dezembro 03, 2006 | 1 comments links to this post
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