domingo, 4 de julho de 2010

A Republica Sindical em acao (da pior especie)

Sindicalismo sem limites
Patrícia Diguê
Revista ISTOÉ, 3/07/2010

Greve na USP mostra um tipo de liderança que esconde o rosto e recorre a atos ilegais

Foi com um pulo de alegria que a estudante de letras Roseleine Bonini, 36 anos, recebeu a notícia de que havia terminado a greve na maior universidade pública do Brasil, a Universidade de São Paulo (USP), na quarta-feira 30. Foram 57 dias de sufoco, em que ela não pôde retirar livros nas bibliotecas em plena época de provas, utilizar os ônibus circulares gratuitos do campus ou comer no restaurante subsidiado, onde faz três refeições ao dia por R$ 1,90 cada uma. Sem falar nas aulas que perdeu porque precisou cuidar das filhas, Alice, 2 anos, e Lana Gaia, 6, já que a creche também foi fechada. Moradora do conjunto residencial, Roseleine também ficou sem linha telefônica e acesso à internet. A estudante, assim como os outros 88,2 mil alunos e 280 crianças das creches, sem falar nos 5,7 mil professores e milhares de pesquisadores, foi a grande prejudicada pela paralisação dos funcionários, a 11ª em 17 anos, num total de 388 dias parados – praticamente dois anos letivos.

A greve dos fun cionários da USP ultrapassou definitivamente os limites de uma reivindicação sindical na segunda-feira 21, quando um piquete na creche central, que atende 180 filhos de funcionários e estudantes, impediu a entrada das crianças. Bate-boca, policiais militares, palavras de ordem de um carro de som e crianças chorando completaram a atmosfera de campo de guerra. A faixa colocada na portaria pelo sindicato da categoria, o Sintusp (filiado à Coordenação Nacional de Lutas), demarcou mais um prédio sitiado. O da reitoria havia sido invadido no dia 8 de junho e se transformou no quartel-general do comando. Com lenços cobrindo o rosto, eles quebraram portas e vidraças. Uma imagem que descaracteriza a origem nobre do movimento sindical, no qual surgiram nomes como o do presidente Luiz Iná cio Lula da Silva e o ex-presiden te da Polônia Lech Walesa.

Os grevistas decidiram encerrar a paralisação por cau sa das férias de julho, o que enfraqueceria o movimento, já que não conseguiram aumento. “Foi a primeira vez que não se concederam benefícios salariais para terminar a greve”, declarou o reitor, João Grandino Rodas. Ele se refere ao pedido de aumento de 5%, além dos 6,57% que já haviam sido concedidos aos servidores das três universidades paulistas (incluindo Universidade de Campinas e Universidade Estadual Paulista) em maio. A decisão pela greve se deveu à quebra de isonomia nos reajustes com os professores. Os docentes ganharam mais 6%. O comando grevista aceitou encerrar o movimento em troca da restituição dos valores descontados por causa dos dias parados. “Não houve derrota. Duvido que o reitor tenha coragem de dar aumento diferenciado no ano que vem”, rebateu o diretor do Sintusp Magno de Carvalho. Pelo visto, já há outra greve programada.

Trafico de influencia e dinastias... dois males da politica do PT

Em qualquer país normal, o que vem descrito abaixo se chamaria tráfico de influência, e seria reprimido pelos mecanismos de controle de um sistema democrático, transparente, dotado de boa governança.
No Brasil, isso passa por sucesso.
O que mostra o quão corrompido, moralmente, o país se tornou...
Paulo Roberto de Almeida

O segundo Dirceu
Leandro Loyola, de Cruzeiro do Oeste (PR)
Revista ÉPOCA, 03/07/2010

Com acesso a gabinetes e recursos em Brasília, Zeca, o filho de José Dirceu, prepara-se para sair do Paraná e suceder o pai na Câmara dos Deputados

José Carlos Becker de Oliveira e Silva aparenta ser mais novo que seus 32 anos. É alto, cerca de 1,90 metro, magro, tem os cabelos claros, é solteiro e pai de uma filha. José Carlos é um bem articulado candidato a deputado federal pelo PT no Paraná. Ele mantém um blog, um programa semanal de rádio chamado Caminhos do noroeste, faz política intensamente pelo Twitter e comparece todos os dias a eventos em cidades do noroeste do Paraná. Mas não gosta de entrevistas. “Eu não sou uma figura nacional. Meu pai é quem é”, disse José Carlos a ÉPOCA há duas semanas, em um seminário sobre agricultura familiar em Paranavaí. “Meu mundinho é isso aqui.” José Carlos é conhecido como Zeca Dirceu, filho do ex-ministro José Dirceu. Mas o “mundinho” de Zeca Dirceu é mais vasto do que ele gostaria de admitir.

Ex-prefeito de Cruzeiro do Oeste, cidade de 20 mil habitantes do noroeste paranaense, Zeca Dirceu é apontado pelos concorrentes como um candidato forte a deputado. Por um motivo simples: mesmo sem ter broche espetado na lapela do terno, gabinete ou assento na Câmara, em Brasília, Zeca tem mais acesso a ministros e burocratas influentes no governo federal que muitos deputados. Durante seu mandato como prefeito de Cruzeiro do Oeste, Zeca obteve cerca de R$ 14 milhões em verbas federais – valor significativo para um município pequeno. Zeca é conhecido na região por ajudar outros prefeitos a chegar aos gabinetes em Brasília. Só no ano passado, segundo aliados, Zeca obteve R$ 13 milhões em verbas federais para 37 cidades da região. “Mesmo não sendo deputado, ele tem muito acesso em Brasília, nos ministérios”, afirma Edno Guimarães, prefeito de Cianorte, cidade três vezes maior que Cruzeiro do Oeste. “Não sei se é apoio do pai, mas ele consegue (verbas).” Segundo Guimarães, Zeca o levou a encontros com os ministros Reinhold Stephanes (Agricultura), Paulo Bernardo (Planejamento), Alfredo Nascimento (Transportes) e Hélio Costa (Comunicações). Como obter verbas é fundamental para a sobrevivência de um deputado, Zeca está no caminho certo.

O empresário Moacir Silva (PDT) é prefeito de Umuarama, uma das maiores cidades da região de Zeca, com 115 mil habitantes. Silva afirma que foi procurado por Zeca Dirceu em 2009. “Ele se colocou à disposição para conseguir verbas”, diz Silva. Dono de uma imobiliária e uma construtora, Silva pretende construir 3 mil casas populares em Umuarama. “Ele (Zeca) disse: ‘Eu consigo alguma coisa, especialmente no Ministério das Cidades’”, afirma Silva. Em fevereiro, Silva recebeu uma ligação de Zeca. “Ele disse: ‘Eu estou no ministério e vamos dirigir R$ 1 milhão para a cidade.” Segundo Silva, a verba já está disponível. Outro R$ 1 milhão chegará em agosto.

Nos últimos meses, os jornais do noroeste do Paraná publicaram mais de 60 reportagens sobre realizações desse tipo atribuídas a Zeca. Uma delas trazia uma lista com os nome das cidades, os valores liberados e o órgão federal responsável pelos recursos. No mês passado, o Partido Republicano Progressista (PRP) protocolou no Tribunal Regional Eleitoral (TRE) do Paraná uma representação contra Zeca Dirceu por campanha antecipada. A ação cita como irregularidades a divulgação da intermediação de verbas federais por Zeca. Para o PRP, seria campanha publicitária disfarçada. O rosto de Zeca também apareceu em outdoors que divulgavam seu programa de rádio. Ao lado do título “O brilho de Zeca”, uma foto do filho de José Dirceu estampou a capa de uma edição recente de uma revista da região. Outdoors de divulgação da revista foram espalhados na região. O PRP denunciou ainda a “showmissa” realizada na festa de despedida de Zeca do cargo de prefeito de Cruzeiro do Oeste, em março. O show foi feito pelo padre Reginaldo Manzotti, sucesso no mercado de música religiosa. No convite, postado em seu blog pessoal e enviado a partir de seu e-mail, Zeca dizia que o evento marcaria sua saída da prefeitura para “colocar meu nome como pré-candidato a deputado federal”. No dia da festa, Zeca afirmou em anúncio que, apesar de todas as aparências, o evento não seria pago por ele ou pela prefeitura e nem faria referência a sua campanha. A ação protocolada pelo PRP ainda não foi julgada pelo TRE.

Zeca investe em conquistar votos na base eleitoral de Osmar Serraglio, relator da CPI dos Correios em 2005

Administrada por Zeca Dirceu entre 2005 e março deste ano, Cruzeiro do Oeste é uma cidade pacata. Algumas casas de uma de suas principais avenidas têm hortas nos quintais. As avenidas são cortadas por ruas de terra avermelhada batida. De vez em quando, tratores e charretes passam entre os carros. Nesse cenário bucólico, chamam a atenção os canteiros de obras, os equipamentos públicos novos, como praças e um centro de saúde, e as placas de divulgação do governo federal, especialmente dos ministérios das Cidades e do Turismo. Em cinco anos, o Ministério das Cidades liberou cerca de R$ 5 milhões para a cidade. O Ministério do Turismo investiu R$ 189 mil na reforma de um salão de convenções e R$ 231 mil em um barracão. Por meio de sua assessoria, o ministro do Turismo, Luiz Barretto, afirma que “conhece o ex-prefeito Zeca Dirceu e já teve a oportunidade de recebê-lo em seu gabinete assim como recebeu tantos outros agentes públicos”. O Ministério das Cidades disse que o ministro Márcio Fortes “recebe senadores, deputados e prefeitos”.

O eleitorado de Cruzeiro do Oeste não é suficiente para eleger Zeca deputado federal. Por isso, sua pré-campanha envolve dezenas de outras cidades. Um de seus focos é Umuarama, base eleitoral do deputado federal Osmar Serraglio (PMDB). Recentemente, Zeca levou o pai, José Dirceu, a um evento numa universidade em Umuarama. “Ele insiste na cidade porque precisa de um município com densidade (eleitoral)”, diz Osmar Serraglio. Por coincidência, Serraglio foi o relator da CPI dos Correios, aquela que investigou o escândalo do mensalão em 2005 e levou à cassação do pai de Zeca.

Zeca Dirceu nasceu em 1978. É filho de José Dirceu com Clara Becker. Em 1975, o ex-líder estudantil José Dirceu havia voltado clandestinamente do exílio em Cuba e foi viver em Cruzeiro do Oeste sob o nome falso de Carlos Henrique Gouveia de Melo. Em 1979, após a Lei da Anistia, José Dirceu revelou a Clara sua verdadeira identidade, aposentou Carlos Henrique e voltou para São Paulo. Os documentos do pequeno Zeca tiveram de ser trocados, para que ele assumisse o verdadeiro sobrenome. Procurado por ÉPOCA, José Dirceu disse por sua assessora que não poderia dar entrevista por falta de tempo.

Zeca entrou para a política quando José Dirceu era o ministro mais poderoso do governo Lula. Uma ação de improbidade administrativa ajuizada pelo Ministério Público Federal, em 2005, acusa José Dirceu, quando estava na Casa Civil da Presidência, de ter usado a máquina do governo para ajudar a eleger o filho prefeito em 2004. A ação dos procuradores afirma, com base em depoimentos de funcionários do governo, que em 2003 e 2004 o então assessor Waldomiro Diniz agendava reuniões com ministros e autoridades do governo para Zeca tratar de pedidos dos municípios do noroeste do Paraná. Diniz também teria acompanhado a liberação de verbas. O Ministério Público encontrou planilhas de órgãos como a Fundação Nacional de Saúde (Funasa) que mencionavam verbas associadas às iniciais “JCB”, atribuídas a “José Carlos Becker”, o nome de Zeca Dirceu. A Justiça rejeitou a ação em primeira instância, mas o Ministério Público recorreu. O caso está atualmente sob a análise do Tribunal Regional Federal da Primeira Região (TRF-1).

Zeca Dirceu mostra desenvoltura também ao transitar na iniciativa privada. Uma reportagem publicada em fevereiro por um jornal de sua região afirmava que, graças a Zeca, a Oi, a maior operadora de telefonia do país, apoiaria a Associação de Futsal de Umuarama com um patrocínio de R$ 1 milhão. O dinheiro seria dividido entre o time de futsal, que disputa a Liga Nacional, e um projeto social. A reportagem trazia uma foto de Zeca e de Edivanilson Romeiro, o presidente da Associação, ao lado de Otávio Marques de Azevedo, presidente do grupo Andrade Gutierrez S. A., um dos controladores da Oi. “Eles não têm apoio da Oi”, afirmou Azevedo a ÉPOCA. “Eles estão se habilitando.” A primeira reunião aconteceu em 8 de fevereiro, no escritório de Azevedo, em São Paulo. Segundo Azevedo, Zeca foi avisado de que a Oi só apoia projetos amparados por leis de incentivo.

A associação entrou com um pedido no Ministério dos Esportes para ter direito a captar R$ 1,2 milhão. O trâmite foi relativamente rápido: no dia 28 de abril, a liberação foi publicada no Diário Oficial da União. No dia 18 de junho houve novo encontro na Oi, em São Paulo. Azevedo afirma que não encontra o pai de Zeca, o ex-ministro José Dirceu, “há muito tempo”. “Ele não me pediu para receber o Zeca”, diz. “Eu recebo prefeitos do país inteiro.”

Quando foi procurado por ÉPOCA, em Paranavaí, Zeca recusou a conversa, disse que não admitia “insistência” e se despediu. Um veículo utilitário esportivo, com um adesivo com seu rosto e o endereço de seu site colado no vidro traseiro, o esperava. Segundo sua assessoria de imprensa, Zeca decidiu só dar entrevistas à “mídia local” há cinco anos, porque teria sido “maltratado pela mídia nacional”. Perguntado se daria entrevistas se fosse eleito deputado, quando seria uma “figura nacional”, Zeca Dirceu disse: “Aí eu serei obrigado”. Se isso acontecer, Zeca terá de admitir que seu mundinho cresceu.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Dilemas da oposicao: fazer o governo perder

Missão quase impossível
Editorial O Estado de S.Paulo
02 de julho de 2010

Com a escolha do deputado federal Antonio Pedro Índio da Costa (DEM-RJ) para compor, como candidato a vice-presidente da República, a chapa oposicionista encabeçada pelo ex-governador José Serra, completa-se, finalmente, o quadro sucessório e a campanha eleitoral entra em sua fase crucial, que culminará com a escolha, pelo eleitorado, dos que governarão o País nos próximos quatro anos. É de se registrar que a chapa do PSDB se constituiu, na undécima hora, como solução de uma crise que quase levou à ruptura da aliança com o Democratas, que se sentira excluído e humilhado com o anúncio da formação de uma chapa "puro-sangue" tucana, tendo como vice o senador paranaense Álvaro Dias.

O recuo dos tucanos apaziguou seus aliados e acrescentou à chapa oposicionista um político jovem, ligado ao mais recente e prestigiado movimento da sociedade civil ? aquele que resultou no Projeto Ficha Limpa.

Permanece, no entanto, a grande dificuldade que enfrenta a candidatura José Serra, para tentar superar a candidatura Dilma Rousseff, em razão do que é sabido: não é com ela que Serra disputa, mas sim com Lula, que concorre por interposta pessoa ao terceiro mandato.

Tanto assim que o presidente deixou de usar suas habituais metáforas e alegorias para dizer, sem subterfúgios e pudor, que o nome "Lula" deverá ser lido pelos eleitores, na urna eletrônica, no lugar em que estiver escrito o nome "Dilma". Não poderia deixar mais clara a sua intenção. E aí está, justamente, o aspecto inusitado da atual campanha sucessória presidencial: a oposição enfrenta um candidato fortíssimo que não é candidato.

Nunca, na história deste país, houve eleições com estas características, por mais que na política contemporânea tenham surgido criaturas "inventadas" por líderes populares para sua sucessão. Tampouco abundam exemplos de transferência de votos, como as pesquisas indicam que acontecerá no pleito de outubro.

Quando o ex-governador José Serra se tornou candidato à sucessão presidencial, uma questão fundamental se colocou: qual seria o discurso da oposição? Que mensagem o candidato deveria transmitir ao eleitorado? Ninguém discutiu ? como foi o caso de Dilma ? o seu preparo para o cargo, reconhecido pelos próprios adversários, nem a sua experiência na gestão da coisa pública. Mas faltava a definição de um discurso que caracterizasse as alternativas da oposição a um governo chefiado por um presidente de popularidade imbatível.

A ideia contida no bordão "o Brasil pode mais" até que, num primeiro momento, pareceu um caminho interessante para o discurso oposicionista, já que não confrontava o presidente. Mas isso e o reconhecimento das qualidades da gestão lulista, que completava o quadro, não eram suficientes para conquistar a massa eleitoral que apoia o carismático presidente.

Como não poderia deixar de ser, todo o esforço da candidatura oposicionista consiste em fazer a confrontação entre pessoas reais ? Dilma Rousseff e José Serra ? comparando biografias e experiências na vida pública, na tentativa de mostrar que Lula, o mito, não está à disposição do eleitorado para ser eleito pela terceira vez. As pesquisas eleitorais indicam que esse esforço da candidatura oposicionista ainda não tem sido bem-sucedido e a campanha sucessória presidencial segue, exatamente, o rumo plebiscitário traçado pelo presidente Lula.

Em sua recente viagem aos Estados atingidos pela tragédia das enchentes, no Nordeste, uma população castigada e que não foi contemplada pelo governo federal com investimentos e obras contra calamidades aclamou Lula com devoção assemelhada à dedicada a figuras como Padre Cícero ou Antonio Conselheiro. Na verdade, a popularidade de Lula não se deve só ao seu carisma e à sua habilidade para se comunicar com o povo. Deve-se, basicamente, ao fato de que ? não principalmente por mérito do seu governo ?, nestes últimos oito anos, todos os setores da sociedade brasileira foram beneficiados por um desenvolvimento econômico global, só interrompido no fim de 2008 por essa crise que pouco afetou os países em desenvolvimento.

Por isso a missão quase impossível do candidato Serra é provar que não é verdade que oposição não ganha eleição; governo é que perde eleição. 

Pesquisas eleitorais - Datafolha (junho 2010)

DATAFOLHA: SERRA 39%, DILMA 38%, MARINA 10%!

1. Em maio, ambos tinham 37%. A exposição de Serra na TV não alterou o quadro, assim como a menor exposição decidida pela campanha de Dilma. Num eventual segundo turno, Serra teria 47% e Dilma 45%.

2. Quanto à expectativa de vitória, Dilma tem 43% e Serra 33%. Esse é um indicador de maior mobilização nas bases da candidatura de Dilma e um indicador do que deve fazer a candidatura de oposição.

3. Nas duas macroregiões onde um e outro lideram (Nordeste-Norte-CO, Dilma; e Sul-Sudeste, Serra), a pesquisa mostra uma acentuação dessa tendência com Dilma crescendo na sua e Serra na dele.

PRIORIDADE DO PT É ELEIÇÃO PRESIDENCIAL!

1. Ontem, este Ex-Blog comentava isso. PT atropelou onde tinha que atropelar para garantir prioridade a eleição presidencial.

2. (blog Fernando Rodrigues-UOL, 01) PT terá seu menor nº de candidatos a governador. Só 10 petistas concorrem a governos estaduais; tucanos terão 16. Em 2002, quando elegeu Lula pela primeira vez para o Planalto, o PT teve candidatos próprios em 24 das 27 unidades da Federação. Já em 2006, quando o arco de alianças tinha crescido, só houve petistas disputando cargos de governador em 13 UFs. Agora, serão 10.

The Economist on presidential campaign (2)

Brazil's presidential campaign
In Lula's footsteps

The Economist, July 1st, 2010

Dilma Rousseff is cruising towards victory on the coat-tails of a popular president. But there is more at stake in October’s election than meets the eye

São Paulo - AT THE moment only one thing matters to Brazilians: the performance of the national football team in the World Cup, where lifting the trophy for the sixth time is considered almost a right. Even a normally hard-working city like São Paulo, where supermarkets open at 7.00am and heavy traffic is a way of life, came to a standstill for Brazil’s matches. Across the country factories, offices and even health posts shut down. But the country’s politicians are limbering up for a different contest. On July 6th the campaign for October’s general election formally kicks off. It will be the first presidential election since democracy was restored in the 1980s in which the name of Luiz Inácio Lula da Silva does not appear on the ballot. But Lula, Brazil’s president since 2003, is nevertheless the dominant figure in the campaign.
For the past 18 months he has put all his efforts into trying to get Dilma Rousseff, his former chief of staff, elected as his successor. She is not an obvious presidential candidate: an efficient though notoriously bad-tempered administrator, she only joined Lula’s Workers’ Party (PT) in 2001. She has never before stood for elected office. But several more senior figures in the PT were forced out of politics by a corruption scandal during Lula’s first term, and others have proved electoral flops.

Barely known to the public at the outset, Ms Rousseff spent half of the past year recovering from lymphatic cancer. Despite all these handicaps, she has risen inexorably in the opinion polls. This month she overhauled the opposition’s standard-bearer, José Serra, formerly the governor of São Paulo state, for the first time (see chart 1). The only other plausible candidate is Marina Silva, a long-time member of the PT who is standing for the small Green Party. Like Lula, she was born in poverty, but she fell out with him over what she sees as his government’s failure to defend the environment.
The election has now become Ms Rousseff’s to lose. Her rise in the polls shows that Lula has been able to transfer his own extraordinary popularity to her. A former trade-union leader, Lula has a rapport with ordinary Brazilians that no other politician enjoys. But he can also point to solid accomplishments. He has presided over both a steady increase in economic growth which is now—conveniently—reaching new heights, and a sharp reduction in poverty. Even allowing for an expected slowdown, the economy will have grown by around 8% in the year before the vote. The polls show that roughly 75% of Brazilians approve of the job Lula has done. Alexandre Marinis, a political consultant in São Paulo, notes that recent elections show a close correlation between the president’s popularity and his candidate’s success.
All this makes Mr Serra’s job exceptionally hard. A minister in the government of Fernando Henrique Cardoso, Lula’s predecessor, he trumps Ms Rousseff in political experience and has been an effective governor of São Paulo, the country’s second-most-powerful job. His supporters are counting on his opponent to make gaffes. But Ms Rousseff is looking increasingly assured. And he is struggling to make his experience count in an election where most Brazilians—especially in the country’s poorer areas—want continuity.
To see why, visit places like Jardim Iguatemi, a favela (a self-built settlement) straggling over steep hills on the eastern extremity of São Paulo. Bordered by forest, it is an hour and a half’s drive from the city centre. Mr Serra’s state government built a big new school and a health clinic there. But it is the president who commands the sympathy of many residents. They credit Lula with Bolsa Família, a programme under which 12m of the poorest Brazilian families get a monthly stipend of up to 200 reais ($111), paid to mothers provided they keep their children in school and take them for health checks. His government also opened a free technical college nearby in Itaquera. “He’s made a big effort. He thought a lot about concrete problems,” says Milene Ribeiro, a single parent of three children, whose ambition to be a teacher was frustrated when she had to drop out of university for lack of funds. “Living here so far from the world, we have to vote for someone who will do something for us,” says Quitéria de Souza, a separated mother of three girls.
The statistics of social progress in Brazil are remarkable. The number of people living in poverty has fallen by 20m under Lula, from 49.5m (or 28.5% of the total) in 2003 to 29m (16% of the total) in 2008, according to calculations by Marcelo Neri, a social-policy expert at the Fundaçao Getulio Vargas, a university. Although the world recession and its brief impact in Brazil temporarily halted the progress, it did not reverse it. Using different criteria, Ricardo Paes de Barros of the Institute for Applied Economic Research, a government-linked body, paints a similar picture. He finds that the number of Brazilians too poor to feed themselves properly has fallen from 17% of the population in 2003 to 8.8% in 2008.

Levelling the playing field

At the same time Brazil’s notoriously unequal distribution of income is becoming a bit less so (see chart 2). The Gini coefficient, a standard statistical measure of inequality, has fallen steadily since 2001 (though it remains very high by international standards). Over that period the income of the poorest 10% of the population has grown at 8% a year, while that of the richest tenth has grown at only 1.5% a year, according to Mr Paes de Barros.
In various ways Brazil is starting to become a more homogeneous society. Regional inequality has been diminishing, too: average income in the poor north-east has been growing faster than the national average. A majority of Brazilians (some 52%, up from 44% in 2002) now belong to what marketers call social class C, or the lower-middle class, meaning that they have a monthly household income of between 1,064 and 4,561 reais.
This progress stems from a mixture of faster economic growth and government policies. Though there is debate about the details, around half of the fall in poverty comes from higher income from employment. Better social policy accounts for a big share of the fall in inequality—or at least of the narrowing of the bottom of the pyramid. Bolsa Família has been particularly effective in helping the poorest.
How much of the credit does Lula deserve for all this? His government turned Bolsa Família from a small-scale experiment into the world’s biggest conditional cash-transfer programme. He also raised the minimum wage by two-and-a-half times since 2003, taking its purchasing power to its highest level since 1979. This has not destroyed jobs: some 13m new jobs in the formal (ie, legally registered) economy have been created since 2003. Lula is also proud of a government programme under which 12m people in rural areas have gained access to electricity, and another programme that provides subsidised housing for the poor. Above all, the polls suggest, he has given poorer Brazilians a new sense both of self-esteem and that their government is not just for the rich.
But faster economic growth and the social transformation are also the result of longer-term trends. Mr Cardoso’s two governments tamed inflation, creating the stability that has allowed credit, investment and jobs to grow. And part of the fall in inequality (which began in 2001, before Lula took office) stems from a big effort over the past quarter of a century to expand Brazil’s previously woeful education. The average Brazilian worker now has 8.3 years of schooling, up from 6.1 in 1995.
Certainly Lula deserves praise for not imitating the economic populism of some of the other left-wing leaders who have come to power in Latin America over the past decade. Broadly speaking, his government has stuck to the responsible macroeconomic policies that have kept inflation low. After some procrastination, it has also continued the progress in education. His education minister, Fernando Haddad, has introduced standardised national tests of schoolchildren, for example. And as Ms Rousseff points out, the government has respected the contracts under which private companies, including foreign ones, have invested in Brazil.

The state and the nation
The question the candidates have to answer in the next three months is how to sustain Lula’s legacy and build on it. There is broad political consensus about economic stability, the importance of education and, to a degree, on social policies (Mr Serra would maintain Bolsa Família, for example). Apart from foreign policy (which matters to some Brazilians but not to the mass of voters), the differences between the two main candidates are sharpest over the role of the state in the economy.
In many ways Lula has been a lucky president. Brazil has benefited hugely from China’s industrialisation. China’s appetite for foodstuffs and iron ore has boosted Brazil’s exports, helping growth and eliminating the balance-of-payments troubles that so often dogged the country in the past. But this has masked some important weaknesses that Lula did not fix, and may even have exacerbated.
Mr Serra likes to say that Brazil holds three negative world records: it has the highest interest rates in the world, the heaviest tax burden of any emerging country and one of the lowest rates of public investment. All of these, he has argued, stem from an “obese” federal government that is spending too much on public-sector jobs for its supporters. He says he would slash wasteful public spending, leaving room for interest rates to fall (the Central Bank’s benchmark rate is 10.25%). That in turn would allow the real, which is overvalued, to weaken, helping manufacturers cope with competition from China. He would simplify and reform the labyrinthine tax system. The aim would be to boost investment, both public and private, so that Brazil could take greater advantage of the opportunity granted by its commodity boom, which will not last forever.
The shortfall in investment means that, by common consent, Brazil cannot sustain this year’s growth spurt. If the economy is to continue to expand at 5% a year, Brazil needs to double its annual investment in infrastructure, to 4% of GDP, according to Marcelo Carvalho of Morgan Stanley, an investment bank.
The airports are clogged. Off Santos, Brazil’s biggest port, a line of ships queuing to load stretches to the horizon. The lack of good roads and railways adds to the costs of business. This year soyabean-growers in Mato Grosso, an inland state, spent up to 38% of their revenues just on getting their crop from the farm to the docks, according to José Roberto Mendonça de Barros, an economic consultant in São Paulo. Under Lula, the price of electricity for industrial users has more than doubled.
The government has cautiously allowed private investment in roads, railways and ports. But airports are run by an inefficient state body. Such mismanagement is a luxury Brazil can ill afford—if only because it will need to handle visitors to the football World Cup, to be held in the country in 2014, and the Olympic games, in Rio de Janeiro two years later.
Meanwhile, the government is spending more and more on pensions. Fábio Giambiagi, an economist at the National Development Bank (BNDES), notes that although only 6% of Brazilians are of pensionable age, the country spends 11.3% of its GDP on them; in the United States, by contrast, the 12% of the population who are pensioners receive around 6% of GDP. Spending on pensions for private-sector workers in the formal economy has tripled as a share of Brazil’s GDP since 1988. This is partly because the economy grew quite slowly (until recently), but mainly because of the generosity of the pension regime. Many affluent Brazilians retire in their 50s, and many pensions have risen steeply because they are tied to the minimum wage.
The result is that the federal government bails out the national pension system to the tune of 1.5% of GDP. Mr Giambiagi points out that the number of pensioners will grow by about 4% a year for the next ten years. Provided the economy grows at a similar rate and the next government slows the rise in the minimum wage, the pension burden will be just about manageable. But it reinforces Brazil’s inequalities. Mr Paes de Barros notes that the government transfers ten times more money to pensioners than to children. He is advising the third candidate, Ms Silva, the only one who talks much about pension reform.

Banking on industrial policy
The government’s critics also worry about the implications of a big expansion of the role of state banks (Brazil has three large ones). This came about partly as a result of the world financial crisis, when private banks temporarily cut back their lending. But the BNDES, in particular, has become an important agent of industrial policy under Lula. Over the past two years the federal government boosted the bank’s capital base with two long-term loans worth 180 billion reais. Its annual lending has reached 4.5% of GDP, and should be double its 2008 level by year’s end. Its loans are mainly long-term (for up to 30 years), with priority for infrastructure, investment in industry and services and seed money for innovation. They cost around half of the Central Bank’s benchmark interest rate.
The BNDES has given big loans to state-owned electricity companies (revived by Lula) and to Petrobras, the government-controlled oil giant. But it has also financed takeovers by big private companies, both at home and abroad, creating national champions in businesses ranging from food to pulp and paper. Eduardo Giannetti, an economist in São Paulo, worries that all this involves big, but opaque, subsidies (of perhaps 8 billion to 12 billion reais a year, he thinks) while extending government influence over business.
Luciano Coutinho, the BNDES’s president (who is tipped to be finance minister if Ms Rousseff wins), insists that the bank deploys professional techniques of credit analysis and dismisses as a “conservative fiction” the notion that its loans are governed by political criteria. The bank’s role is transitional, he says, until private capital markets develop long-term savings and lending instruments.
Ms Rousseff champions industrial policy—indeed her critics see her as more dirigiste than Lula, whose instincts are pragmatic. But Mr Coutinho says that this does not involve a return to the big Brazilian state and the high tariff protection of the 1960s and 1970s, as the critics charge. Brazil’s economy is more open today. Mr Coutinho says his inspiration comes from Asian countries such as South Korea and China (though average tariffs are still higher in Brazil than in those countries).
This debate is most intense over how to develop the vast new oil deposits found deep beneath the Atlantic in 2007. Their discovery followed Mr Cardoso’s decision to open up the oil industry to competition and subject Petrobras to market discipline (though the company continues to be controlled by the government, a majority of its shares are publicly traded).
Since Lula’s administration thinks it clear that there is much more oil to be found, it wants to change the rules governing the industry. Instead of concessions under which oil companies pay royalties and taxes but keep the oil they extract, in any future fields the oil will belong to a new state company and Petrobras will be the sole operator (though it can team up with partners under production-sharing agreements). These changes are embodied in four laws, though only one—allowing the government to vest oil deposits in Petrobras as a way of increasing its capital—has so far been approved by Congress.
The government also hopes to create a national oil-supply industry. It is drawing up requirements that equipment, from tankers to service platforms and drilling rigs, should be mainly locally produced. Already Petrobras is doing much of its procurement locally, and officials point to a revival in Brazil’s shipbuilding industry as an early success. Provided such restrictions are temporary, they may pay off for the oil industry. But there are risks. One is a repeat of the mistakes of the 1970s, when a government attempt to develop a computer industry by banning imports cut Brazil off from new technology. Another is placing too much strain on Petrobras, which has also been required by the government to build four new refineries.
Serra ponders how he fell behind
This month Petrobras unveiled a huge increase in its five-year investment plan, to $224 billion (up from $187 billion). But the next day it abruptly postponed until September a planned share offering expected to be worth up to $25 billion. The price of the company’s bonds has fallen recently because of fears that the accident at a BP rig in the Gulf of Mexico will add to the cost of deep-sea oil operations.
Oil now accounts for 12% of Brazil’s GDP, a fourfold increase since 1997. It will climb as high as 20%, reckons Adrian Pires, an industry regulator under Mr Cardoso. The opposition’s nightmare is that Ms Rousseff might use oil revenues to entrench the PT in power and that Brazil might go the way of other oil-rich Latin American states, such as Hugo Chávez’s Venezuela or Mexico under the Institutional Revolutionary Party. But officials have other models in mind, such as democratic Norway, which has saved much of its oil revenues. “We want to use the oil wealth in ways such that it doesn’t contaminate the rest of the economy,” says Márcio Zimmermann, the energy minister.
Brazilians thus face a choice in October. Mr Serra would provide them with a strong but lean state, that would make room for more private investment and initiative and would tax its citizens less. Ms Rousseff’s advisers think that Brazil has time to bring down interest rates and taxes gradually, and that the state should promote industrial development and redistribute income. After 16 years of stability and policy continuity under Mr Cardoso and Lula, neither candidate offers a radical change of course. What is at stake is the speed of the country’s progress.

The Economist examina as chances de Dilma (1)

BRASIL
Candidata do PT ultrapassa José Serra nas pesquisas de opinião – veja análise da Economist
Opinião e Notícia, 2/07/2010

Economist contraria Datafolha

No momento, todos os olhos do Brasil estão voltados para um único evento: a Copa do Mundo de Futebol, na qual o país tem a chance (e para muitos, a obrigação) de conquistar seu sexto título. Porém, no próximo dia 6 de julho, tem início a campanha para as eleições de outubro. Serão as primeiras eleições, desde 1989, sem o nome do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ainda assim, ele permanece como a figura dominante da disputa.

Dilma Rousseff, candidata da situação, nunca esteve em um cargo eletivo do país. Sua reputação é de uma administradora eficiente, mas de péssimo temperamento. Ela só se filiou ao PT em 2001, e passou metade do ano de 2009 se recuperando de um linfoma. Todos esses fatores fazem dela a menos óbvia das candidatas, mas quando veteranos do partido tiveram que abandonar a política graças a escândalos de corrupção, e outros se mostraram pouco populares com os eleitores, seu nome surgiu como sucessora de Lula. Nas últimas semanas, Dilma ultrapassou pela primeira vez o candidato do PSDB, José Serra, nas pesquisas de opinião do IBOPE. Embora a mais recente pesquisa do Instituto Datafolha, publicada nesta sexta-feira, 2, aponte um empate entre os dois, seu crescimento mostra que Lula foi capaz de transferir sua popularidade para sua candidata, como mostra o gráfico abaixo que acompanha as intenções de voto nos últimos meses:

José Serra passou então a ter o duro trabalho de derrotá-la. Embora tenha uma experiência consideravelmente maior que a de Dilma, tendo sido governador de São Paulo – o segundo emprego mais poderoso do país –, Serra ainda luta para fazer com que a experiência prevaleça numa campanha em que a maioria dos brasileiros, especialmente aqueles nas áreas mais carentes, querem continuidade. Em áreas carentes de São Paulo, onde o governo de Serra construiu escolas e hospitais, é Lula quem tem a simpatia dos moradores, que creditam a ele programas como o Bolsa Família. “Vivendo aqui, tão longe do resto do mundo, temos que votar em quem fará algo por nós”, diz Quitéria de Souza, uma mãe divorciada com três filhos, moradora do Jardim Iguatemi.

A pergunta que os dois candidatos – juntamente com Marina Silva, do PV – têm de responder é como levar adiante o legado de Lula. José Serra afirma que o Brasil mantém três recordes negativos: os juros mais altos do mundo, os maiores impostos dos países emergentes, e um dos mais baixos índices de investimento público. Ele afirma que irá acabar com o desperdício público, criando espaço para a queda dos juros. Isso permitiria que a moeda supervalorizada enfraquecesse, ajudando os industriais a lidar com a competição da China. Ele pretende reformar o complexo sistema de impostos, para impulsionar o investimento público e privado. Desta forma, o Brasil poderia maximizar o aproveitamento das oportunidades que surgiram com o boom de seus produtos, que não durará para sempre.

Enquanto isso, o governo federal gasta cada vez mais com o sistema previdenciário. Embora somente 6% da população esteja acima dos 65 anos, o país gasta 11,3% do PIB com o setor previdenciário. Fábio Giambiagi, economista do BNDES, afirma que o número de pensionistas crescerá 4% nos próximos dez anos. Caso o crescimento econômico se mantenha estável e a próxima gestão freie os aumentos no salário mínimo ainda se manterá sob controle. Ricardo Paes de Barros, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), nota que o governo transfere dez vezes mais capital para os pensionistas do que para as crianças. Ele é um dos assessores de Marina Silva, a única candidata a defender firmemente uma reforma do setor.

Um dos carros-chefes da gestão de Lula é a questão petroleira. Ao invés de concessões nas quais empresas petrolíferas pagam royalties e impostos, mas mantém o petróleo extraído, no futuro, o governo espera controlar o petróleo através de uma nova empresa estatal, operada pela Petrobras. O pesadelo da oposição é que o PT use o petróleo para se perpetuar no poder, seguindo o modelo da Venezuela de Hugo Chávez. No entanto, o governo diz se espelhar em outros modelos, como a Noruega, que manteve grande parte de suas reservas. “Queremos usar a riqueza do petróleo de modo que o resto da economia não seja contaminada”, diz Márcio Zimmerman, ministro de Minas e Energia.

Em outubro os brasileiros terão de fazer uma escolha. José Serra lhes oferece um Estado forte, mas enxuto, com maior ênfase na iniciativa privada e com impostos menores. A equipe de Dilma Rousseff acredita que o Brasil terá tempo de reduzir os impostos e os juros gradualmente, e que o governo deve promover o desenvolvimento industrial e redistribuir a renda. Após 16 anos de estabilidade e continuidade política, nenhum dos dois candidatos oferece mudanças radicais. O que permanece em risco é a velocidade do progresso brasileiro.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Candidato a Vice na Chapa de Serra: Indio da Costa

ENTREVISTA EXCLUSIVA - INDIO DA COSTA DIZ QUE VOLTA A PINTAR A CARA: AGORA PARA ELEGER SERRA
Reinaldo Azevedo, 1.07.2010

O deputado federal Indio da Costa (DEM-RJ) poderia ficar tranqüilo, na “zona do conforto”, como diz uma propaganda sobre os craques da Seleção, e esperar a reeleição para a Câmara. Em política, quando se tem 39 anos, tempo não é problema. Mas decidiu suar a camisa para valer e aceitou o desafio de ser o vice na chapa encabeçada pelo presidenciável tucano, José Serra. Surgiu como um nome de consenso de tucanos e democratas depois da crise danada envolvendo os dois partidos. Sem trocadilho, Indio afirma: “Volto a pintar a cara para eleger José Serra presidente do Brasil”.

Ele faz alusão ao movimento dos cara-pintadas, de 1992, que, se não derrubou exatamente o então presidente Fernando Collor — hoje aliado de Lula —, serviu para informar ao Congresso, à Justiça e ao próprio chefe do Executivo qual era o sentimento da sociedade. Indio da Costa, então com 22 anos, também foi às ruas. E acha que alguns daqueles anseios acabaram se perdendo ou foram pervertidos. O que faz Indio pintar a cara 18 anos depois? “O inchaço da máquina pública, o apadrinhamento dos incompetentes, o aparelhamento do Estado, o uso partidário da máquina pública, a baixa qualidade dos serviços do Estado”.

Advogado, membro de uma família tradicional do Rio, sem histórias tristes para contar sobre a infância sofrida, com uma carreira na vida privada, se quisesse, que poderia se dar sem sobressaltos… Por que alguém com esse perfil vai para a política? Ele responde: “Paixão por algumas causas e apreço pelas pessoas”.

O candidato a vice de Serra conta que teve um aneurisma cerebral em 2003. Achou que fosse morrer. Sobreviveu. Se tirou lições existenciais, não diz, mas ele tirou uma lição política: “Quando eu me recuperei, tive renovada a certeza de que é preciso lutar para que todas as pessoas tenham as condições de tratamento que eu tive.” Diz ainda: “Não é possível passar diante de um hospital público, ver aquela fila imensa, saber que as pessoas estão sendo maltratadas e achar que aquilo é normal.”

Perguntei se juventude ajuda ou atrapalha. Sorrindo, ele afirma: “Se for um defeito, tem cura!” Ô… Taí um mal que poderia ser incurável, hehe. Seguem os principais trechos da entrevista, concedida ontem à noite a este blog por telefone.
*
BLOG - Por que o senhor é um bom candidato a vice-presidente na chapa encabeçada pelo tucano José Serra?
INDIO DA COSTA - Bem, o Democratas e o próprio José Serra talvez possam dizer melhor do que eu. Mas é certo que contou nessa escolha a minha atuação no Projeto Ficha Limpa, do qual fui relator. É bom lembrar, as reportagens estão por aí, que, inicialmente, os líderes do governo, do PT, PMDB, PP e PR na Câmara se juntaram contra a proposta. Foi preciso muita determinação nossa, do PSDB, do DEM e do PPS, para levar adiante o que era um anseio muito justo da população. Ela não tem como saber, sozinha, a situação criminal de muitos candidatos. É preciso que o Estado crie barreiras e forneça os instrumentos para impedir que a política seja contaminada por práticas nefastas. Uma pessoa condenada não pode usar a imunidade oferecida pelo mandato para se proteger. Essa sempre foi a minha crença, desde que estou na política, e era e é esse o sentido primário do projeto Ficha Limpa.

BLOG - O senhor tem 39 anos. Vai fazer 40 no mês da eleição (dia 20 de outubro). Nesse caso, juventude ajuda ou atrapalha?
INDIO DA COSTA - Se a juventude é um defeito, é daqueles defeitos que têm cura (risos). E também não sou tão jovem assim. Estou há 18 anos na política. Mas reconheço que há uma marca de renovação. E me junto a José Serra, que me parece o retrato da experiência, do conhecimento, da competência. Não quero fazer disso que chamam juventude uma vantagem absoluta, mas represento um modo de fazer política que está bastante conectado com anseios coletivos, que nem sempre encontram canais de expressão. Entre as assinaturas de Internet e de papel, o Projeto Ficha Limpa teve a adesão de 4,2 milhões de pessoas. E elas conseguiram se fazer ouvir, representando, certamente, muito mais gente do que isso.

BLOG - Dezoito anos na política? Em 1992, houve o chamado movimento dos cara-pintadas, que pediram a deposição do então presidente Fernando Collor. O senhor foi à rua pedir o impeachment?
INDIO DA COSTA - Fui, sim. Eu fui um cara-pintada. Não era ligado a nenhum movimento propriamente, mas fui às ruas como muita gente.

BLOG - Acredita que aqueles anseios foram satisfeitos?
INDIO DA COSTA - Não fui às ruas para eleger ninguém. Foi um movimento exigindo ética na política. E hoje pinto a cara novamente, agora para eleger José Serra presidente da República.

BLOG - Qual é a causa de agora? Continua a ser a questão ética?
INDIO DA COSTA - Também é, ou não precisaríamos de um projeto como o Ficha Limpa. Mas a pauta é mais ampla. É preciso pintar a cara contra o inchaço da máquina pública, contra o apadrinhamento dos incompetentes, contra o aparelhamento do Estado, contra o uso partidário da máquina pública, contra a baixa qualidade dos serviços. Mas é preciso pintar a cara também a favor: a favor de um modelo em que o estado seja realmente indutor do desenvolvimento, não um patrão da sociedade, que quer concorrer com ela. Há muita coisa a fazer no Brasil.

BLOG - O sr. tem uma origem familiar que lhe permitira cuidar de sua vida privada sem se meter no território às vezes hostil da política. Por que essa escolha?
INDIO DA COSTA - Alguns dirão que é piegas, mas é verdade: é paixão mesmo. Paixão por algumas causas e apreço pelas pessoas. Não é possível passar diante de um hospital público, ver aquela fila imensa, saber que as pessoas estão sendo maltratadas e achar que aquilo é normal. Não é. Não dá para constatar que a gente tem uma educação de baixa performance, uma das piores do mundo, e considerar que as coisas são assim mesmo, que a gente, como povo, é assim. É preciso melhorar essas políticas públicas. Não é preciso ver a tragédia social decorrente de catástrofes naturais e achar que nada pode ser feito. É a política que tem de mudar essas realidades.

BLOG - O sr. fez uma cirurgia delicada em 2003 para extrair um aneurisma do cérebro. Ficou com medo de morrer?
INDIO DA COSTA - Eu tinha 32 anos. Pensei na morte. Mas, felizmente, tudo deu certo. Não quero falar de lições existenciais que aprendi, porque isso é muito pessoal, mas não deixo de agradecer a Deus, à minha família e aos doutores Paulo Niemeyer e Sérgio Novis, que cuidaram de mim. Quando eu me recuperei, tive renovada a certeza de que é preciso lutar para que todas as pessoas tenham as condições de tratamento que eu tive. E a questão não se limita à saúde. Já colocamos todas as crianças na escola? Praticamente. Mas como anda a qualidade? É preciso cuidar da capacitação técnica dos brasileiros, e desde a primeira infância. E as creches? Com apoio do Congresso, o atual governo transformou o Fundef no Fundeb, mas faltam creches; os recursos não chegam, param na burocracia. Temos desafios imensos. E é, sim, a política que cuida dessas coisas. É por isso que precisa ser exercida por pessoas de bem e com a consciência limpa. A oportunidade de ser vice do Serra - acredito na vitória - dá a chance de a gente acelerar as transformações, de fazer mais. Aprendi muito como vereador, como deputado federal, mas sabemos o peso que o Executivo tem no Brasil e como ele pode ser efetivo para mudar a realidade quando a proposta é boa. Lembro, na prática, quando fui administrador de Copacabana, em 1995, e secretário de Administração da Prefeitura do Rio, entre 2001 e 2006, da força que tem o Executivo para transformar a vida das pessoas.

BLOG - O que há de melhor e o que há de pior no governo Lula?
INDIO DA COSTA - O melhor é que eles não mexeram nos marcos essenciais da estabilidade econômica. E o pior está num processo de mediocrização, de desprezo pelo mérito. O pior está em recorrer a métodos detestáveis para manter o poder, de que o mensalão foi um exemplo escandaloso. Não se distinguem as esferas do estado, do governo propriamente, do aparato sindical e do partido. Isso não constitui um atentado meramente conceitual à democracia; é uma agressão ao padrão democrático que se dá na prática. Vimos o exemplo do Programa Nacional de Direitos Humanos. Recorreu-se a uma boa causa para tentar emplacar teses autoritárias, que, entre outras barbaridades, atentam claramente contra a livre iniciativa e a liberdade de imprensa.

BLOG - O senhor é conhecido por ser um deputado ligado à causa do meio ambiente. Essa causa se choca, em algum momento, com a agricultura e a pecuária?
INDIO DA COSTA - Defendo a vida. Com a tecnologia existente, podemos produzir mais e melhor. O setor rural brasileiro é fundamental para a vida das pessoas que precisam se alimentar, ter emprego e renda. O produtor rural não é inimigo; o desmatador sim. É perfeitamente possível chegar a um padrão de racionalidade ambiental que proteja o meio ambiente e garanta o vigor do Brasil na agricultura e na pecuária. Defendo que as empresas verdes sejam incentivadas de todas as formas e que se busquem novas formas de geração de energia limpa, o transporte sobre trilhos e uma produção rural que alie a produtividade com o meio ambiente. É possível.

BLOG - O sr. está animado? O Serra vai acordar o senhor de madrugada…
INDIO DA COSTA - Pode acordar (risos). Eu estou muito animado, sim. Perto de fazer 40 anos, trabalhar com uma das pessoas que mais entendem de administração e políticas públicas no Brasil é um privilégio pessoal, sem dúvida, me orgulha bastante. Mas me dá, sobretudo, ânimo para realmente demonstrar que é possível fazer muito mais em favor das pessoas, oferecendo instrumentos que as tirem da miséria de forma efetiva, não demagógica. E vamos conseguir!